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Avaliação da colostragem em bezerros recebendo substituto de colostro

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E CRISTIANE TOMALUSKI

CARLA BITTAR

EM 22/01/2021

8 MIN DE LEITURA

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A avaliação da transferência de imunidade passiva é um ponto central no monitoramento e gerenciamento de bezerreiros. Através desta avaliação, podemos corrigir problemas no protocolo de colostragem e entender a necessidade de treinamento de colaboradores.

Já é bastante debatido o fato de que, devido ao modelo placentário da fêmea bovina, os bezerros nascem sem anticorpos circulantes uma vez não ocorre imunoglobulinas da corrente sanguínea da mãe para o feto durante a gestação. Além disso, o sistema imune dos recém-nascidos é imaturo e deverá produzir seus próprios anticorpos somente por volta da 3ª semana de vida. 

Dessa forma, o suprimento de anticorpos via colostro durante as primeiras horas de vida torna-se fundamental para a sobrevivência do recém-nascido (Weaver et al., 2000). No entanto, nem sempre há disponibilidade de colostro materno de alta qualidade (conteúdo de IgG e qualidade microbiológica) ou em volume suficiente (Lopez et al., 2020a). Uma estratégia para garantir a colostragem nessas situações é a utilização de substitutos de colostro comerciais.

Além disso, o colostro é uma importante fonte de nutrientes necessários para o metabolismo do recém-nascido, como proteínas e lipídeos; e compostos biologicamente ativos, tais como imunoglobulinas (Ig), lactoferrinas, lisozimas, lactoperoxidase entre outros. As imunoglobulinas são um grupo de proteínas que estão diretamente envolvidas com a proteção/imunidade do neonato. Dentre as imunoglobulinas encontradas no colostro (materno ou substituto) a IgG é a que se apresenta em maior quantidade, por isso sua quantificação pode ser utilizada na avaliação da qualidade do colostro e da eficiência do programa de colostragem.

O uso de substituto de colostro vem crescendo nos últimos anos, fato esse justificado, muitas vezes, pela sua facilidade de preparo, boa qualidade imunológica, nutricional e sanitária, sendo um alimento com composição uniforme e padronizada.  Além disso, o uso de colostro em pó reduz a disseminação de doenças no rebanho uma vez que não apresenta contaminação por microrganismos.

Depois do processo de colostragem, a concentração sérica de imunoglobulinas é utilizada como indicativo do sucesso ou falha na transferência de imunidade passiva (FTIP). A avaliação da transferência de imunidade passiva (TIP) é realizada, geralmente, 24 horas após a colostragem e considera-se bezerros com falha aqueles cuja concentração sérica de IgG é <10 mg/mL ou com proteína total sérica (PTS) <5,2 g/dL.

Essa categorização foi criada após alguns experimentos demonstrarem que bezerros com concentrações séricas de IgG <10 mg/mL têm maior susceptibilidade a apresentarem quadros de doenças respiratórias e diarreias, menor ganho de peso, aumento dos custos associados a tratamentos e consequentemente maior mortalidade. Atualmente, valores superiores de PTS são utilizados como meta nos rebanhos, conforme sugerido por Lombard et al. (2020). Sugere-se que pelo menos 70% dos animais avaliados apresentem PTS maior que 5,8 g/dL.

A concentrações de IgG pode ser determinada por métodos diretos ou indiretos. Os métodos diretos de avaliação incluem o ensaio de imunodifusão radial (Figura 1) e ELISA, os quais são considerados como padrão de referência para determinação de IgG sérica. O ensaio de imunodifusão radial pode ser utilizado em nível de fazenda, mas sua utilização é limitada devido à demora, custos e necessidade de procedimentos laboratoriais o que reduz sua adoção.

Figura 1 - Placa utilizada para realização de metodologia de imunodifusão radial.

Com isso, aumentou a busca por métodos de avaliação que sejam mais simples, rápidos e que demandem menor custo.

