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Formulação de dieta: tudo que você precisa saber!

EDUCAPOINT

EM 29/07/2019

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A formulação de dieta adequada para vacas leiteiras é uma das tarefas mais importantes de uma fazenda de produção de leite e deve ser feita por profissionais capacitados. Ela está diretamente relacionada à produção de leite e também influencia nas questões relacionadas à saúde e desempenho reprodutivo. Além disso, trata-se do item de maior custo da fazenda leiteira. 

Confira abaixo algumas informações técnicas que ajudam a esclarecer sobre os passos e informações necessárias para formulação de rações, além da descrição de metodologias para tal formulação. As informações são de Junio Cesar Martinez, publicadas anteriormente no site MilkPoint.

1. Agrupamento de animais e exigências nutricionais

Com o objetivo de estabelecer um programa nutricional para vacas leiteiras, há necessidade de agrupar os animais em função das diferentes fases pelas quais passam durante o período entre os partos. Com base nas exigências nutricionais da vaca leiteira, são identificadas 4 fases distintas ao longo da curva de produção:

1) período seco da vaca: em geral 60 dias pré-parto
2) início de lactação: do parto aos 100 dias pós-parto
3) meio de lactação: dos 101 aos 200 dias pós-parto
4) final de lactação: dos 201 aos 305 dias pós-parto

1.1. Período seco

Durante os primeiros 40 dias do período seco, as exigências nutricionais da vaca podem ser supridas sem grandes dificuldades, pois o animal consegue ingerir quantidade adequada de alimento. Vacas que na secagem apresentarem condição corporal ao redor de 3,5 (escala de 1 a 5), podem ser alimentadas apenas com volumoso de boa qualidade e mistura mineral. Auelas abaixo de 3,5 podem necessitar de suplementação com concentrado.

Na fase final do período seco, nas últimas 3 semanas que antecedem o parto, a vaca entra no período de transição, que se estende até 3 semanas pós-parto. Nessa fase pré-parto, o crescimento acelerado do feto e o início da síntese de colostro aumentam significativamente a exigência nutricional. Este fato é agravado também pela queda no consumo de alimento. Desta forma é necessário aumentar as densidades energéticas, protéicas e de minerais, e  as vitaminas das rações de vacas leiteiras nessas 3 semanas que antecedem o parto.

O manejo nas 3 últimas semanas pré-parto, têm grande impacto na produção de leite, reprodução e saúde da vaca durante a futura lactação. As que parem magras, com condição corporal abaixo de 3,5, não têm reservas de energia suficientes para apresentar pico de lactação alto. Vacas que parem com excesso de condição corporal, especialmente com escore acima de 4,0 são mais propensas a apresentarem distúrbios metabólicos após o parto, baixa produção de leite e perda excessiva de condição corporal após o parto.

1.2. Início de lactação (1 a 100 dias pós-parto)

Esta é a fase de maior produção de leite. Ela é crescente até aproximadamente 60 dias pós-parto, quando a vaca atinge o pico de lactação. As 3 primeiras semanas pós-parto são as mais críticas, pois muitos dos problemas ocorrem durante este período e estão normalmente ligados à mudanças drásticas de metabolismo, alterações hormonais, aumento na demanda de nutrientes, depressão da imunidade, estresse do parto e início da lactação. Todos estes fatores podem ser exacerbados quando o manejo nesse período é inadequado.

O grupo de vacas em início de lactação é o que recebe a alimentação com maior concentração de nutrientes, ou seja, com maior teor de concentrado. Em função da mudança drástica em apenas 60 dias, do final do período seco ao pico de lactação, é necessário que o aumento na dose de concentrado seja gradativo nas primeiras semanas pós-parto.

O consumo de alimento é crescente pós-parto, porém abaixo do necessário para suprir as exigências da vaca até o pico de lactação. O ápice de consumo de MS só ocorre 30 a 60 dias após o pico de lactação e isso resulta na perda de condição corporal da vaca nos primeiros 30 a 60 dias pós-parto. Os principais objetivos ao se formular rações para vacas em início de lactação são maximizar o pico de lactação e minimizar a perda de condição corporal pós-parto.

1.3. Meio de lactação (101 a 200 dias pós-parto)

Nesta fase, a vaca atinge o pico de consumo de matéria seca, a produção de leite apesar de ainda ser alta, está em declínio e é dado início a reposição de condição corporal. As exigências em energia, proteína, minerais e vitaminas são menores que na fase anterior. Ajustes devem ser feitos na ração, com redução no teor de concentrado da mesma.

