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Farelo de Amendoim: virtudes e limitações para utilização em rações de vacas leiteiras

POR ALEXANDRE M. PEDROSO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/09/2005

4 MIN DE LEITURA

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Já há algum tempo eu me deparo com questionamentos sobre a utilização do farelo de amendoim na alimentação de bovinos, e pela falta de experiência com a utilização desse subproduto, sempre acabo deixando os interlocutores sem resposta, ou com informações pela metade. Para sanar essa falha, saí a campo garimpando informações, pois os trabalhos sobre utilização desse subproduto em rações de bovinos leiteiros são praticamente inexistentes.

O farelo de amendoim tem valor nutricional superior ao do farelo de algodão e características bastante semelhantes às do farelo de soja (tabela 1), mas sua fração protéica possui degradabilidade ruminal bem mais elevada que a do farelo de soja.
 

1 = Laboratório de Bromatologia - ESALQ/USP (média de 3 análises)
2 = Góes et al. (2004)
3 = Valores da tabela do NRC(2001)
4 = Calculado segundo a metodologia do NRC (2001); taxa de passagem fixada em 5,7%/h.
5 = No Brasil, o farelo de algodão mais comumente utilizado na alimentação de bovinos tem 38% de PB.

Essa maior degradabilidade ruminal do farelo de amendoim impõe aos nutricionistas duas dificuldades. Em primeiro lugar, limita a utilização de uréia em rações com esse subproduto, já que boa parte da PDR (proteína degradável no rúmen) do farelo de amendoim é composta por NNP (nitrogênio não protéico). Fazendo uma simulação no NRC (2001), ao formular uma ração para uma vaca produzindo 20 kg leite/dia, consumindo 9 kg MS de cana, 1,4 kg MS de farelo de algodão, 2 kg MS de farelo de soja, 1,8 kg MS milho, 1,5 kg MS polpa cítrica, 100 g de uréia e 340 g de minerais, conseguimos atender corretamente a suas necessidades de PDR (sobra de 24 g/d). No entanto, se tentarmos substituir o farelo de soja pelo farelo de amendoim, haverá sobra de 240 g PDR/dia (10 vezes mais), o que só conseguimos acertar reduzindo a uréia para 20 g/dia.

A outra dificuldade se refere ao balanceamento de PM (proteína metabolizável). Na mesma simulação, com a dieta com farelo de soja, conseguimos fechar o balanço de PM em 30 g/dia, mas ao fazer a substituição pelo farelo de amendoim, haverá déficit de 245 g PM/dia, e isso é bem mais complicado de acertar. Para manter os 2 kg MS de farelo de amendoim, é preciso retirar toda a uréia, reduzir o milho e aumentar o farelo de algodão, e ainda assim haverá sobra de PDR (167 g/dia), que não é muito, mas pode ser suficiente para elevar os níveis de uréia no leite acima do desejado.

Dessa forma, entendo que a utilização desse subproduto pode ser interessante para vacas com produção de até 20 kg leite/dia, onde o nível de inclusão não será muito alto. Pela falta de informações disponíveis é difícil fazer recomendações práticas, mas acredito que 2 kg/vaca/dia seja um limite para a utilização do farelo de amendoim, pensando num balanceamento correto de PDR e PM. Acima disso pode ficar complicado, e praticamente inviabiliza a utilização de uréia.

Outra questão importantíssima é a possibilidade de contaminação do amendoim com micotoxinas, especialmente as aflatoxinas, que podem contaminar o farelo. A ingestão de aflatoxinas pode até levar o animal à morte, e no mínimo causa redução de consumo e desempenho, dependendo da dose e da freqüência de ingestão, além da idade, peso vivo, sexo e estado nutricional do animal.

O efeito agudo da intoxicação por aflatoxinas é de manifestação rápida, podendo levar o animal à morte, e é resultante da ingestão de doses elevadas. O efeito subagudo é resultado da ingestão de doses mais baixas, ocorrendo distúrbios e alterações em diversos órgãos, especialmente no fígado. Ambos os casos dependem da espécie animal (umas são mais susceptíveis que outras), da idade (os mais jovens são mais afetados), do estado nutricional e, também, do sexo. Sabe-se, também, que ela pode provocar cirrose, necrose do fígado, proliferação dos canais biliares, síndrome de Reye (encefalopatia com degeneração gordurosa do cérebro), hemorragias nos rins e lesões sérias na pele, pelo contato direto. Além disso, os produtos do seu metabolismo no organismo (principalmente o 2,3 epóxi-aflatoxina), reagem com DNA e RNA a nível celular, interferindo com o sistema imunológico do animal. Isto faz com que a resistência a doenças diminua.

O Ministério da Agricultura estabelece que o teor máximo de aflatoxinas em matérias primas destinadas à fabricação de rações para animais é de 50 ppb (partes por bilhão, ou mg/1000 kg). De qualquer forma a tolerância máxima para presença de aflatoxinas em rações para diferentes categorias animais é:

  • Vacas em lactação: < 20 ppb;

  • Vacas secas: < 30 ppb;

  • Animais jovens e/ou sob stress: < 20 ppb.


