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Baixa produção de colostro. O que pode estar acontecendo?

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E MARÍLIA RIBEIRO DE PAULA

CARLA BITTAR

EM 26/09/2014

6 MIN DE LEITURA

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O colostro é a primeira secreção da glândula mamária após a parição e, além de seu papel na transferência de imunidade passiva, é uma importante fonte de fatores nutricionais, antimicrobianos e de crescimento para o bezerro. O colostro é formado pela síntese de componentes no interior da glândula mamária e por transferência de imunoglobulinas pré-formadas (principalmente IgG), sendo seu fornecimento imprescindível para bezerros recém nascidos.

A qualidade do colostro é de fundamental importância e já está comprovado que colostro de boa qualidade (contendo altos níveis de IgG) e fornecido o mais breve possível reduz a susceptibilidade à doenças e mortalidade neonatal.

Um outro aspecto importante e muitas vezes ignorado por alguns produtores é o volume de colostro produzido pelas vacas. Devemos lembrar que a produção de colostro na vaca começa cerca de 4 a 5 semanas antes do parto, o que torna ainda mais importante um período seco bem manejado, principalmente no que diz respeito a alimentação e conforto da vaca pré-parto. O volume de colostro produzido está altamente relacionado à qualidade do período seco.

Listamos alguns dos fatores que podem influenciar negativamente o volume de colostro produzido e, em alguns casos, sua qualidade:

- Duração do período seco

A duração do período seco está intimamente relacionada com o volume de colostro produzido, principalmente quando este período é menor que 40 dias. Em primíparas, o impacto é ainda maior, pois além do volume reduzido, as concentrações de Ig também são afetadas. Os animais necessitam de no mínimo 4 semanas para produzir colostro de boa qualidade, e quando o período seco é muito curto (< 21 dias), ou não se adota este período, certamente o colostro será de baixa qualidade.

Deve-se programar com antecedência o período seco de cada animal pra que fiquem no mínimo 45 dias em descanso. Ficar atento também a novilhas de primeira cria, partos gemelares, fatores causadores de estresse, data de parição de cada animal, a fim de proporcionar ao animal tempo suficiente para a produção de um bom colostro. Outro aspecto importante é não se utilizar na primeira mamada dos recém nascidos colostro proveniente de animais com período seco muito curto, mesmo que o colostrômetro indique ser de boa qualidade (>50 g/L IgG). Nestas situações não houve tempo suficiente para que estes animais respondessem às vacinações e transferirem anticorpos específicos para o colostro.

- Nutrição durante o período seco

Apesar de ser um tema bastante importante, não há uma conclusão concreta sobre os efeitos da nutrição sobre o volume e a qualidade do colostro produzido. Estudos mais antigos em bovinos de corte apontam que a dieta pré-parto não influencia no conteúdo de IgG do colostro, mesmo quando a proteína e energia foram parcialmente restringidas. No entanto, quando as dietas são deficientes em proteína (menor do que 9% de proteína bruta), a capacidade do recém-nascido em absorver IgG fica comprometida.

O selênio e, possivelmente, outros minerais e vitaminas envolvidos no sistema imune podem influenciar na qualidade do colostro. Vacas alimentadas com dieta pré-parto deficiente em selênio e vitamina E produzem menor volume de colostro e menor massa total de IgG em relação às vacas alimentadas com a mesma dieta, mas suplementadas com injeções de vitamina E e selênio.

Desta forma, no período seco o ideal seria formular a dieta de forma a atender as recomendações do NRC para todos os nutrientes.

- Baixa ingestão de matéria seca e água

O final do período seco é marcado por um aumento no crescimento fetal, elevação da pressão interna dos órgãos digestivos e redução do espaço a ser ocupado pelos alimentos, além de grande variação hormonal. Todos esses fatores associados, principalmente a questão hormonal e conseqüente alteração no metabolismo, levam a uma queda no consumo de matéria seca em até 30%.

Uma medida para compensar a redução no consumo de alimentos, é a elevação da densidade energética da dieta no final do período seco (aproximadamente 21 dias antes do parto), aumentando assim a relação concentrado: volumoso.

Como prevenção deve-se medir esporadicamente o consumo de matéria seca dos animais. É importante observar não somente se os animais estão se alimentando e qual a qualidade dos alimentos fornecidos, mas também se existe adequado espaço de cocho. O espaço de cocho é ainda mais importante quando se tem vacas e novilhas em um mesmo lote, muito embora se recomende separar as novilhas de forma que não sofram competição no cocho e possam apresentar maiores consumos de matéria seca. Reduzir o estresse ao inserir novos animais na área de período seco também garante consumo de matéria seca. Para o parto o ideal é que a vaca se apresente com escore de 3,5 a 3,75 (em uma escala de 1 a 5), por isso a densidade energética da dieta nos últimos meses de gestação deve ser considerado.