1.4. Final de lactação (201 a 305 dias pós-parto)

Nesta fase a ingestão de nutrientes é bem maior que a demanda, uma vez que a produção está em declínio. É o período de maior reposição da condição corporal da vaca. Excesso de concentrado nesta fase, além de elevar os custos de produção pode favorecer a ocorrência de vacas com condição corporal excessiva, fator predisponente para distúrbios metabólicos pós-parto.

1.5. Vacas primíparas - um grupo a parte

Vacas primíparas em início de lactação são os animais de maior exigência nutricional do rebanho. Entretanto, ocupam posição hierárquica inferior ao das vacas multíparas, que são dominantes em relação as primíparas. Seja em sistemasde confinamento ou pastagen, é importante separa-las das demais. Em rebanhos que utilizam pastagens, apesar do problema não ser tão intenso durante o pastejo, o fornecimento do concentrado em grupo, pode ser crítico para estas vacas se mantidas juntas com as multíparas, pois não conseguirão comer a quantidade necessária de concentrado.

2. Ingredientes para a formulação de rações para bovinos

Os alimentos volumosos mais utilizados nos sistemas de produção de leite no Brasil são as pastagens, as silagens de milho, sorgo ou capim e a cana-de-açúcar. Animais mantidos exclusivamente em pastagens tropicais bem manejadas, têm seu potencial de produção de leite limitado em 8 a 14 kg/vaca/dia. As vacas dificilmente conseguem ingerir quantidades de forragem suficiente para produções maiores que as citadas. Quando alimentadas exclusivamente com silagem de milho ou sorgo, o teor baixo de proteína destes alimentos limita a produção a patamares inferiores ao das pastagens tropicais. No caso da cana-de-açúcar as limitações em proteína são tão severas que não permitem sequer a manutenção do animal.

O uso de alimentos concentrados tem por objetivo suprir as deficiências nutricionais das forrageiras e permitir produções elevadas. Os concentrados são na grande maioria compostos por suplementos energéticos, protéicos, minerais e vitamínicos.

2.1. Suplementos energéticos

No Brasil os principais suplementos energéticos utilizados nos concentrados de vacas leiteiras são os grãos de cereais como o milho, o sorgo, o milheto e diversos subprodutos como a polpa cítrica, a casca de soja, o farelo de arroz, o farelo de trigo e o farelo de mandioca, além de outros. Estes ingredientes contêm teores altos de energia, entre 75 a 92% de NDT (%MS), mas são pobres em proteína bruta, com teores normalmente inferiores a 12% (%MS). O farelo de trigo tem 16 a 18% de proteína bruta (%MS).

2.2. Suplementos protéicos

Os principais suplementos protéicos utilizados nos concentrados de bovinos no Brasil são o farelo de soja, o farelo de algodão e a uréia, fonte de nitrogênio não protéico. O farelo de soja tem 47 a 50% de PB e 82% de NDT (%MS). O farelo de algodão tem 38 a 41% de PB e 66 a 75% de NDT (%MS). A uréia é fonte de nitrogênio não protéico e contêm 45% de nitrogênio. Como a proteína tem 16% de nitrogênio, o equivalente protéico da uréia é de 281%, ou seja, cada kg de uréia equivale a 2,81 kg de proteína bruta.

As sementes de oleaginosa como a soja grão e o caroço de algodão são boas fontes de proteína, porém ricas em energia devido ao teor alto de óleo, ao redor de 18% da MS. A soja grão tem de 36 a 40% de PB e 101% de NDT. O caroço de algodão tem ao redor de 24% de PB e 90% de NDT (%MS). O farelo de amendoim é um suplemento protéico com 50 a 52% de PB, com oferta crescente no país. Suplementos com teores médios de PB são o farelo de girassol (30% de PB), o resíduo de cervejaria (20 a 25%) e o farelo glúten de milho -21 (refinasil ou prómil) com 21 a 24% de PB.

2.3. Suplementos minerais e vitamínicos

Os concentrados para vacas leiteiras devem conter núcleo mineral na sua composição. A formulação do núcleo mineral vai depender da exigência do animal e da composição mineral dos alimentos consumidos pelo bovino.

Pastagens são ricas em vitaminas A, D e E, não havendo a necessidade de suplementar os animais. Entretanto, forragens conservadas na forma de silagem ou feno, perdem quantidades grandes dessas vitaminas, principalmente de vitamina A, sendo recomendado suprir essas vitaminas no concentrado.

3. Sistemas de formulação de rações

A maioria dos países desenvolvidos criaram seus próprios modelos de exigência nutricional para bovinos e tabelas com a composição dos principais alimentos utilizados nas formulações de rações. No Brasil, o modelo mais utilizado é o modelo americano do NRC (2001).

