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Armazenamento de colostro em diferentes temperaturas: qualidade microbiológica e eficiência de absorção

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E FERNANDA LAVÍNIA MOURA SILVA

CARLA BITTAR

EM 27/09/2017

10 MIN DE LEITURA

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O colostro é uma das fontes mais importantes de nutrientes essenciais com papel fundamental na sobrevivência neonatal. Em particular, o colostro contém imunoglobulinas (principalmente IgG) que quando absorvidas, protegem os bezerros de doenças infecciosas. Bezerros podem ter falha na transferência de imunidade passiva (FTIP) se não apresentarem concentração de IgG circulante > 10 g/L em 24 h de vida. A FTIP está associada com uma maior taxa de mortalidade, comprometimento da saúde ao aleitamento e ganho de peso e até redução da produtividade futura.

Para minimizar a FTIP em bezerros neonatos, um adequado manejo do colostro deve ser realizado. O ideal é o fornecimento de aproximadamente 10% do peso ao nascer em volume de colostro com qualidade microbiológica (CBT <100,000 ufc/mL), de alta concentração de Ig (>50 g/L IgG) durantes as primeiras 6h de vida, quando o animal apresenta alta eficiência de absorção. A fim de assegurar uma adequada transferência de imunidade, a dose de colostro deve prover não menos que um total de 150 a 200 g de IgG para um bezerro com média de 35 kg. Em algumas propriedades o colostro é rotineiramente armazenado antes de ser fornecido. Em outras propriedades, a escassez de colostro é muitas vezes inevitável e o colostro armazenado é utilizado. Essa escassez pode ser frequente se produtores descartam colostro de vacas positivas para alguns patógenos como Mycobacterium avium ssp. paratuberculosis e Mycoplasma bovis mastite, ou para vacas que estão clinicamente doentes ao parto. O armazenamento de colostro refere-se a retenção de colostro por um período de tempo no refrigerador ou congelador ou a temperatura ambiente.

O colostro tem sido tradicionalmente armazenado no congelador para prevenir alterações em sua composição, como concentração de IgG e níveis de bactéria. No entanto, outras propriedades imunológicas podem ser afetadas, incluindo leucócitos, que são também importantes na construção da resposta imunológica em bezerros ao combater infecções. Além disso, o processo de descongelamento pode levar mais de uma hora, e o processo pode desnaturar IgG, tornando o colostro de baixa qualidade para absorção. Estocar o colostro em refrigerador não tem repercussão para as concentrações de IgG, mas resulta em aumento do crescimento bacteriano e redução do pH. Prévios estudos documentaram uma redução na absorção de imunoglobulina em bezerros alimentados com colostro com relativo baixo pH (pH = 4,65), enquanto outros sugerem que uma maior concentração de bactéria no intestino de bezerros pode afetar a transferência de IgG. Além disso, estudos vêm demonstrando que o tratamento térmico, que diminui a CBT no colostro, melhora a imunidade e o ganho de peso em bezerros leiteiros.

O trabalho de Cummins et al. (2017) teve como objetivo comparar as concentrações circulantes de IgG, ganho de peso, e características de saúde de animais alimentados com colostros que sofreram uma variedade de condições de processamento e armazenamento. Adicionalmente, examinar concentrações de IgG, CBT e o pH do colostro. Setenta e cinco bezerras, 45 da raça Holandesa (H) e 30 Jersey x Holandesa (JxH), foram utilizadas no estudo. No total, foi utilizado colostro de 49 vacas para alimentar os 75 animais; 60% das vacas H e 30% JxH. O manejo de secagem foi similar para todas as vacas do estudo, as quais foram suplementadas com minerais durante o período seco. Foram utilizados apenas colostro de vacas com escore de condição corporal favorável (3,25 ± 0,5). As vacas foram vacinadas contra diarreia viral bovina, leptospirose, rinotraqueite infecciosa bovina, rotavirus e salmonela. Imediatamente após o parto, todas as bezerras foram separadas de suas respectivas mães, pesadas, e amostras de sangue foram coletadas. Antes do fornecimento de colostro, as bezerras foram alocadas em 1 de 5 tratamentos experimentais de acordo com dia do nascimento, raça e peso ao nascimento:

