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O futuro do tratamento de vaca seca

POR MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 08/02/2016

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Participei recentemente de um interessante encontro mundial de especialistas em mastite e qualidade do leite (2º Global Milk Quality Expert Forum), que foi realizado em Copenhague, Dinamarca. O evento foi organizado pela Boehringer Ingelheim e contou com a participação de pesquisadores e veterinários especialistas em qualidade do leite das Américas do Norte e do Sul e de alguns países da Europa. O objetivo do evento foi buscar respostas para a pergunta: qual o futuro do tratamento de vaca seca em nível mundial, considerando as diferenças entre as várias regiões e países?

Desde a década de 1960, o tratamento de todas as vacas secas vem sendo recomendado como uma das medidas basilares (Programa dos 5 Pontos) para o controle de mastite contagiosa, uma vez que são inúmeras as vantagens da terapia da vaca seca. A principal vantagem é que não é necessário o descarte do leite com resíduos de antibióticos. Além disso, a taxa de cura é bastante superior em relação ao tratamento durante a lactação. Como é um procedimento relativamente simples e realizado somente no final da lactação, praticamente não havia nenhuma restrição ao uso do tratamento de vaca seca, cuja função principal é a de curar os casos de mastite subclínica e, adicionalmente, prevenir novos casos de mastite após a secagem e pós-parto. As primeiras semanas após a secagem são de alto risco de ocorrer novas infecções no úbere, pois fisiologicamente ocorre aumento da pressão intramamária, o que facilita a entrada de patógenos oportunistas, além de não ocorrer a desinfecção dos tetos de forma rotineira como é feito durante a lactação.

Sendo assim, o uso de tratamento de vaca seca, associado com outras medidas de controle de mastite contagiosa (contagem de células somáticas individual, pós-dipping, descarte e segregação de vacas com mastite crônica, entre outras) associado com programa de pagamento por qualidade baseado em CCS, resultaram em redução significativa da CCS média do tanque na grande maioria dos países desenvolvidos, os quais têm programas de controle de mastite implantados há mais de 30-40 anos. Além disso, nestes países houve uma mudança significativa no perfil dos agentes causadores de mastite durante as ultimas décadas, o qual passou de uma predominância de agentes contagiosos para a de agentes ambientais. Para dar um exemplo desta situação, nos EUA, desde 2012 a média de CCS das vacas em controle leiteiro (https://www.cdcb.us/publish/dhi/current/sccx.html) é de 200.000 cels/ml, sendo que somente cerca de 11% das vacas têm CCS média >400.000 cels/ml. Países como Canadá e EUA têm uma média de adoção do tratamento de vaca seca de 80 a 90% das vacas. Esta tendência de redução de CCS também ocorreu em outros países. De acordo com um pesquisador do Canadá, em 10 anos é bem provável que a terapia seletiva de vaca seca seja a regra e não a exceção no Canadá. 

A situação no Brasil é ainda muito diferente, pois o uso de CCS como ferramenta de controle de mastite e qualidade do leite é muito mais recente e ainda não é adotada de forma generalizada como em outros países. As estimativas mais otimistas são de que cerca de 15-20% das vacas leiteiras especializadas recebem a terapia da vaca seca no Brasil. Os poucos dados disponíveis sobre CCS no Brasil, indicam uma média de CCS de 450.000 cels/ml.

Associada a mudança do perfil da mastite, outro importante contexto atual nos países desenvolvidos é o crescente aumento das restrições legais para uso de antibióticos em animais de produção, entre os quais as cadeias produtivas mais visadas são a avicultura, a suinocultura e a de produção de leite. Toda esta preocupação ocorre em razão do fenômeno do aumento de resistência bacteriana aos antibióticos. Estima-se que na Europa e EUA, cerca de 50.000 mortes ao ano ocorram em razão da bactérias multirresistentes, podendo chegar a 10 milhões de mortes/ano em 2050 (http://amr-review.org/). O uso de antibióticos na medicina humana tem sido fundamental para reduzir mortes por doenças bacterianas mais comuns, mas também por aumentar o tempo de vida de pessoas com doenças crônicas, como câncer, que necessitam quimioterapia, cirurgias e transplantes de órgãos.

