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Textura do grão define qualidade de híbridos do milho para ensilagem

POR MARCOS NEVES PEREIRA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 23/09/2003

5 MIN DE LEITURA

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Nas regiões produtoras de milho do mundo, o milho cultivado é quase em sua totalidade dentado e o milho cultivado no Brasil é predominantemente duro. Grãos de milho do tipo dentado possuem amido mole e poroso e têm baixa densidade. Com a perda de umidade do grão, durante o processo de maturação fisiológica da planta, o endosperma farináceo e macio reduz o seu volume mais do que as camadas duras no lado do endosperma. Assim se origina a indentação, pelo enrugamento do endosperma no topo da semente (Figura 1). Grãos do tipo duro (ou flint) têm endosperma duro ou cristalino ocupando quase todo o seu volume e baixa proporção de endosperma farináceo. A vitreosidade é definida como a proporção de endosperma duro (vítreo) com relação ao endosperma total, grãos duros têm alta vitreosidade e densidade.

Figura 1: Milho dentado com indentação típica no topo do grão e endosperma farináceo (a) e milho duro (flint) com topo do grão arredondado e alta proporção de endosperma vítreo (b).


A dureza do endosperma é determinada pela composição protéica do grão. Os grânulos de amido dentro das células estão envoltos por uma matriz protéica. A densidade da matriz varia com a localização da célula no grão. A matriz é esparsa e fragmentada no endosperma farináceo e densa e bem desenvolvida na região vítrea. Na porção farinácea os grânulos de amido estão mais acessíveis ao ataque enzimático. A interação com a proteína pode reduzir a susceptibilidade do amido à hidrólise enzimática, reduzindo a digestibilidade deste carboidrato.

A presença de amido é a razão primária para a ensilagem de planta inteira de milho. O amido, um carboidrato não-fibroso de degradação rápida no rúmen, confere valor energético à silagem de milho, reduzindo a necessidade de alimentos concentrados por litro de leite produzido. Uma silagem de milho de baixa energia não justificaria todo o transtorno agronômico de produção do milho silagem. A planta de milho é uma planta tropical, tendo digestibilidade da fibra semelhante à de outras forrageiras tropicais. Pode-se dizer que milho com baixo amido e/ou com amido indigestível seria nutricionalmente próximo a um capim elefante, um milho sem espigas. A definição do estádio de maturação na colheita e do híbrido para ensilagem deve almejar a redução no teor de FDN, de degradação lenta no rúmen, e a maximização do teor de amido, este último, preferencialmente com a máxima digestibilidade.

A Figura 2 mostra a composição nutricional de uma boa silagem de milho. O que é mais importante, a digestibilidade da Fibra em Detergente Neutro (FDN) ou a digestibilidade dos Carboidratos não-fibrosos (CNF)? Ambos são pontos potenciais para atuar sobre a qualidade da silagem. No entanto, é importante frisar que a digestibilidade dos CNF está em torno de 90% e a digestibilidade da FDN está em torno de 40%. Nunca uma silagem de alta fibra será melhor que uma silagem de alto CNF. Também tem que ser entendido que uma silagem com alto teor e/ou alta qualidade protéica e com alto teor de óleo, mas com amido indisponível, não faz sentido. Milho não é fonte de óleo ou proteína, milho é fonte de energia na forma de carboidratos. Proteína e gordura só seriam cabíveis como meta na escolha de plantas para ensilagem após a digestibilidade dos carboidratos, prevalentes na planta, estarem maximizados. Além do mais, gordura e proteína são facilmente suplementáveis em dietas de vacas leiteiras.

Figura 2: Carboidratos fibrosos (FDN) e não-fibrosos (CNF) representam cerca de 85% de uma silagem de milho. Quanto maior o conteúdo de CNF (o mesmo que baixo conteúdo de FDN) maior o conteúdo energético da forrageira. Silagem de milho não é fonte de proteína (PB) e gordura (Extrato Etéreo = EE).


Existem evidências de que quanto maior a vitreosidade do grão de milho, menor a degradabilidade ruminal do amido. Cinco híbridos brasileiros, representando extremos de dureza do grão, foram cultivados no Brasil, colhidos no estágio maduro e transportados aos Estados Unidos. Quatorze híbridos americanos foram cultivados no Wisconsin e colhidos em três estádios de maturação: metade de linha do leite (ML), linha preta (LP), e 21 dias depois da linha preta (maduro; MD). A vitreosidade dos grãos foi determinada por dissecção manual do endosperma. Três híbridos americanos e três brasileiros, todos no estágio MD de maturidade, foram selecionados para representar os extremos de vitreosidade e degradados in situ em três vacas Holandesas em lactação com fístula ruminal.

