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Um pouco sobre associações fortes e representativas
Segundo convite recebido, o evento contará com a participação dos principais candidatos à Presidência da República (Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva), já confirmados. Os candidatos apresentarão suas propostas relacionadas ao futuro do setor sucroenergético brasileiro, dos biocombustíveis, além de políticas públicas para a sua competitividade e sustentabilidade.
No ano passado, a mesma UNICA realizou o Ethanol Summit, que contou com palestra de ninguém menos do que Bill Clinton, o ex-presidente norte-americano. Na semana passada, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma matéria a respeito do "lobista" que a UNICA tem nos Estados Unidos. Joel Velasco, ex-assessor de Clinton, tem atuado junto à entidade visando derrubar as barreiras norte-americanas em relação ao etanol brasileiro.
Não sei não, mas acho que o pessoal da cana está bem organizado. Também não sei não, mas acho que tudo isso acima significa que a UNICA (e o setor) tem prestígio político. Afinal, atrair os três principais presidenciáveis para um mesmo evento não é algo tão simples. Será que isso é importante para os pleitos setoriais? Acredito que sim. Será que isso é importante para defender o setor de possíveis ameaças (muitas vezes infundadas) como a questão ambiental? Também diria que sim.
Mas o que nós, atuantes na cadeia do leite, temos a ver com isso?
O que temos a ver é que também dependemos em parte de pleitos junto ao governo; também temos de negociar acesso a mercados; também sofremos ameaças cada vez mais complexas, como a questão nutricional e também a ambiental, de forma crescente; também precisamos ser competitivos; também sofremos com o câmbio. A diferença é que não temos uma organização que centralize os anseios do setor e que esteja alinhada com o que a sociedade dele espera.
Mas a cana é diferente, dirão alguns. No leite, temos centenas, milhares de empresas. É verdade. Porém, as 15 maiores processam mais de 40% do leite inspecionado. No caso da UNICA, são 60 empresas que processam 50% do álcool e 60% do açúcar brasileiro. Ou seja, parece-me que a cana é menos concentrada ainda e, mesmo assim, foi possível reunir 60 empresas em uma "única" entidade em prol do setor.
Quanto à importância política, pode-se argumentar que isso se dá em função do tamanho do agronegócio sucro-alcooleiro, muito maior do que o lácteo. Outro engano. O negócio sucro-alcooleiro é grande, sem dúvida. De acordo com a UNICA, o faturamento da safra 08/09 atingiu US$ 23 bilhões, gerando 845.000 empregos diretos. Porém, o leite não fica muito atrás. Somente na produção, se considerarmos 20 bilhões de litros inspecionados (fora o produto não inspecionado), supondo um preço médio de venda de R$ 1,75 por litro (é uma estimativa, considerando a agregação de valor em torno do produto "leite"), o faturamento seria de R$ 35 bilhões, ou cerca de US$ 19,5 bilhões. O PENSA/USP, em estudo realizado a partir de dados de 2004, chegou a valores ainda maiores: o agronegócio leite movimentaria R$ 66,3 bilhões anuais.
Em relação a geração de empregos, ganhamos de lavada: os dados variam de 3,6 a 4,0 milhões de empregos diretos. Quatro a cinco vezes mais.
Pode-se argumentar que a questão energética é crítica e que o etanol está no centro desse debate. É, portanto, um setor estratégico para o país e para o governo. Esse argumento procede, evidentemente. Mas é pouco provável que o setor iria receber a atenção que recebe caso fosse desarticulado ou descontextualizado da realidade atual, em que os diversos atores (mídia, ONGs, governos, empresas, etc) interagem constantemente, exigindo explicações e ações imediatas.
E, não esqueçamos, o leite também é estratégico e importante sob o ponto de vista econômico e social, ao distribuir a riqueza entre grande número de famílias no campo. O leite é, de certa forma, o Bolsa-Família rural, o que seria suficiente para alçá-lo à condição de produto/setor altamente sensível e para o qual todos os políticos deveriam olhar constantemente.
Claro que parte disso tem sido capitalizada pelo setor lácteo. Claro que conseguimos, em algum grau, mobilizações visando defender o setor e melhorar sua competitividade. Mas, reconheçamos, bem aquém do que poderíamos dada a importância do setor para o país. E bem abaixo do que outros setores igualmente relevantes, como a cana-de-açúcar, têm conseguido.
Há os que argumentarão que o setor lácteo tem passado por grandes mudanças, por novas empresas entrando no mercado, levando um tempo até que a poeira baixe e se consiga pensar no longo prazo. Em tese, faz sentido, mas a cana-de-açúcar também tem passado pelo mesmo processo e continua com suas ações visando desenvolver o mercado aqui e lá fora, por ações que passam também pela questão da comunicação. Desenvolveram, a propósito, o projeto AGORA, que contempla uma estratégia de comunicação para o setor sucro-alcooleiro. O projeto AGORA é uma espécie de Láctea Brasil da cana.
O que faz, então, a cana-de-açúcar ser diferente do leite? Será que as indústrias envolvidas com etanol (mudaram até o nome, repararam? Não é mais álcool) e açúcar não precisam pensar no curto prazo, podendo se dar ao luxo de só investir em ações de longo prazo? É evidente que não. Será que eles não têm conflitos internos entre os agentes participantes, demandando maturidade e profissionalismo para separá-los das metas de longo prazo, que garantirão sobrevivência do setor? Também, ninguém acreditaria nisso, correto? Será que são as pessoas?
