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A proteína que as vacas efetivamente precisam

POR ALEXANDRE M. PEDROSO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/03/2006

6 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 29/12/2020

Proteínas são macromoléculas presentes nas células, com funções diversas e extremamente importantes na nutrição de vacas leiteiras.

Nos últimos anos, especialmente depois do lançamento do NRC (2001) para Gado Leiteiro – a bíblia dos nutricionistas – é bem provável que você já tenha lido sobre, ou ouvido algum técnico falar sobre a Proteína Metabolizável (PM). Mas você sabe o que é isso, e qual sua importância para as nossas amigas vacas?

Antigamente os nutricionistas balanceavam rações para vacas leiteiras com base em valores de proteína bruta (PB), que é calculada a partir da determinação do teor de nitrogênio (N) nos alimentos. O teor de PB de um alimento qualquer equivale ao seu teor de N multiplicado por 6,25. Esse cálculo é baseado na premissa de que as proteínas dos alimentos contêm, em média, 16% de N (100/16 = 6,25). Dessa forma, a fração PB dos alimentos inclui o nitrogênio na forma de aminoácidos (AA), e também na forma de nitrogênio não proteico (NNP), como a ureia.

Proteínas são macromoléculas presentes nas células, com funções diversas como componentes estruturais, funções enzimáticas, funções hormonais, recepção de estímulos hormonais e armazenamento de informações genéticas. As proteínas são compostas por longas cadeias com 50 AA ou mais, unidos por ligações peptídicas.

Apesar de ocorrerem na natureza aproximadamente 300 AA distintos, apenas 20 deles estão presentes nas proteínas de microrganismos, plantas e animais, dos quais 10 são essenciais para os bovinos. Cada AA contém carbono, nitrogênio, oxigênio e hidrogênio, em diferentes proporções e posições na cadeia. Alguns poucos AA também contém enxofre. Para realizar suas "tarefas metabólicas" (ganho de peso, gestação, produção de leite) as vacas utilizam os AA absorvidos no intestino delgado.

Os alimentos consumidos pelos bovinos contêm quantidades variáveis de AA e NPN. O NPN é o nitrogênio não incorporado nos AA e proteínas e no rúmen pode ser convertido em proteína microbiana (PMic), que é utilizada pelos ruminantes.

As proteínas dos alimentos também variam quanto à digestibilidade ruminal, perfil de AA e digestibilidade intestinal. Algumas proteínas são degradadas rapidamente pelos microrganismos do rúmen (PDR), enquanto outras são pouco degradadas no rúmen, mas podem ser disponíveis no intestino delgado (PNDR). Um grupo menor de proteínas pode ser essencialmente não utilizável pelos bovinos, passando diretamente pelo trato digestivo, sendo excretado nas fezes.

O conceito de PM foi desenvolvido para permitir aos nutricionistas uma estimativa mais precisa da proteína que as vacas efetivamente podem utilizar. As fontes de proteína que chegam ao ID dos ruminantes são a PMic (sintetizada no rúmen a partir da degradação da PDR), a PNDR que escapa da degradação ruminal e pequena quantidade de proteína endógena, derivada principalmente de células de descamação do epitélio digestivo. A mistura de AA provenientes da digestão dessas fontes forma a PM, que se constitui no "pool" de AA disponíveis para utilização pelas vacas.

Dessa forma ninguém encontrará valores de PM em resultados de análises bromatológicas de alimentos, mas poderá encontrar esse termo num relatório de um nutricionista ou no resultado de alguma formulação de ração feita por softwares especializados. Os programas de formulação mais completos estimam a quantidade de PM que uma vaca pode obter a partir de uma dada ração.

Com esses conceitos em mente, para balancear corretamente uma ração para vacas leiteiras em termos proteicos, o objetivo deve ser primeiramente fornecer a quantidade adequada de PDR para otimizar a função ruminal e maximizar a síntese de PMic. Para tal, também é fundamental que se forneça energia para que os microrganismos possam utilizar com eficiência a PDR.

Para maximizar a síntese de PMic é preciso disponibilidade simultânea de PDR e energia no rúmen. Animais alimentados com grandes quantidades de forragem, como os mantidos a pasto, consomem quantidades limitadas de energia. Para aumentar a disponibilidade de energia no rúmen é necessário fornecer concentrado rico em grãos de cereais ou subprodutos energéticos, como a polpa cítrica.

