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Bem-estar de bezerros. Parte 1: Instalações

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E LUCAS SILVEIRA FERREIRA

CARLA BITTAR

EM 30/08/2010

9 MIN DE LEITURA

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Muitos fatores contribuem para o bem-estar de bezerros em fazendas leiteiras, incluindo instalações e ambiente; manejo nutricional e sanitário; manipulação e interação com o tratador; dinâmica de rebanho; e práticas comuns de transporte, de descorna, remoção do teto e eutanásia.

Garantir e avaliar o bem-estar de bezerras em fazendas leiteiras é um desafio complexo, especialmente porque a terminologia e os fatores que contribuem para avaliar o bem-estar dos animais de produção, como os bezerros leiteiros, não foram claramente definidos dentro da comunidade científica.

Bem-estar tem sido descrito como um estado dinâmico, pois processos fisiológicos tais como o envelhecimento, as respostas imunológicas e hormonais, o crescimento e o estresse, podem apresentar flutuações normais, cíclicas, circadianas. Também em constantes alterações em sistemas de criação estão as influências ambientais, tais como temperatura e umidade, os programas nutricionais, ou sociais e comportamentais, interações com animais contemporâneos e tratadores que podem influenciar o bem-estar dos bezerros. Esta situação dinâmica e interdependente representa um desafio em avaliar o bem-estar do bezerro leiteiro. Trabalhos científicos têm sugerido uma metodologia para avaliar o bem-estar dos animais de produção agrícola que utilizam um sistema integrado de indicadores, incluindo patologias, alterações fisiológicas, desempenho ou produção, além de parâmetros comportamentais. Outra abordagem multidisciplinar para avaliar o bem-estar reconhece três componentes básicos, incluindo a fisiologia (saúde, doença e produção); mente animal (sentimentos, sofrimento) e a natureza animal (comportamento e condições naturais).

Segundo pesquisadores ingleses "bem-estar é um termo amplo que engloba o físico e o bem-estar mental do animal. Qualquer tentativa de avaliar o bem-estar, portanto, deve considerar os sentimentos dos animais que podem ser derivadas de sua estrutura e funções e também do seu comportamento." Assim, o conhecimento do comportamento do bezerro leiteiro auxilia na avaliação do bem-estar dos bezerros em fazendas leiteiras. O comportamento inclui os comportamentos básicos de repouso, em pé, comendo, bebendo, ruminando, andando e brincando. A duração e frequência destes comportamentos mudam com a idade, e são influenciados por fatores como o tipo de piso e da disponibilidade de espaço.

Certas medidas de desempenho têm sido correlacionadas com o comportamento ou com as atividades diárias dos animais. Por exemplo, proporcionar um ambiente adequado para o descanso tem resultado em aumento médio no ganho diário de bezerros leiteiros jovens. Outras medidas comportamentais podem não mostrar correlações estatísticas com parâmetros de desempenho importantes para o produtor de leite, mas podem ser usadas como medidas de bem-estar. A expressão do comportamento de brincar em bezerros tem sido sugerida como um indicador de bem-estar positivo, porque animais jovens de muitas espécies são motivados a jogar, uma vez que suas necessidades primárias são satisfeitas. Fornecer maior espaço disponível para os bezerros, criados individualmente ou em grupo, aumenta apenas a duração e o tipo de brincadeira locomotora (ou seja, saltar, correr, e empurrar com a cabeça) em comparação com os bezerros alojados em áreas menores.

Ambientes satisfatórios para bezerros recém-nascidos e em crescimento devem proporcionar conforto físico, térmico, psicológico e comportamental. Cada uma dessas áreas pode ser uma fonte de estresse para os bezerros, que posteriormente podem predispor os animais a comprometimento de sua resposta imunitária, das taxas de crescimento, e finalmente do bem-estar propriamente dito.

Embora o conforto térmico e físico do ambiente para bezerros tenha sido amplamente avaliado, apenas recomendações gerais foram desenvolvidas para satisfazer as necessidades psicológicas e comportamentais específicas de bezerros leiteiros. As necessidades psicológicas e comportamentais em um ambiente incluem a ausência de frustração, o sentimento de segurança e ausência de possibilidade de lesão, comportamento social de rebanho e interações com o tratador adequadas.

