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Pecuária Leiteira: perspectivas e desafios

POR LIBOVIS - UFRRJ

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/06/2021

6 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 22/06/2021

"As perspectivas e desafios da pecuária de leite abrangem custo de produção e adaptações de manejos diante das tecnologias que adentram o setor."

Em 1532, Martin Afonso de Souza desembarcava em São Vicente com suas 32 cabeças de gado ibérico dando início a pecuária no Brasil. Mais de 100 anos depois a primeira vaca era ordenhada, no Recife, em 1641.

A produção leiteira foi rudimentar até a década de 1950, quando surgiu o primeiro marco de sua organização em 1952, o decreto que aprovava o Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (Riispoa), tornando obrigatória a pasteurização do leite, bem como a inspeção e o carimbo do Serviço de Inspeção Federal (SIF).

Em 1970 com o surgimento de embalagens descartáveis, o processamento de embalagens retornáveis foi reduzido e, esse esforço tecnológico foi redirecionado para outas áreas resultando num incremento tecnológico da indústria e o lançamento de derivados lácteos.

De acordo com os dados do Censo Agropecuário realizado pelo IBGE, em 2017 havia 11.506.788 vacas ordenhadas no Brasil, com uma produtividade de 2.621 litros/vaca/ano. Ao compararmos esse valor com os dados de 1970 (678 litros/vaca/ano) observamos um aumento de 387%, evidenciando um crescimento expressivo da cadeia leiteira ao longo dos anos.

Diante dos dados obtidos a partir de pesquisas da cadeia leiteira do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA-Esalq/USP), o ano de 2020 obteve o maior preço médio no litro do leite dos últimos cinco anos, atingindo o valor médio de R$ 2,30.

Devido à alta do dólar e a influência do comercio exterior no preço da soja, milho e outros insumos que são utilizados para a fabricação de alimentos concentrado que são ofertados aos animais, ainda de acordo com o CEPEA-Esalq/USP, a receita do produtor comprometida com alimentos concentrados está se aproximando a 40% na média brasileira.

Nos últimos anos, a relação entre o preço pago pelo leite e os custos de produção têm sido proporcionais ao crescimento da pecuária leiteira, no entanto essa relação não é benéfica ao produtor, sendo necessário ações do produtor para contornar essa relação e tornar a produção economicamente sustentável.

O futuro da pecuária envolve a superação de antigos e novos desafios através da aplicação de tecnologia e conhecimento técnico. A adaptação da produção pecuária à chegada da quarta revolução industrial envolve o uso de diversas ferramentas tecnológicas e a aplicação estratégica de recursos baseada em uma gestão orientada por dados.

As tecnologias da informação encontram grande aplicabilidade na produção pecuária. Sistemas de coleta armazenamento e gerenciamento de dados viabilizam processos de tomada de decisão mais adequados e permitem ganhos de eficiência.

Os sistemas são cada vez mais interconectados e automatizados, podemos citar, por exemplo, ordenhadeiras mecânicas que registram automaticamente a pesagem do leite e transmitem via internet esses dados a um banco central da fazenda, gerando um relatório cronológico da produtividade de cada vaca.

O Big Data, termo que abrange as tecnologias da informação que geram e armazenam grandes volumes de dados, já é uma realidade no setor pecuário. O Big Data, dentro do conceito de IoT (Internet das Coisas), pode ser usado em muitas atividades dentro da fazenda, citam-se os bancos genômicos, que armazenam o sequenciamento genético de grandes reprodutores bovinos, com esses dados podendo ser utilizados para planejar o melhoramento do rebanho.

Ainda, com o Big Data é possível interligar e configurar identificadores eletrônicos de animais, sensores individuais e ambientais; gerenciar equipamentos inteligentes (alimentadores, controladores de ambiente, ordenhadeiras), tudo possibilitando que proprietários e técnicos especialistas extraiam informações de produtividade trançando metas e objetivos para melhorias na produção.

Outro ponto central para o futuro da pecuária é a sustentabilidade. Esse conceito amplo abarca a questão ambiental, econômica e social. Os três pilares implicam diretamente sobre a viabilidade do setor a longo prazo.

A sustentabilidade social pode ser exemplificada por meio de medidas como o respeito dos produtores às legislações e normativas a que está submetida a atividade pecuária, respeito aos direitos dos trabalhadores da cadeia produtiva e geração de valor para a sociedade, bem como promoção de novos empregos e o compromisso contra o trabalho infantil. A implantação de uma cultura de governança nas empresas pecuárias brasileiras é fundamental para melhorar a sustentabilidade social da cadeia.