O método indireto mais comum determina a concentração de PST usando refratometria (Figura 2). A partir desse valor é possível avaliar a TIP, uma vez que a concentração de PST está altamente correlacionada com a concentração de imunoglobulinas, as quais representam a maior proporção das proteínas encontradas no soro de bezerros recém-nascidos.

Quando se utiliza o refratômetro, o valor considerado limiar para categorizar animais com FTIP é de 5,2 g/dL (Buczinski et al., 2018). No entanto, conforme descrito anteriormente, valores superiores têm sido recomendados para que as taxas de morbidade e mortalidade sejam reduzidas, beneficiando o desempenho animal.

Figura 2 - Refratômetro óptico utilizado na determinação de proteína sérica total (PST).

Todavia, com o aumento no uso de substitutos de colostro houve também um aumento no número de leituras de PST abaixo de 5,2 g/dL em bezerros recém-nascidos, mesmo quando estes tinham concentrações séricas de IgG ≥10 mg/mL, indicando que essa metodologia poderia causar equívocos ao prever FTIP em animais recebendo substituto de colostro. Isso despertou a curiosidade da comunidade cientifica, que começou a questionar a precisão da refratometria como método indireto para predizer a eficiência da colostragem quando realizada através do fornecimento de colostro em pó.

Lopez et al. (2020b) em seu experimento demonstraram que existe uma alta correlação entre PST e IgG sérica quando fornecido colostro materno aos bezerros, de forma que a PST foi capaz de explicar 81% da variação encontrada nas concentrações de IgG sérica (Figura 3a). Além disso, apenas 14,9% dos bezerros recebendo colostro materno tinham valores de PST abaixo de 5,2 g/dL, quando na verdade a transferência de imunidade passiva havia sido bem-sucedida (IgG ≥10 mg/mL), apoiando a teoria de que o valor de PST é um bom preditor de imunidade nessas situações.

Em contraste, para os animais recebendo substituto de colostro foi encontrada baixa correlação entre PST e IgG sérica, de forma que a PST foi capaz de explicar apenas 40% da variação observada no nível de IgG sérica (Figura 3b). Associado a isso, 41,2% dos bezerros tiveram valores de proteína sérica <5,2g/dL, mesmo quando a transferência de imunidade passiva havia sido bem-sucedida, destacando que os limites atuais são imprecisos para prever FTIP nesses bezerros.

Figura 3 - Regressão linear entre proteína total sérica (PST) e IgG sérica para 927 bezerros alimentados com colostro materno (a) ou 1.258 bezerros alimentados com substituto de colostro (b).

Essa baixa correlação entre o valor de proteína total e concentração de IgG sérica pode ser explicado, pelo fato de o substituto de colostro apresentar um perfil de proteínas não imunoglobulina diferente do colostro materno o que afetaria a leituras de refratometria sérica. Além das diferenças entre colostro materno e os substitutos, sabe-se que os substitutos de colostro diferem amplamente entre si quanto a composição, principalmente no perfil de proteínas e conteúdo de gordura (Lopez et al., 2020a), dependendo da sua origem (sangue, soro, ovo ou fontes lácteas) e processamento, o que também pode contribuir para as inconsistências observadas.

A partir do estudo de Lopez et al. (2020b), foi sugerido um limite de PST de 4,9 g / dL como ponto de corte para prever FTIP em bezerros alimentados com substituto de colostro. No entanto, os autores destacam que, mesmo com um limiar inferior, a baixa sensibilidade e especificidade desse teste compromete seu uso na avaliação de transferência de imunidade passiva para bezerros quando alimentados com substituto de colostro. Esta baixa sensibilidade resultará em uma proporção maior de falsos negativos, quando é indicado que os bezerros estão com FTIP quando na verdade a concentração de IgG é ≥10 mg/mL.

De acordo com os mesmos autores, o ponto de corte sugerido nesse artigo (4,9 g/dL) não vai garantir uma identificação correta dos animais com falhas na transferência de imunidade passiva. Mas destacam a necessidade de se desenvolver um ponto de corte relativo a PST que possua alta sensibilidade e especificidade ao classificar bezerros alimentados com substituto de colostro.

