Coração do Leite: além dos desafios do terreno íngreme e pedregoso, um surto de neospora no plantel

Em 2016, tudo ia muito bem: a família estava construindo uma casa nova, a produção estava expandindo consideravelmente, assim como a quantidade de novilhas prenhas. Mas, para a infelicidade dos Peglow, um 'vento soprou' na direção contrária: diversas vacas abortaram, outras não emprenhavam - mesmo após 5 ou 6 tentativas - e parte delas, passaram a apresentar cios silenciosos. Era o começo de um grande desafio que eles enfrentariam.

Publicado por: MilkPoint

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Figura 1Momentos difíceis: quem nunca passou por eles? Nas propriedades leiteiras, isso não é diferente. Às vezes o bolso aperta, o pasto não vai bem, alguma doença acomete o rebanho ou perdemos algum funcionário que sempre foi nosso braço direito. Em outras, o planejado não sai como o esperado e aquela velha frase 'épocas de vacas magras' passa a fazer um baita sentido.

Mas...de repente, depois da tempestade aparece um arco-íris e a 'roda volta a girar' com fluidez e eficiência. É assim que se desenrolam as histórias de superação, cujas cicatrizes ficam marcadas em nós e são revertidas em amadurecimento e resiliência.

Localizada em Picada Evaristo, interior de São Lourenço do Sul/RS, a propriedade familiar Peglow conta com uma extensão de terras de 39 hectares. Destes, apenas 16 são utilizados para a agropecuária já que os demais são destinados para área de preservação permanente devido às condições do terreno, que é muito íngreme e pedregoso. Na 2ª edição do Especial Coração do Leite, a Equipe MilkPoint conversou com Tobias Peglow, que nos contou com detalhes sobre uma das histórias de superação vivenciadas pela família.

Figura 2

Após o casamento, Ronei Peglow e Luciara Maria Heller Peglow, pais de Tobias, iniciaram no leite com duas vacas: uma comprada do vizinho e a outra, trazida da casa dos pais de Luciara. “Como todo início, as coisas não foram fáceis. Doenças, falta de conhecimento e de assistência técnica resultaram em um alto índice de mortalidade das vacas, porém, com insistência e sempre pensando na reposição dos animais do plantel, a produção foi crescendo e os desafios também”, disse Tobias. Segundo ele, com a utilização da inseminação artificial, foi possível aumentar o número de cabeças e a qualidade produtiva e genética.

Com a ordenha realizada manualmente por muitos anos em um antigo galpão adaptado para estábulo, os indicadores de qualidade não eram nada bons, chegando a CBT (Contagem Bacteriana Total) em até 2.000.000 UFC/ml e CCS (Contagem de Células Somáticas) em torno de 1.000.000 cél/ml. Na época, o leite precisava ser levado em tarros para a estrada pois o caminhão não o recolhia na propriedade.

Em 2009, as coisas começaram a melhorar na propriedade quando ela aderiu a linhas de créditos acessíveis que possibilitaram a compra de um trator maior, resfriador a granel e a construção de uma sala de ordenha com transferência de leite automática. Também, atenção especial foi dada ao canzil para a alimentação das vacas e com a maior facilidade da ordenha, inclusive em um local mais limpo e adequado, os indicadores de qualidade logo melhoraram, chegando a CCS em torno de 400.000 cél/ml e CBT em torno de 6.000 UFC/ml. Junto com essas facilidades, o tempo de ordenha foi reduzido pela metade, o rebanho cresceu mais ainda e a produção diária quadruplicou.

Figura 3

Mas vieram os ventos contrários...

Em 2016, tudo ia muito bem: a família estava construindo uma casa nova, a produção estava expandindo consideravelmente, assim como a quantidade de novilhas prenhas. Mas, para a infelicidade dos Peglow, um ‘vento soprou’ na direção contrária: diversas vacas abortaram, outras não emprenhavam – mesmo após 5 ou 6 tentativas – e parte delas, passaram a apresentar cios silenciosos.

“O espaço aberto no tanque começou a aumentar bruscamente e todas as expectativas até ali planejadas não se concretizaram. Em busca de respostas, algumas atitudes investigativas tiveram que ser tomadas, e foi então, que chegamos a uma conclusão preocupante: a presença de neospora no rebanho. O baque foi gigante e o desânimo tomou conta de todos os envolvidos, até porque, nunca ninguém havia escutado falar sobre essa doença”, contou Tobias.

Ele relatou que era como se os dias tivessem escurecido e o futuro passou a ser visto com outros olhos. “Pensamos até em trocar de profissão, mas aos poucos, como a força do nosso empenho, dedicação e assistência veterinária, as coisas foram mudando. Aprendemos a conviver com a enfermidade, passamos a tomar mais cuidado com a ração e a silagem e - passo a passo – fomos observando os resultados positivos da ‘camisa suada’. Nos últimos dois anos a produção voltou a crescer e a média por animal também. Os partos estão ocorrendo normalmente, abortos não são mais observados e a taxa de prenhez está em um bom patamar”.