Enfim, o que faz com que o setor sucro-alcooleiro tenha conseguido reunir a maior parte da produção brasileira em uma entidade forte, representativa e atuante, além de ter melhorado a relação com o produtor (através do Consecana, que é realmente referência de mercado, além de contratos transparentes de longo prazo)?
Fica a questão aberta para discussão.
PS1: falando em relacionamento indústria/produtor, recebemos da produtora Maria Lucia Garcia, da Fazenda Cauyaba, uma interessante matéria publicada na Folha de SP/Valor Econômico, mencionando que o produtor Carlos Viacava, aos 69 anos, assumiu a diretoria corporativa da Cutrale, até então maior produtora de suco de laranja do mundo. Entre os desafios de Viacava, estão "a melhoria das relações com os fornecedores independentes de laranja, a maior integração da cadeia, o aprofundamento das discussões sobre o futuro da citricultura, o estímulo ao incremento das vendas de suco no mercado doméstico e a abertura de novas fronteiras para o produto, tendo em vista as dificuldades dos últimos anos nos destinos tradicionais"....
PS2: esse artigo ressaltou associações de empresas processadoras, uma vez que, pela posição na cadeia, são quem realmente têm o desafio de desenvolver o mercado e a competitividade. Porém, o mesmo acima vale para associações de produtores. Não temos, hoje, uma associação focada em leite, que de fato represente boa parte da produção nacional. E, nesse caso, o desafio é ainda maior.
Comentários:
belo horizonte - Minas Gerais - Produção de leite (de vaca)
postado em 03/06/2010
Caro Marcelo:
Venho ao longo dos anos, neste site, defedendo uma associacao nacional dos produtores de leite e acho que ela deve nascer de alguma associacao ja existente como a leite sao paulo, dentre outras, pois alem da representatividade que tem fica muito mais facil iniciar de uma base ja existente.Na cadeia produtiva do leite os laticinios e varejistas (supermercados, etc) ja estao bem organizados e falam nacionalmente, uma lingua so. Os produtores por diversos motivos acima citados nao conseguem defender seus interesses e sao facilmente manobrados. A ideia de foruns da cadeia produtiva com a participacao do governo e redundante: os laticinios participam organizados , os produtores sem representatividade e o governo, bem quanto a este e obvio, que quanto mais baixo for o valor do leite,melhor sua imagem junto a grande massa.Ate agora nao fomos a lugar nenhum com esta linha de acao.Ora nao resta outro caminho a nao ser uma grande central nacional dos produtores de leite, que defina ,baseado no ICP (INDICE DO CUSTO DE PRODUCAO) do leite, um preco regionalizado (por estado) do produto,que o produtor so entregue neste preco estipulado, se algum laticinio resistir em pagar que a central intermedie,que crie politicas e programas de incentivo e apoio ao produtor,pois hoje entregamos o leite sem saber o preco que vamos receber e na maioria das vezes abaixo do ICP do leite. Os laticinios e varejistas conseguem manter seus lucros, espremendo as margens em cima do produtor. Sabemos tambem que quem regula o preco e o mercado, mas quem regula as margens de lucro na cadeia sao os laticinios e varejistas,que nao vendem no prejuizo. Primeiro, portanto, é necessario dentro da cadeia produtiva do leite um equilibrio de forcas entre as partes,precos justos pagos ao produtor,e a partir dai tentar fazer algo como o pessoal da cana de acucar.E este equilibrio so vira com associacao forte e representativa!
Barbacena - Minas Gerais - Indústria de laticínios
postado em 03/06/2010
Interessante a matéria Marcelo;
Acho que o grande entrave é realmente a relação entre produtores e indústrias (sem generalizar), principalmente as grandes indústrias. Seria em tese mais fácil aglomerar produtores através de seus compradores, porém não me parece ser de interesse das maiores industrias unir seus fornecedores à fornecedores de seus concorrentes por conta da grande discrepância de preços de leite praticados mesmo em regiões comuns. A verdade é que existe um ranço de amadorismo na relação indústria X produtor, que apesar de ter melhorado nos últimos anos (fruto da concorrência) ainda incomoda pela falta de transparência, ainda existindo em alguns casos o absurdo de se vender um produto sem saber o preço que irá receber.
Como tudo na vida, acredito que o caminho mais difícil traria um melhor resultado final propiciando um associativismo de resultados como o citado no setor da cana de açúcar. Essa "porta mais estreita" seria a união de todos os envolvidos interessados, independente da interferência de indústrias e de entidades que já estão instituídas como representantes mas sem efeito prático de resultados para o setor.
Como já sugeri, um caminho seria a internet através de sites como o Milkpoint ou ate mesmo um novo site da entidade à ser criada. Essa entidade estaria aberta a adesão de qualquer interessado, seja produtor, industrial, vendedor, estudante ou pesquisador.
Precisamos de força política e de representatividade setorial, essas duas necessidades devem ser conquistadas com trabalho sério e união.
Um abraço a todos
Sávio Santiago
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Edson Agostinho Tomazella
Santa Fé - Paraná - Produção de leite (de vaca)
postado em 03/06/2010
Meus parabéns Marcelo, bastante oportuno seu comentário, em especial em que comemoramos o DIA DO LEITE (01/06).
Parabéns.