Mas agora que começo a escrever este artigo reconheço mais uma vez que o Marcelo é mais sábio e mais amigo meu do que eu imaginava, pois sinto um prazer imenso ao começar redigir este texto. Das coisas que tenho que fazer hoje, praticamente o dia do stress final antes das festas, talvez esta seja a mais prazerosa. Obrigado Marcelo por abrir mais uma vez o espaço do MilkPoint para eu escrever “qualquer coisa”.
Outro dia eu contabilizei 102 artigos meus escritos para o MilkPoint. Acho que o primeiro eu escrevi em Março de 2000. Acabei de passar os olhos por alguns deles no site. Boas lembranças...
Mas hoje vou fazer um artigo diferente da grande maioria dos que já escrevi até agora para o MilkPoint, até por força da minha situação e do meu envolvimento com a cadeia de produção do leite atualmente. Eu fui um acadêmico, pesquisador e consultor por mais de 10 anos e, portanto, a minha perspectiva era sempre sob esse prisma. Sai da academia, fiquei sem “mexer com leite” por uns 8 anos, e há 4 anos voltei para a atividade, mas com outro chapéu, o de produtor de leite. E é com esse chapéu que escreverei as linhas abaixo.
Isso faz uma diferença danada, e eu percebi isso de forma acelerada. Acho que a minha missão, de escrever, pelo menos, agora vai ficar mais fácil, não menos responsável, mas acho que escreverei com menos amarras do que quando eu era um acadêmico e precisava referenciar formalmente meus argumentos e as minhas teses, quando por ossos do ofício era importante seguir uma linearidade quase cartesiana e respeitar a lógica do raciocínio acadêmico.
Quero neste artigo enumerar uns 04 pontos aleatórios que julgo relevantes de serem pensados por todos que produzem leite (produção primária) e como eu vejo tais questões hoje como produtor.
Primeiro resumirei o que faço hoje: há 4 anos eu entrei de sócio numa empresa produtora de leite chamada Ouro Branco Agronegócios. Temos uma unidade de produção em Itararé-SP, onde produzimos atualmente cerca de 8 mil litros leite/dia. Esse projeto nasceu duma casualidade. Meus sócios, que trabalham no setor de reflorestamento, celulose e papel compraram uma fazenda “porteira fechada” há 5 anos, na qual “veio junto” um rebanho leiteiro com cerca de 100 vacas em lactação, pasmem, da raça Simental... (é inacreditável, eu sei, mas esse bicho dá leite...). A média de produção na época ficava ao redor de 20 litros/vaca/dia. Era a melhor genética Simental Fleckvieh disponível no Brasil. A fazenda tinha sido montada originalmente em 1972 por um empresário Alemão que trouxe matrizes Simental “Leiteiro” para o Brasil. E 40 anos de seleção, usando sempre touros provados da Alemanha, não tem jeito de dar um resultado ruim...
Grega da Santa Andrea – Grande Campeã Nacional (6a. Lactação)
Pois esses meus sócios “malucos” cometeram a insensatez de me pedir para fazer um projeto para “abrir esse novo negócio no Grupo”. Foi como “jogar pinto no lixo” como se diz na roça...
Na época montamos então um plano ambicioso para chegar numa produção de 30 mil litros/dia num prazo de 05 anos. Produzíamos 2 mil litros naquela época.
Para isso investimos um bocado num programa de FIV, usando matrizes de gado de corte que tínhamos na fazenda como receptoras e as nossas melhores matrizes Simental como doadoras. E aí tomamos algumas decisões radicais e não tradicionais. Por exemplo, eu me convenci ao longo dos últimos tempos que tem total sentido fazer cruzamento entre raças especializadas leiteiras. Definitivamente! E inspirado em programas como o Pro-Cross que está em curso nos EUA (e de forma semelhante em vários outros países) montei um programa de cruzamento entre o Simental x Holandês x Jersey.
Novilha meio sangue HPB x Simental
Novilhas meio sangue HVB X Simental
Outra decisão “não convencional” foi a adoção do sistema de Compost Barn para alojamento das vacas em lactação. Acho que em modelos de grande escala fomos os pioneiros nesse sistema no Brasil. Os nossos amigos médicos-veterinários Leonardo Silva e Adriano Seddon foram uns dos “culpados” por essa acertada decisão (na nossa visão até hoje).
