FAZER LOGIN COM O FACEBOOK ESQUECI MINHA SENHA SOU UM NOVO USUÁRIO
Buscar

Uma questão de sobrevivência

RICARDO FERREIRA GODINHO

EM 20/05/2015

6 MIN DE LEITURA

15
0
Presente em quase todos os municípios brasileiros, o agronegócio do leite pode ser considerado ainda um setor estratégico pela geração de trabalho e renda no campo, e movimenta a economia de muitas regiões. No entanto, o setor passa por profundas transformações. Entre os anos de 2005 e 2009, o número de pessoas ocupadas em atividades agrícolas no Brasil reduziu de 16.906.000 para 14.838.000, ou seja, dois milhões, segundo dados apresentados pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA). Em 2006 o Brasil contava com 1.340.897 estabelecimentos produtores de leite, e comparado com os resultados do Censo Agropecuário de 1995/1996, este número representa uma redução no número de estabelecimentos na ordem de 25,92%, o que corresponde a 469.144 estabelecimentos, enquanto a produção no mesmo período aumentou 3.502.499 litros (19,53%). Mesmo havendo uma redução no número de produtores de leite no Brasil, a produção nacional aumenta a cada ano, o que consequentemente aumenta a média de produção diária entre as fazendas.

Tais números evidenciam que muitos produtores deixaram a atividade leiteira, porém, os que permaneceram aumentaram suas produções. Este fenômeno não é uma particularidade brasileira, mas sim mundial. Nos Estados Unidos, maior produtor de leite mundial, o número de produtores de leite reduziu de 5.514.000 em 1910 para 68.500 fazendas em 2010. Uma reflexão a ser feita é, se muitos deixaram a atividade, porque outros permanecem produzindo e quais as razões para o sucesso ou insucesso na atividade?

Nas últimas décadas, as fazendas leiteiras têm aumentado em tamanho e o foco da gestão mudou de curativa para preventiva. Embora seja um aspecto multifatorial, o aumento da competitividade dos sistemas de produção de leite pode depender do aumento da escala de produção e do sistema de produção utilizado.

Pesquisas mostram que há uma diferença significativa entre as percepções de técnicos e produtores de leite, quanto ao processo administrativo nas áreas de produção, finanças, comercialização e recursos humanos dos sistemas de produção de leite. Esta diferença de percepção, a começar pelos objetivos que os produtores vislumbram para seus sistemas de produção, podem levar à distorções na atuação dos técnicos nos sistemas assistidos por eles, e consequentemente o comprometimento dos resultados possíveis de serem alcançados.

Avaliando resultados de propriedades leiteiras nos estados de Minas Gerais e São Paulo, os números mostram que a alta produtividade não significa sempre maior benefício econômico, que a produção de escala de leite tem influência no custo total do litro de leite, e que as análises de viabilidade produtiva de sistemas de produção, necessariamente, devem compor análises de custos e receitas. Há ainda trabalhos que mostram que a rentabilidade do capital imobilizado foi menor que o rendimento da caderneta de poupança, demonstrando que o retorno de investimento está abaixo do desejado.

Outras pesquisas realizadas com o objetivo de avaliar diferentes sistemas de produção e níveis tecnológicos, apresentam em comum a conclusão preocupante de que a atividade leiteira tem condições de produzir a médio prazo, mas a longo prazo constatou-se que os produtores se descapitalizam.

De modo geral, pode-se afirmar que a baixa produtividade da pecuária leiteira e os elevados custos de produção, evidenciam a necessidade de se modernizar e profissionalizar a administração do empreendimento, com vistas à melhor alocação e combinação dos recursos produtivos. É preciso , que os produtores de leite adotem práticas de gestão fundamentadas no planejamento da produção, organização rural e controle de atividades e processos, notadamente controles zootécnicos e administrativos. Além disso, é necessário que a tecnologia disponível seja plenamente compreendida e utilizada de forma eficiente, garantindo a alimentação e o manejo adequado do rebanho, assim como o uso da capacidade máxima instalada e obtenção de uma melhor rentabilidade na atividade leiteira.

O sucesso da atividade leiteira não está associado ao tamanho da propriedade ou volume de produção, embora estes aspectos influenciem nos resultados, mas o mais importante é "como" a propriedade é conduzida. Administrar é decidir o que fazer e o que não fazer, tomar as decisões adequadas quanto à tecnologia a ser adotada, mudanças no sistema produtivo, correr riscos.

Como regra, pode-se afirmar que o caminho para viabilizar a atividade no campo é a qualidade gerencial. Com ela, o empreendimento se profissionaliza, moderniza e começa a ser encarado como empresa de fato, que busca obter conhecimentos acerca dos mercados em que opera e procura estreitar seus relacionamentos. Antes a preocupação era apenas com o que acontecia dentro dos limites de sua propriedade, mas hoje se tornou uma questão de sobrevivência obter informações sobre a dinâmica mercadológica e utilizá-las na gestão da propriedade.