O conforto térmico inclui um ambiente com temperatura amena e sem extremos de temperatura. O estresse por frio ou calor afeta bezerros mais jovens, doentes ou feridos de forma muito mais severa do que animais saudáveis e mais velhos. O conforto térmico para os animais é quantificado como a zona térmica neutra, que varia de 15° C a 25° C para bezerros jovens. Dentro da zona térmica neutra, o bezerro mantém a temperatura corporal (homeotermia) por constrição ou dilatação dos vasos sanguíneos, alterando posturas e comportamentos para conservar ou dissipar o calor, além de alterações nas propriedades isolantes da pelagem. Abaixo de 15 º C (temperatura crítica inferior) o bezerro começa a desviar a energia para manter sua temperatura corporal, de forma que energia extra deva ser incluída na dieta.

Outros fatores que podem afetar a zona térmica neutra de um bezerro são a espessura e teor de umidade da pelagem do animal e a capacidade de se adaptar a baixas temperaturas ao longo do tempo. O estresse por frio também pode ser responsável por diminuir a taxa de absorção do colostro em bezerros recém-nascidos.

A temperatura crítica superior (25° C) ocorre quando o bezerro não consegue dissipar o calor metabólico de forma suficiente para se manter em homeotermia. Geralmente, o consumo de ração é voluntariamente reduzido, diminuindo o calor produção gerado pela digestão e absorção dos nutrientes, o que acaba resultando em redução no desempenho.

O conforto físico do ambiente inclui o espaço disponível, a qualidade ou as condições do espaço, e as superfícies com as quais o bezerro tem contato. O espaço disponível para o bezerro deve ser suficiente para permitir a comportamentos normais de alimentação e consumo de água, repouso e excreção, além de locomoção. Bezerros (nascimento a 2 meses) alojados em baias ou abrigos individuais devem ter aproximadamente 10 m² de espaço, enquanto bezerros alojados em grupos devem ter um mínimo de 8,5 m² por animal.

Uma vez que bezerros passam a maior parte do seu tempo deitado, as condições da área de descanso são importantes para o bem-estar dos bezerros. Baias coletivas ou abrigos individuais situados ao nível do solo são geralmente providos de cama natural para os animais. Dependendo do clima e do tipo de revestimento, materiais de cama são opcionais para a elevação da instalação de forma que animal se deite em local sempre seco e limpo, características importantes da área de descanso. Pisos sem cama devem prover atrito suficiente para evitar escorregamento.

A qualidade do ar também é importante para o conforto físico do bezerro. Altas concentrações de gases tóxicos tais como amônia, podem causar danos ao epitélio pulmonar. Esses gases são frequentemente associados com o acúmulo de urina e esterco ou a circulação de ar limitado em espaços fechados. O limite máximo de 25 ppm de concentração de gás amônia tem sido sugerido para as instalações de bezerros.

Os objetivos gerais das instalações para bezerros são a proteção dos extremos térmicos e climáticos, acesso adequado ao alimento, garantir a segurança no que diz respeito a ferimentos e controlar a saúde e bem-estar dos bezerros. Tanto os sistemas de instalação individual quanto em grupo podem ser projetados para atender a todas estas necessidades. No entanto, muitos tipos de instalação podem atender todas estas premissas em relação ao bem-estar, mas o sucesso ainda depende de gestão adequada.

A maioria das instalações nos Estados Unidos atualmente não segue regulamentação quanto ao tipo ou tamanho, muito embora tenhamos uma sinalização de que este tema será debatido pelo consumidor num futuro próximo. Por outro lado, a União Européia está começando a regulamentar as instalações para bezerros com necessidade de espaço que permita que os animais se virem ou se deitem sem tocar em qualquer lado da instalação ou deitar-se sem tocar no lado oposto do recinto. Bezerros em aleitamento são muito suscetíveis a patógenos, mas abrigos individuais podem minimizar a propagação da doença, uma vez que reduzem o contato entre animais. Abrigos individuais ou baias coletivas permitem que o tratador observe os animais periodicamente e faça o diagnóstico de problemas de saúde e alterações no consumo de alimento de forma individual, além de permitir a contenção do animal no caso de necessidade de tratamento ou práticas de manejo. A desvantagem dos abrigos individuais é que os animais não podem interagir e esse isolamento pode ter impacto no desenvolvimento de comportamentos sociais dos animais.

