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Afinal, o que tem de novo no NRC 2021?

POR STEPHANIE ALVES GONSALES

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/10/2021

13 MIN DE LEITURA

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O NRC (National Research Council) é conhecido como a principal base de informações para a formulação de dietas de bovinos e conta com uma matriz de dados de análises de composição de alimentos extremamente extensa, servindo de base para zootecnistas e profissionais da área estabelecerem a melhor dieta para os animais.

Após 20 anos da última edição do NRC, a atualização trouxe novidades na área de bovinocultura de leite. Com cerca de 500 mil observações de performance, além de 300 novas pesquisas de modelagem para definir equações, os dados foram utilizados para melhorar a acurácia do modelo 2020/2021 do NRC.

As mudanças foram inúmeras, começando pelo nome. O nome do conhecido NRC foi alterado para National Academy of Sciences, Engineering and Medicine – NASEM (Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina). Embora tenha ocorrido essa alteração no nome, na prática, acredita-se que o conhecido nome “NRC” permaneça.

Conversamos com a Professora de Nutrição de Bovinocultura de Leite da Universidade Federal de Viçosa Polyana Pizzi Rotta, com o Professor Marcos Neves, titular de Bovinocultura de Leite da Universidade Federal de Lavras e com a Carla Bittar, professora do Departamento de Zootecnia da ESALQ/USP e Doutora em Ciência Animal e Pastagens na ESALQ/USP respeito dessas atualizações e mudanças da publicação de 2021 do NRC.

Carla apontou brevemente algumas mudanças que ocorreram na área de bezerras: “Após 20 anos da sua última publicação, este ano ocorreu o lançamento do novo NRC. Nesse período muitas práticas de alimentação de bezerras foram alteradas, assim como muitos resultados de pesquisa foram publicados. A nova publicação atualizou algumas das recomendações anteriores de energia proteína e minerais. Além disso, melhorou a nossa capacidade de predizer o consumo de alimentos por animais jovens. A publicação traz ainda um compilado de considerações práticas de alimentação de bezerras, considerando estas pesquisas dos últimos 20 anos.

Polyana destacou um ponto importante a respeito das informações contidas na nova publicação, citando que os dados são a respeito da Raça Holandesa. Alguns dados possuem complementariedade e levam em consideração a proteína do Jersey para alguns ajustes, mas, de forma geral, os dados são a respeito da raça Holandesa e não há informações se os dados estimados contemplam de forma assertiva as raças Jersey pura, Pardo Suiço ou Girolando, pois não foram raças testadas na hora de formular as equações.

Marcos citou a confiabilidade dos dados trazidos pelas publicações do NRC e afirma que todas as alterações foram feitas em cima de pesquisas práticas. “Todas as recomendações técnicas aqui expostas, são realmente validadas. O NRC tem a preocupação de validar todas as recomendações, e a Academia se preocupa em ter respaldo sobre tudo que é falado”, concluiu.
 

Mudanças do novo NRC

  • Matéria Seca

A formulação de uma dieta tem como base o cálculo de consumo da matéria seca (MS) do alimento que está sendo ofertado à vaca. Estimar a MS é necessário pois com esse dado é possível determinar a quantidade de nutrientes que o animal ingere com determinada formulação da dieta.

Sabendo da importância de estimar o consumo da matéria seca, a nova publicação do NRC trouxe algumas mudanças.

A antiga equação levava em consideração três fatores: produção de leite corrigida para gordura, peso do animal e a semana de lactação. O NRC 2021 dobrou os dados utilizados como base para predizer a MS e criaram uma equação mais robusta, levando em consideração agora o fator de paridade (se a vaca é primípara ou multípara), o escore de condição corporal (ECC; variando de 1 a 5) e a quantidade de energia do leite, - agora caracterizada pela gordura, lactose e proteína, tornando cada vez mais importante o técnico e o produtor saber mais sobre a composição do seu leite.

 “É a partir da composição do leite que o nutricionista fará a estimativa da energia contida no leite e realizará a formulação da dieta dos seus animais, por isso, é de extrema importância ter conhecimento sobre esses dados. E conhecer esses dados apenas no tanque de forma geral não é o suficiente. Coletar amostras de vacas em lotes diferentes trás maior assertividade na exigência dos animais, possibilitando assim, a formulação de uma dieta que supra as necessidades dos animais como um todo.” ressaltou Polyana.