A melhoria na gestão se efetiva por meio de um processo educacional contínuo e principalmente de querer. Isso demanda tempo, energia, esforço, paciência, perseverança e novas competências por parte de todos, em especial do proprietário, do administrador e da assistência técnica. O êxito ou o fracasso deste processo de mudança em busca de uma nova forma de se ver e fazer as coisas está intimamente ligado ao maior ou menor esforço do produtor e administrador, além do comprometimento, em fazer as coisas acontecerem na propriedade rural.

O êxito na atividade no passado, não garante o mesmo resultado agora ou no futuro, basta olhar a sua volta e em sua rede de contatos para constatar a saída de muitos produtores da atividade leiteira. Aos produtores, administradores e técnicos de campo, cabem a reflexão sobre esta mudança com foco na gestão por resultados, pois ela pode ser decisiva para a sobrevivência ou não na atividade.

No próximo artigo abordaremos o conceito de gestão, suas limitações no meio rural, e a importância do empresário enquanto líder.

Referências

DERKS, M.; WERVEN, T. van; HOGEVEEN H.; KREMER, W.D.J. Associations between farmer participation in veterinary herd health management programs and farm performance. Journal of Dairy Science, V. 97, n. 3, p. 1336-1347, (DOI: 10.3168/jds.2013-6781), 2014.

FASSIO, L.H.; REIS, R. P. e GERALDO, L. G.. Desempenho técnico e econômico da atividade leiteira em Minas Gerais. Ciênc. Agrotec., Lavras, v. 30, n. 6, p. 1154-1161, nov./dez., 2006.

IBGE, Censo Agropecuário 2006 - Resultados Preliminares. Rio de Janeiro, 2006. 146p, ISSN 0103-6157.

LOPES, M. A.; LIMA, A. L. R.; CARVALHO, F. M.; REIS, R. P.; SANTOS, I.C.; SARAIVA, F. H. Efeitos do tipo de sistema de criação nos resultados econômicos de produção de leite na região de Lavras (MG). Ciência Agrotécnica, v.28, n.5, p.1177-1189, 2004.

LOPES, M.A.; DIAS, A.S.; CARVALHO, F.M.; LIMA, A.L.R.; CARDOSO, M.G.; CARMO, E.A.. Resultados econômicos de sistemas de produção de leite com diferentes níveis tecnológicos na região de Lavras MG nos anos 2004 e 2005. Ciência Agrotécnica, Lavras, v. 33, n. 1, p. 252-260, jan./fev., 2009

MDA. Estatísticas do Meio Rural 2010-2011, 4.ed., 2011.

SCHIAVON, R.; GONÇALVES, A.O.; SILVA, H.A.; BIANCHI, I.. Análise econômica de diferentes sistema de produção leiteira. XIX CIC/XII ENPOS/II Mostra Científica. Universidade Federal de Pelotas/RS, 2010. Disponível em , acesso 14/03/2013.

SCHIFFLER, E. A., MÂNCIO, A. B., GOMES, S. T., QUEIROZ, A. C. Efeito da Escala de Produção nos Resultados Econômicos da Produção de Leite B no Estado de São Paulo. Rev. bras. zootec., v.28, n.2, p.425-431, 1999.

Ricardo Ferreira Godinho é Zootecnista, Mestre em Produção Animal, e fez Especializações em Administração Rural, Consultoria Organizacional, Gestão Empresarial.

Iniciou sua atividade profissional como técnico de campo da Casmil/Passos, onde atuou por 9 anos. Experiência como consultor por 16 anos pelo SEBRAE Minas e de outros estados em programas de capacitação em gestão empresarial, liderança, empreendedorismo, Programa de Gestão da Qualidade (urbana e rural), atuando na capacitação de consultores e desenvolvimento de metodologias. Já atuou também para o Centro CAPE, Rehagro e como autônomo.

Experiência de 10 anos como Professor Universitário (UEMG Unidade de Passos) em cursos de graduação e pós graduação.

Produtor Rural, sócio da Agropecuária Tucaninha, a qual destaca-se pelo Prêmio de Excelência Empresarial (2007) e participação no TOP 100 desde 2003.

ARTIGO EXCLUSIVO | Este artigo é de uso exclusivo do MilkPoint, não sendo permitida sua cópia e/ou réplica sem prévia autorização do portal e do(s) autor(es) do artigo.

