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Manejo do pasto usando altura: há um alvo?

POR DANIEL AUGUSTO BARRETA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/09/2020

4 MIN DE LEITURA

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Há inúmeros trabalhos que avaliaram o efeito da altura de manejo do pasto sobre sua produtividade e a produtividade animal sob estes, o que permitiu a elaboração de diversas tabelas técnicas com informações que norteiam o manejo de altura do pasto. Neste sentido, irei discorrer acerca alguns pontos chave sobre o quão flexível podem ser estas medidas. O objetivo é demonstrar que a altura pré pastejo (em um sistema de pastejo intermitente) pode ser moderadamente flexível sem comprometer a produção do pasto.

No início da década de 80, dois pesquisadores realizaram um estudo clássico na área de forragicultura no qual seus achados são disseminados ainda hoje (1). Os pesquisadores mostraram que a produção de massa verde do pasto (produção líquida = produção total – folhas mortas) não se altera dentro de uma variação na altura de manejo de pastos sob pastejo contínuo. Desde aquela época outros estudos chegaram a resultados semelhantes com diversas espécies de plantas forrageiras.

Estes resultados são atribuídos ao fato de que a planta consegue se “ajustar” à altura de manejo por meio do número e tamanho de perfilhos. Convido-o a pensar comigo em uma planta como o azevém; quando manejado a uma altura mais alta, há menos perfilhos e eles são maiores, enquanto sob um manejo mais baixo, há mais perfilhos e eles são menores. Este padrão de resposta da planta é conhecido como “mecanismo de compensação” e “opera”, de maneira clássica, em pastos sob pastejo contínuo, mas resultados semelhantes também têm sido encontrados em pastejo rotativo, desde que a média entre a altura de entrada e saída dos animais do pasto seja similar à altura no pastejo contínuo.

Para tornar mais clara esta ideia, um experimento realizado em Santa Catarina  utilizou uma pastagem de capim-quicuiu (planta perene de estação quente, com crescimento prostrado/rasteiro) que foi manejada em quatro alturas pré pastejo, 10, 15, 20 e 25 cm de altura e os animais retirados dos piquetes quando a altura do pasto alcançava metade da altura de entrada, 5, 7.5, 10 e 12.5 cm, respectivamente (2). Como resultado, os pesquisadores encontraram a mesma produção de pasto verde (acúmulo líquido) nas alturas de 15, 20 e 25 cm.  A “peça-chave” para este resultado está no que chamamos de severidade de desfolha, ou seja, quanto o pasto foi rebaixado, em todos os casos a altura pós pastejo correspondeu a 50% da altura pré pastejo. Esse manejo permite que “sobrem” folhas verdes no pasto capazes de auxiliar no rebrote do pasto e consequentemente antecipar o próximo pastejo. Além disso, a qualidade da forragem consumida é melhor em relação a pastejos mais severos, pois vale lembrar que mais de 80% da massa de colmo das plantas estão na metade inferior das gramíneas.

Neste sentido, os valores normalmente determinados em tabelas de manejo correspondem aos valores limites para entrada dos animais nos piquetes antes que ocorra alongamento de colmo (estiolar) e/ou o início do florescimento das plantas. Contudo, nossa filosofia de pensamento provém de uma ideia mais flexível, de que, principalmente as gramíneas, podem ser manejadas dentro de um espectro de altura no qual o acúmulo líquido de forragem é semelhante desde que a severidade de desfolha seja de até 50% da altura em que os animais foram colocados nos piquetes.

É importante salientar ainda que, mesmo tendo sido observado acúmulo semelhante no experimento com capim-quicuiu (planta bastante plástica), não significa que isso pode ser aplicado em todas as situações ou propriedades. As alturas maiores permitem ao animal uma ingestão maior de matéria seca de pasto, maximiza-se a ingestão de nutrientes, o que seria apropriado para animais mais exigentes, como vacas leiteiras produzindo à base de pasto, enquanto que em alturas menores (entre 15 e 20 cm no caso do capim-quicuiu), não há maximização de consumo, o que pode ser aceitável para animais com menor exigência nutricional, como vacas secas ou vacas de cria, por exemplo.

Para concluir, relato que, no experimento citado, o manejo do pasto com altura de 10 cm resultou em menor produção em relação aos demais, apesar de ter um número maior de perfilhos, o que ilustra que o manejo é flexível, mas tem limites e, quando transcendidos, diminuem a produção do pasto e consequentemente podem permitir a entrada de invasoras e a degradação da pastagem. A mensagem é: a altura de manejo não é estática, permite moderada flexibilidade, sem comprometer o acúmulo líquido de forragem, desde que sejam respeitadas desfolhas moderadas.

Referências

1) Duchini, P. G. et al. Tiller size/density compensation in temperate climate grasses grown in monoculture or in intercropping systems under intermittent grazing. Grass and Forage Science. v. 69, n. 4, p. 655-665, 2014.

2) Birchan, J. S.; Hodgson, J. The effects of change in herbage mass on rates of herhage growth and senescence in mixed swards. Grass and Forage Science. v. 39, p. 111-115, 1984.

DANIEL AUGUSTO BARRETA

Zootecnista, Núcleo de Pesquisa em Pastagem - UDESC/CAV

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JOÃO LEONARDO PIRES CARVALHO FARIA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/09/2020

Excelente!
Além disso, por experiência própria de vida no campo, um dos fatores que mais contribui para que consigamos obter um pouco mais de precisão nas alturas dos capins, é a utilização de adubação mais leve ou pesada, principalmente no que se refere às quantidades de nitrogênio.

Parabéns pelo artigo!
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