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Causas de estresse ao desaleitamento

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E MARIANA POMPEO DE CAMARGO GALLO

CARLA BITTAR

EM 10/03/2014

7 MIN DE LEITURA

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Em condições naturais, o desaleitamento de bezerros acontece de forma gradual, com redução do consumo de leite, aumento de consumo de alimento sólido e independência da mãe. No entanto, nos sistemas de produção de leite os animais são separados da mãe logo após o nascimento e podem passar por um processo de desaleitamento de forma abrupta, sendo privados do consumo de leite ou sucedâneo precocemente.

Diferente do que ocorre nas raças especializadas para corte, em que muitos dos efeitos do desaleitamento têm sido associados também à separação da mãe, nos sistemas de produção de leite o estresse decorrente deste período tem sido relacionado principalmente à mudança da dieta e as adaptações do animal. Além disso, é um período de mudanças na fisiologia e também no metabolismo do animal, principalmente relacionadas ao desenvolvimento ruminal e à transição de pré-ruminante para ruminante funcional.

Diante deste cenário, existe uma preocupação crescente nos últimos anos em se estudar técnicas de desaleitamento que minimizem os impactos deste período na vida do animal. O desaleitamento é normalmente realizado interrompendo o fornecimento da dieta líquida de forma abrupta; no entanto, algumas práticas, como reduzir a quantidade da dieta líquida gradualmente durante alguns dias, diminuindo a freqüência de alimentação, reduzindo o volume fornecido por refeição, ou ainda, diluindo mais o leite ou sucedâneo, tem sido consideradas como algumas das possíveis alternativas para minimizar o estresse.

Sweeney et al. (2010) avaliaram o desempenho de bezerros em aleitamento intensivo, recebendo 12L de leite por dia e desaleitados aos 42 dias de idade segundo um dos quatro tratamentos:

1) abrupto;
2) redução gradual durante 4 dias;
3) redução gradual durante 10 dias;
4) redução gradual durante 22 dias antes da data de desaleitamento.

Os resultados mostraram que os bezerros desaleitados de forma gradual aumentaram o consumo de concentrado, quando comparado aos desaleitados de forma abrupta. No entanto, o aumento no consumo não compensou a redução no fornecimento do leite, havendo redução na quantidade de energia consumida pelos animais (Tabela 1).

Tabela 1 - Consumo diário de leite pasteurizado, concentrado e energia digestível e desempenho de bezerros durante o desaleitamento e após o desaleitamento

Adaptado de Sweeney et al. (2010), *Médias seguidas de letras diferentes diferem a P <0,05

A redução na quantidade de energia consumida teve efeito negativo principalmente para os bezerros que foram desaleitados gradualmente durante 22 dias, já que o tratamento se iniciou quando esses animais estavam com apenas 19 dias de vida. Estes animais, apesar de não apresentarem perdas de peso após o desaleitamento, tiveram ganhos de peso moderados durantes todo o período. Os animais desaleitados de forma abrupta obtiveram ganhos de peso de até 1Kg/d no período de aleitamento; no entanto, quando desaleitados, perderem peso nos 4 dias pós desaleitamento. Já aqueles que foram desaleitados gradualmente durante 10 dias apresentaram os melhores resultados em ganho de peso pós desaleitamento, se mostrando o tratamento mais eficiente neste estudo.

Aspectos comportamentais também estão relacionados ao processo de desaleitamento. É possível observar alterações na atividade, vocalização e tempo em pé em bezerros desaleitados abruptamente. No entanto, a compensação do consumo de energia através do aumento do consumo de concentrado também parece afetar o nível de estresse. Avaliando o efeito da ausência da rotina de aleitamento em bezerros leiteiros, Jasper et al. (2008) forneceram leite diluído em água morna durante o período final de aleitamento. Os animais que receberam o tratamento tiveram maior consumo de concentrado antes e logo após o desaleitamento, em comparação a aqueles desaleitados de forma abrupta. No entanto, os animais desaleitados abruptamente conseguiram equiparar o consumo de concentrado observado no outro grupo em apenas três dias. Além disso, o maior consumo de concentrado antes do desaleitamento apenas compensou a energia recebida pelo leite, já que o ganho de peso no período não diferiu entre os dois tratamentos. No que diz respeito às manifestações comportamentais do estresse ao desaleitamento, os dois grupos reagiram de forma semelhante. Mesmo com consumo médio de 2 kg/d, todos os animais vocalizaram e apresentaram comportamento típico de movimentação em resposta ao estresse do desaleitamento, sugerindo que talvez existam fatores não nutricionais que causem o estresse deste período de transição.

