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Situação de mercado e dinâmica dos preços nos últimos meses

POR MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PANORAMA DE MERCADO

EM 11/11/2008

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Os preços pagos pelo leite em outubro confirmaram as expectativas negativas: nova queda, agora de 7,27%, atingindo pouco mais de R$ 0,60 por litro. A correção nos últimos meses foi significativa - em junho, os preços médios estavam na casa dos R$ 0,76. A queda acumulada em 4 meses foi de 20%, em um período em que os custos de produção, já elevados em relação ao ano anterior, subiram ainda mais. Vida difícil para o produtor.

A realidade, porém, é bem mais complexa e afeta todo o setor. Primeiro, temos como pano de fundo uma crise internacional de proporções ainda desconhecidas em sua totalidade, mas certamente grave, afetando a demanda. A recuperação da produção de leite no mundo, resposta aos preços recordes de 2007, coincidiu com a demanda mais fraca decorrente da desaceleração da economia mundial e do aumento dos preços das commodities em geral, afetando a inflação principalmente nos países emergentes.

Falando da oferta global, a Nova Zelândia, por exemplo, está perto de seu pico estacional de produção e esta apresenta por volta de 8% de aumento sobre 2007. A Austrália, que vinha caindo 5% a cada ano, ensaia uma recuperação, com 1,4% de aumento. Os EUA estão com 1,6%, mas o aumento do número de vacas indica que talvez a produção cresça nos últimos meses do ano. O Brasil, como já mencionado em outros artigos, teve forte elevação no primeiro semestre.

Além da composição entre a oferta e a demanda, falando ainda da conjuntura externa, a restrição de crédito força empresas a vender para fazer caixa e honrar seus compromissos. Contratos são renegociados com o produto já embarcado; as oscilações no câmbio colocam risco adicional nas transações e modificam, a cada nova rodada, a competitividade dos países. O mundo está, afinal, passando por forte turbulência e incerteza, em um momento em que o leite já se encontrava em algum grau bem ofertado (leia o editorial sobre o assunto).

O resultado foi o derretimento das cotações externas, que estão cerca de 40% mais baixas do que em junho. Os Estados Unidos já venderam cerca de 20.000 toneladas de leite em pó desnatado ao governo, a um preço de menos de US$ 1.800/tonelada, indicando pessimismo futuro. A Europa, por sua vez, não poderá lançar mão dos estoques de intervenção até março, de forma que tecnicamente não há piso para as cotações, que estão abaixo dos US$ 3.000/tonelada (para o leite em pó integral), mais precisamente casa dos US$ 2.700-2.800. A valorização do dólar norte-americano é outro fator que contribui para a queda nas cotações.
O cenário externo não é, portanto, favorável. Como "boa" notícia, está o fato de que, na Europa, há indicações de que para manteiga e leite em pó os mercados parecem ter atingido o piso. Nada muito reconfortante diante de todo o cenário.

O cenário interno, apesar da brusca queda de preços ao produtor nos últimos meses, parece acenar com possibilidades mais favoráveis. De um lado (figura 1), a oferta acusou o golpe e, de acordo com o Cepea, setembro terminou com menos leite do que o mesmo mês do ano anterior, uma mudança e tanto para um ano em que a produção chegou, em alguns meses, a aumentar mais de 25% em relação ao mesmo mês de 2007. A oferta vinha crescendo muito desde o segundo semestre de 2007 e perdeu todo o fôlego diante da reversão de cenário.

Essa mudança na oferta apresenta nuances regionais. Algumas empresas do Sul reportam quedas de 10 a 20% em outubro, sobre setembro. As pastagens de inverno já se foram e as de verão ainda não estão prontas. Já se fala inclusive em algum aumento de preços para o leite de novembro, pago em dezembro.

Também, pudera. De acordo com o Cepea, Paraná e Santa Catarina tiveram as maiores quedas de preços dentre os principais estados entre junho e outubro (figura 2) e, junto com o Rio Grande do Sul, apresentam os preços absolutos mais baixos entre esses estados.

