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Benefícios do uso de alimentos concentrados em sistemas intensivos de produção de leite em pastagens tropicais

POR RAFAELA CARARETO POLYCARPO

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/03/2009

4 MIN DE LEITURA

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Como já mencionado no artigo anterior, sistemas de produção animal baseados apenas na utilização de pastagens não atendem a demanda de nutrientes para altas produções individuais (produção superior a 14 kg leite/dia, por exemplo). Com isso, suplementos concentrados podem ser utilizados para corrigir as deficiências de nutrientes dos animais em pastejo, sendo estas de ordem qualitativa e quantitativa.

Diversos estudos têm sido realizados testando a aplicação de várias doses de concentrado para sistemas de produção de leite em pastagens tropicais (podemos citar estudos de Vilela, 1980; Alvim, 1997; Aroeira, 1999 e Teixeira , 1999). Nestes estudos as doses variaram de 1 a 11 kg de concentrado, com produções da ordem de 8,3 a 30,6 kg de leite/vaca/dia.

A utilização correta de concentrado é um instrumento potente para aumentar a produtividade do sistema, devido ao impacto na produção individual da vaca e ao aumento na lotação da pastagem e, consequentemente, aumento na produção de leite por área.

Quanto aos benefícios do uso do concentrado, podemos dizer que há efeitos de longo e de curto prazo. Os efeitos de curto prazo são: aumento no consumo de matéria seca (MS) total, diminuição no consumo de MS de forragens (efeito de substituição), aumento na produção individual de leite e aumento no peso vivo. Já os efeitos de longo prazo são: aumento na taxa de lotação das pastagens, aumento na fertilidade, aumento no consumo de MS por área, aumento no tempo de duração da lactação e aumento na produção de leite por área.

Em síntese, a curto e longo prazo, a suplementação com concentrado promove aumento na produção de leite individual e por área e melhoria nos índices de fertilidade do rebanho.

Em 2003, Santos e colaboradores revisaram diversos trabalhos de pesquisa sobre suplementação com concentrado para vacas mantidas em pastagens tropicais. Os dados desta revisão mostraram produção média de leite de 13,80 kg/vaca/dia com o fornecimento de 3,45 kg de MS de concentrado ao dia, e ainda consumo de 9,83 kg de MS de forragens e consumo total de 13,28 kg de MS/dia. Quando se considerou apenas os trabalhos com produção de leite acima de 20 kg por vaca/dia, a produção média de leite foi de 22,78 kg/vaca/dia com o fornecimento de 6,45 kg de MS de concentrado ao dia. O consumo de MS de pasto foi de 11,70 kg e o consumo total foi de 18,15 kg de MS/dia.

A viabilidade econômica da utilização da suplementação tem sido muito questionada e este questionamento tem sido baseado em trabalhos de curta duração, nos quais as respostas em kg de leite extra por kg de concentrado têm normalmente sido baixas. Respostas de apenas de 0,5 a 1,0 kg de leite por kg de concentrado fornecido foram reportadas por diversos autores (como Valle, 1987; Alvim, 1996 e Vilela, 1996). Entretanto, ao se comparar os dados médios de todos os experimentos revisados por Santos em 2003 com vacas sem e com suplementação, compilados na Tabela 1, pode-se inferir que as respostas ao concentrado foram superiores a 1,3 kg de leite por kg de concentrado fornecido.

Tabela 1. Comparação entre produção e composição de leite de vacas mantidas em pastagens de clima tropical recebendo ou não suplementação com concentrado.

Clique na imagem para ampliá-la.

As respostas da suplementação com concentrado em sistemas de produção de leite, no Brasil, têm sido prejudicadas por diversos fatores. Alguns dos mais importantes são:

a) tentativa de compensar via concentrado a falta de forragem tanto quantitativa quanto qualitativamente.

b) o uso de vacas não-especializadas para a produção de leite, com baixo potencial de resposta.

c) diversas falhas no manejo dos animais.