Entre as possíveis principais causas da resistência bacteriana aos antibióticos estão o uso abusivo e imprudente de antibióticos tanto em medicina humana quanto veterinária, uma vez que existem estudos epidemiológicos que identificaram uma relação positiva entre o consumo total de antibiótico e o aumento da resistência bacteriana. Além do uso abusivo, prescrições erradas quanto à escolha do tipo de antibiótico, sub-dosagens e curta duração do tratamento também podem aumentar os riscos de resistência bacteriana aos antibióticos, em razão do tratamento de infecções sem nenhuma informação sobre as causas, o que é muito comum nos tratamentos de mastite. As cepas resistentes podem transmitir os genes que conferem resistência para outras bactérias, as quais passam a predominar, pois as cepas não resistentes são eliminadas pelos antibióticos. Ainda que não existam estudos com evidências científicas que comprovem que o uso de antibióticos em animais de produção levem a um aumento da resistência antimicrobiana em humanos, as autoridades de saúde da maioria dos países têm aumentado as restrições ao uso de antibióticos para prevenção de doenças em animais de produção, como o uso de antibióticos na ração de aves e suínos (já proibidos no Brasil) e o uso de tratamento preventivo de vaca seca.

Atualmente, existe uma legislação em consulta pública na União Europeia para banir o uso de tratamento de vaca seca com fins de prevenção, pois atualmente, o uso de selantes de tetos já permite um grau de prevenção similar ao do tratamento de vacas secas convencional. Desta forma, se esta legislação for aprovada, somente será permitido o uso do tratamento de vaca seca para fins curativos, desde que a vaca tenha um diagnóstico de mastite (CCS dos últimos 3 meses > 200.000 cels/ml e/ou histórico de caso clínico durante a lactação). O objetivo desta medida é restringir o uso de antibióticos somente para os casos de tratamentos de vacas diagnosticadas com mastite no momento da secagem. De acordo com um fazendeiro da Dinamarca, que tem cerca de 550 vacas em lactação, com a implantação do tratamento seletivo de vaca seca (tratar somente vacas com mastite), juntamente com o selante de tetos, foi necessário o tratamento de vaca seca em cerca de 40% das vacas, o que significa uma redução de cerca de 60% do uso de antibióticos na secagem.

Assim como restringir o uso de antibióticos de uma forma geral para animais de produção, em alguns países estuda-se a proibição do uso de algumas classes de antibióticos de forma exclusiva para medicina humana, pois em algumas classes de antibióticos, os mesmos medicamentos humanos são usados em animais de produção.

Dentre as principais conclusões que podem ser tiradas das discussões é que ainda existe uma grande diferença entre os países, mesmo aqueles dentro da Europa. Por exemplo, os países do Sul da Europa, entre os quais a Espanha e Itália, ainda consideram que o uso de tratamento seletivo de vaca seca somente pode ser uma realidade provável dentro de 10 a 15 anos. Por outro lado, países do Norte da Europa e Escandinávia, entre os quais destacam-se a Reino Unido, Dinamarca, Noruega e Suécia, já é apliacado o tratamento seletivo de vaca seca de forma mais rotineira e têm se posicionado de forma favorável à proibição do uso de tratamento de vaca seca para prevenção. 

Considerando-se o atual estágio do controle de mastite no Brasil, na qual ainda convivemos com alta média de CCS do tanque e alta incidência de mastite clínica é pouco provável que o tratamento seletivo de vaca seca seja uma realidade no curto prazo. Por outro lado, isso poderia ocorrer em rebanhos que já atingiram um excelente controle de mastite e que mantém uma baixa CCS do tanque (< 200.000 cels/ml), pois é um tipo de medida que tem que ser avaliada de acordo com a condição da fazenda. Outras diferenças importantes são a falta de uma legislação brasileira mais rígida para exigência de prescrição veterinária de antibiótico e venda com receita (como ocorre em medicina humana e na venda de defensivos agrícolas), o que já ocorre em muitos países. Além disso, no Brasil, a estimativas de vendas de produtos de tratamentos de vaca seca somente permite o tratamento de 15-20% das vacas especializadas, o que indicam que somente uma pequena parcela das vacas leiteiras são tratadas na secagem. 

A título de comparação, na Argentina, estima-se que 50% das vacas recebam o tratamento de vaca seca na secagem, o que indica um maior uso desta ferramenta de controle. Da mesma forma, países da Ásia também não adotam a terapia de vaca seca como medida estratégica de controle de mastite. Estes dados permitem concluir que na atual situação, não somente o Brasil, mas também demais regiões do mundo com pecuária leiteira em desenvolvimento, necessitam na verdade aumentar o uso do tratamento de vaca seca, antes de pensar em aplicar o tratamento seletivo de vaca seca. Além do tratamento de vaca seca, é ainda patente o baixo uso de CCS individual das vacas e de cultura microbiológica para identificação da causa da mastite e o conhecimento técnico, sem os quais o avanço no controle da mastite será lento e limitado nos rebanhos brasileiro.