Figura 1. Variação da captação em relação ao mesmo mês do ano anterior (%).

Clique na imagem para ampliá-la.

Figura 2. Diferença de preços entre outubro e junho, em alguns estados.

Clique na imagem para ampliá-la.

A situação no Centro-Oeste e no Sudeste é ainda complicada. Há a expectativa a respeito do aumento da oferta em função das chuvas, principalmente no início da estação, com o leite de pastagens. Porém, acreditamos que o acréscimo não será significativo e o mercado talvez já tenha caído tudo o que precisava, com preços médios entre R$ 0,60 e R$ 0,65 por litro (quedas marginais e localizadas ainda podem ocorrer no pagamento de novembro). A rentabilidade da atividade está comprometida e, por mais que haja aumento da oferta, há produtores desestimulados, compensando parcialmente essa situação. Considerando que a produção de setembro (pelo índice de captação de leite do Cepea) foi inferior a de setembro de 2007, e que a produção do último trimestre de 2007 foi muito forte, a aposta é que os valores devem ser parecidos com o ano anterior. O vilão, nesse momento, não é mais a oferta interna, mas sim a demanda, tanto nacional como internacional.

Os tempos difíceis podem ser vistos na figura 3, que traz os dados da Receita Menos Custo da Ração (RMCR), corrigida pela inflação. Esse índice representa o quanto em tese sobra por vaca para pagar os demais custos (que não a ração) e gerar lucro. Em outubro, atingiu-se o menor valor desde fevereiro de 2007. Como nesse período os demais custos também subiram, a situação do produtor se deteriorou.

Figura 3. Receita menos custo de ração.

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Talvez ironicamente, o processo verificado nos últimos meses reflete a recomposição da situação da indústria, que desde meados do ano anterior remunerava o produtor a uma porcentagem mais alta do preço de atacado do que em épocas imediatamente anteriores. A figura 4 mostra o preço ao produtor e, com base na estimativa do preço médio de atacado para uma cesta de produtos lácteos, utilizando a destinação industrial do SIF e a utilização de leite fluido para produzir cada produto, a % que o produtor recebeu, bem como a diferença (preço de atacado - preço ao produtor), desde setembro de 2006.

Figura 4. Preço do leite ao produtor, diferença entre preço do atacado e preço ao produtor e porcentagem recebida pelo produtor.

Clique na imagem para ampliá-la.

Nos primeiros meses dessa análise, o produtor recebia algo em torno de 50% do preço de atacado e o preço ao produtor era praticamente igual a essa "margem bruta" da indústria. No momento dos picos de 2007, a indústria teve seu melhor momento: a diferença entre o preço de atacado e o preço ao produtor foi significativa. Embora a % recebida do preço do atacado pelo produtor tenha caído significativamente nesses meses dourados, os preços ao produtor atingiram valores recordes. Com bons preços no atacado, dá para repartir e todos ganham.

A partir de setembro de 2007, a indústria verificou quedas acentuadas no preço de atacado, apenas em parte repassadas ao produtor, que finalizou 2007 recebendo por volta de 56% do preço de atacado e invertendo a situação imediatamente anterior: o preço do leite ao produtor superou essa "margem bruta" (entre aspas, porque não é o conceito de margem bruta contábil, sendo utilizado para facilitar o entendimento do leitor) da indústria. Essa situação perdurou até o início de 2008, quando então os preços internos no atacado iniciaram uma tímida reação, que logo foi repassada aos preços pagos ao produtor, que foram inclusive inflados por outros fatores: expectativa, por parte da indústria, de repetição do padrão do primeiro semestre de 2007; concorrência entre laticínios, visando aumentar captação; economia interna crescendo e cenário externo ainda favorável, e custos mais altos de produção, forçando correção nos preços ao produtor. O resultado é que se chegou ao final do primeiro semestre com o produtor recebendo mais de 58% do preço do atacado.