Monitorar o comportamento ingestivo de água dos animais também é importante e está relacionado ao volume de colostro produzido. Vacas pré-parto precisam de 30 a 45 L de água de qualidade por dia.

- Mastite

Infecções intramamárias persistentes durante o período seco não foram associadas com alterações na concentração de Ig. Contudo, estão associadas a redução no volume de colostro produzido.

Recomenda-se a avaliação dos casos de mastite subclínica no final da lactação, sendo aconselhável o descarte do colostro proveniente de vacas com mastite, com presença de sangue ou grumos.

- Estresse por calor

A exposição dos animais a elevadas temperaturas durante o final da gestação está associada a um volume reduzido de colostro, bem como colostro de pior qualidade. O estresse térmico leva a redução na ingestão de MS, resultando em restrição nutricional e redução do fluxo sanguíneo para a glândula mamária, prejudicando consequentemente a transferência de Ig e nutrientes da circulação para a glândula mamária.

A solução é utilizar para os animais do pré-parto as mesmas estratégias utilizadas para redução do calor empregadas para vacas em lactação.

- Relação entre o volume produzido e a qualidade do colostro

É comum ouvir que quando uma vaca produz um grande volume de colostro, este seja provavelmente de baixa qualidade. No entanto, alguns estudos demonstraram que não há uma relação previsível entre o volume de colostro produzido na primeira ordenha e a concentração de IgG, quando a primeira ordenha é realizada imediatamente após o parto. O problema se dá quando há um atraso entre o parto e a primeira ordenha, pois o início da produção de leite dilui o colostro e leva a uma diminuição da concentração de IgG e um aumento do volume produzido. Isto se dá também quando há vazamento de colostro antes e durante o parto, pois a saída do colostro pelo canal do teto estimulará a produção de leite e consequentemente ocorrerá a diluição do colostro a ser ordenhado.

Desta forma, não se deve rejeitar automaticamente um colostro de primeira ordenha produzido em grande volume, ordenhado imediatamente após o parto. O recomendado é que a qualidade seja medida a fim de se certificar que o colostro realmente é de má qualidade.

- Edema de úbere

Animais que apresentam edema de úbere durante o período seco não devem ser ordenhados para aliviar o edema, pois a ordenha antes do parto irá retirar o colostro que está sendo formado. Deve-se moderar a ingestão de potássio pelos animais, bem como a ingestão de sal, evitar o excesso de energia na dieta e oferecer espaço suficiente para os animais caminharem.

Concluindo, o período seco é uma fase muito importante e muitas vezes negligenciada, já que estes animais não estão produzindo leite. É importante que estes animais sejam bem manejados do ponto de vista de nutrição e conforto de forma a beneficiar não só o volume e a qualidade do colostro produzido que poderá ser fornecido ao recém nascido e armazenado em banco de colostro, mas também sua produção de leite nesta lactação que se inicia.

Figura 1. Banco de colostro com avaliação da qualidade através de colostrômetro e armazenamento em freezer utilizando-se sacos plásticos.

Bibliografia consultada

GODDEN, S. Colostrum management for dairy calves. Veterinary Clinics Food Animal Practice, v. 24, p.19–39, 2008.

LITHERLAND, N. Nutrition factors causing low colostrum production. University of Minnesota Extension. 2009.

MAUNSELL, F. Cow factors that influence colostrum quality. WCDS Advances in Dairy Technology, v.26, p.113–121, 2014.

SANTOS, G.T.; CAVALIERI, F.L.B.; DAMASCENO, J.D. Manejo da vaca leiteira no período transição e início da lactação.
 

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

MARÍLIA RIBEIRO DE PAULA

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ANTONIO

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/09/2014

Colostro, muitos criadores não dão o valor que merece, mas é importantíssimo à vida dos bezerros!
ANDRÉ LUIZ COKELY RIBEIRO

DESCALVADO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/09/2014

Boa tarde a todos. A hipocalcemia subclínica nos períodos peripuerperais também é um fator que limita a produção e descida do Colostro logo nas primeiras horas pós parto. A utilização de soluções de reposição (Drench) contendo Cálcio, no pós parto imediato reverte esta hipocalcemia subclínica, além de dar aporte de energia (Propilenoglicol), ser tamponante para eventuais acidoses, ser fonte de sais eletrolíticos - retenção de líquidos e reidratação, e pela própria forma de administração (diluídos em 30 litros de água) evitar a torção de Abomaso, tão comum em rebanhos de média e alta produções. Utilizo o Dairy Dunk (Vansil) há pelo menos 12 anos com plena segurança de dizer que esta prática já "salvou-me" em muitas ocasiões.
MARIELE STOCKLER

CASTRO - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/09/2014

Um bom assunto a ser abordado mesmo, uma matéria muito boa! Porque muitas pessoas não dão o valor devido ao colostro.
DOUGLAS SOARES E SOUZA

IBIÁ/ MG - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 26/09/2014

Bacana a postagem !!
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