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Farelo de trigo pode substituir parte do milho no concentrado de vacas em lactação

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/08/2005

7 MIN DE LEITURA

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Por Alexandre Mendonça Pedroso, Flávio A. Portela Santos e Hugo Imaizumi1

Dando seqüência à nossa série de artigos sobre utilização de ingredientes alternativos, especialmente os subprodutos da agroindústria, no concentrado de vacas leiteiras, desta vez vamos relatar alguns resultados da substituição do milho moído pelo farelo de trigo.

Como já comentamos aqui em artigos anteriores (Casca de soja em substituição ao milho moído em dietas de vacas em lactação e Utilização de níveis elevados de subprodutos da agroindústria em substituição ao milho moído em dietas de vacas em lactação), o preço pago pelo milho sempre tem um impacto significativo na contabilidade de qualquer fazenda. Considerando os valores publicados na última edição do Boletim A Nata do Leite (agosto de 2005), atualmente o produtor precisa dispor de 538 litros de leite para comprar 1 tonelada de milho em grão. Segundo informações do Instituto Cepa/SC, a continuidade dos leilões dos estoques de milho do governo, a inviabilidade das exportações pela valorização do real frente ao dólar, e a entrada da produção da safrinha têm contribuído para a manutenção dos preços do cereal, mas após o término da colheita da safrinha espera-se aumentos no preço do milho, impondo mais pressão sobre os pecuaristas que usam o cereal em larga escala.

Também conforme já comentado em artigos anteriores, a inclusão de subprodutos da agroindústria em dietas para vacas leiteiras, visa baixar os custos de alimentação, mantendo os níveis de produção de leite. Outro benefício da inclusão de subprodutos pode ser a redução no teor de amido das dietas, com concomitante aumento nos teores de fibra digestível, contribuindo para melhoria do ambiente ruminal.

Em nosso país a única alternativa para substituir o milho nas rações, com características semelhantes às do cereal, é o sorgo, que não se encontra disponível em muitas regiões, de forma que se faz necessário buscar alimentos que, mesmo com características bastante diferentes, possam substituir os grãos de milho na formulação de dietas para rebanhos leiteiros. Dentre as várias possibilidades, o farelo de trigo é mais uma alternativa interessante para substituir, pelo menos em parte, o milho em grãos das dietas de vacas em lactação.

Durante o processamento industrial do trigo, cerca de 70 a 75% da massa de grãos é convertida em farinha, sendo que os 25 a 30% restantes são considerados sub-produtos, normalmente comercializados como Farelo de Trigo. Como o foco da indústria é o endosperma dos grãos, rico em amido, o Farelo de Trigo é composto basicamente pela fibra, células da aleurona e parte do germe, resultando num sub-produto com teor energético elevado e bom teor protéico. O sub-produto contém teores mais elevados de fibra, proteína e minerais do que os grãos integrais, com teores menores de amido e energia (BLASI, et al., 1998).

DHUYVETTER et al. (1999) ressaltam que, por conter níveis elevados de fibra e níveis baixos de amido, em relação ao grão integral de trigo, e também a outros cereais, o farelo de trigo pode ser uma alternativa muito interessante em dietas de bovinos, principalmente quando se utiliza altos níveis de concentrado, esperando-se menor incidência de distúrbios digestivos. Os autores afirmam que o sub-produto pode ser um excelente suplemento para vacas sob pastejo, principalmente quando a forragem é de baixo valor nutritivo. A proteína do farelo de trigo é altamente degradável no rúmen, sendo utilizada com eficiência por ruminantes consumindo forragens de baixa qualidade, que via de regra são deficientes em proteína degradável no rúmen.
Para testar a viabilidade da inclusão do farelo de trigo (FT) em dietas já contendo polpa cítrica em substituição a parte do milho, realizamos recentemente outro trabalho na ESALQ/USP. As dietas foram formuladas através do programa NRC (2001) para serem isoprotéicas (17,0% PB). Os ingredientes utilizados foram: silagem de milho, milho moído fino, polpa cítrica peletizada, farelo de trigo, soja extrusada, farelo de soja, uréia, suplemento mineral e vitamínico e bicarbonato de sódio. Na Tabela 1 são apresentados os dados de produção e composição do leite, ingestão de matéria seca e nitrogênio uréico no leite.