De junho a agosto, porém, os preços no atacado começaram a cair e essa queda começou a ser repassada ao produtor. Não temos os dados do atacado em setembro e outubro, mas certamente não refletem as quedas de preços ao produtor nesses meses, que foram muito mais intensas.

É possível dizer, analisando esses dados, que as quedas de preço ao produtor verificadas em setembro e outubro refletem não só o cenário atual, mas a tentativa de recomposição das perdas relativas verificadas de setembro de 2007 em diante, quando o produtor passou a receber uma % maior dos preços do atacado e as expectativas de melhores preços para a indústria acabou não vindo na medida esperada. A "correção", enfim, veio a cavalo e de forma drástica, o que gerou protestos de produtores por todo o país, amargando preços bem mais baixos em uma época de custos elevados.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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VILSON MARCOS TESTA

CHAPECÓ - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 14/12/2008

Senhor Gustavo Silveira Borges de Carvalho:

Muito boas suas considerações. Não conhecia como funcionava o CONSECANA. Mas vejo que realmente é bem mais estruturado e se baseia em dados de um leque menor de derivados e tem possibilidade de maior transparência (uma boa correlação estatística já deve dar uma excelente aproximação). Bom seria se fosse possível fazer o mesmo para o leite, mas receio que a realidade da produção e do consumo sejam mais diversos e controversos. A situação dos preços que você mesmo colocou é real e serve de uma prova disso.

O importante é que trocando idéias vamos formando uma compreensão mais próxima do que seria a realidade.

Valeu, abraço.
CÉSAR ALBERTO COUTINHO

PARANÁ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 08/12/2008

O leite sempre foi moeda de negocição dos intermediarios, e a conta fica sempre aos produtores; não ha duvida que a especulação dos laticinios foi aproveitando um momento sensivel, a crise. Conseleite e os grandes laticinios querem fazer do leite, o que foi feito com o frango e o suino, monopolio e controle total. Quem duvidar, me diga o motivo da sede de uma Perdigão entrar neste mercado e estar fazendo planta de beneficio ate em Pernambuco, a Sadia tenta entrar a qualquer custo.

Quando se parece que situação vai melhorar, vem a turma dos insumos, ai falta governo, é só abrir o mercado para importações de adubo, produtos veterinarios, etc, neste caso o que faz o MAPA, aumentar a burocracia para qualquer intenção neste sentido. A infiltração de gente que não entende nada é grande, a realidade é uma corrente controlada por gente que pensa que leite é feito como suco em pó, basta por agua, bater e esta pronto para beber. A saida baseada nas associações e cooperativas lentamente vão sendo deixadas para tras.

Politicamente o governo prefere fazer comicios para sem terras, do que ajudar a classe produtora. Fica a conta para os mais fracos sempre, a base da cadeia produtiva. Por isso quando os produtores gauchos invadem os laticinios e bancos, não estão fazendo mais que atitudes elogiosas do governo aos sem terra. Só que para o produtor de leite, é considerado ato insano. Fica a pergunta: Até quando... novamente.
JOSE RONALDO BORGES

CUIABÁ - MATO GROSSO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/12/2008

Eu estava produzindo aproximadamente 1.100 litros diários em duas ordenhas com utilização de concentrado. Hoje estou produzindo 430 litros diários em uma ordenha e somente a pasto, sem nenhum tipo de suplementação concentrada. Beneficios observados:

1) Custo menor de agua, energia, materiais de limpeza e desinfecção
2) Bezerras crescendo mais saudáveis
3) Menor necessidade de mão de obra
4) Sobra mais tempo do pessoal para outras atividades

E o melhor: O custo é menor que a receita, o que não acontecia quando produzia 1100 litros diários.

