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Afecções podais e produtividade na bovinocultura leiteira

POR LUCIANE MARIA LASKOSKI

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/03/2011

6 MIN DE LEITURA

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A tecnificação da produção de leite trouxe um grande entrave para a ampla produtividade: as enfermidades podais, as quais representam umas das afecções mais recorrentes e de difícil manejo preventivo. As lesões do casco raramente levam o animal à óbito, no entanto por causarem incômodo quando o animal fica em pé e ao caminhar, reduzem consideralmente sua produtividade, por reduzir a quantidade de alimento ingerido, uma vez que as vacas acometidas passam boa parte do tempo deitadas.

Além da baixa produtividade, para tratar do problema muitas vezes tem-se a necessidade da utilização de medicamentos, os quais levam ao descarte do leite dos animais doentes, e, menor vida útil da vaca. As lesões levam, inclusive, a redução da taxa reprodutiva das vacas doentes, uma vez que as mesmas permanecem mais tempo em balanço energético negativo que as demais no período pós-parto, em que o animal está gastando mais energia para a produção de leite, e não consegue ingerir a quantidade de alimento suficiente para repor este gasto. Assim, não conseguem voltar ao escore corporal adequado para reiniciar o ciclo reprodutivo no mesmo tempo das demais, aumentando o intervalo entre partos.

Os sistemas de produção estabulados, ou seja, intensivos, são os que mais sofrem com o problema, uma vez que as afecções estão diretamente ligadas ao fornecimento de alimentos concentrados, como no caso da laminite (em decorrência da acidose láctica ruminal), mas, sobretudo, com o tipo de piso em que ficam, na maioria abrasivos, que ferem os cascos. A maior incidência se dá justamente em estabulações com grande quantidade de material orgânico acumulado, umidade excessiva e, portanto, higiene precária.

A maioria dos galpões para alojamento das vacas leiteiras possuem piso de concreto, por ser mais barato, de fácil higienização e fornecer maior estabilidade para os animais; no entanto, são suficientemente abrasivos para o casco. Alguns criadores optam por colocar pisos emborrachados, os quais não são duros e abrasivos como o concreto, reduzindo as lesões no casco; porém, se tornam mais difíceis de serem limpos, e dificultam a locomoção dos animais, especialmente durante a limpeza, quando tornam-se extremamente escorregadios com água. Recomenda-se, em qualquer tipo de piso, que o mesmo seja limpo e que os animais só retornem quando ele esteja seco.

O problema pode ser visto em sistemas semi-intensivos ou até mesmo extensivos, em que o deslocamento dos animais por terrenos pedregosos e íngremes,ou com muito barro, favorece o desenvolvimento das lesões, especialmente se os aprumos dos membros locomotores, mais especificamente do casco, não estiverem corretos.

Existe uma predisposição genética que favorece as afecções em animais mais especializados para produção leiteira, e de raças taurinas. A raça holandesa é a mais acometida dentre todas, sendo seguida pelas raças Jersey, Pardo Suíço e, com menor prevalência, a raça Girolanda. Em estudo feito por Souza et al (2006) observou-se prevalência de 55% em vacas holandesas e Dias Junior et al. (2010) verificaram 18% de vacas Girolandas com as afecções podais. Os relatos de altos índices relacionados a raça holandesa também foram realizados por Smits et al. (1992), com 83,1% de animais acometidos na Holanda e Vermunt e Greenough (1996) com 77% de animais doentes, ambos citados por Sturion et al. Cerca de 70% das afecções se localizam nos membros pélvicos, ou posteriores, e em vacas adultas prenhes ou em lactação. Dificilmente bezerros são acometidos, mas todas as faixas etárias podem apresentam o problema.

Muitas propriedades adotam, com relativa eficiência, os pedilúvios preventivos de infecções podais. Neste caso, é importante colocar um lava-pés, com água, na entrada da sala de ordenha, o qual tem o objetivo de remover as sujidades dos pés dos animais, melhorando a higiene do local, e posicionar um pedilúvio na saída da sala de ordenha, este sim, com substâncias antissépticas para reduzir os microorganismos no casco.

É importante que este pedilúvio fique na saída para que os produtos adicionados não corroam os utensílios da sala de ordenha, tampouco contaminem o leite ordenhado. A construção do pedilúvio, segundo Borges e Garcia (2002) deve ser de 2,0 a 2,5 m de comprimento e largura de 0,7 m, com profundidade de 0,3m. A lâmina d'água deve ter a altura de 0,15m, ou seja, não deve ultrapassar a coroa do casco dos animais. O fundo deve ser de superfície rugosa, e tanto a saída quanto a entrada do pedilúvio devem ter inclinação de 10 a 20°graus. As substâncias mais utilizadas são o formol e o sulfato de cobre. O formol, utilizado na proporção de 2 a 5%, age matando as bactérias e tornando o casco mais endurecido, dando maior resistência. O sulfato de cobre é um excelente germicida, sendo utilizado na porcentagem de 3%. A utilização de ambos, em dias alternados, seria o ideal.