Quanto ao escore corporal, Rotta destacou a subjetividade desta análise, mas destacou a importância do monitoramento. “É subjetiva a análise, mas precisa ser monitorada. Quanto mais gorda for a vaca, menos ela come. Além do período de paridade em que a vaca está, também interfere. Se for uma vaca multípara que esteja gorda, ela vai comer muito menos do que uma vaca primípara que também esteja gorda. É preciso observar!”

Além de informações sobre o animal, os alimentos também podem trazer informações que permitem (ou obriguem) alterar uma formulação de dietas. Em um exemplo, utilizou-se a equação proposta acima pela nova publicação do NRC 2021 e foi estimado que a vaca necessita de 20kg de matéria seca. Ao formular essa dieta com cana-de-açúcar, sabe-se que a fibra que este alimento oferece é bem mais indigestível que a de silagem de milho, por exemplo. Dessa forma, é necessário reavaliar a quantidade e a composição geral da dieta para fechar todos os pontos necessários para que o animal se alimente de forma adequada levando em consideração o alimento fornecido.

Sabendo disso, uma segunda equação baseada nos fatores físicos da dieta é proposta, para trazer certeza se a vaca pode ou não comer aquilo que foi estimado. Os fatores físicos são: 
- FDN (fibra em detergente neutro) da forragem;
- Relação FDA x FDN;
- FDN da forragem digestível;
- Produção de leite

De forma geral, as novas equações trazem uma maior assertividade para o nutricionista e o produtor formular uma dieta que supra todas as exigências do seu rebanho.

Neves apontou essa equação de traz as características da dieta como algo positivo e que complementa a formulação. “Essa segunda equação consegue falar se está sendo colocado forragem de mais ou de menor qualidade, diminuindo consumo e consequentemente a produção. O programa agora tenta te alertar sobre esses pontos, o que é muito interessante”, afirmou.

 

  • Gordura

O tipo de gordura da dieta influi diretamente no consumo, digestibilidade e aproveitamento do alimento ofertado ao seu rebanho e ainda pode trazer diminuição do teor de gordura do leite. Sabendo disso, é importante que a formulação atenda os padrões e necessidades do rebanho.

Polyana destacou uma melhora na estimativa da energia proveniente da gordura, que são os ácidos graxos. Essa melhora é devida as análises possuírem uma curva de calibração específica para os AG (ácidos graxos) utilizando o NIRS, fazendo com que esta estimativa seja melhor.

Segundo Neves, a predição de energia provinda da gordura é mais precisa neste modelo do NRC do que no anterior.

Do ponto de vista prático, o NRC 2021 traz na composição dos alimentos o perfil de ácidos graxos dos alimentos, sendo possível formular uma dieta tendo a quantidade de gordura saturada, gordura insaturada e ácido linoleico bem definidos para os alimentos, por exemplo, trazendo maior assertividade nas dietas e possibilitando ajustes da dieta com base em perfis de ácidos graxos, coisa que antes era bem mais complicado.

 

  • Carboidratos

Duas grandes mudanças ocorreram na parte de carboidratos no NRC 2021: Houve a inclusão de amido e excluiu a utilização do CNF – Carboidrato não fibroso. A nova publicação traz apenas amido e matéria organiza residual.

Matéria orgânica residual é caracterizada por: (CNF – amido) e, de forma prática, é a quantidade de açúcar, pectina, ácidos orgânicos da silagem e possui alta digestibilidade.

O amido passou a entrar em muitas equações na atualização do NRC 2021 pois, além de ser muito importante para a dieta, ao longo dos anos muitos laboratórios foram se preparando para realizar a análise com base no amido, trazendo então, a possibilidade de formulação de dieta com base no amido. 

Mas ainda há um problema: os dados não trazem a partição de digestibilidade do amido, trazem apenas a digestibilidade total. E sabendo que o alimento pode ser mais ou menos digestível no rumem, seria importante saber o quanto deste foi digerido no rumem, o que o NRC não aborda ao trazer apenas sua digestibilidade total.

