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Insetos benéficos e a produção de leite intensiva

POR INSTITUTO DE AGRICULTURA REGENERATIVA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/03/2022

10 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 22/03/2022

A produção de leite intensiva convencional requer aportes econômicos significativos relacionados ao fornecimento de alimentos e ao controle de pragas e doenças.

Apesar disso, em diversos países desenvolvidos, a rentabilidade do produtor é assegurada por contratos que preveem entregas programadas de acordo com a demanda e repasses de eventuais aumentos de custos aos produtos, o que confere segurança à atividade.

No atual panorama produtivo brasileiro, a dificuldade de viabilização deste tipo de negociação soma-se às crescentes exigências globais em termos ambientais e de qualidade dos produtos, com ênfase para o controle de resíduos de agroquímicos.

Neste contexto, é importante buscar nas condições peculiares dos diferentes ambientes produtivos, “parceiros” que contribuam para a geração de alimentos, ambientes e vidas saudáveis. Neste sentido, os insetos ocupam posição de destaque nos diferentes ambientes (Fig. 1).

Figura 1: Insetos no Brasil e no mundo.


Fonte: Mundy, 2020.

À primeira vista, a grande diversidade de espécies observada na América Latina nos remete ao risco de ataques às plantações e pastagens, e ao custo do seu controle, em termos econômicos e ambientais. Porém, um olhar mais aprofundado evidencia um grande potencial de contribuição para a consolidação de uma agricultura que não somente tenha menores impactos, mas que promova melhorias socioambientais numa ótica regenerativa.

Além de polinizar e reciclar nutrientes, os insetos podem auxiliar na redução e, em alguns casos, na eliminação do uso de produtos fitossanitários, diminuindo seus impactos na pecuária leiteira. Ou seja, são um batalhão de “soldados” voluntários, trabalhando 365 dias por ano pelo equilíbrio produtivo.

 

Insetos na pecuária intensiva

Os insetos contribuem para o desenvolvimento dos diferentes componentes dos ecossistemas produtivos (solos, plantas e animais) e para a otimização de diversas de suas características. Quando inseridos em estratégias produtivas, permitem ao agricultor aprender novos procedimentos favoráveis ao meio ambiente e à sua economia, com grandes benefícios no resultado final.

Existe uma grande variedade de insetos “amigos” dos agricultores, com diferentes funções (coprófagos, polinizadores, predadores e parasitoides). Em todos os casos, a identificação das diferentes espécies e o manejo de sua dinâmica exigem conhecimento técnico, pois o número de insetos desejável nas culturas depende da sua área, das variedades e da ocorrência de situações específicas.

O acompanhamento especializado inclui a conscientização, uma vez que estes indivíduos oferecem diferentes serviços aos sistemas produtivos, sem se alimentarem de plantas cultivadas. Com isso, a regulação de suas populações se faz naturalmente, em função da ocorrência de pragas que eles parasitam e demais condições ambientais relacionadas a seu ciclo de vida.

Nesse sentido, o mínimo revolvimento do solo, a manutenção da cobertura com raízes vivas o ano todo, a diversificação de espécies, a integração de atividades e a minimização do uso de agroquímicos contribuem para o restabelecimento da fauna diversificada e do equilíbrio entre populações nos agroecossistemas, com diferentes efeitos:

 

1. Incremento da disponibilidade de nutrientes no solo

Ao se alimentarem de fezes de mamíferos de diferentes espécies, insetos coprófagos promovem sua incorporação ao solo (Fig. 2), aceleram a ciclagem de nutrientes e aumentam seus teores, principalmente nas camadas mais profundas do solo.


Figura 2: Função ecológica dos besouros em pecuária orgânica e convencional.


Esterco acumulado na superfície do solo (em t ha-1 ano-1); porcentagens médias de esterco rolado (verde), desagregado (azul), enterrado (laranja) e não processado (verde escuro). 
Fonte: Verdú et al. (2018).


Em termos físicos, ao cavarem túneis e enterrarem partes do bolo fecal, os besouros aumentam a aeração do solo, diminuem as perdas de nitrogênio que ocorrem com o ressecamento das fezes em superfície e promovem o incremento dos teores de diferentes nutrientes, sobretudo de fósforo (P) e potássio (K) no solo (Fig. 3).
 

