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Algumas dicas para se contornar a alta no preço do farelo de soja

POR JOSÉ ROBERTO PERES

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/06/2001

6 MIN DE LEITURA

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José Roberto Peres

Certamente neste momento muitos dos leitores estão preocupados com as recentes altas no preço do farelo de soja, que encareceu grande parte das dietas de bovinos leiteiros, sem uma correspondente compensação no preço do produto final, o leite.

O farelo de soja é uma "commodity", termo em inglês, utilizado para denominar alimentos que têm seu preço determinado pelo mercado internacional. Isto significa que, independente do que ocorrer no mercado interno, o preço da soja vai variar de acordo com sua cotação, em dólar, no mercado internacional. Em outras palavras, o farelo de soja, e vários outros alimentos, têm um "custo de oportunidade", ou seja, se o produtor brasileiro não quiser comprar, infelizmente para o produtor de leite (felizmente para o produtor de soja e para o país que é o segundo maior produtor mundial de soja), algum criador ao redor do mundo provavelmente irá comprá-lo. Sendo assim, não há muita margem para negociação. Isto não significa que as "commodities" não sigam as leis da oferta e procura; simplesmente elas se baseiam em mercados mundiais. Exemplo disso é que, mesmo antes da alta do dólar, o preço do farelo de soja já se encontrava alto em função da maior procura pelo produto, especialmente na Europa, para substituir fontes de proteína animal por medo da transmissão da "doença da vaca louca". A cotação do dólar somente agravou uma situação que já era crítica.

O farelo de soja tradicionalmente é a fonte de proteína básica da dieta de bovinos leiteiros. Poucas são as alternativas para substituí-lo e raramente se consegue o mesmo resultado, quando a substituição é total. Isto se deve a diversos fatores que serão brevemente discutidos a seguir.

Em primeiro lugar, a alta concentração protéica do farelo de soja (52% de proteína bruta na matéria seca) facilita a formulação das dietas. Especialmente quando se trata de vacas de média-alta produção, a grande demanda por nutrientes, limitada pela freqüente limitação de consumo, adicionada da não rara baixa qualidade das forragens, determina a necessidade de formulação de dietas mais "concentradas". Nestes casos o farelo de soja é essencial.

Talvez seu substituto mais próximo em nosso meio seja o farelo de algodão. Próximo, mas não igual. O farelo de algodão é comercializado com dois teores de proteína, ambos inferiores em proteína e energia disponível que o farelo de soja (tabela 1). Isto parece ser especialmente verdadeiro para a proteína disponível e, por esta razão, recomenda-se que dietas com farelo de algodão contenham um pouco mais de proteína (1 a 2%) para se igualarem ao farelo de soja. Em alguns casos também é preciso pequena suplementação energética. Mesmo assim a diferença de preços normalmente é compensadora. Além disso, recomenda-se precaução quando utilizar farelo e caroço de algodão ao mesmo tempo nas dietas. Os subprodutos do algodão contêm gossipol, substância que pode ser tóxica em altos níveis. Limite a participação destes produtos a 3-4 kg por animal dia (a soma dos dois).

A proteína do farelo de algodão degrada mais lentamente que a do farelo de soja e pode limitar a fermentação ruminal. Sua combinação com quantidade adequada de uréia ajuda a aumentar o teor de "proteína" da dieta e estimula a fermentação ruminal. Para completar o perfil de aminoácidos do farelo de algodão é inferior ao do farelo de soja, o que deve responder, em parte, pelo desempenho inferior.

Excluindo-se o farelo de algodão, talvez a única fonte concentrada de proteína disponível em grande quantidade para substituição da proteína da soja seja o farelo de glúten de milho com 60% de proteína. Com cerca de 68% de proteína bruta na matéria seca, este produto é comercializado sob os nomes de Protenose® (marca registrada da Corn Products) ou Glutenose® (Cargill). As limitações deste concentrado protéico são seu preço, que quando avaliado por unidade de proteína normalmente se iguala ou, na maioria das vezes, supera o custo da proteína da soja, o que inviabiliza a substituição. Além disso, trata-se de uma proteína de degradação ruminal muito baixa, o que limitaria o desempenho dos animais em substituições totais da soja e seu perfil de aminoácidos também é limitante.

