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Fatores que influenciam o desenvolvimento da glândula mamária nos bovinos de leite

postado em 23/09/2003

1 comentário
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Por Márcio Liboni1

No ano de 1998, LA-Foster Blackstar "Lucy" 607, uma vaca da raça Holandês de 820 kg de peso vivo, produziu 34.150 kg de leite durante 365 dias de lactação. Ela não recebeu uma só injeção de somatotropina bovina durante o período, era ordenhada 3 vezes ao dia, e no pico da lactação a sua produção diária foi de 116 kg de leite. Seria interessante saber o que esta recordista possui de especial, isto é, o que a fez tão única para produzir leite deste maneira? Seria o potencial genético que ela possui o único fator que a fez atingir esta produtividade tão excepcional, ou há outros fatores que influenciaram este animal desde o seu nascimento e/ou durante a lactação para atingir tal nível de produtividade?

A produção de leite de qualquer vaca sofre influência positiva ou negativa de diversos fatores que podem ser classificados como reversíveis e irreversíveis. Os reversíveis exercem uma influência temporária na atividade da glândula mamária (úbere), bem como nos sistemas do organismo da vaca que suportam a lactação (sistema digestivo, por exemplo). Dentre os inúmeros fatores reversíveis é pertinente mencionar os nutricionais (quantidade e qualidade do alimento fornecido ao animal); de manejo (número de ordenhas); os problemas de saúde das vacas (doenças metabólicas, infecciosas e mastite subclínica); e também o uso de somatotropina bovina (bST).

Os fatores classificados como irreversíveis são aqueles que, permanentemente, afetam a quantidade de tecido produtor de leite (secretor) da glândula mamária. Estes fatores podem causar tanto a diminuição na quantidade deste tecido (fato comumente observado após a ocorrência de mastite clínica severa na vaca adulta), bem como podem influenciar o desenvolvimento do tecido na glândula mamária da novilha em crescimento. Dada à importância deste último evento fisiológico na formação da glândula, quais são os fatores que afetam este desenvolvimento? Não menos importante, quais estruturas anatômicas do úbere são influenciadas por tais fatores? Há outros cuidados que precisam ser tomados para que o potencial genético dos animais puros sejam expressados na sua plenitude, como fez a "Lucy"?

Tecido mamário

A glândula mamária dos bovinos é formada por uma complexidade de tecidos de vários tipos, os quais desempenham várias funções. Além do tecido secretor, há a presença de tecido adiposo (gordura) e conectivo (fibroso) que provém suporte ao tecido secretor; há uma grande quantidade de vasos sangüíneos e linfáticos, os quais nutrem as células e também provém imunidade à glândula como um todo; há terminações nervosas; há ligamentos suspensores da glândula; tecido muscular e pele. Como já mencionado anteriormente, o tecido que confere a capacidade produtiva do animal é o tecido secretor, que na glândula mamária está presente nas "unidades funcionais" que produzem leite no órgão, também denominadas de alvéolos mamários.

Os alvéolos são estruturas microscópicas que possuem forma de "saco". Estes estão ligados a outras porções da glândula através de ductos. Nestas estruturas o leite não só é produzido, mas também é armazenado em grandes proporções em relação ao restante da glândula. A figura 1 ilustra um desenho esquemático do alvéolo, bem como de que forma estes estão conectados aos ductos que levam o leite produzido até a cisterna da glândula mamária.

Figura 1. Desenho ilustrativo sobre as estruturas microscópicas (alvéolo e seus componentes; à esquerda), e outras estruturas anatômicas da glândula mamária (ductos e cisternas do órgão; à direita) que levam o leite produzido nos alvéolos até a cisterna da glândula.

Tendo em mente esta estrutura anatômica básica da glândula mamária, vale salientar que as raças puras para leite possuem tanto uma maior concentração de tecido secretório nos alvéolos, bem como um maior número de alvéolos mamários por uma determinada área de glândula mamária quando comparados com animais de raças mistas para leite. É obvio que os níveis de produção obtidos atualmente resultam também da melhora de manejo, do aumento do conhecimento sobre nutrição, fisiologia e também do controle de doenças das vacas, mas não se deve ignorar o fato de que a capacidade genética das raças puras (expressada através do maior número de células produtoras de leite no úbere), é a responsável pela superioridade na produções de leite por vaca observadas atualmente.