Um alimento pode ter o mesmo valor de digestibilidade total que outro, mas, quando verificada sua digestibilidade efetiva, a digestibilidade do rumem – que vai gerar o aproveitamento real do alimento e produzir leite, um alimento pode possuir mais que outro, por isso seria importante verificar as partições de digestibilidade que o amido possui. Mas mesmo sem essa partição, já foi um ganho considerável ter essa inclusão.
 

  • Energia

A maneira convencional de estimar energia era pelo NDT (nutrientes digestíveis totais), mas esta maneira não é mais utilizada. Agora a energia digestível é utilizada para essa estimativa.

Para estimar a energia digestível, utiliza-se: ácidos graxos digestíveis, amido digestível, matéria orgânica residual digestível, PDR digestível, PNDR digestível e a FDN digestível. Dessa maneira, a equação nova faz com que a estimativa de energia digestível contida na dieta aumente, por essa fórmula apresentar maior assertividade – aumentando 10% de energia.

Porém, essa maior assertividade não trouxe muitas vantagens, pois também foi observado um aumento na exigência das vacas. “Durante as pesquisas notou-se que a exigência de energia aumentou 25%. Então, mesmo que tenha tido um aumento da energia digestível vinda da dieta, a maior exigência dos animais equilibrou essa conta”, ressaltou Polyana.  

 

  •  Fibra

Quanto à fibra, há a possibilidade de verificar a quantidade adequada de duas formas: uma tabela fixa que o NRC oferece, aonde o teor de FDN varia de acordo com o teor de amido. A tabela deixa a formulação da dieta mais engessada por conta das regras que a tabela impõe. A outra forma de verificar a quantidade de fibra na dieta é mais complexa, porém, pouco prática. FDN ajustável fisicamente necessita de muitos dados, o que a torna pouco aplicável e menos prático para o técnico responsável em formular a dieta.

O professor Marcos Neves explica que essa nova metodologia visa predizer o PH do rúmen e a ruminação do animal e ressalta que há a necessidade de avaliar como essas mudanças vão ser aplicadas de forma prática.

Em resumo, as novidades trazidas pelo NRC 2021 em termos de fibra são pouco aplicáveis por serem difíceis de realizar no campo, e, mesmo que as equações sejam boas, a realidade do Brasil está longe de alcançar os processos necessários para utilizar a equação proposta.

A melhor forma de ajustar a fibra nas formulações então, é de fato utilizar uma tabela de referência para cada período que os animais se encontram, para evitar problemas como acidose por exemplo. Dessa maneira, a melhor forma é trabalhar com o FDN da forragem. A tabela abaixo representa uma recomendação prática de FDN da forragem que não está no novo NRC, mas que é baseada em vários trabalhos científicos e aplicações práticas de campo.


 

  • Proteína

A parte de proteínas é, de fato, muito complexa e a nova publicação do NRC trouxe duas grandes mudanças.

A fração que sofre mudanças no rúmen – síntese de proteína microbiana – antes era baseada em NDT, ou seja, a estimativa de proteína microbiana era com base no NDT então, quanto mais NDT mais proteína microbiana. Com as mudanças, agora é utilizado a FDN digestível, amido digestível e a PDR, a proteína que é degradável no rúmen. A mudança na forma de calcular, ignorou o extrato etéreo e a presença de matéria orgânica residual – pectina, ácidos orgânicos de silagem, açucares etc., o que foi uma grande mudança.

Quanto as taxas de degradação da proteína, as definições permanecem as mesmas. Sendo elas:
A – Solúvel;
B – Parcialmente Solúvel;
C – Indigestível

Uma outra grande mudança que houve na parte de proteínas, é no quesito de proteínas pós rúmen. O novo modelo se baseia nos aminoácidos mais importantes: metionina, lisina, histidina, isoleucina e leucina; e destaca a necessidade de balancear todos eles. “O que vai definir a proteína do leite e a produção é o fluxo dos cinco aminoácidos, o consumo de energia, o consumo de FDN e o peso da vaca, ou seja, para a vaca produzir mais leite e mais proteína do leite, ela precisa estar com esses cinco aminoácidos balanceados.”, afirmou Polyana.

