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A produção de ovinos em pastagens e a reprodução

Por Carina Barros
postado em 22/12/2011

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Os resultados reprodutivos de ovinos em pastagem é tema pouco estudado no Brasil. O fato das ovelhas serem poliéstricas estacionais dificulta a avaliação das variáveis dos parâmetros reprodutivos. Dessa forma, procuramos pesquisas que tratam sobre a temática de modo a apresentar uma revisão sobre o assunto.

Na literatura, respostas relacionadas ao crescimento de borregas e borregos mantidos em pasto com inadequada disponibilidade e qualidade são relacionados à eficiência reprodutiva, uma vez que retardam a idade da primeira cobertura dos animais. Segundo as pesquisadoras Otto de Sá & Sá (2001), as borregas com rápida taxa de crescimento exibem o primeiro cio, e provavelmente, a primeira gestação com idade menor e peso corporal maior que borregas com baixa taxa de crescimento; no entanto, a alimentação com altos níveis de energia pode estar associada com elevada incidência de borregas inférteis.

Estudos têm mostrado que a taxa de prenhez está relacionada à taxa de ovulação, concepção e mortalidade embrionária (Plant, 1981; Gunn et al. 1984). Esses três fatores são, de certa forma, influenciados pelo manejo e, principalmente, pelo nível nutricional, que nos sistemas de criação em pasto devem ser supridos principalmente pela forragem.

A suplementação alimentar antes do período de acasalamento (flushing alimentar) é uma ferramenta que possibilita aumentos significativos nos parâmetros reprodutivos das ovelhas, em virtude do aumento da taxa de ovulação (Molle et al., 1997) e da incidência de partos gemelares (Barioglio & Rubiales de Barioglio, 1994; Mukasa-Mugerwa & Lahlou-Kassi, 1995). Essa dieta oferecida para realização do flushing deve ter adequada relação energia:proteína para boa resposta reprodutiva, sendo que a suplementação energética por meio de grãos pode aumentar a taxa de ovulação, desde que a ingestão de proteína seja acima do limite mínimo requerido (Molle et al.,1997).

Pesquisas indicaram que a realização do flushing com grãos de soja na quantidade de 270 g/dia para ovelhas mantidas em pasto de azevém de baixa qualidade, devido a maturidade da planta, melhorou o desempenho reprodutivo, o que segundo os autores pode ter sido provocado pelo aumento da ingestão de proteína digestível (Molle et al., 1997).

Estudo de Mori et al. (2006) avaliou o efeito da suplementação com 600 g/dia de milho triturado (9,06% PB) para ovelhas em monta que permaneciam em pastagem de coast cross (Cynodon dactylon (L.) Pers), em sistema rotacionado. Os autores concluíram que a suplementação alimentar com milho triturado antes e durante a estação de monta influenciaram positivamente o desempenho reprodutivo de ovelhas, elevando o número de cordeiros nascidos por ovelhas acasaladas.

Com relação às borregas, os relatos do efeito do flushing são escassos. Otto Sá & Sá (2001) citam que a utilização do flushing para as borregas não tem efeito claro na taxa de ovulação.

Boucinhas et al. (2006) em São Paulo, compararam a eficiência produtiva e reprodutiva de ovelhas, em sistema de três partos a cada dois anos. Foram adotados os seguintes manejos:

(1) ovelhas em pastagem, com suplementação de silagem de capim elefante (Pennisetum purpureum) na seca invernal;
(2) em pastagem, com suplementação de silagem de capim elefante na seca invernal + concentrado (500 g/dia) três semanas antes e durante a estação de monta, três semanas antes do parto e durante a lactação.

As pastagens do estudo eram Brachiaria humidicula e Brachiaria decumbens e Panicum maximum cv. Tanzânia, com manejo rotacionado, sendo suplementados quando a disponibilidade de forragem era baixa. Verificou-se que o melhor aporte nutricional proporcionou maior peso das ovelhas no início e no fim da estação reprodutiva. Nas três estações reprodutivas seqüenciais, a fertilidade e a prolificidade foram maiores nas ovelhas que receberam concentrado.

Guerreiro et al. (2005) estudaram o desenvolvimento da glândula mamária de borregas cobertas aos dez meses e mantidas em pasto consorciado de azevém (Lolium perenne), dactilis (Dactylis glomerata), alfafa (Medicago sativa) e trevo (Trifolium resupinatum) em Portugal. Para tal avaliação foram realizados três tratamentos com baixa, média e alta disponibilidade de pasto para permitir ganho médio diário de 70, 100 e 130 gramas, respectivamente, antes do parto. Após o parto, manteve-se somente oferta média e alta para não comprometer a lactação.

Em relação aos parâmetros mamários gerais, animais com média e alta oferta apresentaram valores semelhantes, indicando que o nível nutricional médio foi suficiente para garantir o crescimento potencial do parênquima mamário. Quanto ao índice de atividade secretora das células mamárias, observaram-se os melhores valores em borregas alimentadas com alta oferta antes da cobertura e média oferta pós-cobertura.

Animais alimentados em pasto de baixa qualidade podem apresentar deficiências minerais que podem acarretar em distúrbios reprodutivos, que muitas vezes não são relacionados por técnicos e produtores à deficiência em si. Rosa (1993) realizou completa revisão sobre deficiência de minerais e desempenho reprodutivo, principalmente referente à micro elementos na dieta de animais mantidos em pasto, que estão na Tabela 01.