Com essas decisões em caráter macro iniciamos o projeto. Resumindo, 03 anos mais tarde cá estamos, com cerca de 350 vacas em lactação, média de 23 litros/vaca/dia e 8.000 litros no tanque todo o dia. O rebanho cresceu muito, pela base, a partir das bezerras nascidas de FIV e gestadas no ventre das receptoras de corte. Hoje temos cerca de 1.300 fêmeas na fazenda de “mamando a caducando”. Temos hoje 80% dos animais em lactação como novilhas, sendo a grande maioria meio-sangue Simental x Holandês. No ventre dessas novilhas que começaram a parir no início de 2014 temos majoritariamente bezerras “tri-cross” das Meio-Sangue x Jersey. O meu olho pode estar me traindo, mas eu “tô xonado” por essas bezerras. Acho que darão muito leite, mas especialmente serão longevas e férteis.
Bezerras Tri-cross Simental/HVB x Jersey
Produzimos hoje um leite com 12,88% de ST, 3,91% G e 3,33% P (última análise da Castrolanda onde somos cooperados e comercializamos o nosso leite).
O rebanho jovem continua crescendo de forma acelerada porque adotamos uma política de uso intensivo de sêmen sexado nas novilhas (que são muitas no rebanho hoje, para o bem do futuro e para o mal do nosso bolso no curto prazo...). Usamos 03 tentativas de sêmen sexado em todas as novilhas, o que tem nos dado um resultado de cerca de 75% de novilhas prênhes de sêmen sexado. Com tudo isso e com um orçamento bem apertado projetamos um crescimento de uns 4 a 5 mil litros de leite a mais no tanque a cada ano a partir de agora e devemos beirar os 30 mil litros/dia almejados lá pelo final de 2019. Ou seja, a “dura realidade” nos impôs um prazo adicional de 2 a 3 anos para atingirmos a nossa meta final de escala de produção. Mas como eu já tô com o cartão da mega-sena da virada no bolso... Quem sabe no dia 01/janeiro esse plano muda...
Esse é o cenário onde eu dedico uma pequena parte do meu tempo de trabalho atualmente. E aqui segue a primeira coisa relevante deste artigo: eu sou um produtor de leite que não tem nessa atividade a minha atividade principal, mas sim uma atividade de diversificação de investimentos. Sem dúvidas é a coisa que eu mais gosto de fazer, mas não é a que “tá pagando as contas lá em casa hoje” (espero que pague no futuro...). Então esse vai ser o meu primeiro ponto dos 04 que eu prometi abordar neste artigo, de forma livre e muitas vezes intuitiva, como eu não podia fazer quando escrevia para o MilkPoint como pesquisador e acadêmico:
1) É POSSÍVEL PRODUZIR LEITE DE FORMA RENTÁVEL SEM DEDICAÇÃO INTEGRAL DO PROPRIETÁRIO À ATIVIDADE? A minha resposta impulsiva seria um tremendo NÃO! Mas o que estou tentando provar com a experiência da Ouro Branco é o contrário disso. E confesso que não estou 100% convencido da minha tese. Mas também não estou com nenhum receio de testá-la. De forma grosseira, o sucesso do leite tá no “olho do dono”. Por uma questão óbvia, trata-se talvez da atividade agropecuária com maior rotina diária de tarefas múltiplas e incessantes 365 dias do ano. Pronto, acabou! Eu digo para os meus sócios, com todo o respeito aos plantadores de floresta, que você pode tocar uma plantação em larga em escala seja de Eucalipto ou de Pinus a partir do escritório de São Paulo indo uma vez por mês para “dar uma passada” na floresta. Mas não dá prá fazer isso na atividade de produção de leite. Não dá!!! Esqueça!