Vale ressaltar que além da composição dos substitutos de colostro e dos processos de fabricação, as leituras de refratometria podem ser afetadas por outros fatores como grau de desidratação do bezerro e ocorrência de doenças. Nesses casos, pode ocorrer uma concentração dos componentes do sangue ou uma elevação nas concentrações séricas de IgG devido a processos inflamatórios sistêmicos, o que levaria a leituras de PST superiores, indicando erroneamente sucesso na TIP.

Ao final do estudo os autores destacam a necessidade de maiores investigações para se estabelecer um limite de PST alternativo que indique FTIP em bezerros alimentados com substituto de colostro, uma vez que mesmo tendo recomendado ponto de corte inferior (4,9 g/dL), este ainda não apresenta alta sensibilidade e especificidade com os valores de IgG sérica. 

Comentários

A avaliação da transferência de imunidade passiva é um ponto central no monitoramento e gerenciamento de bezerreiros. Através desta avaliação podemos corrigir problemas no protocolo de colostragem e entender a necessidade de treinamento de colaboradores.

No entanto, em bezerreiros que adotam o fornecimento de substitutos de colostro, essa tarefa é sempre mais complicada, uma vez que a correlação de proteína sérica ou brix e a concentração de IgG não é tão forte quanto aquela observada com animais alimentados com colostro materno. Esse fato tem trazido grandes questionamentos não só à eficiência do colostro em pó, mas também ao trabalho árduo e comprometido de colaboradores no que diz respeito ao protocolo de colostragem especialmente o tempo para fornecimento já que volume e qualidade são fixos.

Já se entendia que esta baixa correlação compromete a avaliação da colostragem uma vez que animais com baixos valores de proteína sérica medida por refratometria, na verdade apresentavam altas concentrações de IgG, e consequentemente bons desempenhos e baixas taxas de morbidade e mortalidade.

Assim, o estudo discutido mostra que valores de proteína sérica diferentes devem ser utilizados como nota de corte para classificar os bezerros como com adequada ou inadequada transferência de imunidade passiva.

Considerando a sugestão mais atual de que pelo menos 70% dos animais alimentados com colostro materno apresentem PTS > 5,8 d/dL, arriscamos sugerir aqui, considerando uma relação linear, que pelo menos 70% dos bezerros alimentados com substituto de colostro apresentem PTS>5,5 g/dL.

Autores: 
Carla Maris Machado Bittar - Professora Associado do depto. de Zootecnia, ESALQ/USP
Cristiane Tomaluski - Mestranda em Ciência Animal e Pastagens, ESALQ/USP

Referências

Weaver, D. M. et al. 2000. Passive transfer of colostral immunoglobulins in calves. Journal of Veterinary Internal Medicine. 14:569-577.

Lopez, A. J. et al. 2020a. Comparison of immunoglobulin G absorption in calves fed maternal colostrum, a commercial whey-based colostrum replacer, or supplemented maternal colostrum. Journal of Dairy Science. 103: 4838-4845

Buczinski, S. et al. 2018. Systematic review and meta-analysis of diagnostic accuracy of serum refractometry and brix refractometry for the diagnosis of inadequate transfer of passive immunity in calves. Journal of Veterinary Internal Medicine. 32:474-483.

Lopez, A. J. et al. 2020b. Hot topic: Accuracy of refractometry as an indirect method to measure failed transfer of passive immunity in dairy calves fed colostrum replacer and maternal colostrum. Journal of Dairy Science. 104:2032-2039

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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GEBER RODRIGUES

CARIACICA - ESPÍRITO SANTO - PESQUISA/ENSINO

EM 25/01/2021

Interesante eu nao sabia que beserros rece nac. Tem a imunidade baixa .vejo muito os vidios nas etrevistas do D.r. Lair ribeiro. Ele fala arespeito da saude humana quando se trata da fraqueza dos idosos . ?Ele fala o sequinte se tiver na sua casa algum idoso .morimbundo ou com sensaçao de desanimo .Areceita é justamente. O leite colostro segundo o medico o colostro levanta até defunto. (Força de expreçao) um abraço a todos que fase. Parte deste estudo tao importante.
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