(1) colostro fresco pasteurizado fornecido logo após sua obtenção (CFP);
(2) colostro fresco fornecido imediatamente após coletado (CF);
(3) colostro armazenado a 4°C por até 2 dias (C4);
(4) colostro armazenado a 13°C por até 2 dias (C13);
(5) colostro armazenado a 22°C por até 2 dias (C22).


O colostrômetro foi utilizado para avaliar a qualidade do colostro, sendo utilizado apenas aquele de alta qualidade (> 50 g /L). Todas as bezerras receberam 8,5% do peso vivo ao nascimento de colostro em seus respectivos tratamentos via sonda esofágica nas primeiras 2 h de vida. As 4 alimentações subsequentes foram compostas de leite de transição não pasteurizado. Uma amostra do leite de transição e do colostro foram coletados e armazenados a – 20°C para quantificar IgG, CBT e o pH. Ao nascimento os animais foram alojados em baias individuais até o 3º dia de vida. Após o d 3, cada bezerra foi transferida para baias coletivas de 15 animais, de acordo com o dia do nascimento.

Com aproximadamente 5 semanas de vida, as bezerras foram transferidas para o pasto, recebendo suplementação de aproximadamente 1 kg de matéria seca de concentrado. Foi oferecido 15% do peso vivo de sucedâneo (26% PB) duas vezes ao dia por 4 semanas, e uma vez ao dia após esta data, sendo os animais desaleitados de acordo com seu peso (bezerras H = 90 kg e JxH = 85 kg). As bezerras tiveram livre acesso a água, feno e concentrado. O ganho de peso foi monitorado através das pesagens semanais até o desaleitamento, e pesagens a cada duas semanas após o desaleitamento até o 6º mês. Foram colhidas amostras de sangue ao nascimento e a cada hora até 24 horas de vida, para determinação de concentração de IgG. A concentração de IgG do sangue, do colostro e do leite de transição foi determinada usando o método de radioimunodifusão. O pH do colostro foi mensurado por meio de phmetro. Todas as bezerras foram inspecionadas duas vezes ao dia para avaliação de possíveis enfermidades.

A concentração média de IgG no colostro fornecido às bezerras foi de 94 g/L, o que resultou em uma dose consumida média de 280 g de IgG. Não foi observada diferença nas concentrações de IgG entre os diferentes tratamentos (Tabela 1).

armazenamento de colostro em diferentes temperaturas

A contagem de bactérias totais foi diferente (P < 0,01) entre os tratamentos. Enquanto o colostro pasteurizado teve a menor CBT, o colostro armazenando em 22°C por 2 dias teve a maior (Figura 1). A maior contagem bacteriana resultou em menor pH no colostro armazenado a 22°C (Figura 2).

A CBT teve correlação negativa com o pH (r = -0,87), de forma que quanto maior a CBT menor o pH do colostro. O colostro pasteurizado teve CBT < 100.000 ufc/mL, 4 amostras do CF e 8 amostras do C4 tiveram CBT > 100.000 ufc/mL, os demais tratamentos tiveram em todas as amostras CBT > 100.000 ufc/mL. Colostro com CBT < 100.000 ufc/mL (média do pH = 6,472; EP = 0,1273) teve um maior (P < 0,01) pH em relação ao colostro com CBT >1.000.000 ufc/mL (pH = 5,669; EP = 0,1228). Colostro com CBT entre 100.000 e 1.000.000 ufc/mL tendeu (P = 0,07) a ter maior pH (pH =6,123; EP = 0,2153) em relação a colostro com CBT > 1.000.000 ufc/mL (pH = 5,669; EP = 0,1228).