Nos últimos 30 anos, houve evolução considerável no campo do conhecimento da nutrição de ruminantes. O número crescente de estudos na área e a informatização têm permitido o desenvolvimento de programas de formulação cada vez mais precisos.

Alguns modelos iniciais eram simples e apresentavam as exigências das vacas leiteiras em NDT, PB, minerais e vitaminas. As formulações podiam ser feitas manualmente, com número não muito grande de cálculos a serem efetuados.

Nos modelos atuais, as exigências energéticas são apresentadas em termos de energia líquida de lactação. As exigências protéicas são determinadas para a população microbiana ruminal (proteína degradável no rúmen) e para o bovino (proteína metabolizável). Atualmente, tem havido avanço considerável do conhecimento das exigências em aminoácidos essenciais para vacas leiteiras de alta produção. Programas atuais também evoluíram quanto à adequação dos teores de fibra nas rações, com vistas à manutenção de pH ruminal adequado. Do conceito de fibra bruta houve evolução para a adequação das exigências em FDN. Mais importante que o teor total de FDN é a porcentagem de FDN proveniente de forragem na ração, pois esta é a fração mais efetiva em estimular a ruminação. Finalmente, estudos têm sido conduzidos com o objetivo de determinar a efetividade da FDN de cada alimento e diversos modelos já adotam valores de FDN efetiva nas tabelas de composição dos alimentos e trazem exigências dos animais neste quesito.

Programas de computação são imprescindíveis quando queremos utilizar estes modelos atuais na sua plenitude.

4. Composição dos alimentos e exigências nutricionais

Na Tabela 1 são apresentadas as composições bromatológicas de diversos alimentos utilizados nas rações de vacas leiteiras no Brasil.

Tabela 1. Composição bromatológica dos alimentos
 

tabela formulação de dietas

Na Tabela 2 são apresentadas as exigências nutricionais de uma vaca leiteira mantida em pastagem ao longo da lactação de 6250 kg de leite em 305. Também são apresentadas formulações de rações para essa vaca no início, meio e final de lactação. Os cálculos foram feitos utilizando o NRC (2001).

Tabela 2. Rações para vacas leiteiras durante a lactação

 

Na tabela 2 pode-se observar que à medida que a lactação da vaca avançou no tempo e a produção reduzindo, foram feitas alterações na ração total. Tanto os teores de energia quanto os de proteína bruta foram reduzidos na ração. A concentração da proteína degradável no rúmen foi muito pouco alterada,  já a concentração de PNDR foi reduzida de 5,3 para 4,5%, uma vez que a exigência da vaca em proteína metabolizável diminuiu, mas não a exigência do rúmen em PDR. Na prática isto sinifica redução no teor de farelo de soja e aumento no teor de ureia na ração com o avançar da lactação.


Considerações finais

Formulação de ração é um tema importante e deve ser encarado com cuidado, pois um balanceamento incorreto não surtirá os efeitos desejados. Se fornecermos menos nutrientes do que o necessário, a vaca não apresentará o seu potencial genético e perderemos dinheiro. Por outro lado, sr fornecermos mais nutrientes do que o necessário, gastaremos mais dinheiro, causaremos desequilíbrio no organismo do animal, além dos efeitos ambientais indesejáveis como a maior produção de dejetos e lixiviação de nutrientes para o lençol freático.

Se você quiser ter informações mais aprofundadas sobre o tema de formulação de dietas para bovinos leiteiros, o EducaPoint oferece uma série de cursos on-line com esse tema. Confira:

 Introdução à formulação de dietas para bovinos leiteiros

Formulação de dietas para vacas leiteiras - Parte 1

Formulação de dietas para vacas leiteiras - Parte 2

Nutrição de precisão aplicada

Índices zootécnicos: nutricionais e de manejo alimentar

Nutrição de vacas leiteiras - Carboidratos

Nutrição de vacas leiteiras - Lipídeos

Nutrição de vacas leiteiras - Proteínas

Nutrição de vacas leiteiras - Suplementação com aditivos

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Fontes:

Esse texto foi baseado em dois artigos publicados no site MilkPoint:

Formulação de rações para vacas leiteiras - Parte 1 (https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao/formulacao-de-racoes-para-vacas-leiteiras-parte-1-66920n.aspx)

Formulação de rações para vacas leiteiras - Parte 2 (https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao/formulacao-de-racoes-para-vacas-leiteiras-parte-2-66944n.aspx)

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