Então a único jeito da minha tese de sucesso para a Ouro Branco parar em pé é ampliar o conceito de “dono”. É possível ter um “dono” na fazenda que não necessariamente seja o principal “acionista” da empresa? E neste caso estamos falando de uma equipe de colaboradores e executivos que tocam a fazenda como “donos”. Eu acho que SIM. Mas esta é uma hipótese pouco testada e com poucos casos de sucesso na atividade de produção de leite. Eu só vejo uma alternativa neste caso, a unidade de produção certamente precisa ter uma escala grande, de forma a viabilizar a contratação de colaboradores com uma remuneração muito boa (e/ou outros pacotes de atratividade como remuneração variável, participação nos lucros, opção de compra de ações ou coisas do gênero). O meu ponto é, se isto é viável em praticamente todas as outras atividades produtivas, sejam comerciais, industriais ou de serviços, porque não pode valer para o leite? Os exemplos até hoje são escassos no mundo todo, mas aos poucos vão aparecendo casos de empresas de produção de leite tocadas por profissionais contratados. Enfim, a minha resposta impulsiva a pergunta inicial continua sendo “NÃO !” , e agora adiciono um “MAS QUEM SABE...”. E daí aproveito a liberdade de não ter as amarras acadêmicas para chutar um número mágico. Eu acho que não dá para pensar numa estrutura de gestão profissional independente num volume de produção diária abaixo de 20 mil litros/dia, senão você não consegue escala suficiente para viabilizar uma remuneração atrativa para os colaboradores, que serão “donos do negócio” junto com você. Eu poderia discorrer muito mais sobre este assunto sobre o qual tenho discutido e pesquisado ultimamente, mas pela limitação do espaço aqui encerro este ponto desta forma sumária e simplista e passo para a próxima questão...
2) FALTA MÃO DE OBRA NA ROÇA (E VAI FALTAR CADA VEZ MAIS): é provável que de cada 10 artigos que analisam esta questão, dez concluam exatamente da forma que está escrito acima, ou seja, que a mão de obra vai ficar cada vez mais escassa no campo. Mais uma vez, escrevendo mais livre e sem respeitar os estudos e as estatísticas, eu discordo disso tudo, baseado só nas minhas impressões. Talvez nós tenhamos aqui um problema de qualificação do assunto, ou seja, não estamos tratando de “número de pessoas” disponíveis para trabalhar na roça hoje e no futuro, mas sim de “tipo de pessoas” que farão as atividades cotidianas nas fazendas. Isso muda muito a análise! Pra nossa felicidade geral, a qualificação das pessoas, inclusive na roça, vem passando por uma revolução absurda. Eu diria que o termo é esse, revolução. Você achar um caboclo jovem hoje no campo que não frequentou a escola é “quase impossível”. Mas eu vou mais longe do que isso, você encontrar um jovem hoje que mora na zona rural, filho de um funcionário típico de fazenda, que tenha ou esteja frequentando um curso superior não é caso raro mais. E isto para mim é uma coisa espetacular. Isto é o que pode fazer a diferença quando falamos do futuro da produtividade por exemplo. Dado este cenário, a questão posta é que oportunidade de trabalho nós temos para oferecer para este jovem e qual oportunidade de trabalho ele está interessado?
Eu digo que a célula operacional principal do funcionário tradicional de fazenda era a “célula muscular” (o cara carregava saco de ração, raspava esterco do curral, tirava leite na mão, etc...), mas cada vez mais a principal célula operacional será o “neurônio” (o cara vai gerenciar dados, administrar robôs ou ordenhadeiras altamente automatizadas, tratores e vagões misturadores de alta tecnologia, relatórios de produção complexos e analíticos). Nos últimos 200 anos o mundo passou por 2 revoluções, a industrial, que substituiu a força física do homem pela força mecânica e que foi provavelmente a mudança mais radical e rápida da história da humanidade e mais recentemente a revolução da internet (associada a outras coisas como inteligência artificial, comunicação em rede e outros nomes que nem eu sei o que significam...) que multiplicou a capacidade de processamento de informações e por consequência o potencial da capacidade de uso do cérebro humano em proporções inimagináveis há 30 anos atrás. Bom, em muitos casos essas duas “revoluções” estão chegando ao campo “numa pancada só”. Nós convivemos ainda com a mudança da enxada, do “raspador de bosta” e da “munheca” para tirar leite, para a ordenha robotizada. É mole?
A pergunta no assunto deste ponto é: vai faltar caboclo para raspar bosta de estábulo e tirar leite na munheca? A resposta é SIM, GRAÇAS A DEUS! Mas se você me perguntar se vai faltar moleque inteligente para gerenciar a ordenha robotizada, vagão misturador computadorizado, trator ligado com GPS que faz agricultura de precisão a resposta é NÃO, GRAÇAS A DEUS! E grande parte desses moleques que estão operando ou vão operar essas máquinas esquisitas e complexas são filhos do cara que carregava saco de ração nas costas. Estamos falando de uma revolução em uma geração. Isso é espetacular. E o salario desse garoto, não vai ter parâmetro de comparação com o do pai dele, também GRAÇAS A DEUS! E para não frustrar velhos Marxistas como eu, vou dizer que o capitalista (“dono da fazenda”, detentor dos meios de produção e do capital, blá,blá, blá...) que vai contratar o moleque, vai pagar um salário significativamente maior para ele não por que acha isso socialmente legal, mas sim porque o moleque vai gerar um volume de leite/funcionário infinitamente maior. Então para continuarmos felizes com a nossa tese Marxista a mais-valia continua rolando... E a molecada cabocla com “chip cerebral turbinado” vai ganhar uma grana que o pai jamais imaginaria.
