Diversificar o pasto pode atenuar os efeitos da estiagem prolongada?

Diversificar o pasto é uma alternativa para seca? Prever o futuro pode ser difícil, mas se preparar melhor para o que pode acontecer é palpável. Entenda aqui!

Publicado em: - Atualizado em: - 3 minutos de leitura

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"Diante do contexto de incertezas climáticas é fundamental estabelecer estratégias que promovam o aumento da resistência e resiliência dos sistemas de produção de leite à base de pasto"


Já dizia o provérbio dinamarquês: “É difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro", sintetizando a ideia de que é arriscado e incerto fazer previsões sobre o futuro.

Entretanto, nos últimos anos (2019-2021) a região Sul tem experimentado eventos climáticos adversos, grandes volumes de chuva concentrados em poucos dias, seguido por períodos de escassez hídrica. Nesse sentido, apesar de ser difícil prever com precisão a ocorrência de secas, o retrospecto dos últimos anos nos acende um alerta para os próximos, uma vez que este fenômeno parece rotineiramente rondar as propriedades da região.

Dentro deste contexto de incertezas climáticas, é fundamental estabelecer estratégias que promovam o aumento da resistência e resiliência dos sistemas de produção de leite à base de pasto. Dentre as estratégias ligadas a pastagem, a escolha de mais do que uma espécie forrageira é uma alternativa para dar flexibilidade ao sistema produtivo.

Pastagens anuais normalmente apresentam menor tolerância a seca em relação a pastagens perenes, entretanto, mesmo entre pastagens perenes, a tolerância é variável. Em função disso, a diversificação de espécies é interessante tanto na escala de piquete (várias espécies no piquete) quanto na escala de propriedade (piquetes com espécies diferentes).

Atualmente na área experimental de forragicultura da UDESC – Lages/SC há dois experimentos sendo conduzidos concomitantemente, um deles envolve o consórcio de capim-quicuiu, tifton 85, amendoim forrageiro, trevo branco e cornichão. Durante o período de verão as gramíneas correspondem a 90% da massa de forragem deste experimento, e apesar da diversidade de espécies promover resistência e resiliência ao sistema, as taxas de crescimento estão extremamente baixas (janeiro/2022) em virtude da falta de chuva (Figura 1).

Figura 1

A alguns metros da área da Figura 1 há um experimento com capim elefante cultivar BRS Kurumi, esta espécie também tem apresentado menores taxas de crescimento, entretanto, tem permitido uma frequência de pastejo superior a área de gramíneas perenes de crescimento prostrado e visualmente demonstra maior tolerância a falta de chuvas (Figura 2).

Figura 2

É importante salientar também que a área com capim elefante foi plantada a cerca de um ano (janeiro/2021), suportou o inverno rigoroso de 2021 (>75% de sobrevivência de touceiras) (Figura 3) e após uma roçada em meados de setembro, os primeiros pastejos foram realizados em cerca de 50 dias.

Figura 3

Os experimentos estão em fase de coleta de dados, mas as percepções iniciais nos permitem considerar que o capim elefante cultivar BRS Kurumi é uma alternativa para atenuar os efeitos da seca durante a estação quente no Sul do Brasil.

Por outro lado, a mistura de capim-quicuiu e tifton 85, além de performar muito bem quando há regularidade de chuvas, permite a sobre semeadura de espécies anuais de inverno, (ex.: aveia e azevém), o que é uma vantagem se comparada ao capim elefante, pois há produção de forragem na área em um período que a monocultura está em dormência.

Apesar disso, mesmo ao se considerar apenas as estações quentes do ano, as duas áreas utilizadas como exemplo entregam resultados e tolerâncias diferentes, logo, podem compor como opções forrageiras em conjunto para a mesma fazenda.

Para finalizar o raciocínio, utilizo uma frase do psicólogo americano Abraham Maslow: “Para quem só sabe usar martelo, todo problema é um prego”. Ao trazer a reflexão para o tema desta matéria, podemos interpretar da seguinte maneira, ter apenas um tipo de pasto na fazenda e ser especialista em manejá-lo pode funcionar muito bem em um determinado cenário, mas na indústria a céu aberto do campo, na qual o clima tem um papel determinante, é necessário ter mais espécies à disposição, é preciso carregar uma caixa de ferramentas, afinal, às vezes, o alicate pode ser mais útil.

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Material escrito por:

Daniel Augusto Barreta

Daniel Augusto Barreta

Zootecnista, Pesquisador da Epagri/Cepaf.

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