A sustentabilidade ambiental é hoje além de um fator básico para a manutenção da existência da atividade pecuária, também uma demanda dos mercados, principalmente no exterior.

Consumidores já buscam saber em que condições o produto que consomem foi produzido, e muitos direcionam sua compra para produtos ecologicamente corretos. Busca-se saber se a propriedade trabalha em função da adaptação à mudança do clima e se tem planos para ter baixa emissão de carbono, gerando menores impactos sobre o ambiente. Esse fenômeno tem sido chamado de Consumo Ético, e é uma tendência crescente para o futuro.

A adoção de sistemas produtivos mais integrados ao ambiente, a redução no uso de recursos naturais, manutenção das reservas legais e implementação de ações ecológicas são diferenciais e podem ser utilizados favoravelmente no posicionamento da marca frente aos consumidores.

Ainda dentro da tendência do consumo ético podemos observar no mercado uma preocupação crescente com fatores ligados à saúde animal e humana. Os consumidores estão cada vez mais atentos ao bem estar dos animais de produção e, cada vez mais, o mercado leiteiro compete com produtos vegetais alternativos ao leite, com apelos de "mais saudável" e “mais humanitário”.

É preciso que o setor comunique e demonstre ao mercado sua preocupação com a qualidade de vida dos bovinos leiteiros, inclusive para fins de maior produtividade.

O setor pecuário deve aumentar a comunicação ativa com a sociedade, ressaltando que bebidas vegetais ultra processadas não tem o mesmo valor nutricional e fácil acesso global de que dispõe o leite, e que há fortes investimentos no respeito às cinco liberdades dos animais para que possam viver e produzir melhor.

O prognóstico para o futuro da pecuária leiteira brasileira é, no geral, favorável. O cenário geopolítico internacional aumentou a demanda de países como China e Arábia Saudita por gêneros alimentícios.

Em especial o mercado lácteo brasileiro pode esperar um grande incremento nas exportações de leite e queijo para a China nos próximos 10 anos.

Segundo documento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a projeção de crescimento anual médio para o setor nos próximos 10 anos será entre 1,9% a 2,8%, o que é considerado satisfatório. Em 2030 foi projetado que o Brasil deve exportar por volta de 71 milhões de litros de leite, um importante aumento se comparado ao mercado de exportação de leite atual com aproximadamente 66 milhões de litros.

Investir em ferramentas tecnológicas implantando sistemas mais eficientes de manejo, além de recursos que facilitem a comunicação com o mercado consumidor, são ações importantes que os produtores precisarão adotar em seus empreendimentos para se adequarem ao futuro e, consequentemente, aumentarem sua lucratividade.

A necessidade de capital pode determinar uma mudança do setor leiteiro para os próximos anos, com a saída de produtores menos tecnificados e com menor produtividade.

A palavra da próxima década no setor leiteiro será eficiência, nesse contexto, os pequenos produtores devem se adaptar à nova realidade de adoção tecnológica, otimização da gestão, maior eficiência técnica e econômica para manterem-se viáveis na atividade, ao passo que os grandes produtores precisam se organizar para demandarem do Estado políticas públicas que incentivem e fomentem a atividade pecuária.

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Autores
Caio Nunes Christoffe Simões1
Gabriel Antônio Rodrigues Lopes1
Ana Paula Lopes Marques2
Clayton Bernardinelli Gitti2

1 Discentes e 2 Orientadores, Grupo de Estudos Liga de Bovinos - LiBovis - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, UFRRJ

Referências

BRASIL. Decreto no 30.691 de 29/03/1952 e Decreto no 2.244 de 04/06/97. RIISPOA - Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA). Brasília-DF.

BRASIL. Lei Nº 1.283 de 18/12/1950. Dispõe sobre a inspeção industrial e sanitária dos produtos de origem animal. Brasília-DF.

VILELA, Duarte; CESAR DE RESENDE, João; LEITE, José; et al A evolução do leite no Brasil em cinco décadas. Revista de Política Agrícola, n. 1. 2017. Disponível em: <https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/163208/1/Evolucao-do-leite-no-brasil.pdf>. Acesso em: 05 mai. 2021.

LIBOVIS - UFRRJ

A Liga de Bovinos, LiBovis, é um grupo de estudos constituído por alunos de graduação em Medicina Veterinária e áreas afins da UFRRJ. Tem como objetivos estudar, compreender e defender os interesses da bovinocultura contribuindo para sua valorização.

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ARETA LÚCIA DA SILVA

SANTA ISABEL - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 28/06/2021

Muito bom
AVENI LUIZ DE SOUZA

BOCAIÚVA DO SUL - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/06/2021

Matéria interessante
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