 

Tabela 1: Composição bromatológica de alguns alimentos "protéicos"

 

Tabela 1



Fonte: Várias NE = não encontrado

A partir daí, as fontes alternativas seriam os alimentos com médio teor de proteína, que conforme já comentado, sozinhos muitas vezes não permitem a obtenção da concentração protéica necessária, mas podem contribuir para a diminuição da participação dos farelos protéicos na dieta, em muitos casos reduzindo o custo.

Uma opção é o farelo de glúten de milho com 21% de proteína, outro subproduto do processamento do milho para obtenção de amido. É comercializado sob os nomes de Promill® (Cargill) ou Refinazil® (Corn Products). Possui cerca de 23% de proteína bruta na matéria seca. Sua proteína caracteriza-se pela alta degradabilidade ruminal, o que faz com que ele não seja uma boa combinação com uréia ("proteína" totalmente degradavel no rúmen). O excesso de proteína degradável pode ser prejudicial. De qualquer maneira podem ser incluídos até 15-20% do produto na matéria seca das dietas ou 3-4 kg/vaca/dia sem qualquer inconveniente. Seu perfil de aminoácidos é inferior ao do farelo de soja.

Outro alimento de médio teor de proteína (na matéria seca) é o resíduo de cervejaria. É um produto variável em função da matéria prima utilizada na fabricação da cerveja mas possui entre 23 e 28% de proteína bruta na matéria seca. Sua proteína é de boa qualidade, com degradação mais lenta que o farelo de soja e bom perfil de aminoácidos. Seu problema reside no alto teor (variável) de umidade do produto, que implica em rápida degradação e, por conseqüência, difícil estocagem, muitas vezes inviabilizando seu uso. Também em função disso, é importante que seu custo seja avaliado a partir do teor de matéria seca e dos nutrientes nela contidos. Uma dificuldade adicional é que a constância de entrega do produto normalmente deixa a desejar especialmente nesta época de inverno (severo) quando a produção de cerveja cai drasticamente. Isto também faz com que seu preço se eleve.

Uma última alternativa, é o caroço de algodão. Semente oleaginosa que possui teores intermediários de proteína e fibra, além de alto teor energético. Em relação à proteína, ela também é de alta degradabilidade ruminal. Deve ser limitado a 2-3 kg/vaca/dia em função de seu alto teor de óleo, que pode prejudicar a fermentação no rúmen. Nesta época tem preço competitivo, podendo auxiliar na substituição de parte da proteína do farelo de soja. Tem como inconveniente o fato de normalmente só se tornar viável quando adquirido em grande quantidade, para "diluir" o custo do frete.

O impacto destas substituições é menor nos animais de menor potencial produtivo, que têm menor exigência protéica. No caso de animais em crescimento, a substituição total do farelo de soja pelo farelo de algodão com 38% de proteína normalmente não traz qualquer prejuízo ao desempenho. Quando se tratar de vacas de alta produção procure fazer a substituição somente parcial do farelo de soja.

A combinação de várias destas fontes também pode contribuir para um resultado mais satisfatório, embora seja difícil especialmente para as pequenas propriedades, que têm dificuldade de aquisição e mistura de diferentes alimentos.

Comentário do autor: Infelizmente não existem muitas alternativas para solução do problema do custo da soja. Para piorar a situação, praticamente em todas elas existe a possibilidade de alguma perda em desempenho dos animais. O difícil é equalizar a redução de custos com as perdas, de difícil previsão. Na maioria dos casos ainda dependemos do antiquado e ineficiente método da "tentativa e erro". De qualquer forma, a observação das características dos alimentos pode reduzir em muito estas incertezas. Consulte um nutricionista.

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VERIANO HORAS

BODOCÓ - PERNAMBUCO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/10/2020

Bom dia, alguém sabe informar se tem alguma alternativa para substituir o farelo de soja.
TALISSON VICTOR SILVA LARA

LAVRAS - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 07/07/2008

No caso de alimentação de novilhas com cana, uréia, caroço de algodão e farelo de soja, qual seria uma proporção sem risco entre caroço e farelo de soja para esses animais?

Obrigado desde já!
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