A vitreosidade dos cinco híbridos brasileiros no estágio maduro variou de 64,2 a 80,0 % do endosperma, com média de 73,1, maior que a média encontrada nos 14 híbridos americanos, 48,2, oscilando de 34,9 a 62,3. Nosso híbrido menos vítreo teve maior vitreosidade que o mais vítreo dos Estados Unidos. O amido instantaneamente degradável no rúmen foi cinco vezes maior nos híbridos americanos que nos híbridos brasileiros (Tabela 1). A velocidade de degradação do amido e da matéria seca dos híbridos brasileiros foi aproximadamente um terço do valor dos híbridos americanos. A extensão de degradação ruminal dos híbridos brasileiros (disponibilidade) foi de 20 a 30 pontos percentuais inferior que à dos híbridos americanos.

Tabela 1. Cinética da degradação ruminal de grãos de milho de híbridos dos Estados Unidos (EUA) e do Brasil (BRA). Três híbridos foram selecionados de cada país para representar extremos de vitreosidade.


A = Fração instantaneamente degradável. B = Fração lentamente degradável. C = Fração indigestível. Kd = velocidade de degradação da fração B.
Disponibilidade = A+B[Kd/(Kd+Kp)]. Kp de 0,08/h

A correlação entre vitreosidade e degradabilidade ruminal foi negativa e alta (Figura 3), e teve comportamento bem semelhante ao observado por pesquisadores franceses trabalhando com outra população de plantas (Philippeau & Michalet-Doureau, 1997). A vitreosidade parece ser um bom parâmetro para selecionar híbridos de milho com alta digestibilidade ruminal do amido. A grande deficiência das silagens de milho brasileiras parece ser a baixa digestibilidade do amido no rúmen, resultado da dureza excessiva dos grãos. Um caminho para melhorar a qualidade das silagens de milho no Brasil seria o plantio dos poucos híbridos dentados disponíveis comercialmente. Só a força do mercado fará com que a indústria de sementes de milho passe a considerar o produtor de leite em seus programas de melhoramento, e deixe de direcionar as "sobras" dos programas de melhoramento para grãos para serem comercializadas como milho para ensilagem.

Figura 3. Vitreosidade do grão e disponibilidade ruminal do amido avaliado in situ em híbridos norte americanos () e três brasileiros (). Disponibilidade=108.2 - 0,7605*Vitreosidade. r 2=0,87. Disponibilidade (% do amido) = A + B [Kd/(Kd + Kp)]. Kp de 0,08/h.


Referência:

Correa, C.E.S.; Shaver, R.D.; Pereira, M.N., Lauer, J.G., Kohn, K. Relationship between corn vitreousness and ruminal in situ starch degradability. Journal of Dairy Science, v.85, n.11, p.3008-3012, 2002.

MARCOS NEVES PEREIRA

Professor Titular da UFLA (Lavras, MG)

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EDUARDO CÔRTES

CARATINGA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/07/2013

Prezados,

agradeço a resposta acima, e após algum tempo tenho uma sugestão e uma pergunta;  A sugestão seria vocês pesquisarem e publicarem as variedades vendidas no Brasil com relação a vitreosidade e dispnibilidade, bem como a cinética da degradação ruminal de grãos de milho.  Concordo  com sua afirmação   Concordo com sua afirmação de que somente a força do mercado vai fazer com que as sementeiras parem de trazer as sobras para cá.  Mas a academia brasileira também tem uma força grande com as pesquisas, e terá um importante papel nessa luta.  Como produtor vou plantar basicamente o 4051 nesta safra, que já tem transgenia, e o 1051 como refúgio.  Mas seria bom que as universidades fizessem uma comparação entre todos os dentados brasileiros para termos mais dados para decidirmos.  Não é possível que o parque das universidades federais brasileiras não con seguiriam essa independênciae realizarem tal experimento.  POderia até comparar com os outros milhos das mesmas empresas que comercializam seus híbridos nas matrizes e aqui.  Tenho certeza que o Journal of Dairy Science teria muito interesse em publicar tais dados, além dos nossos produtores.  As empresas de semente iriam passar a caprichar muito mais em suas escolhas, e a academia brasileira estaria dando uma enorme contribuição ao país.  Fica a sugestão.  Até por que a publicação no Journal é de 2002, e já está na hora de fazer uma atualização ampliando e divulgando as marcas estudadas.



Mais uma vez parabéns pela iniciativa da pesquisa!!!

Um abraço,

Eduardo Côrtes
EDUARDO CÔRTES

CARATINGA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/10/2003

O artigo está muito bom. É importante para a orientação dos produtores.

Gostaria de perguntar quais são os milhos de baixa textura, existentes no mercado para silagem?

<b>Resposta</b>:

Dentre os híbridos disponíveis comercialmente, os mais dentados são: AG 1051 e AG 4051. Existem materiais semidentados que podem ser utilizados em situações específicas, principalmente aquelas com garantia de colheita mais precoce do grão (antes da metade da linha do leite).
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