No caso de bovinos, a dose letal (DL 50) é de 10 ppm (partes por milhão, ou mg/kg). Ao adquirir uma partida de farelo de amendoim, esta deverá ser analisada antes da utilização, em laboratório especializado em análise de micotoxinas. Dessa forma percebe-se que a utilização desse subproduto deve ser cuidadosa e criteriosa. Quando seu preço for competitivo, pode ser uma alternativa interessante para compor rações de vacas leiteiras, desde que sejam respeitadas as restrições nutricionais e sanitárias.

Literatura consultada:

FONSECA, H. "O Amendoim e a Aflatoxina". Boletim Técnico n° 13. In: https://www.micotoxinas.com.br/Boletim13.htm Acessado em 23/09/2005.
GOES, R. H. T. B; MANCIO, A. B.; VALADARES FILHO, S. C.; LANA, R. P. "Degradação ruminal da matéria seca e proteína bruta de alimentos concentrados utilizados como suplementos para novilhos." In: https://www.editora.ufla.br/revista/28_1/art22.htm Acessado em 23/09/2005.
NATIONAL RESEARCH COUNCIL.. Nutrient Requirements of Dairy Cattle. Washington, D.C.: National Academy Press, 2001, 381p.

ALEXANDRE M. PEDROSO

Engenheiro Agrônomo, Doutor em Ciência Animal e Pastagens, especialista em nutrição de precisão e manejo de bovinos leiteiros

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JUNIOR FARIASS

SANTA RITA DE JACUTINGA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/05/2020

Estou começando agora e queria sabe se posso dá pra minhas Vaca ,soja,fubá
Farelo de amendoim e de algodão.
Dês de já agradeço.
AILTON

JABOTICABAL - SÃO PAULO - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 05/04/2016

como aumentar a proteina do farelo de amendoim?
GUSTAVO ANDRE GIMENES

PARANAVAÍ - PARANÁ

EM 12/12/2013

Para reduzir micotoxinas em rações pode ser utilizados adsorventes. O mais barato hoje é o caolin uma bentonita de origem mineral que se associa a aflatoxina tornando-a não absorvível pelo TGI do animal.
LUCAS TEDESCO

QUINTANA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/07/2013

Ola Sr.Alexandre, sou Zootecnísta e produtor de leite, estou formulando uma dieta, com farelo de amendoim,  para meu rebanho, más gostaria de saber se existe alguma técnica para eliminação ou diminuição do teor de aflatoxinas do farélo?

Sera que não seria possível tambem diminuir ainda mais a % de uréia?
ALEXANDRE M. PEDROSO

PIRACICABA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 06/04/2011

Thiago, nesse caso o teor de PDR da dieta vai ficar excessivo, o que pode comprometer o desempenho. O perfil de proteína do farelo de amendoim é mais parecido com o do farelo de soja, por isso a decisão de incluir o subproduto no lugar da soja.

Att,

Alexandre Pedroso
THIAGO ALVES DE OLIVEIRA

REGISTRO - SÃO PAULO - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 31/03/2011

Por que não colocar o aelo de amendoim no lugar no farelo de algodão e manter o farelo de soja?
LUIZ CARLOS DA SILVA

SÃO VICENTE DE MINAS - MINAS GERAIS

EM 30/04/2009

Boa noite!
Necessito de informações sobre uso de farelo de amendoim na alimentação de gado leiteiro!!

Atenciosamente,

Luiz Carlos
JOSE SAVIO

LAVRINHAS - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA LATICÍNIOS

EM 05/02/2009

Qual a porcentagem de farelo de amendoim que posso usar numa ração de vacas leiteiras até 20kg?
ANTONIO CARLOS FERREIRA

NOVO HORIZONTE - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/01/2009

Bom dia. Você falou em diminuir o milho e aumentar o algodao. Qual seria uma formula de ração para vacas ate 20 kg de leite? Qual seria a porcentagem do milho e do algodao para balancear uma ração? Obrigado, Ferreira.
ALEXANDRE M. PEDROSO

PIRACICABA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 30/07/2008

Prezado Alessandro,

Não conheço nenhum trabalho a respeito. Acredito que se o nível de inclusão na dieta não for elevado (abaixo dos 2kg/vaca/dia) não deve haver problemas com isso.

Att,

Alexandre Pedroso
ALESSANDRO CARPANEZ DOS REIS

GUARANI - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/07/2008

Caro prof:

Disseram-me que o farelo de amendoin impede a absorção de cobre, tendo como maior consequencia a ausencia de cio dos animais (vacas de leite). Gostaria de saber se existe algum trabalho sobre o assunto, pois trabalho com o produto e preciso saber se corro algum risco, afinal reprodução é o principal foco de minha atenção.

Desde já obrigado.

Alessandro, Guarani, MG
PAULO FERNANDO ANDRADE CORREA DA SILVA

VALENÇA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/10/2005

Caro Prof. Alexandre Pedroso,



Quando participei do curso online ministrado por V.S., mencionei que eu utilizava o farelo de amendoim na ração que, na época, misturava na fazenda. Hoje continuo utilizando o farelo de amendoim, só que agora em ração que ajudei a desenvolver e que está sendo produzida por um fabricante de rações comerciais.



Mudei o processo para ter análise de micotoxinas, adsorvente e melhor controle de qualidade. A fórmula tem 15% de farelo de amendoim. Utilizo também para animais em fase inicial e crescimento, com excelente resultado. A Fazenda Córrego da Serra está a sua disposição para avaliação.



Abraço,



Paulo Fernando, Santa Isabel do Rio Preto, RJ
MilkPoint AgriPoint