Como pode ser observado, a inclusão do farelo de trigo não alterou o consumo de matéria seca, mas causou redução em praticamente todos os demais parâmetros avaliados. Houve efeito quadrático sobre a produção de leite (P<0,01), com valores mais elevados para TRG 10 e mais baixos para TRG 20, mas quando foi feita a correção para 3,5% de gordura, observou-se nítido efeito linear de redução desse parâmetro à medida que se adicionava o farelo de trigo à dieta (P<0,05). Com relação à composição do leite, a inclusão do subproduto provocou a redução da produção total de gordura, proteína (P,0,05) e lactose do leite (P<0,01), com consequante redução na produção de sólidos totais e sólidos não gordurosos do leite (P<0,05). Por se tratar de um subproduto fibroso, seria de se esperar que a inclusão do farelo de trigo pudesse causar um aumento na síntese de gordura no leite, o que não ocorreu.

Conforme relatam SANTOS et al. (2005), a literatura é carente em dados de comparação do farelo de trigo com outras fontes energéticas, especialmente o milho, de forma que é difícil comparar os dados obtidos neste trabalho com os de outros pesquisadores. ACEDO et al.(1987) formularam concentrados com 0; 20 e 40% e 0; 40 e 60% de FT em dois experimentos. A produção de leite das vacas que receberam 20 ou 40% de farelo de trigo foi semelhante à das vacas controle, mas a produção das que receberam 60% do subproduto no concentrado diminuiu, da mesma forma que no presente experimento. O teor de gordura no leite foi semelhante em todos os grupos. Nesta mesma linha de trabalho, MILLER et al. (1990), substituiram parte da silagem (mistura de gramínea com leguminosa) por uma mistura de vários subprodutos fibrosos, com predominância da polpa de beterraba (28,8% da MS da dieta) e farelo de trigo (25% da MS da dieta). O grupo que recebeu a dieta com subprodutos produziu mais leite (35,2 x 32,1 kg/dia), com maior teor de proteína (1,13 x 0,97 kg/dia) e consumiram mais FDN (1,16 x 1,05 % do peso vivo) e FDA (0,58 x 0,51% do PV). Outro efeito interessante, foi o aumento linear no teor de nitrogênio uréico do leite (P<0,01) com a inclusão do subproduto na dieta, o que pode refletir uma piora na utilização da proteína da dieta com a utilização do farelo de trigo, uma vez que a proteína deste subproduto é de alta degradabilidade ruminal (79,3%, segundo o NRC, 2001). Ao ser incluído em dietas com farelo de soja e soja extrusada, pode ter havido sobra de proteína degradável no rúmen, causando a elevação nos níveis de NUL.

Tabela 1. Ingestão de matéria seca, produção e composição do leite e concentração de nitrogênio uréico no leite para os diferentes tratamentos.

 


TRG 0= 20% milho moído fino; TRG 10= 10% milho moído fino + 10% farelo de trigo; TRG 20 = 20% farelo de trigo; Pr>F= probabilidade de haver efeito significativo entre os tratamentos; EPM= erro padrão da média; LCG 3,5= leite corrigido para teor de gordura igual a 3,5%; IMS= ingestão de matéria seca; NUL= nitrogênio uréico no leite.

Pelos resultados obtidos nesse trabalho pode-se concluir que a substituição dos grãos de milho pelo farelo de trigo em dietas de vacas leiteiras em confinamento, produzindo em torno de 30 kg leite/dia, com o nível mais alto de inclusão, foi desvantajosa. No entanto, no nível intermediário de substituição observou-se aumento na produção de leite, sem alteração nos parâmetros de composição do leite. Nesse caso, quando o custo de aquisição do subproduto for competitivo em relação ao milho, sua utilização pode ser uma alternativa interessante em sistemas de produção de leite.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACEDO, C. et al. Responses of dairy cows to different amounts of wheat middlings in the concentrate mixture. Journal of Dairy Science, 70:635, 1987.
BLASI, D. A.; KUHL, G. L.; DROUILLARD, J. S.; REED, C. L.; TRIGO-STOCKLI, D. M.; BEHNKE, K. C.; FAIRCHILD, F. J. Wheat middlings composition, feeding value and storage guidelines. Kansas State University Agricultural Experimental Station and Cooperative Extension Service, Boull. MF-2353, 21 p. 1998.
DHUYVETTER, J.; HOPPE, K.; ANDERSON, V. Wheat Middlings - A useful feed for cattle. North Dakota State University. Junho, 1999.
MILLER, T. K.; HOOVER, W. H.; POLAND, JR, W. W.; WOOD, R. W.; THAYNE, W. V. Effects of Low and High Fill Diets on Intake and Milk Production in Dairy Cows. Journal of Dairy Science 73: 2453-2459, 1990.
NATIONAL RESEARCH COUNCIL.. Nutrient Requirements of Dairy Cattle. Washington, D.C.: National Academy Press, 2001, 381p.
SANTOS, F. A. P.; PEDROSO, A. M.; MARTINEZ, J. C.; PENATI, M. A. Utilização da Suplementação com Concentrado para Vacas em Lactação Mantidas em Pastagens Tropicais. In: SANTOS, F. A. P.; MOURA, J. C.; FARIA, V. P., eds., Visão Técnica e Econômica da Produção Leiteira - Anais do 5° Simpósio sobre Bovinocultura Leiteira. FEALQ, Piracicaba, 2005. p. 219-294.