Tabela 1 - Sinais reprodutivos por deficiências minerais em ovinos alimentados em pasto (Rosa, 1993).



Algumas substâncias presentes nas plantas têm chamado a atenção de pesquisadores devido aos seus efeitos sobre parâmetros reprodutivos, tais como a eficiência reprodutiva de ovelhas mantidas em pasto de Lotus corniculatus (cornichão), devido à presença do tanino condensado nessa espécie.

Min et al. (1999) compararam ovelhas mantidas em pasto de Lolium multiflorum (azevém) com Trifollium repens com ovelhas em Lotus corniculatus. A taxa ovulatória foi significativamente maior nas ovelhas que pastejaram cornichão (1,78 vs. 1,33), assim como a prolificidade. Houve aumento na concentração plasmática de aminoácidos de cadeia ramificada e aminoácidos essenciais e redução na concentração de ureia plasmática em ovelhas alimentadas com cornichão, fato possivelmente benéfico à eficiência reprodutiva.

Há relato de efeito positivo de tanino condensado também sobre a produção de leite das ovelhas e seu conteúdo proteico. Wang et al. (1996) demonstraram que ovelhas pastejando L. Corniculatus apresentaram a mesma produção das ovelhas em outro pasto até o pico da lactação. Entretanto, com o progresso da lactação as ovelhas que se alimentavam de cornichão apresentaram produção de leite 21% maior com 14% mais proteína em relação às demais.

Com relação às espécies forrageiras de países tropicais que contém tanino, não há publicações relacionando as concentrações de tanino com respostas produtivas ou reprodutivas, provavelmente pela concentração de tanino ser bastante superior, comparado ao cornichão.

Cabe ainda ressaltar que algumas forrageiras apresentam substâncias com atividade estrogênica que podem resultar em problemas reprodutivos. Esses relatos iniciaram na Austrália por Bennetts et al. (1946), e desde então esse país vêm desenvolvendo pesquisas nessa área. As dificuldades envolvidas nas pesquisas da área devem-se ao fato da atividade estrogênica ser variável conforme o ambiente.

Os hormônios presentes na planta, como estrógenos, anti-estrógenos e oestrona podem evitar que ocorra implantação normal do embrião no útero (Emmens, 1962). Desde a década de 60 são relatados casos de prolapso de útero, partos distócicos e desinteresse da fêmea pela cria, resultando em mortalidade dos cordeiros. Além disso, foram observados índices de infertilidade das ovelhas de 20 a 40%. Todos esses casos eram diagnosticados como doença dos trevos.

Algumas variedades de trevo contêm altos níveis de fitoestrogenos que podem afetar o trato reprodutivo dos animais. Para as ovelhas, a isoflavona mais ativa é a formononetina que pode reduzir a fertilidade (Croker et al., 2005). Os autores citados afirmam que os carneiros não são afetados por esses hormônios vegetais.

Concentrações de formononetina entre 7 a 14g/kg de MS são suficientes para gerarem problemas reprodutivos (Barry & Reid, 1984). Atualmente, esses não têm sido tão comuns, pois há disponibilidade de cultivares com baixos teores de fitoestrógenos (<3g/kg de MS; McDonald et al., 1994).

A Tabela 8 apresenta algumas espécies e seu grau de concentração de fitoestrógenos.

Tabela 2 - Potencial estrogênico, relacionado aos níveis de formononetina, de algumas leguminosas comerciais.



Os animais podem apresentar sinais visíveis de danos no trato reprodutivo e estes são irreversíveis quando os animais pastejam as forragens por mais de dois anos consecutivos (Crocker et al., 2005).

A alfafa e o trevo branco não apresentam altos níveis de formononetina, mas podem produzir outro fitoestrógeno, o coumestrol, que afeta a fertilidade das ovelhas. O coumestrol é produzido quando o crescimento dessas forragens ocorre sob estresse, infecção de folhas por fungos, infecção viral, danos causados por insetos e em solos pobres em nutrientes (Crocker et al., 2005). Os autores revelam que o estádio de crescimento da planta não afeta os níveis de coumestrol no trevo branco e na alfafa, e que o uso dessas forrageiras em associação com gramíneas dilui a quantidade de coumestrol ingerida. Cabe ressaltar que o impacto desse fitoestrógeno na fertilidade é menor que o da formononetina, com a redução da ovulação e atraso de cio, quadro rapidamente revertido quando os animais deixam de ingerir essas plantas.

No Brasil, a presença de coumestrol foi pesquisada em cinco leguminosas tropicais (Desmodium discolor. Canavalia ensiformis, Vigna luteola, Dolichos lablab e Indigofera erecta) durante fases de desenvolvimento - semente, plântula, vegetativa (folhas jovens e maduras, caule) e de floração (folhas jovens e maduras, caule e inflorescência) e nos concentrados proteicos das folhas e seus resíduos fibrosos por Dantas et al. (1985). O coumestrol foi detectado apenas nas espécies D. Lablab (plântula) e V. Luteola (plântula e resíduo fibroso) não sendo encontrado nas demais fases do ciclo e nem nas outras leguminosas.

Esperamos ter conseguido captar na literatura informações essenciais que merecem mais atenção e pesquisas. Caso tenham experiências e relatos que possam contribuir, não deixem de nos enviar.

Referências bibliográficas

OTTO de SÁ, C. & SÁ, J.L. Idade à primeira cria de borregas. 2001. Disponível em: Acesso de102/05/2007.

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