E veja que essas novas tarefas mais desafiadoras do campo são altamente atrativas para esse novo perfil de “funcionário”. Eu realmente acho que o garoto vai querer muito exercer uma atividade que exige o talento dele, a formação dele. Pilotar um desses tratorzões tecnológicos comuns hoje nas fazendas é muito melhor do que jogar Playstation 4 ou Xbox, coisa que a molecada faz muito melhor do que nós. E eu estou falando de recursos básicos, pois o nível de interatividade nas atividades agropecuárias com as novas mídias vai ser crescente numa escala que nós ainda não temos condições de entender. Outro dia uma empresa veio me oferecer um recurso que garantia que todas as vacas no cio seriam anunciadas em tempo real no meu celular... “Deus me livre, eu falei!!!”, mas o moleque que faz a gestão de informações lá da fazenda “ficou doido”. Esse é o moleque que vai querer trabalhar na roça, que vai levar o nosso índice da taxa de concepção para um patamar melhor do que o pai dele que usava uma caderneta no bolso e uma caneta presa na orelha.
E qual a atratividade em termos de qualidade de vida para um jovem morar na roça? Com todas essas revoluções, morar na roça vai ficar cada vez melhor... Hoje você tem internet em tudo que é rincão desse país (eu tenho negócios até nos confins da Amazônia e mesmo de forma muitas vezes precária a internet tá chegando lá muito rapidamente), isso amplia muito as possibilidades e a qualidade de vida desse caboclo. As vias de acesso, via de regra ficam melhores, as escolas ficam mais perto, você tem água limpa em casa, saneamento, comida farta, silêncio em casa, segurança, isso tudo, talvez ofereça uma perspectiva para um jovem melhor do que ir morar numa cidade para ser funcionário da área de TI de uma empresa, de uma loja, de um banco. Vários estudos já começam a apontar em diversos países, como nos EUA, por exemplo, o início do retorno dos jovens para o campo.
Então eu acho que devemos ter outra visão sobre este “problema” (falta de mão de obra), porque talvez ele não exista. Nós precisamos acelerar essa transformação potencial sensacional que temos, com benefícios para todos e com aumento da produtividade e da felicidade. Eu gostaria de acelerar mais essa transformação na nossa empresa, talvez eu devesse priorizar ainda mais isso, apesar de que lá na Ouro Branco nós temos um Gerente de Leiteria formado em Letras, um Gestor de Informações graduado em Informática, um tratador do gado estudando Educação Física e um Gerente de Agricultura estudando Agronomia em curso noturno. E toda essa turma é lá da roça.
3) A ÁGUA VAI SER UM RECURSO CADA VEZ MAIS ESCASSO: esta é uma tese que eu concordo integralmente. Tá certo que é até covardia tratar desse assunto nesta ano, ou seja, me beneficio aqui das circunstâncias deste momento, porque o brasilzão tá numa secura de dar dó em grande parte das regiões. Como sou um ambientalista declarado de longo tempo, vou agora de forma oportunista, “nadar de braçada” em cima dos céticos, me aproveitando, infelizmente, do desespero da falta dágua por parte de muitos. Digo: “eu avisei!!!”. Estou falando das “mudanças climáticas”, termo certo, na minha visão, em substituição a expressão “aquecimento global”, que foi o termo mais infeliz das últimas décadas utilizado pelo movimento ambientalista, por ter dado margem a uma discussão imbecil se o mundo estava ficando mais quente ou menos quente na média. O que é claro para mim, cientificamente provado e indiscutível na minha visão até acadêmica, é que devido à ação do homem o Clima do Planeta está mudando rapidamente e vai mudar mais rapidamente dependendo da postura que nós tomarmos como habitantes transitórios deste “mundão de Deus”. Então mudança de clima é bem diferente de aquecimento da temperatura planetária. E mudança climática, com eventos extremos mais frequentes, detona a agricultura, ponto final. A água é o elemento mais evidente dessa equação. Eu tenho investimentos numa empresa no Acre e outra em São Paulo, e me lasquei nas duas neste ano. No Acre a nossa empresa ficou quase embaixo d’água naquela que foi a maior enchente já registrada na história do Rio Madeira. Já em Itararé foi decretado estado de calamidade pública por excesso de calor e seca, as vaquinhas quase viraram “uva passa” de tanto calor (e a produção e a reprodução foram pro beleléu). Já a quebra na produtividade do milho para silagem foi relevante. Sobrou água num lugar e faltou noutro! Em resumo, gestão/economia da água, preservação radical das nascentes, preservação da mata ciliar são questões fundamentais e prioritárias na atividade agropecuária hoje e particularmente na produção de leite, que por característica é altamente dependente da disponibilidade de água boa e farta 365 dias no ano, seja para os animais, para as plantas e para as operações de higiene da produção.