Produzir muito não é sinal de rentabilidade e não pretendo voltar a ter duas ordenhas. E se o preço continuar a cair é muito provável que não faça nenhuma ordenha!
EDUARDO ALVES BARRETO

ITAPETINGA - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/12/2008

O produtor de leite precisa aprender a cortar a produção de leite no momento de queda de preço. Diminuir a ração, tirar vaca menos produtiva da ordenha, soltar leite para crias, enfim, cortar a entrega de leite, forçando a recuperação dos preços.

Crio vacas com ordenha de bezerro ao pé e sempre faço isso quando o preço compensa. Me vale mais soltar o leite para aquela bezerra especial do que entregá-lo a preço de banana (quem dera tivessemos preço da banana no leite). Mas a maioria dos produtores reagem como canibais: vão roendo a própria carne aumentando a produção para tentar manter a renda. Aí fica díficil a atividade.
GUSTAVO SILVEIRA BORGES DE CARVALHO

LAGOA DA PRATA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/11/2008

Prezado Vilson Testa,

Concordo plenamente com você. Já entrei no site do Conseleite PR e fiquei horrorizado. A minha intensão com o artigo que escrevi foi da tempestade de idéias e que bom que você, que é aí da região, se sentiu provocado e deu seu depoimento. O Conseleite que imaginei foi nos moldes do Consecana de SP, que pelo menos por enquanto tem sido um sucesso. Eu tenho área arrendada para cana e vou a Usina para discutir de tudo, programação de safra, variedade plantada, ocorrência de pragas, % no arrendamento, tudo, exceto preço. Eu não preciso mais discutir preço com a usina pois é calculado pelo Consecana SP.

As pessoas me perguntam como fazer para acreditar no que o Consecana diz? Será que os representantes dos produtores não estão comprados e favorecendo a indústria? É muito simples, Vilson. Quando abasteço o meu carro, e eu só uso Etanol, claro, e vejo o preço da bomba cair eu já sei que o preço da cana também vai cair. Se o preço da bomba subir e o preço do ATR -Açúcar Total Recuperado (unidade que mede a qualidade da cana e forma o preço da tonelada) não subir basicamente quase que na mesma proporção e num curto espaço de tempo, então o Consecana não funciona, ficaria desmoralizado e colocaria em risco o fornecimento de cana para as usinas. Portanto não é de interesse delas também.

Além disto, o sistema Consecana é muito mais institucionalisado do que o Conseleite PR, possui várias câmaras técnicas, duas grandes associações, a Unica e a Orplana. É muita gente pra ser comprada e calada. Claro, não é tão simples assim, eu falei do etanol mas depende do mercado de uma cesta de 8 produtos obtidos com o processamento da cana.
Na prática, basta um bom jornal, acompanhar os índices na BMF que você percebe claramente que o preço da cana praticado hoje é condizente e alinhado com o mercado final. Não dá para ser blindado ao mercado senão criamos uma bolha e aí você já está vendo o resultado das bolhas não é.

Agora, o duro é ver o leite cair R$ 0,28 em litro e continuar a encontrar Leite em pó a 15,00 o Kg ou Leite UHT a R$ 2,00 o Litro. Aí é difícil de aguentar.
Valeu Vilson. Um forte abraço.
EDUARDO AMORIM

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/11/2008

Marcelo,

Estamos com duas crises simultâneas, a econômica mundial e a crise do preço do leite pago ao produtor. O fato é que ninguém sabe o que vai acontecer com os preços de leite ao produtor nos próximos 06 meses. Se a crise piorar, e em algumas regiões apenas continuar do jeito que está, nos próximos dois meses possivelmente teremos produtores encerrando as atividades, sejam aventureiros, sejam produtores antigos que tem gado mais puro e não tem como comprar a ração aos preços atuais e plantar o milho ou sorgo com os preços de adubos, e podemos ver boas matrizes leiteiras serem vendidas para abate.
FRANCO OTTAVIO VIRONDA GAMBIN

JAMBEIRO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/11/2008

Alguem poderia me explicar: os preços dos adubos dispararam por qual motivo?
SAVIO

BARBACENA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 24/11/2008

Bom dia Jank,

Concordo com o que você colocou.
Talvez eu tenha me expressado mal em relação a disponibilidade de leite. Concordo que nos patamares atuais de preço no campo haverá uma queda na produção antecipada, apesar de achar que não será suficiente para regular os preços finais. Realmente as indústrias estão girando pouco estoque nos dois últmos meses, porém temos que tomar cuidado com esse medidor.