Bezerros recém-nascidos são normalmente alojados individualmente em abrigos, normalmente colocados diretamente no solo, com pequena área externa para locomoção dos animais. Estes abrigos são geralmente construídos em fibra de vidro, polietileno ou madeira. Bezerros podem escolher entre o ambiente exterior ou interior, e são amarrados ao abrigo ou este tem uma cerca de perímetro. Em algumas situações existe a necessidade de colocação de cama, como palha ou serragem, para manter o bezerro seco e confortável. A correta limpeza e gestão da cama em abrigos individuais é muito trabalhosa e acaba não funcionando de forma adequada. Quando o bezerro é removido de um abrigo, este deve ser limpo e higienizado, além de ter a cama substituída antes da colocação de outro bezerro. Durante período de chuva, o solo imediatamente fora do abrigo pode ficar enlameado devido à má drenagem do solo, havendo necessidade de realocação para aliviar as condições de barro. Essa possibilidade de deslocar abrigos individuais auxilia a redução de estresse pelo frio.

Já as baias coletivas são baseadas no princípio de que os bezerros leiteiros são animais de rebanho, e o alojamento em grupo permite o desenvolvimento de comportamento social. O alojamento coletivo permite o exercício e o jogo entre bezerros dentro do grupo. Normalmente, de dois a seis bezerros são agrupados para facilitar a observação de cada animal. Conforme os animais crescem, estes pequenos grupos podem ser combinados. Além disso, alojamento coletivo pode reduzir a mão de obra envolvida com o tratamento de bezerros, além de ser um ambiente mais rico em estímulos quando comparado ao alojamento individual. Uma desvantagem deste tipo de alojamento é a possibilidade de desenvolvimento de mamada cruzada, que é um comportamento considerado problemático e que pode resultar em lesões no umbigo ou úbere do animal mamado. Além disso, alguns animais desenvolvem o hábito de beber urina associado ao comportamento de mamada cruzada. Já tratamos em outros radares algumas práticas de manejo que podem reduzir este problema, principalmente em animais já desaleitados.

Tem crescido a adoção de alojamento coletivo como consequência da popularização dos sistemas automáticos de aleitamento. Nestes sistemas o animal pode consumir leite ad libitum ou com quantidade programa e controlado por computador de acordo com sua idade e manejo nutricional. Embora muitos trabalhos venham mostrando benefício deste tipo de alimentação por ser semelhante à maneira como o animal se alimentaria normalmente, estes sistemas podem ter várias desvantagens. Diarréias e doenças respiratórias podem se espalhar mais rapidamente quando este tipo de alojamento e de alimentação é adotado. A concorrência por um número limitado de bicos pode alterar comportamentos de alimentação, especialmente quando ocorre a introdução de novos animais ao grupo. Além disso, esses sistemas podem dificultar o tratador no que se refere ao acompanhamento do consumo de alimentos de forma individual de bezerros dentro do grupo.

De maneira geral, qualquer tipo de instalação para bezerros pode ser adequado do ponto de vista de bem-estar desde que atenda as premissas básicas de local limpo e seco, acesso ao alimento e água, sombra, controle de temperaturas extremas e interação com animais contemporâneos.

No próximo radar técnico vamos tratar de bem-estar de bezerros leiteiros do ponto de vista nutricional. Até mais!