Eu poderia dar um passo a frente aqui neste tópico e me aventurar pelo tema da produção de leite com “baixas emissões de Carbono”, mas acho que muitos poderiam achar que eu estaria “passando do ponto”, então esta parte eu deixo para o especial de fim de ano do MilkPoint do ano que vem...
4) BEM-ESTAR DOS ANIMAIS E IMAGEM DO SETOR DE PRODUÇÃO: vou aqui juntar dois temas potencialmente distintos num bloco só, pois eles se misturam na equação final.
Começo com uma caricatura. Cresci numa fazenda de gado de corte no interior do RS. Historicamente um dos objetos mais emblemáticos da cultura campeira gaúcha é a espora, símbolo da valentia, da destreza, do domínio do homem sobre o animal, cantada em versos e rimas pelo Rio Grande afora. Dizem que o Rio Grande “foi aberto” pela valentia dos Gaúchos e na base da pata dos cavalos. Eu realmente acho que a fronteira gaúcha foi mesmo. A história diz que o meu bisavô formou fazenda na fronteira oeste cercando gado alçado no mato. E você não tira gado xucro e alçado do mato cantando musiquinha de ninar para a boiada. No jargão do business moderno eu deveria dizer que o “diferencial competitivo” ou a “vantagem comparativa” que o meu bisavô tinha era um grupo de uns 5 ou 6 campeiros com uma coragem e uma brutalidade bem acima da média e uma tropa de cavalo crioulo bem domada. E na base da espora, da boleadeira e do laço a boiada ia sendo tirada do mato, cercada e domesticada. Acho que não poderia ser diferente, dadas as circunstâncias da época.
Quando eu era garoto eu contava essa história para meus amigos e “crescia no grupo”. Os meus amigos achavam que o véio bisavô meu era “o cara, valente e corajoso”. Se os meus filhos, que são adolescentes, contarem essa história hoje na escola, eles “perderão ponto no grupo”. Os amigos vão pensar: “que véio ignorante e troglodita esse tataravô do cara!”. O fato é que o meu ativo de relacionamento há menos de 40 anos virou passivo para os meus filhos... A velocidade com que essa perspectiva mudou é impressionante.
Que Deus tenha o finado João Aquino na invernada do céu, campeando gado em harmonia com a sua boiada...
Certamente com a contribuição da rápida urbanização, que faz com que as pessoas se distanciem da relação tradicional e histórica dos homens com os animais de produção e passem a ter uma visão muito mais “humanizada” dos bichos (eu não quero entrar aqui no mérito da questão só no fato), a visão e expectativa do consumidor hoje é que os produtos que chegam à sua mesa sejam frutos de uma relação muito civilizada com os animais. Sem entrar no mérito do debate, mas simplesmente da perspectiva comercial do negócio é isto que o consumidor vai buscar e valorizar cada vez mais e ponto final. Se somarmos a isto o fato de que o “big brother” é onipresente hoje, pelas inúmeras oportunidades das novas mídias, a fazenda de qualquer um está aberta 24 h por dia para a humanidade”, seja via foto ou um filme postado no youtube feito por um celular qualquer. E o fato público relevante pode ser desde um funcionário dando um tapa na bunda dum bezerro até um ato evidente de crueldade com qualquer animal da fazenda. Podemos argumentar até que dar um tapa no bum-bum dum filho em casa para enquadrar aquele tinhoso que você adora de paixão pode ter sentido (é uma longa polêmica), mas talvez um universo imenso de consumidores não goste de ver um funcionário seu dando um tapa na bunda nem mesmo dum bezerro, imagina algo pior do que isso. E é disso que nós estamos falando!
