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Piroplasmose, como controlar esta complexa doença? Parte 1

POR RENATA DE OLIVEIRA SOUZA DIAS

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/06/2008

4 MIN DE LEITURA

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A Piroplasmose é um tema importante e gera muitas dúvidas. No último artigo publicado sobre o assunto, pude observar que as perguntas sobre o tema foram enviadas de diversas regiões do país: Rio Grande do Sul, Rondônia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, etc. E uma característica chama atenção na maioria das perguntas: como controlar esta complexa doença parasitária?

Para o controle da Piroplasmose pode-se recorrer ao controle dos vetores, à quimioprofilaxia e à vacinação. Estas opções de controle estão sendo continuamente aprimoradas pela pesquisa, mas ainda merecem muito estudo, e tudo indica que serão aperfeiçoadas no futuro. Mas como abordar o controle da tristeza parasitária, sem antes entender um pouco da epidemiologia da doença? Uma noção sobre a epidemiologia irá favorecer a compreensão da enfermidade e a aplicação das medidas de controle de acordo com cada região.

EPIDEMIOLOGIA: epi = sobre; demos= população; logos= tratado. A epidemiologia estuda o processo saúde - doença, analisa a distribuição e os fatores determinantes da enfermidade, bem como, propõe medidas de prevenção, controle ou erradicação, fornecendo indicadores que sirvam de suporte ao planejamento, administração e avaliação das ações.


O conhecimento epidemiológico é fundamental para o entendimento e para a prevenção de qualquer doença. A epidemiologia entende o espaço (clima, vegetação, latitude) como um fator determinante para a ocorrência da doença. O número de vetores no ambiente é um fator importante na epidemiologia da piroplasmose, sendo o primeiro passo para entender a dinâmica do controle da doença em diferentes regiões.

No Brasil é possível encontrar diferentes cenários:

áreas naturalmente livres, áreas que na maior parte do ano apresentam condições climáticas pouco favoráveis ao desenvolvimento do carrapato (extremo sudeste do Rio Grande do Sul, por exemplo);

áreas de instabilidade endêmica, na qual o carrapato interrompe o seu ciclo por um período de dois a três meses (devido ao frio);

áreas de estabilidade endêmica, demais regiões do País com condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento do carrapato durante todo o ano (o controle excessivo do vetor pode comprometer a estabilidade de algumas regiões)

Nas áreas onde a população de vetores é alta e presente durante todo o ano, a maioria dos animais jovens é infectada antes dos nove meses de idade, quando ainda possuem resistência natural. A resistência dos animais jovens se deve à presença de anticorpos colostrais, maior eritropoiese da medula óssea, rápida resposta da imunidade celular e presença de hemoglobina fetal nos eritrócitos. Nestes casos, não são esperados surtos de piroplasmose, nem mortalidade de animais adultos, pois estes animais já estarão na fase de portadores. O cenário descrito neste parágrafo é denominado Estabilidade endêmica.

Nas áreas onde há flutuação na população de vetores devido a condições climáticas desfavoráveis, manejo inadequado (por exemplo: tipo de instalação que não favoreça a infestação) e medidas de controle inapropriadas dos vetores, os animais jovens não são infectados com a piroplasmose. Porém quando adultos, ao entrarem em contato com os agentes, sofrem doença clínica aguda com alta taxa de mortalidade. O cenário descrito neste parágrafo é denominado Instabilidade endêmica.

Para determinar se uma área é instável ou estável recomenda-se a sorologia do rebanho, realizando a colheita de sangue de uma amostra representativa dos animais com idade acima de 9 meses (10%). A ocorrência de mais de 75% de animais positivos para Tristeza Parasitaria indica que grande parte dos animais já adoeceu (primoinfecção precoce, durante a fase mais resistente às plasmoses) e está resistente, caracterizando uma área como Estável. Porém, se menos de 75% dos animais apresentam sorologia positiva, a maioria dos animais ainda não sofreu a infecção, e está exposta ao risco de apresentar um quadro agudo e fatal de Tristeza Parasitária, caracterizando a área como Instável.

Neste ponto já é possível observar que uma importante informação de controle é oferecida pelos dados epidemiológicos da doença: a mudança na intensidade da população de carrapatos nos bovinos afeta a taxa de inoculação de protozoários no hospedeiro. Para a manutenção da estabilidade é necessária uma população mínima de vetores. Por isso, já se sabe que a população de carrapatos deve ser controlada em níveis economicamente viáveis, favorecendo a manutenção da capacidade de resposta imunológica ao aumento da parasitemia. Recomenda-se que o número de carrapatos para manutenção da resposta imunológica, sem causar prejuízos devido ao parasitismo, é de aproximadamente 15 teleógenas/animal/dia.