Vale ressaltar que as respostas da suplementação são maiores em pastagens tropicais comparativamente a pastagens de clima temperado, devido principalmente ao menor valor nutritivo e menor efeito de substituição em pastagens tropicais. Portanto, no momento de se decidir em fornecer ou não concentrado, técnicos e produtores deverão considerar não apenas o aumento na produção individual de leite, e sim todos os benefícios de longo prazo já mencionados, principalmente o aumento de produção por área devido a elevação na taxa de lotação causada pelo efeito de substituição.

No próximo artigo iremos definir e tentar quantificar o efeito de substituição nesse tipo de sistema de produção.

Referências:

ALVIM, M. J. et al. Efeitos de dois níveis de concentrado sobre a produção de leite de vacas da raça Holandesa em pastagem de "Coast-Cross". In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 33., 1996, Fortaleza. Anais... Fortaleza: [s.n.], 1996. p. 12-173.

AROEIRA, L. J. M. et al. A Pasture availability and dry matter intake of lactating crossbred cows grazing elephantgrass (Pennisetum purpureum Schum). Animal Feed Science and Technology, v. 78, p. 313-324, 1999.

SANTOS, F. A. P.; MARTINEZ, J. C. ; VOLTOLINI, T. V. ; NUSSIO, C. M. B. Utilização da suplementação com concentrado para vacas em lactação mantidas em pastagens tropicais. In:. V SIMPOSIO GOIANO SOBRE MANEJO E NUTRIÇÃO DE BOVINOS DE CORTE E LEITE, 5., 2003, Campinas. Anais... Campinas: Art Point Produções Gráficas, 2003. p. 289-346.

SANTOS, F. A. P ; PENATI, M.A. ; CARARETO, R. ; DANÉS, M. A.C. . Produção de leite com base em pastagens. In: DOS SANTOS GT ; Uhlig, L. ; BRANCO, Antônio Ferrriani ; JOBIM, Cloves Cabreira ; DAMASCENO, Júlio Cesar ; CECATO, Ulysses. (Org.). Bovinocultura de Leite Inovação tecnológica: inovação tecnológica e sustentabilidade. 1 ed. Maringá: EDUEM, 2008, v. 1, p. 153-178.

TEIXEIRA, E. I. et al. Avaliação da produção e utilização de uma pastagem de capim-tobiatã (Panicum maximum cv. Tobiatã) sob pastejo rotacionado. Scientia Agrícola, Piracicaba, v. 56, n. 2, p. 349-355, 1999.

VILELA, D. et al. Efeito da suplementação concentrada sobre o consumo de nutrientes e a produção de leite, por vacas em pastagem de capim-gordura (Melinis minutiflora). Rev. Soc. Bras. Zootec., v .9, n. 2,1980.

VALLE, L. C. S. et al. Níveis de concentrado para vacas em lactação em pastagem de capim-elefante (Pennisetum purp ureum, Schum) no período das águas. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 24., l987, Brasília. Anais... Brasília: Sociedade Brasileira de Zootecnia, 1987. p.56.

RAFAELA CARARETO POLYCARPO

Profa. Dra. Universidade de Brasília - UnB

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RAFAELA CARARETO POLYCARPO

PLANALTINA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO

EM 24/03/2009

Prezado Rogério Lima,
a substituição total do amido por pectina continua sendo estudada e avaliada por várias instituições de pesquisa. Na sessão de "Nutrição" você poderá encontrar artigos deste assunto que poderão te ajudar. Mas aparentemente a substituição total de amido por pectina dependerá do nível de produção do rebanho. Martinez, apresentou dados (artigo da sessão de "nutrição" de 18/12/07) em qu, para vacas com produção entre 13 a 22 kg de leite/dia, a utilização de polpa cítrica peletizada não afetou a produção de leite. Já com vacas produzindo ao redor de 30 kg de leite/dia, houve redução na produção quando a polpa substituiu 50% do milho na dieta. Entretanto, quando a polpa substitui 33% do milho, a produção foi numericamente superior à dieta exclusiva com milho.