Recomenda-se a realização de casqueamento periódico dos animais, para remover excessos de tecidos córneos do casco, o que obriga os animais a pisarem de maneira incorreta, lesionando as estruturas do casco. Este procedimento normalmente deve ser realizado a cada seis meses, tanto em vacas com lesões no casco, e pode-se aproveitar para fazer o tratamento das lesões, quanto em animais sadios, para a correção dos aprumos. Assim, haverá redução na incidência das afecções podais pelo desequilíbrio no apoio. Em boa parte das afecções podais, tem-se a necessidade da intervenção cirúrgica da lesão, procedimento este que deve ser feito por um médico veterinário, pois somente ele pode avaliar cada caso para saber qual o tratamento correto.

Um estudo realizado por Silva et al (2009) aponta um medicamento fitoterápico, o barbatimão, como poderoso cicatrizante das lesões podais. No experimento, foram realizadas intervenções cirúrgicas em bovinos nelores com dermatite interdigital, divididos em três grupos, e para cicatrização pós-cirúrgica foi utilizado o barbatimão como extrato da casca da planta em um grupo, e em outro grupo, a mesma planta utilizada como unguento; o terceiro grupo foi tratado somente com limpeza dos cascos em água.

Os dois grupos que receberam barbatimão tiveram recuperação de 72,5% com extrato da planta e 67,5% como unguento, respectivamente; o grupo que não utilizou barbatimão teve recuperação somente de 12,5% dos animais, demonstrando diferença estatística, ou seja, o barbatimão realmente contribuiu para a cicatrização dos tecidos. Não houve diferença estatística entre os grupos que utilizaram barbatimão, mas aparentemente o produto na forma de extrato tem melhor poder de ação, o que indica que possivelmente ele possa ter boa ação também como pedilúvio, o que tornaria sua aplicação mais fácil em animais com lesões o casco já tratadas, ou de pequena dimensão. Sua ação está ligada a alta quantidade de taninos presentes na planta, que é uma substância adstringente, reduzindo a quantidade de água no local, favorecendo a cicatrização da ferida. É importante lembrar que a planta está associada a intoxicações em bovinos, quando ingerida em grandes quantidades.

Deve-se lembrar que o manejo alimentar deve ser feito de maneira correta para minimizar o aparecimento de acido ruminal subaguda, a qual é responsável pelo alto índice de laminite. Para obter maiores informações sobre este manejo alimentar, consultar o artigo "Acidose láctica ruminal subaguda e as perdas na produção de tempo", nesta mesma sessão (Sanidade - Milkpoint).

Para finalizar, de nada adianta tratar os animais doentes se não houver uma adequação da propriedade para reduzir as afecções. Para isto, deve-se ajustar o manejo, tanto alimentar quanto de casqueamento e limpeza do piso, bem como proceder a instalação de pedilúvio para reduzir a incidência da doença.


Figura 1: úlcera de talão, frequente na unha lateral de membros pélvicos de vacas leiteiras. Fonte: Arquivo pessoal


Figura 2: Barbatimão, utilizado como cicatrizante. Fonte: http://bit.ly/e0dLJw

Referências:

BORGES, J.R.J.; GARCIA, M. Guia Bayer de podologia bovina. 2002. Disponível em: http://www. mgar.com.br/podologia/default.asp Acesso em 18 de março de 2011.
DIAS JUNIOR, J.C.P.; HELAYEL, M.A.; NASCIMENTO, F.G. 2010. Frequencia e etiologia de afecções podais em bovinos mestiços de diferentes idades no município de Rio Preto-MG. Disponível em: < http://www.inicepg.univap.br/cd/INIC_2009/anais/arquivos/RE_1121_1390_01.pdf> Acesso em 18 de março de 2011.
SILVA, L.A.F.; MOURA, M.I. et al. Extrato da casca do barbatimão (Stryphnodendron barbatiman Martius) associado ao tratamento cirúrgico e toalete dos cascos na recuperação de bovinos da raça nelore com dermatite digital. Ciência Animal Brasileira. Suppl 1., p.373-378, 2009.
SOUZA, R.C.; FERREIRA, P.M. et al. Perdas econômicas ocasionadas por afecções podais em vacas leiteiras confinadas em sistema Free-stall. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia. v.58, n.6, p. 982-987, 2006.
STURION, D.J.; STURION, M.A.T.; OKANO, W.; COELHO, L.F.C.; STURION, T.T. Tratamento de úlceras de sola em 30 bovinos. Dusponível em: < http://www.cienciaanimal.com.br/VD0024.htm> Acesso em 18 de março de 2011.