RICARDO FERREIRA GODINHO

15

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

VANESSA BRAZ CASSOLI

EM 23/05/2015

Excelente texto, parabéns Ricardo! Desejo sucesso na série de artigos a ser publicados, que sem dúvida contribuirão muito para as discussões acerca do setor produtivo leiteiro.
ADAILTON M SILVA

JI-PARANÁ - RONDÔNIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/05/2015

Parabéns Ricardo. Excelente artigo.
PAULO MAURICIO B BASTO DA SILVA

CASTRO - PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 22/05/2015

O artigo é muito bom e chega a uma conclusão que já constato tem 20 anos: falta de postura de gestor e avaliar a propriedade rural como um negócio e falta de qualificação, vontade e de "tesão" de muitos técnicos e indústrias em cuidar do apoio técnico e de gestão junto a estes mesmos produtores.
RICARDO FERREIRA GODINHO

SÃO JOÃO BATISTA DO GLÓRIA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 21/05/2015

Olá Pessoal, obrigado a todos pelos comentários, os quais estão mostrando que o objetivo do artigo está sendo alcançado.

Juvenal, é uma honra saber que o artigo lhe será útil com seus associados.

Atenciosamente,

Ricardo
MARCIO LOPES CAMPOS

MACHADO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 21/05/2015

EXCELENTE ARTIGO,PARABÉNS...
EPITÁCIO DIAS TORRES

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 21/05/2015

Muito rica a sua colocação,

Sou estudante do curso técnico em agropecuária na UFMG e sempre levantamos questões sobre a produção agropecuária. Entre tantas questões levantadas, está a gestão na produção rural sempre em foco.O seu artigo Sr. Ricardo veio me trazer um alento no caminho a continuar, que é o da reciclagem absorção de novas ideias, novas propostas para as atividades agrícolas.

obrigado pelos seus esclarecimentos.

ATT,

Epitácio.
LUCIANA GRILO RICARDINO

MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 21/05/2015

Parabéns, Ricardo, excelente explicação.  Tenho certeza de que "qualidade gerencial" é o caminho para todas as atividades. Vou indicar seu texto.
JUVENAL BORGES DA SILVEIRA

RIOLÂNDIA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 21/05/2015

Bom dia Ricardo,

Com a sua permissão, pretendo apresentar seu artigo na próxima reunião dos produtores de leite na Associação de Produtores rurais de Riolândia. Sua inserção foi perfeita e vai ajudar em muito a despertar novas visões ao produtores de leite e de outros setores, que se estende aos demais proprietários, ligados ao Sindicato Rural de Riolândia.

Att,

Juvenal.
JAMES CISNANDES JR

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 21/05/2015

Olá Ricardo, estava ontem batendo papo com um amigo que é empresário, no setor de SERVIÇOS. Disse a ele que o sucesso de um empreendimento, sobretudo, sua longevidade, depende de GESTÃO. Aqui, a palavra gestão no sentido amplo, traduzido por você assim:

"O sucesso da atividade leiteira não está associado ao tamanho da propriedade ou volume de produção, embora estes aspectos influenciem nos resultados, mas o mais importante é "como" a propriedade é conduzida. Administrar é decidir o que fazer e o que não fazer, tomar as decisões adequadas quanto à tecnologia a ser adotada, mudanças no sistema produtivo, correr riscos". O meu avô foi um produtor de LEITE, CAFÉ e CACAU na região sul da Bahia. Aquele princípio básico da ADMINISTRAÇÃO que é separar as contas da empresa das contas pessoais, ele não fazia. Acredito que a maioria dos produtores também não fazem. Parabéns pela consistência do artigo elaborado por você.
EDUARDO HARA

OUTRO - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 21/05/2015

Parabéns, artigo com boas ponderações sobre a produção de leite.

Aguardo os próximos....

Eduardo
EDSON FREIRE DA SILVA

CERES - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 21/05/2015

Preciso. Uma materia muito interesante
FABIEL RODRIGUES ALVES

PASSOS - MINAS GERAIS - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 20/05/2015

Parabéns Ricardo...

sempre trazendo informações para nos do meio...estamos sempre aprendendo mais com você...
RITA DE CÁSSIA RIBEIRO CARVALHO

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2015

Parabéns Ricardo,

Você fez comentários que nos faz refletir e a entender a situação do "avanço" no setor pecuário. Sua opinião baseado em informações oriundas de pesquisa e sua visão como  empresário nos faz crer que a condução do negócio vai muito além da paixão, tradição, etc. Esse é  o  primeiro de muitos artigos que virão contribuir àqueles que lidam diariamente com o negócio leite. Parabenizo também a Milkpoint por ter aberto esse espaço para um grande empresário e zootecnista de profundo conhecimento. Aguardamos a próxima reportagem.

Rita Carvalho - Zootecnista
FAZENDA DO RIACHO

MATOZINHOS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/05/2015

Parabéns Ricardo,



Belo enfoque de questão tão preponderante em qualquer negócio atual, ainda mais nos sistemas de produção de leite, de tantas variáveis a serem administradas.

A condução do negócio leite requer decisões acertadas, apontando sempre na direção do objetivo proposto.

Lúcio Machado

Zootecnista
ALEX MOREIRA

NOVA INDEPENDÊNCIA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 20/05/2015

Muito bom!!!! principalmente no trecho "diferença significativa entre as percepções de técnicos e produtores de leite"...
MilkPoint AgriPoint