Esse pouco estoque de giro não é motivado por um consumo adequado nem por baixa produção, muito menos por uma exportação satisfatória. O "baixo estoque de giro" é fundamentalmente motivado pela necessidade de capital de giro. Como você colocou, as linhas de crédito de giro para as indústrias sumiram e a necessidade do giro ser financiado pelo produto complica ainda mais o mercado. O mercado fica muito vulnerável quando vender "bem" deixa de ser o principal objetivo passando à ser simplesmente "vender".

Comentei mês passado que o leite longa vida já apresentava sinais de recuperação assim como o leite em pó, isso realmente ocorreu até se aproximarem as datas de pagamento de produtores. Entre os dias 13 e 25 o mercado despencou novamente, um claro movimento de venda para cobrir problemas financeiros.
Em relação aos preços superestimados de 2008 acredito que, como você disse, realmente foi por conta de uma "alavancagem excessiva" e "excesso de otimismo", porém motivados por vendas e valorizações de ativos de médias e grandes indústrias. Por isso que acredito na bolha especulativa de preços. O Marcelo pode confirmar que estivemos entre os países com leite mais caro do mundo em 2008.

Por final gostaria de expor que compartilho de seu otimismo em relação a 2009, acredito que o mercado irá se regular a partir dos meses de janeiro/março inicialmente no leite fluido e posteriormente nos subprodutos. O único adendo sobre esse otimismo é que devemos nos acostumar com um mercado mais "pé no chão". Com certeza não teremos preços nos patamares de R$ 0,80 no campo tão cedo, mas regularemos nossos preços a realidade mundial, voltando no mínimo a ter rentabilidade e sustentabilidade na atividade.

Um abraço a todos.
VILSON MARCOS TESTA

CHAPECÓ - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 20/11/2008

Caro senhor Gustavo Silveira Borges de Carvalho, tem uma pergunta básica que não se cala: por que um Conseleite, nos moldes daquele do PR e SC (controlado pelas indústrias e que administra preços do varejo para o produtor) ajudaria os produtores de leite?

A propósito, esses estados tem os menores preços... Sei não quer dizer que é culta (ou toda) do Conseleite, mas será que não é mais provável que prejudique os produtores?

Afinal, com ele não fica mais fácil nivelar preços para baixo, e esticar os prazos de pagamento, definindo e pagando valores após as indústrias terem vendido o seu leite e, com isso , elas não minimizam e transferem ainda mais os riscos aos produtores?

Abraço e bons negócios
GUSTAVO SILVEIRA BORGES DE CARVALHO

LAGOA DA PRATA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/11/2008

Se quiserem resolver esta crise basta responder a esta pergunta: O que faz a indústria pagar mais se nós entregamos por menos?

Como o país é continental, não há cadeia sustentável do leite se não existir a interferência do governo. Para isto o governo tem que entender que o leite possui características peculiares que justificam, perante a sociedade e aos outros produtos agropecuários, um tratamento diferenciado. Quais sejam:
1- É ou pelo menos deveria ser considerado um alimento essencial, portanto, é uma questão de segurança alimentar.
2- O mercado de leite não funciona como um mercado perfeito, ou seja, a lei de procura e oferta tem contaminantes. O leite possui características que com as quais o produtor não tem chance de defesa no jogo de mercado. São elas:
- O produto é perecível e o produtor é praticamente obrigado a entregar.
- O produtor é obrigado a ordenhar a vaca senão ela pode até morrer.
- A atividade tem baixa liquidez. Não é fácil sair da atividade sem perder praticamente tudo o que tem.
3- A atividade possui um alto custo de manutenção.
4- Exige investimento especializado e de longo prazo. Não é como comprar um trator que pode plantar de soja a batata. Com uma ordenha mecânica só dá para ordenhar e mais nada.
5- Não tem mecanismos de proteção de mercado como os contratos de hedge da BM&F.