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1 ESALQ/USP, Departamento de Zootecnia

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MARCELO MORAES

POMPÉIA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 27/07/2014

Professor Alexandre



Tenho um caso em especifico, que fora substituido uma ração balanceada por uma "ração que tem dentro da composição alto volume de farelo de trigo", quais os trastornos que isso poderá desencadear para animais lactantes?? lembro que esses animais estão em regime a pasto com baixo valor proteico (em RO)??
MARCOS GABRIEL PINTO REZENDE

TURVOLÂNDIA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/08/2012

gostaria de saber como fazer uma ração para vaca leiteira de 12 lts. usando milho, farelo de trigo, sal mineral, ureia etd. sem o farelo de soja.
CARLOS SAMPAIO FARIA FILHO

OUTRO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 23/08/2006

É possivel identificar acidose observando o comportamento dos animais?

Em uma dieta composta por cana, uréia, polpa cítrica, farelo de trigo, concentrado e mineralização a vontade, qual pode ser causa para os animais estararem apresentando o estrume muito mole?

Grato.

<b>Resposta do autor:</b>

Prezado Carlos,

É possível identificar sinais de acidose pelo comportamento das vacas. Aumento na incidência de laminite é um indicador. Diarréia é outro. Nesses casos sempre é recomendável checar a dieta, principalmente o teor de amido e de fibra efetiva.

A ocorrência de fezes moles (diarréia) pode ter várias causas, a nutrição é uma delas. Nessa situação que você colocou, vale a pena checar o tamanho de partículas da cana. Um volumoso muito pulverizado pode levar à diarréia pela aumento na taxa de passagem e pelo baixo teor de fibra efetiva. Também é preciso conferir a relação volumoso:concentrado, pois mesmo com alta inclusão de subprodutos fibrosos, grandes quantidades de concentrado podem contribuir para essa ocorrência.

Atenciosamente,

Alexandre Pedroso
ALEXANDRE COTA LARA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 12/08/2005

Os valores percentuais de gordura tanto no grupo controle quanto nos tratamentos com trigo, mostrados na tabela, estão muito baixos (abaixo de 3%), inclusive mais baixos do que os teores de proteína. Estes valores estão corretos? Caso estejam corretos, esta inversão pode ser indicativo de acidose. Neste caso, o ambiente ruminal muito ácido poderia estar afetando os resultados finais de produção de leite, proteína e gordura? Com menos amido no rúmen (substituição do milho pelo farelo de trigo) esperava-se menor proteína no leite em oposição a maior gordura pelo maior teor de fibra da dieta contendo mais trigo.



<b>Resposta do autor:</b>



Resposta:



Prezado Alexandre, creditamos à utilização de soja extrusada (em torno de 10% da MS das dietas) boa parte da redução nos teores de gordura do leite observados nesse experimento, em função da presença de óleos polinsaturados, que podem induzir a depressão na gordura do leite, assunto já discutido neste radar em artigo publicado no ano passado (<a href=https://www.milkpoint.com.br/mn/radarestecnicos/artigo.asp?nv=1&area=17&area_desc=Nutri%26ccedil%3B%26atilde%3Bo&id_artigo=20585&perM=8&perA=2005>leia clicando aqui</a>). Claro que vacas de alta produção, como as utilizadas nesse experimento, frequentemente encontram-se em situação de risco potencial de acidose, em função do alto consumo de matéria orgânica digestível, e isso também pode ter constribuído para os resultados, mas acreditamos que o principal determinante dessa inversão nos valores de gordura e proteína tenha sido a soja extrusada.



Atenciosamente,



Alexandre Pedroso

MilkPoint AgriPoint