Porém, trazendo para a realidade Brasil, há uma limitação de alimentos ricos em aminoácidos por conta da proibição da utilização de farinha de ossos, farinha de sangue, entre outros, que são alimentos que possuem boa disponibilidade de aminoácidos. Sendo assim, atualmente no Brasil não há muito o que ser feito quanto a parte de balancear os aminoácidos, por questão de viabilidade econômica.

Para formulação da dieta, é necessário que tenha os valores de proteína bruta e PDR e PNDR. A nova publicação deu um passo atrás quanto a esta formulação e voltou com as recomendações do NRC 1989, fixando valores de PDR e PNDR.

Quanto ao balanço de nitrogênio no rúmen, também houve um retrocesso. Antes havia a possibilidade de verificar esse balanço na hora de formular a dieta, e com ele, adaptar melhor a quantidade de ureia ofertada e baratear a dieta. Hoje não há mais essa possibilidade. Para isto, agora há a necessidade de realizar a amostra no tanque e avaliar o NUL – Nitrogênio Ureico do leite. Dessa forma, há um trabalho a mais para conferir se não está excedendo os valores recomendados.

 

  • Minerais

Houve grandes mudanças na questão de minerais do NRC 2001 para o NRC 2021, porém, a indústria já vinha adotando muito dessas mudanças ao decorrer deste tempo devido aos grandes pesquisadores do NRC divulgarem inúmeros trabalhos durante esse período, o que fez com que a indústria fosse se adaptando conforme as novidades eram lançadas.

Uma dessas grandes mudanças foi a redução da exigência de potássio e sódio para a produção de leite, pautada na diminuição de casos de mastite reduzindo a exigência destes minerais. Em contrapartida, a exigência de cobre, zinco e manganês foi aumentada.

Neves ressalta que as mudanças não foram muito significativas, pois, muitas vezes o aumento de absorção desses minerais é compensado pela maior exigência, gerando pouco impacto.
 

  • Vitaminas

A nova publicação trouxe um aumento da exigência de vitamina D, vitamina A e vitamina E. Essas mudanças acabam trazendo um impacto econômico significativo, tendo em vista o custo de implementar essas vitaminas na dieta.

 

  • Estresse térmico

Embora seja uma realidade por toda a extensão do Brasil, nos EUA há uma presença pequena de animais que passam por estresse térmico, o que fez com que a publicação do NRC 2021 não leve em consideração o gasto energético de animais em estresse térmico.

Sabendo disso, há a necessidade de atenção neste ponto. As novas equações levam em conta que os animais estejam em conforto térmico e, caso não estejam, todas essas equações e exigências acabam se alterando.

“O NRC 2001 havia dado um passo com questão de conforto térmico e índices de temperaturas, mas a nova atualização não trouxe novidades no sentido de ajustes levando em consideração o estresse térmico dos animais, sendo essa uma das principais críticas modelo lançado”, concluiu Marcos.

 

  • Impacto ambiental

Mesmo com toda a preocupação envolvendo o assunto não tenha tido nenhum avanço quanto as questões de estresse térmico, o NRC 2021 abordou outro tema bem atual e importante que tem sido tratado por todos com muita atenção, que são as emissões de impacto ambiental.

Marcos falou sobre a predição de alguns gases poluentes que o NRC levou em consideração: “O modelo vai predizer metano, vai predizer excreção de nitrogênio e vai predizer a excreção de fósforo. Este era um ponto que não existia no modelo anterior, mas como cada dia que passa a produção de leite tem sido pressionada nesse quesito, o NRC trouxe essas predições.”
 

As mudanças nas exigências, equações e recomendações na nova publicação do NRC são inúmeras e vão além do que foi citado previamente aqui. Dessa forma, o MilkPoint em parceria com o EducaPoint apresenta para vocês uma imersão no assunto com a Professora Polyana Rotta e com a Professora Carla Bittar, com conteúdo especial para você ficar por dentro de todas as mudanças e atualizações do novo NRC e levar o que há de mais novo para a produção de leite.

Inscreva-se e fique por dentro deste assunto tão importante na produção de leite!  

STEPHANIE ALVES GONSALES

Zootecnista formada pela Universidade Estadual de Maringá e pós-graduada em Gestão do Agronegócio, Assistente de Conteúdo MilkPoint.

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