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EDUARDO GOMES

SALVADOR - BAHIA - ESTUDANTE

EM 03/12/2018

Parabéns Luciane!
Qual a sugestão para o piso das instalações?
EDUARDO GOMES

SALVADOR - BAHIA - ESTUDANTE

EM 28/11/2018

Parabéns Luciane!!
Com relação ao piso das instalações, o que seria mais indicado?
JOÃO BATISTA PEREIRA DOS SANTOS

TURMALINA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/06/2018

Parabéns Luciane.
Já usava o barbatimão pratimente em qualquer tipo de ferida animal, desde galinhas até cavalos e a eficácia é surpreendente. Acredito ser o melhor cicatrisante existente. Na minha região tem muitas árvores de barbatimão.
VINICIUS RODRIGUES COURA PEREIRA

PASSA QUATRO - MINAS GERAIS

EM 11/06/2013

boa tarde Luciane  

muito bom seu artigo.

estou desenvolvendo um trabalho de conclusão de curso sobre casqueameto preventivo em bovinos leiteiros  e estou com dificuldades para achar referencias bibliograficas sobre o assunto gostaria de saber se voce poderia me ajudar, pois domina o assunto

obrigado!
FERNANDO ALZAMORA FILHO

ILHÉUS - BAHIA - PESQUISA/ENSINO

EM 25/10/2011

Olá Luciane, parabéns pelo artigo.

Gostaria de saber se vc conhece empresas que vendem tronco de casqueamento móvel para bovinos?

obrigado.
MARCO TÚLIO MOREIRA MARTINS

VIÇOSA - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 24/04/2011

Olá Luciane,

Gostei muito do seu artigo, e gostaria de saber se pode realizar o uso do Barbatimão no pedilúvio como uma maneira de reduzir a incidência das afecções podais? Obrigado
LUCIANE MARIA LASKOSKI

CUIABÁ - MATO GROSSO - PESQUISA/ENSINO

EM 03/04/2011

Prezado João Batista,

Obrigada por compartilhar sua experiência conosco!

Atenciosamente,

Luciane Laskoski
JOAO BATISTA RODRIGUES

SÃO ROQUE DE MINAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/03/2011

prezada luciana uso o barba timao juntamente com o sulfato de cobre e tenho obtido um exelente resultado
LUCIANE MARIA LASKOSKI

CUIABÁ - MATO GROSSO - PESQUISA/ENSINO

EM 29/03/2011

Prezado José Pedro,

Obrigada pela participação.

O extrato de barbatimão pode ser encontrado em lojas de produtos naturais. Mas ee pode ser feito utilizando-se 5 gramas de casca da árvore de barbatimão imersa em 100 mL de água, e pode deixar por 30 minutos ou ainda ferver. Remove as cascas e utiliza em temperatura ambiente.

Atenciosamente,

Luciane Laskoski.
JOSÉ PEDRO FRANQUEIRA JUNQUEIRA

SÃO LOURENÇO - MINAS GERAIS

EM 26/03/2011

Parabéns pelo artigo. Este é um assunto que realmente precisamos dar mais atenção , pois em geral é negligenciado pelos produtores , que somente dão importância quando o animal já está seriamente atingido , como exemplo da foto. Nestes casos em geral o tratamento é longo e geralmente mal conduzido ,pois é muito trabalhoso , assim sendo a prevenção se torna muito importante. Agora começamos também a encontrar dificuldades na obtenção do formol,por certas restrições de comercialização. Gostaria de maior esclarecimento sobre a forma de se preparar o barbatimão. Obrigado.
LUCIANE MARIA LASKOSKI

CUIABÁ - MATO GROSSO - PESQUISA/ENSINO

EM 23/03/2011

Prezado Eder,

Muito obrigada pela participação!

O barbatimão está associado a casos de intoxicação, mesmo com fotossensibilização, desde que ocorra a ingestão da planta, principalmente das favas. Então o problema seria da planta estar presente no pasto, ou ainda, do animal realizara ingestão do extrato utilizado para o tratamento.

Portanto, como o tratamento é somente tópico, não há risco de causar transtornos.

Na literatura, o barbatimão está presente em regiões de cerrado e campos. Aparentemente o estado mais próximo do sul a apresentar a planta é São Paulo, no entanto, trabalhávamos com a planta também em Curitiba. Lhe aconselho a perguntar pela planta a pessoas aí da região, pois acredito que ela está presente em todos os estados brasileiros.

Atenciosamente,

Luciane Laskoski.
EDER GHEDINI

TAPEJARA - RIO GRANDE DO SUL

EM 22/03/2011

Olá Luciane;
Parabéns pelo artigo, esclarecedor e muito bem conduzido!
O tratamento cicatrizante proposto, demonstra boa eficácia e pode desta forma substituir alguns produtos químicos para tal. Pois bem, por se tratar de substância tóxica, qual a quantidade segura(absorção) para que o mesmo não interfira no metabolismo? O mesmo poderá apresentar algum nível de resíduo no organismo animal? Se possível também, gostaria de saber se esta planta se encontra em todo o território brasileiro ou está presente somente em algumas áreas. Desde já agradeço sua atenção enviando-lhes um cordial abraço!
MilkPoint AgriPoint