Com poucas informações sobre a epidemiologia fica simples perceber que o carrapato não deve ser erradicado da propriedade, porém controlado. No próximo artigo serão abordadas as características da quimioprofilaxia, as opções de vacina e suas limitações. A convivência com a Piroplasmose não é simples, exige atenção com o manejo dos animais desde o fornecimento do colostro após o nascimento, o diagnóstico precoce de casos clínicos e também, a manutenção dos vetores na propriedade. Os métodos de controle auxiliam a redução das perdas, mas a convivência com a doença ainda é complexa.

Fonte:
Barros, S.L., et.al. Serological survey of Babesia bovis, Babesia bigemina, and Anaplasma marginale antibodies in cattle from the semi-arid region of the state of Bahia, Brazil, by enzyme-linked immunosorbent assays. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, v.100, n.6, 2005.

Gonçalves, P.M. Epidemiologia e controle da tristeza parasitária bovina na região sudeste do Brasil. Ciência Rural, v.30, n.1, p.187-194, 2000.

Kessler, R.H.; Schenk, M.A.M. Quando e como vacinar contra Tristeza Parasitária. https://www.cnpgc.embrapa.br/publicacoes/divulga/GCD40.html - acessado em 16/05/2008

Ribeiro, M.F.B; Passos, L.M.F. Tristeza Parasitária Bovina. Cad. Tec. Vet. Zootec., v.39, p.36-52, 2002.

RENATA DE OLIVEIRA SOUZA DIAS

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RIVELINO RICARDO SILVA

PALMEIRA DOS INDIOS - ALAGOAS - ESTUDANTE

EM 19/08/2008

Achei o artigo muito interesante, pois pude obter varias informaçoês que foram uteis ao meu conhecimento.
SHELTON TEXERA BNEVIDES

JAGUARIBE - CEARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/07/2008

Gostaria de parabeniza-la pelo artigo relevante no qual a consientização sobre identificação, conhecimento de estabilidade e instabilidade, tratamento e até convivênia com a doença, são caracteres indispensaveis hoje na produção de bovinos de leite e corte para um bom gerenciamento do empreendimento, pois essa doença vem causando enormes prejuízos ao setor.
FÁBIO MARTINS OLIVEIRA

VITÓRIA DA CONQUISTA - BAHIA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/07/2008

Muito bom o artigo! A realidade é que os produtores precisam conscientizar sobre o controle correto do carrapato, de forma técnica e eficiente! Pois o assunto é bastante amplo.

Fábio Martins Oliveira
Engº Agrônomo
Esp. em Produção de Ruminates
PAULO LUIS HEINZMANN

RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 02/07/2008

Muito bom o artigo!! Como sugestão, acho que poderia ser incluído nesta discussão a anaplasmose e a leptospirose clínica, a qual nos complica o correto diagnóstico em áreas que estas doenças são enzoóticas.
Aguardemos a complementação do artigo.
Méd. Vet. Paulo Luis Heinzmann

<b>Resposta da autora</b>

Prezado PAULO LUIS HEINZMANN,

Obrigada por enviar seus comentários e sugestoes.
Neste próximo artigo o tema sobre diagnóstico fica um pouco fora do contexto do controle e profilaxia. Com certeza esta relacao entre as doencas é importante e merece ser discutida. Porém, vou buscar infomacoes mais atualizadas e precisas sobre o diagnóstico diferencial destas duas doencas e escreverei um artigo sobre este relevante tema.

Com atenção,

Renata Souza Dias
PAULO HENRIQUE COSME FERREIRA

RECIFE - PERNAMBUCO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 29/06/2008

Sou Zootecnista e sempre estou no campo onde os criadores querem erradicar totalmente os carrapatos do seu rebanho e não tem noção de que a erradicação não é a melhor alternativa e sim o controle desses parasitas, pois com isso porprorcionamos que os animais constituam anticorpos para as diversas doenças que os carrapatos podem transmitir.
Isso é um assunto que deve ser muito exposto, pois é difícil de colocar na cabeça do produtor.
Muito bom o artigo Drª Renata, espero que o próximo venho logo.

PAULO HENRIQUE - Zootecnista
SERGIO PERUSSOLO

REBOUÇAS - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/06/2008

Parabéns Drª Renata seu artigo, esclarece e ajuda em decisões tomadas, diante de problema tão questionável, espero novos estudos sobre o assunto.
SERGIO PERUSSOLO

REBOUÇAS - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/06/2008

Trabalho bem enfocado, e tem muito a ser feito e pesquisado, neste sentido. Espero na próxima edição, mais informações, parabéns Drª Renata, o assunto escolhido é muito complexo, mas já colabora para algumas decisões à campo.
MARCOS

PERITIBA - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/06/2008

Muito interessante este artigo, sabemos que controlando os parasitas tambem vamos controlar a doença, agora é olho no carrapato.!
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