ESQUECI MINHA SENHA CONTINUAR COM O FACEBOOK SOU UM NOVO USUÁRIO
Buscar

Fibra efetiva em dietas de vacas leiteiras - parte I: avaliação teórica

POR JOSÉ ROBERTO PERES

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/06/2000

5 MIN DE LEITURA

2
1

José Roberto Peres

Os efeitos da quantidade e fonte de forragem na produção e manutenção da composição do leite são conhecidos há muito tempo. A falta de forragem (fibra) na dieta desencadeia uma cascata de eventos, que conduzem a vários problemas de saúde, incluindo a acidose ruminal, abcessos de rúmen e fígado, laminite e torções de abomaso. Isto acarreta desde queda de produção e diminuição no teor de gordura do leite até, em casos extremos, a morte do animal.

Através da ingestão de partículas grandes as vacas mantém uma manta de fibra entrelaçada flutuante no rúmen, que estimula a ruminação através do atrito com sua parede e retém as partículas de menor tamanho, proporcionando tempo suficiente para sua digestão. Após vários ciclos de ruminação, as partículas fibrosas são reduzidas a um tamanho que permite sua saída do rúmen.

Em função da importância da fibra é que se tem a regra de manter a proporção de forragem:concentrado na dieta, no máximo, em 40:60. Esta regra todavia é antiga e atualmente o nível de fibra da dieta é melhor avaliado pelo teor de fibra detergente neutro (FDN). A recomendação é que, para garantir um mínimo de fibra, a dieta deve conter de 28 a 30% de FDN na matéria seca, sendo que pelo menos 75% deste FDN deve ser oriundo de forragem. Todavia, mesmo quando dietas com teores mínimos de fibra são fornecidos, pode não haver fibra "efetiva" suficiente para promover ótima fermentação ruminal e produção. Isto se deve ao fato do FDN ser um valor obtido através de análise "química", não importando o tamanho das partículas. Dessa forma, forragens excessivamente picadas ou subprodutos fibrosos podem ter altos valores de FDN e ainda assim não apresentarem o mesmo efeito da fibra longa. Em função disso, vários pesquisadores têm proposto formas de contabilizar, através de cálculos, esta "efetividade".

A proposta mais atual é do Dr. David Mertens, pesquisador do Centro de Pesquisa de Forragens para Gado Leiteiro dos EUA. Ele observou que a ruminação está relacionada ao teor de FDN (característica química) e com o tamanho das partículas (propriedade física) e propôs o termo "unidade forrageira" (UF) para definir a efetividade dos alimentos em estimular a ruminação. O valor máximo para a UF é 100, que representa um alimento hipotético com 100% de FDN numa forma física que estimule o máximo de ruminação por quilo de FDN, p.ex. um feno longo contendo 100% de FDN. Neste sistema o valor UF de um alimento seria diretamente proporcional ao seu teor de FDN multiplicado por um fator de desconto (entre 0 e 1) para reduzir o FDN de acordo com o tamanho da partícula e sua capacidade de estimular a ruminação. O sistema portanto é baseado em estímulo à ruminação mas os fatores de desconto foram obtidos através de experimentos anteriores que mediam a "efetividade" da fibra em manter o teor de gordura do leite, sendo portanto um híbrido destes dois conceitos.

Embora estes conceitos estejam relacionados, a efetividade da fibra em manter o teor de gordura do leite é diferente da efetividade da fibra em estimular a ruminação. Em função disso dois novos termos foram criados por um grupo de cientistas liderados pelo Dr. Mertens: o FDN efetivo (eFDN) é relacionado com a habilidade de um alimento em substituir a forragem de forma que o teor de gordura no leite seja mantido. O FDN fisicamente efetivo (feFDN) é relacionado com as propriedades físicas da fibra (tamanho da partícula) que estimulam a ruminação e permitem a formação da manta fibrosa no rúmen. O feFDN é sempre menor que o NDF, enquanto o eFDN pode ser menor ou maior que o teor de FDN do alimento.

A resposta do animal associada ao eFDN é a variação no teor de gordura do leite. Embora a base para a medida de efetividade seja o teor de FDN no alimento, o conceito que os valores de efetividade podem ser maiores que um ou menores que zero indica que outros fatores nos alimentos podem estimular ou deprimir o teor de gordura do leite. O eFDN engloba características dos alimentos associadas à capacidade de tamponamento; concentração e composição da gordura; teores de carboidratos e proteínas solúveis e taxas e quantidades de ácidos graxos voláteis que afetam a síntese de gordura.

A resposta animal associada ao feFDN é a ruminação. O feFDN é o produto do teor de FDN de um alimento por seu fator de efetividade (FE). O FE varia de zero, quando o FDN no alimento não estimula a ruminação, a um, quando o FDN promove o máximo de ruminação. Por ser relacionado ao teor de fibra, tamanho de partícula e sua redução em tamanho, o feFDN está relacionado à estratificação do conteúdo ruminal, que é um fator crítico na retenção seletiva de partículas grandes no rúmen; à estimulação da ruminação e motilidade do rúmen; e à dinâmica ruminal de fermentação e passagem. A secreção de saliva (resultante da ruminação) é um fator importante no controle do pH ruminal; portanto, o feFDN está relacionado com a saúde do animal e com o teor de gordura do leite através de sua relação com a secreção de saliva e o pH ruminal.

Existe uma metodologia apropriada para determinação dos valores de efetividade da fibra, mas a tabela abaixo apresenta valores médios de FE, que podem ser aplicados no cálculo da efetividade da fibra de dietas para vacas leiteiras.

 

Figura



Para que se tenha uma referência, a recomendação básica é que as dietas de vacas em lactação devem ter um mínimo de 21% de feFDN para manutenção do pH ruminal e do teor de gordura. No entanto este valor pode ser inadequado em dietas com o uso de pequena quantidade de gramíneas com alto FDN, associadas a grandes quantidades de grãos, devido ao excesso de carboidratos não estruturais de rápida fermentação. Neste caso valores um pouco superiores podem ser mais seguros. A inclusão de subprodutos fibrosos como a polpa de laranja ou a casca de soja em substituição a parte dos grãos neste tipo de dieta também deve ter um efeito positivo.

Comentário do autor: Como pode ser observado, os métodos atualmente existentes para avaliação da "efetividade" da fibra ainda não são absolutos e não conseguem "explicar", através de cálculos, toda expectativa que se pode ter no que se refere à adequação em fibra e saúde do animal, quando uma dieta específica é formulada. Todavia, devido à importância do assunto, estes cálculos são válidos, desde que associados a um certo grau de experiência e observação prática do nutricionista.

fonte: MERTENS, D., 2000. Physically effective NDF and its use in dairy rations explored. Feedstuffs. April 10.

2

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

EDUARDO AGUIAR EDUARDO AGUIAR

LUZ - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/04/2014

Excelente Materia. Muito prática e proveitosa.
KILL-SILVEIRA

CÁCERES - MATO GROSSO - PESQUISA/ENSINO

EM 29/03/2011

Gostei deste resumo, e da sua atitude pois este é um tema ainda pouco divulgado, um tanto quanto desconhecido por nossos pesquisadores e profissionais da área, e é de grande valia para aqueles que trabalham com animais de alta performance.
MilkPoint AgriPoint