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Queda de 4,5% na produção do primeiro semestre, mas disponibilidade per capita pouco se altera

POR MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PANORAMA DE MERCADO

EM 02/10/2009

4 MIN DE LEITURA

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O IBGE divulgou no último dia 30 os dados relativos à captação de leite inspecionado pelo SIF no Brasil no primeiro semestre de 2009. Confirmando o que a amostragem obtida pelo Índice de Captação de Leite do Cepea/USP já indicava, a queda foi significativa: 4,52% a menos do que em 2008.

A retração é inédita no passado recente do setor, como se pode verificar no gráfico 1. Nem nos anos de maior crise houve retrocesso na captação de leite. É bem verdade que no primeiro semestre de 2008 a produção cresceu significativos 13,9% sobre 2007, ou 1,18 bilhão de litros. Mas, nesse ano, perdemos 37% do aumento que conseguimos de 2007 para 2008.

A queda ocorreu principalmente em função do segundo trimestre, em que a produção inspecionada caiu 8,7% sobre 2008 e 13,6% sobre o primeiro trimestre.

Gráfico 1.: Variação da captação inspecionada entre primeiros semestres de anos consecutivos.

Clique na imagem para ampliá-la.

Com os preços em recuperação desde maio, é esperado que essa forte queda verificada até junho tenha sido parcialmente revertida nos últimos 3 meses, até porque o segundo semestre de 2008 foi caracterizado pela redução da intensidade do crescimento da produção, resultando finalmente em oferta menor de leite em comparação ao ano anterior, verificada nos dois primeiros trimestres do ano.

De outro lado, há informações de que a demanda interna de alimentos foi pouco afetada pela crise. Dados apontam que, em volume, o primeiro semestre apresentou crescimento de 15% sobre 2008 em relação ao consumo de alimentos, e que a crise não foi suficiente para reverter o processo de melhoria da renda e crescimento da classe média, em detrimento das classes menos favorecidas, que vêm encolhendo nos últimos 6 anos.

Diante desse cenário, era de se esperar um forte desabastecimento, ainda mais considerando que, nos últimos anos, o mercado total crescia a uma taxa de 3% ao ano, sendo metade dele devido ao aumento do consumo por pessoa e a outra metade em função do crescimento populacional, isto é, pelo crescimento orgânico da população.

Em resumo, em contraposição a um mercado que vem se expandindo em média a 3% ao ano, tivemos 4,5% menos leite (inspecionado pelo SIF, é bom que se diga) no país. Essa combinação seria suficiente para jogar os preços nas alturas com efeito significativo na inflação, resultando, posteriormente, em uma entrada maciça de leite importado e, depois, na recuperação da produção, estimulada por preços recordes.

Sem dúvida, os preços no mercado interno subiram e o leite voltou a ser apontado na mídia como "o vilão da inflação", porém por um período curto de tempo. O gráfico 2 mostra a elevação dos preços dos principais lácteos no atacado e, o gráfico 3, mostra o preço composto de venda do leite no varejo, estimado a partir do mix entre leite UHT, leite pasteurizado, queijos e leite pó, convertidos para equivalente-leite.

Gráfico 2. Preços dos derivados no atacado (Cepea).

Clique na imagem para ampliá-la.

Gráfico 3. Preço composto de venda do leite no varejo (R$/litro), deflacionado pelo IGP-DI.

Clique na imagem para ampliá-la.

Neste último, se analisarmos o preço médio desde janeiro de 2008, veremos que passamos quase que o ano todo vendendo leite (na forma de leite fluido, pó ou queijo) entre R$ 1,62 e 1,79/litro, com valor médio de R$ 1,72. Em julho 2009, passamos dos R$ 1,95 por litro, isto é, o setor conseguiu agregar mais de RS$ 0,20 por litro sobre o valor médio, mesmo considerando que o pó puxou os preços de venda para baixo.

Mas, a julgar pela situação colocada acima (pouco leite e demanda forte), era de se esperar mais, até porque o produto que realmente subiu significativamente foi o UHT (o queijo também, mas menos), fruto em parte de uma situação específica verificada por esse produto: dificuldade (ou quebra mesmo) de empresas com fatias importantes de mercado; tributação do UHT de fora do estado em São Paulo, que representa 40% do mercado brasileiro; maior produção de leite em pó a partir do segundo semestre de 2007 (afetando a produção UHT), atraída pelos fortes preços externos.

O que houve, então?

O que houve foi que, enquanto no primeiro semestre de 2008 tivemos balanço altamente positivo entre exportações e importações, resultando em retirada líquida de 260 milhões de litros do mercado, nesse ano o processo foi inverso: internalizamos cerca de 202 milhões de litros quando contabilizado o volume exportado menos o volume importado. Somando-se os dois períodos, isso significou 462 milhões de litros a mais no mercado interno (tabela abaixo). Praticamente volume igual (na realidade, 5,7% a mais) ao que deixamos de produzir no período (437 milhões de litros).

Clique na imagem para ampliá-la.

Mesmo considerando o crescimento populacional no período, a disponibilidade per capita de leite por habitante pouco variou: 49,3 kg para 48,8 kg de leite inspecionado pelo SIF no primeiro semestre, apenas 1% a menos.

Esses dados mostram que, apesar do Brasil exportar e importar pouco de sua produção, sendo hoje basicamente um país autossuficiente, as exportações (ou sua ausência) são fundamentais para regular o mercado. Em 2008, no primeiro semestre, exportamos 4% da produção e importamos 1,2%. Em 2009, exportamos 2% e importamos 4,3%. Essas diferenças foram o bastante para equilibrar a disponibilidade per capita de leite mesmo diante de um quadro inédito de retração na produção.