Figura 1. Contagem de bactérias totais (log10CBT ufc/mL) de colostros em diferentes condições de armazenamento, a fim de induzir diferentes níveis de bactérias.

armazenamento de colostro em diferentes temperaturas

Figura 2. pH de colostros em diferentes condições de armazenamento, a fim de induzir diferentes níveis de bactérias.

armazenamento de colostro em diferentes temperaturas

A média das concentrações de IgG do leite de transição fornecido as bezerras foi de 30,9 g/L (média 6,6-76,9 g/L). Não foi observada diferença entre as concentrações de IgG do leite de transição fornecido aos animais dos diferentes grupos experimentais (Tabela 1). Da mesma forma, a CBT e o pH no leite de transição também não diferiram entre os tratamentos (Tabela 1). Assim, o leite de transição fornecido aos animais colostrados com colostro pasteurizado ou não, armazenado em diversas temperaturas, não apresentou diferenças.

A média das concentrações séricas de IgG das bezerras às 0 h (antes do fornecimento de colostro) foi de 0,20 g/L, não sendo diferente entre os tratamentos. Entretanto, os tratamentos tiveram efeito significativo (P < 0,01) às 24 h (Figura 3), muito embora nenhuma bezerra tenha apresentado FTIP. Contudo, foi observado uma concentração sérica menor que 10 g/L no grupo C22.

Figura 3. Concetrações sérica de IgG de bezerras alimentadas com colostro em diferentes condições de armazenamento, a fim de induzir diferentes níveis de bactérias.

armazenamento de colostro em diferentes temperaturas

Quando todas as amostras de colostro foram categorizadas de acordo com os valores de CBT, uma associação foi detectada entre CBT e concentrações séricas de IgG amostradas as 24 h. Bezerras (n = 36) alimentadas com colostro contendo CBT < 100.000 ufc/mL (média sérica de IgG =38,4 g/L; EP = 2,20) e bezerras (n = 20) alimentadas com colostro contendo CBT entre 100.000 e 1.000.000 ufc/mL (média sérica de IgG = 43,0 g/L; EP = 6,59) não tiveram diferença entre as concentrações séricas de IgG às 24 h (P = 0,30). No entanto, as bezerras de ambas as categorias tiveram maior IgG às 24 h que aquelas bezerras que receberam colostro contendo CBT > 1.000.000 ufc/mL (média sérica de IgG = 31,2 g/L; EP = 2,11). Assim, as concentrações séricas de IgG e CBT no colostro foram correlacionadas negativamente (r =-0,60). Para cada 1-unidade de aumento no logCBT, ocorre uma redução na concentração sérica de IgG em 3,75 unidades.

A diferença na eficiência de absorção aparente (EAA) nas bezerras tendeu a ser significativa (P = 0,05) entre os tratamentos (Tabela 2). O armazenamento do colostro em 22°C resultou em menor EAA quando comparado ao colostro fresco ou colostro armazenado em 4°C, não havendo diferenças entre os outros.

As médias de peso ao nascer e de peso aos 6 meses de idade estão apresentadas na Tabela 2. O ganho de peso das bezerras do nascimento ao desaleitamento foi em média de 0,62 kg/d (Tabela 2). Não foi observada diferença entre os grupos experimentais para o peso aos 6 meses, para o ganho de peso durante o aleitamento, nem para o ganho de peso no período total (nascimento aos 6 meses de vida).

Tabela 2. Eficiência aparente de absorção de Ig (EAA) e desempenho de bezerras alimentadas com diferentes tratamentos de colostro.

armazenamento de colostro em diferentes temperaturas

Um total de 60 episódios de doença foram observados durante o período experimental, distribuídos em 40 animais. Dentre as 75 bezerras (15 por tratamento) monitoradas durante o período experimental, 32 casos de diarreia (Tabela 2), 16 casos de pneumonia e 12 casos de onfaloflebite foram observados. Os diferentes tratamentos colostrais não afetaram a probabilidade das bezerras receberem tratamentos para doenças (P = 0,86) e nenhuma bezerra morreu durante o experimento.