No mesmo experimento, um grupo de bezerros foi submetido à manutenção da rotina de aleitamento, com fornecimento de água morna em substituição à dieta líquida. Este método teve efeito positivo no comportamento dos bezerros desaleitados, havendo menor ocorrência de vocalização, menor tempo em atividade e com a cabeça para fora do alojamento. Desta forma, parece haver uma relação do estresse não apenas aos fatores nutricionais, mas também com a rotina de aleitamento e manejo diário. Além disso, estes autores ainda ressalvam que pode haver algum tipo de saciedade causado pelo enchimento do intestino, o que foi obtido com o fornecimento de água morna para os animais. Porém, no caso deste experimento, os bezerros recebiam dieta líquida correspondente a 10% do peso ao nascer e foram desaleitados na décima semana de vida, período em que já apresentavam consumo adequado de concentrado. Os autores sugerem que talvez bezerros desaleitados mais jovens, e recebendo maiores volumes de dieta líquida sendo, portanto, mais dependentes desta dieta do ponto de vista nutricional, demonstrem maior estresse relacionado à interrupção no fornecimento de da dieta líquida e consequente menor consumo de energia. Neste trabalhos, os animais foram desaleitados mais jovens e apresentavam consumo relativamente alto de concentrado (1kg/dia), demonstrando as reações de estresse mais relacionadas aos fatores não nutricionais da rotina de aleitamento.

Neste sentido, Budzynska e Weary (2008) forneceram aos animais 9L de leite por dia durante todo o período de aleitamento. Os bezerros, além de apresentarem comportamentos relacionados ao estresse não foram capazes de aumentar o consumo de concentrado após o desaleitamento de forma a suprir a mesma quantidade de energia fornecida pelo leite, resultando em perdas de 0,8 kg/dia no peso corporal nos 3 dias seguintes ao desaleitamento. É comum se observar a campo animais com menores taxas de crescimento ou até mesmo perda de peso nos dias subseqüentes ao desaleitamento, normalmente relacionadas ao baixo consumo de concentrado. Neste mesmo estudo, metade dos bezerros recebeu água morna na mamadeira, durante dois dias após o desaleitamento e vocalizaram menos que o grupo controle neste período; no entanto, no terceiro dia, quando foi interrompido o fornecimento da água, a vocalização foi semelhante ao grupo controle. Desta forma, os autores também sugerem que não somente a interrupção no fornecimento do leite causa estresse ao animal, mas também fatores como: enchimento do trato digestório, realização de mamada, fatores de saciedade proporcionados pelo ato de mamar, fatores sociais e contato com o tratador.



Figura 1. Bezerros na expectativa do fornecimento da dieta líquida


Além da vocalização e atividade motora, comportamentos como a mamada cruzada ou não nutritiva, são comumente observados em bezerros criados em grupo, especialmente após o desaleitamento. Nielsen et al. (2088) mostraram que o desaleitamento gradual a partir da 6ª semana reduz a ocorrência de mamada cruzada, além de estimular o consumo de concentrado e reduzir os impactos da transição para dieta baseada apenas em alimentos sólidos. No entanto, outros trabalhos mostram que quando os animais são desaleitados em idades mais jovens ocorre aumento da mamada cruzada, o que está associado ao menor consumo de energia.

Fica claro que o estresse no período de desaleitamento ocorre em decorrência de uma associação de fatores e que o consumo de energia parece estar fortemente relacionado aos comportamentos indicativos de estresse. O consumo de concentrado deve ser monitorado para que o animal possa ser desaleitado, como já tratamos em outros radares técnicos. Existem recomendações tradicionais de que animais de porte grande tenham consumo de pelo menos 700-800g/d de concentrado para que possam ser desaleitados, sem que ocorram reduções no seu desempenho na fase seguinte. Outras recomendações de baseiam no consumo em porcentagem de peso ao nascer, de forma a se reduzir problemas relativos à variação de peso ao nascer dentro de uma mesma raça. Este consumo seria aquele necessário para garantir desenvolvimento ruminal mínimo que permita que o animal mantenha seu desempenho a partir da interrupção do fornecimento de dieta líquida. Mesmo com baixos consumos nas primeiras semanas de vida, é importante que o animal tenha sempre concentrado a disposição. Além disso, o fornecimento de água de bebida deve ser garantido devido a sua alta relação com o consumo de concentrado, além do fato de ser necessária para que os processos de fermentação ocorram no rúmen. Concentrado e água à vontade garantem um processo de desaleitamento, seja gradual ou abrupto, menos estressante e com garantia de manutenção de desempenho.

Bibliografia

BUDZYNSKA, M.; WEARY, D.M. Weaning distress in dairy calves: Effects of alternative weaning procedures. Applied Animal Behaviour Science, Edinburgh, v. 112, p.33–39, 2008.

JASPER,J.; BUDZYNSKA, M.; WEARY, D.M. Weaning distress in dairy calves: Acute behavioural responses by limit-fed calves. Applied Animal Behaviour Science, Edinburgh,v.110, p. 136-143, 2008.

NIELSEN, P.P.; JENSEN, M.B.; LIDFORS, L. Milk allowance and weaning method affect the use of a computer controlled milk feeder and the development of cross sucking in dairy calves. Applied Animal Behaviour Science, Edinburgh, v.67, p. 15-33, 2000.

SWEENEY, B.C.; RUSHEN, J.; WEARY, D.M.; DE PASSILÉ, A.M. Duration of weaning, starter intake and weight gain of dairy calves fed large amounts of milk. Journal of Dairy Science, Champaign, v.93, p.148-152, 2010.