Com relação às respostas de suplementacão em pastagens de clima tropical, estas são mais expressivas do que em pastagens de clima temperado devido a pior qualidade dos pastos tropicais.
Espero ter ajudado.
Obrigada.
RAFAELA CARARETO POLYCARPO

PLANALTINA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO

EM 24/03/2009

Prezado Rogerio Lima,
conforme discutido no artigo do mês anterior desta mesma sessão, quando se trata de um pasto bem manejado e que recebe adubações nitrogenadas, o que limitará a produção de leite (até por volta dos 14 kg de leite dia) é a energia, neste caso a suplementação deverá ser energética. Mais lembre-se, tudo dependerá da qualidade do pasto.
ROGERIO SILVA DE LIMA

TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 15/03/2009

Qual a melhor suplementação, protéica ou energética? E em qual época do ano?
ROGERIO SILVA DE LIMA

TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 15/03/2009

O efeito na pastagem tropical é menor porque é de pior qualidade? E teria diferença se o concentrado fosse de amido ou de pectina?
RAFAELA CARARETO POLYCARPO

PLANALTINA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO

EM 06/03/2009

Prezado Carlos Otávio Mader Fernandes,

A resposta de 1,3 kg de leite para cada kg de concentrado é o resultado da seguinte conta: (13,8 kg de leite - 9,33kg de leite)/3,45, ou seja, é a diferença de produção de leite entre os animais suplementados e não suplementados, dividido pela quantidade de concentrado.
Quando dizemos que foi realizada uma "compilação" de dados, entenda que vários trabalhos foram revisados, tentando agrupá-los de maneira mais homogênia possível (neste caso os animais foram divididos em maior e menor produção).
Concordo plenamente que o controle leiteiro é uma ferramenta essencial e que poucos produtores possuem o hábito de fazê-lo. E como visto no artigo anterior, ao se conhecer a qualidade das forragens, teremos maior segurança no momento do fornecimento do concentrado, podendo muitas vezes resultar em economia financeira para o produtor.

Obrigada pelas considerações.
CARLOS OTÁVIO MADER FERNANDES

CONCÓRDIA - SANTA CATARINA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 04/03/2009

Dr. Rafaela.
Muito bom seu artigo. Nao consegui entender a tabela 1 e compilação de um trabalho com resposta de 1,3 litros de leite por kg de concentrado.
Animais com a mesma genetica e estagio produtivo?
Ou sao trabalhos diferentes con condicoes geneticas, estagio de lactacao, oferta e qualidade de pasto diferentes, sendo avaliados de forma igualitaria para se chegar a esta resposta de eficiencia dos concentrados?

Em todas as recomendacoes de uso de alimentos concentrados, nós estamos esquecendo da principal ferramenta, que é o uso do controle leiteiro. Quantos produtores fazem o controle leiteiro a cada 15 dias? Quantos tecnicos recomendam e formulam o concentrado de acordo com a qualidade das pastagens e controle leiteiro? Vamos parar com essa bobagem de recomendar 1,0 kg de concentrado para cada 3,0 kg de racao. E se fornecermos 12 kg de racao por vaca por dia, com alta proteina melhora a fertilidade? Qual é o limite do uso de alimentos concentrados? Nao estamos considerando nossos pastos que nas analises bromatologicas apresentam muito bons niveis de energia e proteina, bem como dos principais minerais, como alimento de enchimento ou seja " volumosos"?

Desculpe os questionamentos, mas sei pelos seus artigos anteriores, que talvez alugumas destas questoes podem ser pertinentes.

Atentamente
Carlos Mader Fernandes
ANA NEVES

TERESINA - PIAUÍ

EM 03/03/2009

Dr. Rafaela,
Muito bom seu artigo! É sempre bom estarmos atentos a todos detalhes no momento de se decidir o uso ou não do concentrado, e as vezes nos esquecemos do aumento na taxa de lotação.
Parabéns!
MilkPoint AgriPoint