Mas eu gostaria de aproveitar esse cenário radical que eu mesmo criei para dizer que temos uma oportunidade aqui para o negócio (e para a satisfação filosófica daqueles que realmente gostam dos animais). Tratar bem os animais é uma prática que só faz bem, especialmente numa fazenda leiteira. Os bezerros vão ter menos doenças, as novilhas vão crescer e emprenhar mais, as vacas vão produzir melhor. E eu acho que as pessoas vão viver mais felizes também. É incrível, mas isso é uma questão prática na qual nós podemos interferir rapidamente e as vezes não prestamos atenção. Eu tenho visto coisas muito simples e altamente eficientes que todos deveriam usar. Práticas basais como não usar mais “porretes”, “varas”, “relhos” seja lá o que for, numa fazenda de leite deveriam ser a regra. Na Ouro Branco nós adotamos há algum tempo aquela técnica de usar as bandeiras para conduzir os animais. Fico impressionado como um negócio tão simples funciona tão bem e traz resultados tão positivos. Mas é preciso definir isso como uma política da fazenda. Eu ainda me incomodo um pouco sobre como a turma se comporta em alguns eventos de manejo da fazenda. Especialmente nas práticas de manejo mais intensivas e massais (vacinação, vermifugação), me incomodo um pouco com o excesso de pressão que a moçada põe nos animais. A turma quer fazer o trabalho rápido logicamente, faz parte até da eficiência do processo, mas eu digo que até a força e o jeito com que se aplica a pistola de injeção no animal deveria ser objeto de treinamento do funcionário (nós sabemos obviamente que tem jeito de dar uma injeção mais doída ou menos doída...).
Então essa história de “Animal Welfare” (Bem Estar Animal) que se vê falar com cada vez mais frequência na minha opinião não é “conversa prá boi dormir”, mas sim uma questão cada vez mais importante para o nosso negócio, seja do ponto de vista da produção (os animais vão produzir mais) seja do ponto de vista do marketing (as pessoas vão querer comprar o leite das nossas vacas felizes) e mesmo do ponto de vista filosófico individual (nós vamos dormir mais felizes e com a consciência tranquila).
Eu aproveito então e adiciono a questão da “imagem do setor”. O Bem Estar Animal é uma parte, mas a outra parte está relacionada com a qualidade efetiva do produto seja do ponto de vista higiênico seja do ponto de vista nutricional. E aqui temos outro ponto chave sobre o qual dediquei grande parte da minha vida acadêmica, a qualidade higiênica do leite.
Produzir um leite com baixa carga microbiana, com baixa CCS e livre de antibióticos é uma obrigação para aqueles que querem perenizar na atividade. E quero reforçar a minha tese que sempre defendi como consultor e pesquisador, agora como produtor: as estratégias para se conseguir esses 3 quesitos acima não são complexas. Trata-se de uma receita de bolo que deve ser seguida a risca. É uma questão de disciplina. Estamos falando principalmente de tratamento de todas as vacas secas, manutenção básica do equipamento de ordenha, pré e pós-dipping, resfriamento rápido do leite, uso de detergente adequado e água quente na limpeza do equipamento de ordenha, segregação dos animais tratados com medicamentos e respeito aos prazos de carência dos mesmos.
Mas temos um desafio além deste, que é o desafio da porteira para fora. Esses episódios recorrentes de fraudes grosseiras e adulterações criminosas do leite são MUITO RUINS para o setor, mas para esse problema eu não tenho uma sugestão tão clara de solução.
Em resumo, essa experiência de 3 anos como produtor de leite tem sido muito gratificante e educativa. Concluo de forma simplista que produzir leite com eficiência é possível com a adoção de técnicas não muito sofisticadas mas que precisam ser cumpridas com regularidade e padronização, ou seja é mais coisa para gente organizada e metódica do que para gente genial e indisciplinada. A Fazenda Santa Andrea está de portas sempre abertas para compartilhar tudo o que estamos tentando construir e aprender. Os nossos indicadores de performance vêm melhorando sistematicamente desde que começamos o projeto há 3 anos, mas ainda estão bem distantes daqueles que julgamos aceitáveis para o sucesso do empreendimento. A tarefa está sendo um pouco mais difícil do que imaginávamos mas gostamos do desafio e temos fé de que vamos perenizar o negócio. Por via das dúvidas já começamos a treinar os herdeiros...
Um Feliz Natal e um Ano Novo com Muita Saúde, Paz e Felicidade!
Treinamento dos herdeiros: pela “ordem de chegada” – Lucas, Eduardo, Carolina e Fernanda.