 

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

MARIANA POMPEO DE CAMARGO GALLO

Engenheira Agrônoma (Esalq/USP), Mestre em Ciência Animal e Pastagens (Esalq/USP), Coordenadora de Cursos Online AgriPoint.

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MARIANA POMPEO DE CAMARGO GALLO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 14/04/2014

Gostaria de convida-los a participar do Curso Online  "Aleitamento de bezerras com sucedâneos lácteos".



O curso terá início em 29/04 e a instrutora Carla M. M. Bittar, irá esclarecer os principais aspectos relacionados ao uso de sucedâneo para aleitamento de bezerras, além de tirar dúvidas através do fórum de perguntas e conferência online.



Para mais informações ou realizar sua inscrição acesse nossa página de cursos: http://www.agripoint.com.br/curso/aleitamento-bezerras/



Ou mande um e-mail para: cursos@agripoint.com.br
FRANCISCO CELIO DOMINGOS DE SOUSA

SÃO PAULO - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 12/03/2014

Olá Dr Luiz  gostaria de colaborar e faço o convite ao Olimpio para visitar próximo à BH  fazendas na cidade de Três Corações MG e Ritapólis Mg que já adotaram o sistema .



Abçs

Celio
LUIS EINAR SUÑE DA SILVA

ANÁPOLIS - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 12/03/2014

Prezado Olímpio

Boa Tarde

Agradeço pela suas palavras elogiosas.

Acho que estamos na mesma luta. Heheheh!!! Muitas vezes desigual, mas não podemos afrouxar, acredito em nossa atividade e profissão.

Anote meu e-mail e me escreva, assim posso indicar alguns contatos e fazendas para vc. visitar.

Luis Einar Suñé - einarsune@hotmail.com

Abs
OLÍMPIO GOMES AGUIAR

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/03/2014

Caro Luis, li o seu artigo e achei muito interessante o sistema RUTER, vou acompanhar os comentários e gostaria de conhecer alguma fazenda em MG que já utiliza essa técnica. Obrigado pelas informações. Tem um artigo seu no Milkpoint que imprimir e levo na minha pasta "Sem escala e gerenciamento de custos não há permanência na atividade", muito bom. Parabéns!



Abraços.

Olímpio
LUIS EINAR SUÑE DA SILVA

ANÁPOLIS - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/03/2014

Caro Olimpio

Boa Noite

Convido-o a passar uma leitura no artigo Bezerras pisam no acelelador, que postei há 2 dias aqui no MilkPoint, escrevi o mesmo, pois tive que reconsiderar nossos processos de desmama tradicional, quando tomei contato com esta nova tecnologia.

Aí no seu estado, já observei resultados fantásticos com este sistema inovador para desenvolvimento ruminal e atecipação de desaleitamento.

Fico ao dispor

Abs
OLÍMPIO GOMES AGUIAR

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/03/2014

Prezadas Carla e Mariana, parabéns pelos excelentes artigos que tem publicados, referentes a criação de bezerras. Ano passado adotei o sistema bezerreiro tropical e testei dois manejos: 0 a 30 dias, 6 litros (3 manhã e 3 a tarde); 30 a 60 dias, 4 litros (2 manhã e 2 a tarde); 60 a 90 dias, 3 litros somente pela manhã, desmamando as bezerras com 90 dias, depois mudei o manejo para: 0 a 60 dias, 6 litros (3 de manhã e 3 a tarde); 60 a 70 dias, 5 litros pela manhã (desaleitamento abrupto aos 70 dias), observei  20 a 30 dias após o desaleitamento que as bezerras do primeiro manejo ficaram melhores e não sentiram tanto quando as do segundo manejo. Obs: Nos dois manejos eram fornecidos ração inicial 18%, quantidade de acordo o consumo. Observei também que as bezerras do primeiro manejo consumiam mais ração que as do segundo.



Abraços.



Olímpio
ANDRE ASSIS DA SILVA

CRICIÚMA - SANTA CATARINA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/03/2014

Foram avaliados diarreias nos 4 tratamentos?
LUIS EINAR SUÑE DA SILVA

ANÁPOLIS - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 10/03/2014

Boa Tarde Carla e Mariana

Tudo bem?

Já havia lido o artigo de vcs., creio que na Leite Integral ou noutra publicação que recebo.

Por coincidência, enviei um artigo ao MilkPoint sobre este tema na semana passada.

Há novidades no nosso meio que me fizeram mudar alguns velhos conceitos na cria de bezerras, reduzindo custos diretos ( bastante ), manejo, tamanho das instalações, mão-de-obra.

Tenho absoluta certeza de que já conhecem o sistema de starter ruminal que está no Brasil , vindo a ACA na Argentina há mais de 12 meses.

Observei animais excelentes em MG e na Argentina, criados com esta nova tecnologia, que nos faz quebrar alguns paradigmas nutricionais para entendê-la.

Estou seguro de que ingressamos numa nova fase nesta tarefa que é a de bem criar nossas bezerras de uma maneira mais fácil e eficiente.

Parabén pelo artigo.

Fico ao dispor

Sds
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