Figura 3: Níveis de P e K em solo argiloso, franco-arenoso e arenoso com e sem adição de esterco e besouros rola-bosta.

Letras diferentes representam valores estatisticamente diferentes usando teste Tukey (P<0,05).
Fonte: Bertone et al. (2006).

 

2. Controle de endo e ectoparasitas dos animais

O deslocamento de dejeções da superfície para o interior do solo também contribui para diminuir o inóculo de parasitas gastrointestinais (Fig. 4). A mudança das condições do ambiente impede a eclosão dos ovos, reduzindo a população de larvas e seu potencial de infestação.

Figura 4: Número médio de larvas de nematoides por grama de esterco de gado com e sem a presença de besouros.


*níveis de infestação inicial: A = de 250 a 600 ovos por g (opg); B = ±100 opg.
Fonte: Chirico et al. (2003).
 

A menor disponibilidade de substrato na forma de dejeções na superfície, adicionalmente, reduz a proliferação de pragas como a mosca do chifre e a mosca dos estábulos (Tab. 1).
 

Tabela 1: Proporção de ovos eclodidos (que se tornaram adultos) de mosca dos estábulos em relação à densidade de moscas e presença de besouros.


Fonte: Ridsdill-Smith et al. (1986).

 

3. Aumento da eficiência de uso das pastagens

A incorporação mais rápida das fezes depositadas sobre o pasto, reduz o efeito de rejeição da pastagem pelo animal, promovendo um maior consumo da forragem disponível, contribuindo para a potencialização / incremento da capacidade de suporte da propriedade.
 

Ganho econômico pelo manejo diferenciado de dejetos

O manejo diferenciado das dejeções animais por insetos coprófagos permite ganhos econômicos significativos por meio de perdas produtivas evitadas (Tab. 2), como reflexo dos efeitos citados anteriormente.

Tabela 2: Perdas econômicas totais evitadas anualmente como resultado da incorporação acelerada de fezes no solo por besouros ou escaravelhos (em milhões de dólares, nos EUA).

Fonte: Losey & Vaughan (2006).
 

Somam-se a estes, ganhos indiretos devido à ação de insetos coprófagos/decompositores, por exemplo, no aumento da velocidade de decomposição de carcaças de animais mortos e, portanto, no controle da transmissão de doenças.

 

4. Aumento da produção e dispersão de sementes

Insetos como abelhas e mamangavas, ao usar o pólen e o néctar das flores das plantas para se alimentar, transferem o pólen de flor em flor, facilitando a formação de sementes e sua dispersão.

Como resultado, lavouras e pastagens (girassóis, trevos, babosas, cornichões, etc.) têm sua produção de sementes otimizada, com impactos nos volumes colhidos ou incorporados ao banco de sementes do solo. Aportes aos estoques de sementes do solo, podem ser decisivos para a perenidade da produção, sobretudo em sistemas pastoris, pois, além de aumentarem a densidade de plantas das pastagens, propiciam a rápida recuperação da cobertura vegetal no caso do seu comprometimento por incêndios, secas intensas, enchentes ou erros de manejo.

 

5. Redução de perdas por pragas das plantas

Os insetos ocupam lugar de destaque entre os agentes de controle biológico de pragas de plantas, podendo reduzi-las a níveis que não ocasionem perdas econômicas aos cultivos.

Entre os principais controladores predatórios de pragas, figuram as joaninhas, tesourinhas e os bichos-lixeiros, vorazes predadores de pulgões, cochonilhas, ácaros, mariposas, piolhos, aranhas vermelhas, moscas brancas e ovos de insetos. Já as microvespas (Trichogramma spp.) despontam entre os insetos parasitoides e atuam diretamente sobre ovos de lagartas do milho, soja e outros cultivos. Ao depositarem seus ovos no interior dos do hospedeiro, interrompem o desenvolvimento da praga no início de seu ciclo, prevenindo danos produtivos.

 

Insetos agricultores: como chegar lá?

A cada dia, um número maior de grandes empresas do agronegócio se dedica à produção comercial de insetos benéficos, realizando estudos e testes práticos para diferentes finalidades. Como resultado, diferentes produtos específicos para controle biológico são hoje disponíveis no mercado brasileiro, incluindo insetos predadores e parasitoides, além de ácaros de diferentes espécies.