Por isto, os produtores de leite estão sempre na margem mínima ou abaixo dela. A indústria só não paga menos porque monitora nossos custos e sabe que se pagar abaixo do custo por muito tempo no futuro ela poderá ter problemas de fornecimento. Mas uns 3 ou 4 meses eles podem usar para fazer um caixa extra para pagar férias e 13º. Quando algumas indústrias surtam ou se estranham o leite sobe mas dura pouco como aconteceu em 2007.

Mas tem o elo final, os atacadistas e varejistas. Os preços finais nunca estão em sintonia com os preços ao produtor. E ainda resta o elo inicial da cadeia, os fornecedores, que tem a ver com os custos de produção. Eles também vão sofrer pois há 3 meses minha conta em nossa cooperativa chegava a 15.000,00 por mês e hoje não vai dar 4.000,00. Calma, não é nenhum milagre. Minhas vacas estão pagando o pato, estão emagrecendo, não estão ciclando, meus funcionários estão sobrecarregados. Infelizmente não sei o que vou fazer.

Por falar em elos da cadeia produtiva, talvez esta crise seja a grande oportunidade que temos de implementar um CONSELEITE em cada estado. O que está certo para mim é que o governo não vai atuar na regulação do mercado mas pode sim atuar na regulação e racionalização da oferta.
- Fomento a diversificação da produção nas fazendas de leite.
- Linhas de estocagem em nome dos produtores.
- Fomento a unidades(evaporadoras ou UHT) que prestam serviço direto ao produtor permitindo que ele estoque o próprio leite.
- Fiscalização das unidades industriais. É muito leite ou é muito soro?
- Proibiçao do uso do hormônio lactotropina.
- Hedge para leite beneficiado, etc.
SILVAN ANTONIO DOS SANTOS

CAMPINA VERDE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/11/2008

Infelizmente nos últimos tempos as noticias do mercado do leite não são nada animadoras. Todos os comentários do artigo são pertinentes e caberiam tantos outros para retratar o descaso por que passamos há longos anos. Sabemos que a nível de produtor tudo já foi feito para reduzir custo, melhorar genética, etc. O produtor já não encontra mais animo para seguir produzindo leite.

Agora uma coisa é certa: a inércia de nosso governo que não move uma palha para amenizar a situação degradante por que passamos. Nós não podemos reivindicar somente credito barato, pois somos pressionados pelos bancos a tantos produtos que nosso credito acaba ficando em suas prateleiras. O que precisamos é de respeito, pois estamos produzindo alimento em um pais de tantos incentivos sociais, e que não contempla o leite na merenda escolar. Precisamos fazer chegar uma avalanche de reclamações e reivindicações a nossos governantes e aos políticos de cada região.

Por que será que bancos, montadoras de automóveis e construtoras gozam de tantos benefícios? Será que o campo também não emprega e não gera divisa para a nação?
ROBERTO JANK JR.

DESCALVADO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/11/2008

Concordo apenas em parte com o que disse o Sávio Santiago. Certamente a saúde financeira dos laticínios de médio porte é, a meu ver, o principal fator que define os atuais preços deprimidos de leite. Mas é um problema gerado muito mais pela alavancagem excessiva e excesso de ousadia do que por preços de leite super-estimados.

Não creio que o mercado tenha sobras; está enxuto e segue com preços baixos. Os preços não decolam por falta de crédito para capital de giro, ACC´s e dificuldades em renovar créditos para investimentos, principalmente na área industrial. O desestímulo recente já foi importante e a curva de regressão do gráfico da produção nacional mostra isso.