Fases de formação do tecido mamário na novilha

Como mencionado anteriormente, é durante a fase de crescimento da novilha que ocorrem os eventos fisiológicos que culminam na formação completa e definitiva do tecido secretor na glândula mamária. As fases mais críticas são aquelas que ocorrem de 2 a 9 meses de idade (período pré-puberdade), durante os 3-4 primeiros ciclos estrais após o início da puberdade, e também durante o último trimestre da primeira gestação (Sinha e Tucker, 1969).

Durante a pré-puberdade e durante o fim da gestação o tipo e quantidade de nutrientes oferecidos ao animal influenciam tanto a multiplicação de células secretoras na glândula, bem como a secreção dos hormônios que controlam o desenvolvimento do tecido secretor. Dai a necessidade de uma nutrição adequada durante todo o período para se "estimular" corretamente a formação de tecido secretor. Em relação ao período que ocorre durante os primeiros ciclos estrais, a influência da nutrição é mínima. No entanto, o desenvolvimento tecidual é altamente influenciado pelos hormônios reprodutivos secretados pelos ovários. Uma vez que qualquer novilha for coberta sem que estes ciclos ocorram, uma diminuição significativa e irreversível no potencial de produção de leite vai ocorrer durante toda a vida da futura vaca.

Conclusões e recomendações

Atualmente é indicado que qualquer novilha de raça pura de leite de grande porte (Holandês e Pardo Suíço) venha a parir com 24 meses de idade. Essa recomendação é baseada em resultados de inúmeros estudos realizados nos últimos 100 anos, os quais foram brevemente descritos anteriormente.

Para que o desenvolvimento da glândula mamária ocorra normalmente, as recomendações são de que qualquer novilha da raça Holandesa (por exemplo) deve ser desmamada com 50-60 dias de idade e pesando 100 a 120 kg de peso vivo. Após a desmama este animal deve ter um ganho de peso diário moderado de aproximadamente 0,77 kg até a primeira cobertura. Isso fará com que o animal aos 11-12 meses de idade venha a atingir um peso vivo de 340-350 kg, tenha a altura de cernelha ideal para a primeira cobertura (1,20 a 1,30 metro), e também já tenha entrado em puberdade. Visto que a idade-alvo para a primeira parição é de 24 meses de idade, esta novilha terá a oportunidade de passar pelos 3-4 ciclos estrais necessários para o desenvolvimento continuado da glândula, antes de ser coberta.

Mantendo-se o ganho de peso durante a gestação de 0,77 - 0,9 kg/dia, o animal irá parir com 530-630 kg de peso vivo, peso ideal de primeira parição (cerca de 70-75% do peso vivo de uma vaca adulta), e também irá ter o desenvolvimento final do tecido mamário dentro dos padrões necessários. Cuidados com o tipo, quantidade e combinação de nutrientes na alimentação fornecida às novilhas durante esta fase são os fatores críticos para se atingir os resultados desejados (Head, 1992).

Em resumo, o potencial genético de cada vaca somente irá ser explorado se técnicas apropriadas de manejo nutricional forem usadas durante as fases de vida da novilha mencionadas anteriormente. Isto irá fazer com que a base de uma "ótima" glândula mamária seja formada durante a fase de crescimento do animal, e com isso o seu potencial de produção seja explorado na plenitude durante toda a sua vida.

Literatura citada

Sinha, Y.N. e H.A. Tucker. 1969. Mammary development and pituitary prolactin level of heifers from birth through puberty and during estrous cycle. J. Dairy Sci. 52:507-512.

H.H. Head. 1992. Heifer performance standards: rearing systems, growth rates and lactation. Em: Van Horn, H.H. e C.J. Wilcox, editores. Large dairy herd management. Champaing: American Dairy Science Associaton. P. 422-433.
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1Márcio Liboni é Médico Veterinário, e atualmente é Doutorando do Departamento de Ciência Animal da Universidade da Flórida, EUA.

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Comentários

Fernando Antonio Silveira de Ávila

alfenas - Minas Gerais - Consultoria/extensão
postado em 02/09/2008

Bom dia, a bezerra já nasce com a quantidade de alveolos mamarios prée formada e depois se desenvolvem ou após o nascimento a quantidade(números) aumenta, assim como o desenvolvimento?

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