Apesar de seu potencial, existem desafios a serem superados, como a necessária inocuidade dos insetos selecionados para as demais atividades, bem como para o Homem e outros animais, e a inexistência de efeitos indesejáveis de outras naturezas. Estas condições reforçam a necessidade de assessoramento adequado no uso destas alternativas, sobretudo, na definição de arranjos produtivos.

Manejos específicos, como a disponibilização de estruturas e nichos protetores permitem a satisfação de demandas de diferentes espécies, incentivando sua proliferação (Fig. 5). Isso pode ser feito de forma muito simples: já que os ambientes naturais são diversos e equilibrados, áreas úmidas, matas ciliares e capões de mato conservados em sistemas de produção, além de servirem de abrigo para os animais, estimulam a ação da natureza e com ela a presença de insetos benéficos.


Figura 5: Diferença (em porcentagem) na quantidade de espécies de insetos e de plantas selvagens, entre áreas manejadas orgânica e convencionalmente.


Fonte: Mundy, 2020.
 

A constatação destes efeitos sobre as populações de insetos e demais artrópodes, como ácaros e colêmbolos, viabiliza sua utilização como bioindicadores de qualidade do ambiente, em razão de seu papel na decomposição e ciclagem de nutrientes, fluxos de energia etc. Assim, sua manutenção deixa de ter um interesse somente produtivo, passando a refletir a preservação e diversificação do ambiente de forma mais abrangente.

Tal visão de conjunto é fundamental na medida em que alguns insetos benéficos atacam outros insetos benéficos e que a adoção de uma prática, para alcançar um objetivo pontual, pode ter diferentes efeitos adicionais. Por exemplo, a utilização de inseticidas para eliminar infestações específicas de insetos pode ocasionar surtos secundários e novas demandas de aplicações de agrotóxicos, que em sistemas equilibrados seriam mais facilmente evitadas por meio da ação de inimigos naturais.

Observa-se, então um círculo vicioso, onde a simples aplicação de um inseticida, nematicida, acaricida ou fungicida, causa um desequilíbrio ao eliminar insetos benéficos (Fig. 6) gerando um encadeamento de efeitos que resultam em duplo prejuízo para o produtor: gasto injustificado e provável perda produtiva.


Figura 6: Taxa de sobrevivência (%) de bichos-lixeiros com aplicações de diferentes inseticidas.


Fonte: Montenegro & Simoni, 2021.
 

Assim, os insetos constituem importantes aliados dos produtores de leite, atuando tanto sobre o solo, como sobre os alimentos e a sanidade dos animais. Manejos que promovam a ação dos insetos benéficos e suas interações em ambientes produtivos representam mais do que meros avanços tecnológicos:

Têm enorme importância na manutenção da vida como um todo, fazendo parte da mudança de paradigma deste século, na qual a Humanidade tem deixado de ver a natureza como um simples conjunto de ameaças e matérias-primas, para sentir-se parte dela.

Novos horizontes, novos ventos, novas possibilidades!!!


 

Sobre o Instituto de Agricultura Regenerativa

O Instituto de Agricultura Regenerativa é uma associação privada, sem fins lucrativos, engajada na consolidação de um novo paradigma: a produção de alimentos saudáveis, ricos em nutrientes e sem resíduos de substâncias tóxicas pode promover a restauração de processos e relações naturais, gerando benefícios socioeconômicos e ambientais. Como tal, seus efeitos se assemelham ao que ocorre em ambientes naturais, onde os diferentes indivíduos interagem, de forma sinérgica e complementar.

Sem deixar de reconhecer a contribuição de práticas como o preparo mínimo do solo e o uso de culturas de cobertura em substituição aos agrotóxicos como contribuições efetivas da agricultura orgânica, a agricultura regenerativa dá um passo à frente: incorpora uma abordagem holística da produção agrícola, embasada em princípios de hierarquia ecológica e práticas conservacionistas. Com isso, regeneração, manutenção e aumento da resiliência da produção de alimentos se aliam à melhoria da qualidade de vida de produtores e consumidores de alimentos, tanto do meio rural como de grandes aglomerações urbanas.