Talvez a exportação venha a balizar o preço do volume excedente ao mercado interno, e possivelmente esse será um preço de patamares baixos, mas se isso ocorrer certamente provocará mais desestímulo ao produtor. De uma certa forma estamos no caminho certo para a retomada dos preços internos. Estou otimista.
MÁRIO DA ROCHA FRADE

CUIABÁ - MATO GROSSO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/11/2008

Que tenha havido excesso de oferta eu aceito, que o nosso consumo interno seja baixo eu também aceito, o que eu não consigo aceitar é uma comercialização tão desonesta que de um ponto sacrifica o produtor com preços abaixo do custo e de outro apresenta aumento de preços ao consumidor; quando eu recebia R$ 0,75 por litro de leite produzido em minha fazenda, no município de Itiquira em MT, aqui em Cuiabá onde resido, comprava leite a R$ 1,72, hoje recebo pelo mesmo leite R$ 0,53 e no mercado o mesmo leite está sendo vendido entre R$ 1,98 e R$ 2,05.

Onde está esse governo que não interfere? Se existe super oferta, o sério seria que o preço ao consumidor caísse, não só pela diminuição do custo do atravessador, mas também como forma de estimular o consumo. O nosso país infelizmente precisa receber um troféu pela indiferença com que são tratados assuntos tão sérios.
SAVIO

BARBACENA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 14/11/2008

Infelizmente de uma maneira geral o que era alertado por agentes industrializadores de leite a cinco, seis meses atrás, e que era repudiado por todos aconteceu: a bolha especulativa estourou e por azar em meio a uma crise internacional. Ao meu ver existem duas soluções para amenizar esse problema: ou se reduz produção interna ou aumenta o consumo. Porém essas soluções são de difícil execução visto que temos um país de proporções continentais, fator que diferencia a sazonalidade do produto a cada região e também infelizmente não conseguiremos aumentar o consumo de um dia para o outro já que nunca se fez praticamente nada nesse sentido.

Exportação seria o paliativo de sobrevivência mais para enxugar o mercado do que para promover uma recuperação de preços considerável. Os preços no mercado externo estão ruins e as vendas muito restritas a um produto de menor padrão como o nosso.
Vejo que a balança voltará a se equilibrar no início do ano quando fatalmente haverá uma redução de produção e alguma recuperação no leite fluido.

Mas como colocou com muita propriedade o Marcelo, existe uma clara recomposição de perdas da Indústria necessária para não haver uma quebradeira geral no setor, afinal de contas se a indústria quebra o produtor não recebe e a situação piora. Esse ajuste de mercado de certa forma confirma o que vínhamos afirmando a seis meses atrás nessas matérias do MilkPoint e que causávamos reações até de revolta de alguns produtores: Passamos por mais de seis meses de preços extremamente especulativos no campo, a meu ver motivados por vendas de ativos de médias e grandes indústrias. Definitivamente não havia espaço no mercado para preços acima de R$ 0,65 em 2008.

Acredito que em 2009 não passaremos muito além desse patamar de R$ 0,65 a R$ 0,70, afinal de contas o preço pelo erro na condução do mercado em 2008 foi muito amargo para todos. Continuo acreditando que a crise pior não dura mais de 90 dias, quem for profissional, independente da condição financeira e nível de produção, deve renegociar dívidas, conter ao máximo seus custos e permanecer no mercado que passa por uma seleção natural de quem é produtor e quem é aventureiro.