Atualmente a produção diária varia de 380 a 600 litros, dependendo da estação do ano, e a média diária geral por animal é 26 litros/leite/vaca em um sistema de produção a pasto complementado com ração e silagem de milho. O rebanho é composto por 42 cabeças, dessas, 4 Jersey e as demais, Holandesas.

Figura 4

“Já vencemos muitos desafios e compreendo que teremos outros pela frente. Olhando agora, parece que nem tivemos problemas grandes e que todos eles poderiam ter sido facilmente evitados, mas estamos falando de uma pequena propriedade rural sem incentivo governamental e sem condições de pagar assistência veterinária. No momento que mais precisamos, a empresa para o qual vendemos nossa produção iniciou um projeto de assistência veterinária gratuito e nossa propriedade foi escolhida, o que possibilitou vencer os obstáculos daquele momento. Hoje estamos recebendo visitas veterinárias pagas pela indústria e recentemente fomos convidados a participar de um grupo de produtores organizado pelo Sebrae chamado ‘Juntos para competir’ que visa qualificar produtores e propriedades. Além disso, estou fazendo um curso de inseminação artificial, algo fundamental para nós hoje”, comentou o produtor.

Figura 5

No momento atual, a propriedade enfrenta um desafio relacionado a disponibilidade de água para as vacas. Eles possuem fontes próprias do recurso mais a maior dele vem de um açude cedido pelo vizinho que fica a mais ou menos 1 km de distância.

Figura 6

E finalizando a história contada na entrevista, deixou a todos uma mensagem inspiradora:

“Para alguns, as pedras no caminho serão sempre pedras no caminho, para mim, elas podem ser a solução. As pedras que espalhadas me atrapalhavam e machucavam as vacas, recolhi com a força dos meus braços e fiz uma contenção para segurar a terra no seu devido lugar e garantir que aqui se possa produzir por muito tempo. Em um local íngreme, como o da propriedade Família Peglow, nasceu uma iniciativa exemplar”.

Figura 7

Também tem uma história de superação para contar para a gente? Clique aqui ou envie um e-mail para contato@milkpoint.com.br! Muito obrigada, Equipe MilkPoint

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Nelson Jesus Saboia Ribas
NELSON JESUS SABOIA RIBAS

GUARACI - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 15/07/2020

Ótima História de sucesso. Será muito importante complementar descrevendo como eles conseguiram controlar e conviver com a NEOSPORA. Essa doença esta já dissiminada e é responsável pela queda de produção em muitas propriedades, não tem vacina viável e nem cura. E também tem pouca pesquisa e orientação aos produtores.
Avelino Manoel Figueiredo Correa
AVELINO MANOEL FIGUEIREDO CORREA

CURITIBA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/07/2020

Nelson, Bom dia.
Em nossa experiência no controle de Neospora, o primeiro passo para controlar a doença e levantar a quantidade de animais positivos, o diagnóstico e de suma importância. Para iniciar o diagnóstico comece testando vacas e novilhas com histórico de aborto e que não emprenham, com o resultado rastreiem suas filhas e netas . Para controlar temos que considerar as 2 vias de transmissão: Exógena (ingestão das fezes do cachorro) e endógena ( transplacentária 80 a 90% de chance de uma positiva parir uma bezerra positiva). Na via exógena se faz necessário o controle de cachorros (domestico e selvagem) e acesso aos alimentos, na via endógena o foco tem que ser no diagnóstico de famílias POSITIVAS.
Algumas ações se fazem necessárias para o controle:
- Vacas e novilhas positivas entram na linha de descarte, com o tempo o critério Neospora tem que ser instituído como um motivo de descarte.
- Vacas e novilhas positivas podem ser inseminadas com touro de corte.
- Controle do cachorro no acesso ao alimento (portões. cercas elétricas)
- Ao comprar um rebanho ou animais, realize o teste não corra o risco de trazer Neospora para sua propriedade.
- A relatos da transmissão via colostro, poucos trabalhos porém temos que levar em consideração.

Espero poder ter contribuído!

Grande abraço
Nelson Jesus Saboia Ribas
EM RESPOSTA A AVELINO MANOEL FIGUEIREDO CORREA NELSON JESUS SABOIA RIBAS

GUARACI - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/07/2020

Muito obrigado pela resposta, contribuiu muito sim! A tempos atras eu iniciei um programa junto a UEL-Londrina, para testar as minhas novilhas que abortavam, só uma deu positiva para NEOSPORA, mas confirmou que eu tenho o problema na propriedade. Na UEL eles suspenderam esses estudos, atualmente não fazem mais o exame, alegam falta do reagente, ou algo assim. Eu continuou tendo alguns abortos,preciso descobrir ond fazem o exame para diagnosticar, e aí adotar a prática do descarte. Muito obrigado.
Silas A da Silva
SILAS A DA SILVA

ITAPURANGA - GOIÁS - ESTUDANTE

EM 14/07/2020

Parabéns!
Qual a sua dúvida hoje?