Os autores concluíram que não refrigerar o colostro resulta em maiores contagens de bactérias e redução do pH, sem afetar as concentrações de IgG no colostro. Armazenar colostro a 4°C por 2 dias não afetou negativamente a absorção colostral de IgG pelos bezerros. No entanto, armazenar em temperaturas mais elevadas levou a diminuição da absorção de IgG do colostro pelos bezerros, mesmo com colostro de qualidade superior a 50 g/L fornecido logo após o nascimento. A carga bacteriana do colostro fornecido parece desempenhar um importante papel nas taxas de absorção de IgG em bezerros, uma vez que aqueles que recebem colostro com alta CBT (> 1.000.000 ufc/mL) apresentam diminuição de IgG circulante às 24 horas de vida. Contudo, bezerros alimentados com colostro contendo altas concentrações de IgG (> 50 g/L) imediatamente após o parto, porém com CBT entre 100.000 e 1.000.000 ufc/mL, apresentam adequada transferência. Caso o colostro não possa ser pasteurizado antes de ser fornecido, ou caso não possa ser fornecido ainda fresco, armazenar a temperatura ≤4°C por 2 dias é suficiente para minimizar crescimento bacteriano afim de assegurar adequada transferência de imunidade quando consumido pelo bezerro.

Referências bibliográficas

Cummins, C.; Berry, D. P. ; Murphy, J. P. ; Lorenz, I.; Kennedy, E. 2017. The effect of colostrum storage conditions on dairy heifer calf serum immunoglobulin G concentration and preweaning health and growth rate. J. Dairy Sci., 100:525–535.

Comentários

O maior foco que tem sido dado a qualidade de colostro se refere a sua concentração de IgG. Métodos práticos e rápidos de estimativa de qualidade, como o suo de colostrômetro ou refratômetro, têm sido adotados dentro das propriedades, garantindo fornecimento de colostro de alta concentração de IgG, conforme recomendação da literatura. No entanto, a qualidade microbiológica também deve ser considerada. Além de higiene na ordenha e nos utensílios de armazenamento, a temperatura para o mesmo afeta fortemente a carga bacteriana do colostro. No entanto, como mostrou o trabalho, embora a carga bacteriana possa aumentar com o armazenamento em temperaturas mais altas (13 e 22°C), sua concentração de IgG não é afetada, o que pode resultar no seu fornecimento. Por outro lado, fica evidente no trabalho que mesmo com o fornecimento de altas concentrações de IgG, quando este está acompanhado de alta CBT, pode haver falha na transferência de imunidade passiva, com bezerros apresentando baixas concentrações de IgG nas 24h de vida. Isso ocorre em resposta a menor eficiência de absorção de colostro.

Neste trabalho não foram observadas diferenças quando ao ganho de peso e ocorrência de doenças, muito provavelmente devido às altas concentrações de IgG no colostro fornecido, que foi em torno de 90 g/L. Nem sempre temos colostro com estas concentrações disponível nas propriedades, o que pode colocar em risco tanto a transferência de imunidade passiva, quanto o desempenho dos animais até em idades mais avançadas, quando altas CBT estão associadas. Assim, o armazenamento de colostro deve ser realizado, logo após sua coleta, em temperatura <4°C, quando não for congelado ou fornecido imediatamente aos animais.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

FERNANDA LAVÍNIA MOURA SILVA

Doutoranda em Ciência Animal e Pastagens, ESALQ/USP.

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FERNANDA SECCHIN DE MELO

VITÓRIA - ESPÍRITO SANTO - PESQUISA/ENSINO

EM 23/10/2017

Boa tarde, quero comprar um Refratômetro de Brix. No mercado encontrei vários. É O MESMO pra medição de açúcar em suco?Com graus de 0-32% ou 0-90%. Qual faixa seria mais adequada? Quero avaliar colostro e eficiência de transferencia da imunidade após colostro.

Teriam algum pra indicar?



Obrigada!
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