Um abraço a todos;

Sávio Santiago
FABRICIO BARCELOS DE QUEIROZ

APARECIDA DO TABOADO - MATO GROSSO DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/11/2008

Acho que este panorama vem esclarecer o que o produtor necessitava, mas é necessario esclarecer que mesmo com esta baixa os produtores de minha regiao estaão muito afetadps com a baixa na entressafra, que necessariamente o custo da produção é muito elevado e o governo estadual e federal nao ajudam os produtores.
VICENTE ROMULO CARVALHO

LAVRAS - MINAS GERAIS - TRADER

EM 12/11/2008

Esta é a realidade hoje, a de amanhã ninguém sabe, cada dia uma nova surpresa. Eu já disse e repito, vamos apertar o cinto dentro da porteira. Estou determinado a plantar só com esterco, não importa se o resultado será 50 sacas por hectare. Pois acredito que será melhor que 100 com adubo químico. É duro você ordenhar uma vaca para tirar 8 litros, quando poderia tirar 12/14 ou até 15 da mesma vaca, com uma dieta melhor. Mas estes 8 litros, com custos barato e, menos leite no mercado, é que poderá ser um caminho.

Esta crise vai ensinar muita coisa, principalmente para a turma que tem vaca dando 30 a 40 litros/dia. Se esta turma aguentar, tenho certeza que eu também vou sobreviver. O tempo dirá, vamos aguardar.
DOMINGOS

CÁSSIA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/11/2008

Para que essa reportagem fique completa, precisa existir uma pesquisa que mostre a diferença do preço pago ao produtor e o os praticados no varejo; assim poderiamos ver que os laticinios estão ficando com uma fatia maior, pois os preços praticados no atacado parece que não cairam. Resultado: quem aguentar ficar neste mercado sem vender as vacas podera se dar bem lá na frente.

Abraços,
Domingos/MG
RONALD DIAS TROCCOLI

GUARANI - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 11/11/2008

Uma coisa é certa: do jeito que tenho visto serem vendidas matrizes leiteiras de ótima lactação para o corte devido a ausência de boi gordo e péssimo preço de leite, dentro de 1 ou 2 anos a reposição valerá ouro!
Automaticamente, com menos vaca também diminuirá oferta de leite no mercado. Ao menos uma luz ao fim do túnel. Espero que essa tendência esteja correta.
MARCOS TAVOLARO

BROTAS - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 11/11/2008

Realmente esta oscilação de preços deixa o produtor louco. Aqui optamos por não subir aos ceus, e nem descer ás profundezas. Mas o que está pegando mesmo é a falta de crédito para desconto de títulos e duplicatas. As empresas estão descapitalizadas e o dinheiro caro. Os juros comem as margens. As margens da indústria estão muito baixas, os supermercados exigem promoções em cima de descontos, em cima de bonificaçoes. Sofremos dos dois lados. Dá vergonha pagar leite no preço que pagamos, mas dá ódio ver leite longa vida abaixo de custo em tudo que é mercado deste país. Esse joguinho tem que acabar.

Todos, industria e produtor, precisamos de credito barato, dinheiro fácil, impor limites ao mercado que abusa do direito de exigir descontos, pois sabe que estamos descapitalizados e necessitamos fazer caixa. Estamos no mesmo barco, temos que nos unir. Tem fazenda de leite tipo A aqui da região vendendo leite bem abaixo do custo e se vangloriava no passado de que imporia regras ao mercado. Ninguem impõe regras ao mercado, somente o equilibrio demada /produção.

Chegou a hora de frearmos um pouco a produção. Só não se veem preços mais baixos no mercado pois o comercio esta comendo quietinho pelas beiradas em forma de descontos, bonificaçoes e promoçoes.
RICARDO SKAF

BELA VISTA DE GOIÁS - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/11/2008

Ótimo artigo. Pena que informações tão esclarecedoras e preciosas, fiquem restritas a poucas pessoas, que podem ter acesso a esse tipo de informação. As nossas cooperativas e nossos sindicatos rurais, deveriam criar comissões em suas respectivas entidades, para propagar, difundir para o maior numero possível de produtores, esclarecimentos tão importantes e que, sem dúvida alguma, contribuiria de maneira significativa para o fortalecimento e a conscientização de todos os produtores. Acredito que, somente agindo desta maneira, é que teremos condições de nos fortalecer, unindo-nos cada vez mais para enfrentarmos os problemas relativos ao nosso setor.