A análise dessa variável de comércio exterior é a peça faltante a explicar o porquê de, em uma situação de menos leite, conforme confirmado oficialmente dia 30 pelo IBGE, não termos tido de fato um déficit de abastecimento (e preços ainda mais altos em um primeiro momento).

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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EDUARDO AMORIM

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/10/2009

Marcelo e Roberto Jank,

Temos dois textos muito pertinentes. Ressalto que o Brasil está vivendo um momento ímpar em sua história, passando de coadjuvante a protagonista na economia mundial e isto terá reflexos no mercado de produtos lácteos com maior consumo per capita e conseqüente aumento na demanda. Realmente está chovendo muito e antes do período normal de chuvas, principalmente em Minas e São Paulo, grandes Estados produtores de leite. A grande incognita é saber quando teremos bons preços pagos ao produtor. Os custos de produção continuam altos e se o valor pago ficar num patamar de preços inferior a R$ 0,70, teremos que tirar leite de pedra. Vamos aguardar as próximas voltas da velha e conhecida montanha russa do leite.

Abraço a todos.

Eduardo Amorim
HELVECIO OLIVEIRA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 05/10/2009

Parabéns Marcelo e Roberto. Os comentários não são paradoxais, são complementares...e muito enriquecedores. A turma que se prepare com estratégias comerciais.

Forte abraço, Helvécio.
LAÉRCIO BARBOSA

PATROCÍNIO PAULISTA - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 05/10/2009

Caro Marcelo,
Parabéns pelo artigo.

Além das observações do Roberto Jank, com as quais concordo, acho que temos uma outra excelente notícia, que é o aumento consistente do consumo interno, com a mudança do patamar de consumo per capita.

Pelos números apresentados, nos últimos 3 semestres o consumo ficou acima de 4 litros/hab/mes, quando pelas informações que disponho esse numero era mais próximo de 3,5 litros/mes em 2007 (Voce poderia confirmar esse dado?). Caso isso se confirme, e com a retomada dos preços no mercado internacional (o único senão continua sendo o cambio), acho que dá pra esperar um cenário bem melhor para o ano de 2010.

<b>Resposta do autor:</b>

Caro Laércio,

Obrigado pela mensagem. Você se refere ao leite UHT, ou UHT+pasteurizado? Vou tentar levantar mais dados sobre isso, mas certamente é uma ótima notícia. Concordo com você. Acho que 2010 teremos um novo e bom momento para a atividade.

Abraço,

Marcelo
ELVIS LUÍS BASSO

SANTO ÂNGELO - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/10/2009

Fico triste com a matéria, pois vejo aqui no sul fabricas com seus estoques abarrotados e baixas frequentes de mais de R$ 0,10 por litro se repetindo mês após mês, o que vai levar a produtores trabalharem no vermelho por um bom período. Infelizmente!
ROBERTO JANK JR.

DESCALVADO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/10/2009

Temos uma péssima e uma ótima notícia; a péssima é que voltamos a ser deficitários no comércio internacional de lácteos, seja porque não temos política cambial adequada, seja porque os níveis de preços externos compuseram neste período o exacerbamento da crise internacional. Fato é que nossa política de exportação não se mostrou consistente em ambiente adverso e isso é de alto risco futuro.

A ótima é que a expressiva queda de 4,3% da produção primária em 2009 suportou em níveis satisfatórios o ambiente comercial doméstico do setor, equilibrando a demanda e a oferta, esta inflada pela injeção de excedentes exportáveis não praticados e por importações em excesso e oportunistas, principalmente do Mercosul.

Que ninguém duvide: queda de 440 milhões de litros em 6 meses é muito relevante; esse fato associado á retomada das exportações com o recente aumento do preço internacional e á consequente queda das importações motivadas pelo atual menor preço interno vão pressionar muito rapidamente a oferta de leite... e começa a gangorra novamente.

<b>Resposta do autor:</b>

Roberto,

Concordo, mas acho que nos últimos 3 meses parte dessa queda de 4,5% (mais, se considerarmos só o segundo trimestre) já foi corrigida, até porque o segundo semestre de 2008 foi fraco, além do que os preços melhores estimulam recuperação.

E, historicamente, sempre temos um aumento nos 3 últimos meses do ano. Nós últimos 12 anos, foi de 11,3% em média. Acho que a pressão irá ocorrer, mas a partir de fevereiro/março.

Veremos.

Abraço,

Marcelo

<b>Resposta do leitor:</b>

Marcelo,

Concordo, mas observo que neste ano temos uma variável relevante e inédita: nunca choveu tanto e tão cedo em julho e agosto. Meus dados iniciais de pluviometria são dos anos 50, mas a fazenda Cambuhy, de Matão, SP, tem dados de 1912 e nunca registrou um volume igual a 2009 nestes meses. As fazendas que utilizam pastejo tiveram muito mais pasto e capacidade de aumento de produção neste último trimestre.

Como vc observa em seus artigos, é difícil saber quanto produzimos de leite em cada perfil de produção; vide o dados recentes do censo, onde supostamente 58% do total vem da agricultura (pecuária) familiar, fato surpreendente em relação aos percentuais que o setor vinha estimando.
Assim, acredito que pode haver uma antecipação da pressão já que o tradicional aumento de oferta do final do ano provavelmente também foi antecipado.

Um abraço,

Roberto
MilkPoint AgriPoint