Referências

Carolyn Stull & Jim Reynolds. Calf Welfare. Veterinary Clinical Food Animal, v. 24, p. 191-203, 2008.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

LUCAS SILVEIRA FERREIRA

Engenheiro agronômo formado pela UFSCar e Doutor em Ciência Animal e Pastagens pela ESALQ - USP na área de nutrição e avaliação de alimentos para bovinos. Atualmente exerce a função de Nutricionista de Ruminantes na Agroceres MMX Nutrição Animal

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BRUNO QUEIROZ CASTANHO

EM 25/03/2019

Porque é importante fazer limpeza de Baía de bezerros?
CARLOS JOSÉ MARTINS

CASCAVEL - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 17/12/2018

Gostaria de saber porque bezerros ficam mamando no outro principalmente nos orgãos genitais ou no rabo ,se existe uma forma de evita este tipo de comportamento do animal .
JULIANO CÉSAR

BOTUCATU - SÃO PAULO - ESTUDANTE

EM 27/08/2018

Gostaria de saber a vantagens e as desvantagens do bezerreiro coletivo, e quantos bezerros por m2.
ALEX MARQUES RESENDE

GARANHUNS - PERNAMBUCO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 12/06/2016

Caros,



Sou extensionista e estou um projeto de implantação de bezerreiro, a parte operacional já está montada, no entanto, fiquei curioso com a matéria a respeito do tipo de instalação, individual estilo argentino (tropical) ou coletivo.



No tropical segue o manejo comum, já no coletivo, acredito na estratificação dos animais, sendo um lote de animais recem-nascidos até 4 dias, onde receberão apenas colostro, seguindo para o Lote 1 até 45 dias consumindo 6 Litros/dias, um segundo lote (2), com bezerras consumindo 4 litros/dia e outro lote de desmama de 8 dias.



Gostaria de saber, se recomendando o espaçamento de 8,5 m² por animal, nessa configuração, será possível obter bezerras saudáveis, sem problemas de mama cruzada ou outros problemas sanitários.



fico no aguardo!



Att, Alex.
AMANDA NERI DE SOUZA

CARMO DO PARANAÍBA - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 01/04/2016

Claudio dê uma olhada nesse circular da embrapa, dá para ter uma noção.

https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/65263/1/CT-80-Instal-bezerros-reb-leit.pdf



O ideal é que a altura do sombrite tenha orientação Norte - Sul, no mínimo 1,60 metros, o sombrite tenha 1,5 metros de largura, e o comprimento vai depender do número de animais . O cabo que prende os animais deve ter entre 1 e 1,2 metros. O cabo onde os bezerros serão fixados podem ser rente ao chão ou suspenso, A altura do cocho deve ser de 45 cm.
CLAUDIO DAMAS

CEDRO DO ABAETÉ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/09/2015

eu preciso do desenho explicando como fazer com medidas e tudo mais
CARLA MARIS MACHADO BITTAR

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 14/10/2010

Caro Magno,
O bezerreiro do tipo argentino a que você se refere é aquele esquema com sombrite e o bezerro preso por coleira em um arame de forma a ter grande área para locomoção?
Se for esta, acredito que seja uma boa alternativa para alojamento de bezerras pois atende as premissas básicas de conforto: área seca e limpa para se deitar, sombra, acesso a água e alimento, possibilidade de execer atividades normais. No entanto, a desvantagem é qu ea área reservada para o bezerreiro deve ser maior do que quando se utiliza abrigos individuais. Nos abrigos individuais os animais tem uma menor área para locomoção e isso permite um manejo quanto ao descanso de área onde se forma barro ou onde bezerros estiveram com diarréia. No caso do bezerreiro argentino uma grande área seria necessária para mudança de bezerros de local de forma a ter ambiente adequado, e isso seria mais problemático nos primeiros 15-20 dias de vida. Fora isso, se o manejo geral e o manejo alimentar forem adequados, os dois tipos de instalação funcionam muito bem.
Att.,
Carla Bittar
FRANCISCO MAGNO NETO

FORTALEZA - CEARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/10/2010

Prezados Doutores, Boa Tarde!
Gostaria de saber a opinião de vcs a respeito das vantagens e desvantagens do bezerreiro tipo argentino e do individualizado em casinha. Qual seria o sistema de produção mais adequado para cada um ?
Sds, Magno.
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