Trocando em miúdos, vacas que só consomem pasto não terão a síntese de PMic maximizada, pois esta será limitada pela disponibilidade de energia. Vacas que recebem concentrado têm mais chance de produzir grandes quantidades de PMic, e, portanto, ter maior quantidade de PM chegando no ID.

Mas isso quer dizer que manter as vacas no pasto é mau negócio? Absolutamente, não. O que precisa ficar claro é que vacas mantidas em pastagens, por melhor que seja a forragem, não têm possibilidade de atingir o mesmo desempenho potencial em relação a vacas que recebem ração completa no cocho.

Mas isso não significa que os sistemas de confinamento sejam mais eficientes, ou apresentem maior produtividade que sistemas de produção a pasto. São conceitos diferentes de produzir leite, mas tanto um como o outro podem ser altamente rentáveis e eficientes, desde que sejam muito bem manejados.

Voltando às proteínas, por que é importante maximizar a síntese de PMic? Porque a PMic é que tem o perfil de AA mais adequado à produção de leite. Para que o processo de síntese de proteínas do leite seja eficiente é preciso que o chamado "pool" de AA disponíveis no ID (PM) contenha os AA proporção semelhante à das proteínas do leite. É isso que chamamos de perfil de AA.

E para nossa satisfação, a PMic é a fração protéica que apresenta o melhor perfil de AA para a produção de leite. E, como o leitor já deve ter percebido, a PMic é a fonte mais barata de proteína de alto valor biológico, pois ela pode ser produzida a partir de alimentos de custo relativamente baixo.

A partir do momento em que a síntese de PMic está garantida, o segundo passo do balanceamento proteico é fornecer fontes de PNDR com bom perfil de AA. Isso só será interessante se a fonte de PNDR contiver os AA adequados à produção de leite.

Se as fontes de PNDR não tiverem um bom perfil de AA, sua utilização será pouco eficiente. Via de regra, a utilização de fontes de PNDR se justifica para vacas de produção elevada, acima dos 30 kg/dia. Abaixo disso é perfeitamente possível balancear rações utilizando-se apenas fontes de PDR.

Mas afinal de contas, do que as vacas precisam? Resposta direta: de proteína metabolizável. Uma vaca precisa de PM para suas atividades de manutenção, para produzir leite, para gerar um bezerro e para crescer, quando for o caso. O NRC (2001) estima as necessidades de PM com base no peso vivo da vaca, consumo de matéria seca, dias em gestação, produção de leite e teor de proteína do leite.

Por exemplo, uma vaca de 550 kg, produzindo 20 kg leite/dia, com 3,5% de proteína necessita de aproximadamente 1,6 kg de PM ao dia. Esse número relativamente baixo pode ser mal interpretado quando se está acostumado a pensar em termos de PB. É importante lembrar que a PM é apenas a fração proteica que a vaca pode efetivamente utilizar. Essa mesma vaca consumirá cerca de 17 kg de MS, com 15,5% PB, o que significa que ela vai ingerir 2,64 kg de proteína por dia, mas o que interessa de fato é só os 1,6 kg de PM disponíveis no intestino delgado.

Literatura citada

DE ONDARZA, M. B. Metabolizable protein: the protein cows really need. Hoard´s Dairyman v. 150, n. 2, p. 58. Jan 25, 2005.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient Requirements of Dairy Cattle. Washington, D.C.: National Academy Press, 2001, 7th rev. ed. 381p.

ALEXANDRE M. PEDROSO

Engenheiro Agrônomo, Doutor em Ciência Animal e Pastagens, especialista em nutrição de precisão e manejo de bovinos leiteiros

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JOAO PINHEIRO

SÃO LOURENÇO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/12/2014

MUITO BOM ARTIGO!

DIDÁTICO E DE BOA COMPREENSÃO PARA NÓS PRODUTORES DE LEITE, LEIGOS NO ASSUNTO.
PEDRO HESPANHA

CURITIBA - PARANÁ - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 21/06/2007

Muito bem elaborado e colocado, de forma simples resumiu tudo que importa e deve ser avaliado em uma dieta de vacas de alta produção. Parabéns.
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