Para saber mais sobre o Instituto, acesse o site

 

Colaboraram para esta publicação:

Derli Siqueira da Silva - Engenheiro Agrônomo, Mestre em Zootecnia e Doutor em Agronomia
Cléia Maria Siqueira - Médica Veterinária, Mestre em Zootecnia
Marcelo Abreu da Silva - Engenheiro Agrônomo, Mestre e Doutor em Ecoetologia
Milene Dick - Médica Veterinária, Mestre em Agronegócios e Doutora em Zootecnia
Rickiel Rodrigues Franklin da Silva - Engenheiro Agrônomo, Mestre em Agronomia
Maria do Carmo Both - Médica Veterinária, Mestre e Doutora em Zootecnia
Ana Paula Ott - Bióloga, Mestre em Biociências (Zoologia) e Doutora em Fitotecnia
Sebastião Ferreira de Lima - Engenheiro Agrônomo, Mestre em Agronomia e Doutor em Fitotecnia
João Carlos Gonzales - Médico Veterinário, Mestre e Doutor em Ciências Veterinárias
Homero Dewes - Farmacêutico, Mestre em Bioquímica e Doutor em Biologia

 

Referências

Bertone, M.A., et al. The contribution of tunneling dung beetles to pasture soil nutrition. Forage & Grazinglands, 4(1), 1-12, 2006.

Chirico, J., et al. Dung beetle activity and the development of trichostrongylid eggs into infective larvae in cattle faeces. Veterinary Parasitology, 118(1-2), 157-163, 2003.

Losey, J.E., & Vaughan, M. The economic value of ecological services provided by insects. Bioscience, 56(4), 311-323, 2006.

Montenegro M., Simoni, J. (org.). Atlas dos insetos: fatos e dados sobre as espécies mais numerosas da Terra. Fundação Heinrich Böll, Rio de Janeiro, 58p. 2021.

Mundy P. (org.). Insect Atlas: Facts and figures about friends and foes in farming. Heinrich Böll Foundation and Friends of the Earth Europe, Berlin and Brussels, 60p. 2020.

Ridsdill-Smith, T.J., et al. Competition between the bush fly and a dung beetle in dung of differing characteristics. Entomologia Experimentalis et Applicata, 41(1), 83-90, 1986.

Verdú, J.R., et al. Ivermectin residues disrupt dung beetle diversity, soil properties and ecosystem functioning: an interdisciplinary field study. Science of the Total Environment, 618, 2

INSTITUTO DE AGRICULTURA REGENERATIVA

O Instituto de Agricultura Regenerativa é uma associação privada, sem fins lucrativos, engajada na consolidação da produção de alimentos saudáveis, ricos em nutrientes e sem resíduos de substâncias tóxicas.

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RONALDO SOUZA

CASTRO - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/04/2022

Que maravilha poder produzir em harmonia com nosso ambiente de vida. Menos venenos e mais vida é o sonho de todo produtor. Li os artigos de vocês e achei respostas que não encontrei em outros lugares. Atento e ansioso pelos próximos. Obrigado pessoal.
INSTITUTO DE AGRICULTURA REGENERATIVA

ELDORADO DO SUL - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 15/04/2022

Nós é que agradecemos pela gentileza de seu feedback. Produzir promovendo a harmonia entre os diferentes componentes dos ecossistemas pastoris e agropecuários não é uma opção... É a única forma lógica, viável e resiliente de obter alimentos de qualidade. Ao trabalhar pelo equilíbrio clima-solo-planta-animal nos aproximamos da natureza e ela nos retribui. Felizes por lhe ter sido útil de alguma forma. Continue conosco nesta jornada em prol de um mundo melhor.
MARIA DO CARMO BOTH

CANOAS - RIO GRANDE DO SUL - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 23/03/2022

E viva a biodiversidade! Ainda temos tanto a aprender...
INSTITUTO DE AGRICULTURA REGENERATIVA

ELDORADO DO SUL - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO

EM 01/04/2022

Muito obrigado pelo entusiasmado comentário. Damos muito poucos VIVAS para o tanto que temos. Não valorizamos nossos recursos e virtudes.
... e estamos longe de conhecer a totalidade das riquezas que a exuberante e diversa natureza brasileira nos oferece.
Sigamos em frente na construção de um novo amanhã para os alimentos, o ambiente e a vida saudáveis que o Brasil e o mundo precisam.
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