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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MARIANA POMPEO DE CAMARGO GALLO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 01/06/2016

Olá pessoal,

Para quem quiser saber mais sobre controle e prevenção de mastite, teremos um curso online com o professor Marcos Veiga:

"Aumente o lucro pelo controle e prevenção da mastite bovina"
Início: 16/06
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Para mais informações: contato@educapoint.com.br / (19)3432-2199 / Whatsapp (19) 99817- 4082
DURVAL PEREIRA RESENDE

UNAÍ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/03/2016

Professor Marcos, agradeço pela atenção. Nosso histórico de controle proporciona seletividade; assim, vou conversar com o veterinário responsável e propor, após a devida seleção, usarmos apenas selante em alguns animais de baixa CCS. Após o parto faremos novas análises e divulgaremos o resultado, tendo por objetivo a redução do uso de antibióticos sem perda da sanidade dos animais.
CARLA PANTANO - MÉDICA VETERINÁRIA

UBERABA - MINAS GERAIS - MÉDICO VETERINÁRIO

EM 10/03/2016

A distante realidade do rebanho brasileiro de leite desses métodos preventivos mostram o quanto se fazem necessárias matérias como esta. PARABÉNS, professor. Toda e qualquer mudança se inicia com a conscientização.
MARCOS VEIGA SANTOS

PIRASSUNUNGA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 19/02/2016

Prezado Durval,

Na minha opinião, esta decisão deveria ser bem analisada com relação aos custos adicionais de diangóstico (CCS individual dos últimos 3 meses antes da secagem e cultura do leite) e do perfil de agentes causadores de mastite do rebanho. Ainda não tenho experiência com o uso de terapia seletiva de vaca seca em fazendas.

Acho que esta é uma decisão que deve ser bem analisada e em alguns países é realizada em razão de pressão da legislação.

Atenciosamente, Marcos Veiga
DURVAL PEREIRA RESENDE

UNAÍ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/02/2016

Saudações. Fazemos análise individual de CCS todos os meses, além de cultura e antibiograma, tendo, portanto, grande controle sobre a sanidade dos animais. Nesse caso poderíamos aplicar a seletividade indicada no artigo, usando apenas o selante de tetos?
CAMILO DE MENDONCA

HESSEN

EM 19/02/2016

Muito bem resumido! Excelente artigo!
Parabéns e muito obrigado por partilhar.
Camilo Lemos de Mendonca
JOÃO LEONARDO PIRES CARVALHO FARIA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 17/02/2016

Ainda estamos longe de ter um Programa de Controle de Mastite adequado mas bem longe mesmo!
JOSE EDILSON

CARAMBEÍ - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/02/2016

Comecei usar produto da Ceva Saude Animal chamado Velactis. Recomendo o uso, estou com bons resultado e estou querendo com o produto tirar antibiótico na secagem em animas com CCS baixo ( Dois últimos controle leiteiro).
JOAO HILTON G SANTANA

ROCHEDINHO ROCHEDO - MATO GROSSO DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/02/2016

Muito bom, mas tudo impacta em aumento de custos , o nosso produtor não aguenta mais pagar para produzir com qualidade, sem o reconhecimento de nossas autoridades .
PEDRO PORTO

VASSOURAS - RIO DE JANEIRO

EM 16/02/2016

Muito bom o artigo, porem todavia, nao podemos esquecer as diferentes realidades entre os paises citados acima. Outro fato importante è que tratamento preventivo mesmo no Brasil para vaca seca aleatoriamente, sem buscar atraves de analise laboratorial o fato causador, e dar tiro no pe, e trazer mais lucro para os laboratorios, uma vez que e muito facil receitar o remedio,porem qual o principio para esse ou aquele caso?fora os agentes resistentes ao tratamento .Depois do periodo seco, poucos produtores tem controle para saber se o resultado foi positivo.
Outro ponto importante é a carencia de laboratorios disponiveis, e preço "viavel" de exame, que possibilite ao produtor, saber a real situaçao sanitaria do rebanho.
Ainda somos "muito atrasados", infelizmente!
ESTÊVÃO DOMINGOS DE OLIVEIRA

QUIRINÓPOLIS - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 16/02/2016

Excelente artigo!!

Muito bem colocado também o fato de que o uso seletivo de terapia de vaca seca ainda vai demorar em nosso país.

Precisamos ainda fazer o primeiro passo que é conseguir manter a CCS média das fazendas abaixo de 400.000 células/ml.

CELSO CARVALHO AQUINO

GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 16/02/2016

Excelente e muito elucidativo o artigo. Parabéns!
FERNANDO FERREIRA PINHEIRO

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS

EM 15/02/2016

Professor Marcos Veiga,

Artigo muito interessante e bem colocado. Sua recomendação também foi muito oportuna, é preciso entender os contextos encontrados pelos os Europeus e a realidade ainda em desenvolvimento de nossos programas de controle de mastite.