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O futuro dos interesses organizados em meio aos protestos no Brasil

POR BRUNO VARELLA MIRANDA

PANORAMA DE MERCADO

EM 25/06/2013

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Ao ocupar as ruas de diversas cidades, milhões de brasileiros pareciam querer recuperar o tempo perdido. Um protesto que começou com uma pauta pouco popular – quantos cidadãos realmente defendem o “passe livre”? – acabou ganhando dimensões pouco comuns em nosso país. De repente, era como se o futuro de tudo o que nos incomoda estivesse em jogo. E, como não podia deixar de ser, quando o “tudo” dita o ritmo, contradições são inevitáveis. Maior participação do Estado no fornecimento de serviços públicos ou um mundo “sem catraca”? Organização da sociedade baseada no corporativismo ou maior abertura econômica? São muitos os exemplos de agendas opostas que conviveram nas ruas do Brasil nas últimas semanas.

Diante de tamanha diversidade, descrever a natureza das manifestações constitui uma tarefa hercúlea. Levará algum tempo até que um natural processo de decantação nos permita entender o que realmente está ocorrendo nas ruas do Brasil. Menos difícil será especificar os efeitos dos protestos sobre o sistema político atual. Devido ao conhecimento acumulado sobre o funcionamento das instituições brasileiras, é possível traçarmos hipóteses para o futuro. Embora não tenhamos certeza sobre os rumos dos acontecimentos, há pelo menos alguns alertas que merecem ser feitos, dado que apontam tendências contrárias ao que imagina boa parte dos manifestantes.

Entre as muitas lições tiradas dos estudos na área de economia política, duas merecem referência no atual contexto: i) políticos não são indivíduos altruístas, que trabalham unicamente para o bem comum, possuíndo interesses pessoais; ii) o fato de um grupo de indivíduos ter as mesmas preferências não implica que trabalharão para um fim comum. Da primeira, sabemos que o político profissional teme o desemprego como qualquer trabalhador. Como a campanha eleitoral custa caro, é natural que alguém a financie, e daí o peso dos lobbies sobre os legisladores. Não é segredo para ninguém que muitos grupos econômicos oferecem recursos que auxiliam os políticos a manterem o emprego, obtendo em troca apoio no Congresso para seus interesses.

Assim, determinado setor da economia pode obter legislação mais favorável caso consiga angariar a “simpatia” dos legisladores. Como a “simpatia” não é grátis, porém, desafios devem ser contornados. Um dos principais ocorre quando uma empresa pega “carona” nos gastos feitos por outras. Mais especificamente, determinado agente pode se beneficiar de uma lei que proteja o mercado sem gastar um centavo para isso desde que as suas concorrantes o façam. O resultado é que, não raramente, ações coletivas são impedidas devido à ausência de garantias de que todos cooperem. Para que todas as empresas paguem a conta do lobby, é necessário a emergência de mecanismos que ofereçam incentivos à participação e punições aos que decidirem pegar uma “carona” no esforço alheio.

Em equilíbrio, um sistema político oferece um preço médio para o lobby. Determinado grupo de agentes econômicos, ao buscar uma legislação favorável para o setor, calculará os benefícios e custos de financiamento da atividade política. Como gastos, contabilizarão não apenas o financiamento da campanha, como também os recursos necessários para estabelecer as estruturas que fundamentam a ação coletiva. Exemplos incluem uma associação ou uma cooperativa. Sempre que necessário, também buscará mitigar os riscos envolvidos em sua estratégia. Possível alternativa já é adotada por diversos setores, que financiam todos os candidatos mais competitivos nas eleições, aumentando as chances de estar com o vencedor ao fim do processo. Para o político, cujo cálculo envolve os recursos necessários para a campanha e o retorno em votos, tal arranjo é bem visto, dado que assegura a perenidade no emprego.

Ocorre, porém, que a saída de milhões de pessoas às ruas sem uma motivação única encarece o preço dessas relações. Detentores dos votos, os indivíduos pressionam os legisladores, cujo futuro no emprego depende também da popularidade do eleitorado. Em resposta aos protestos, estes podem impulsionar decisões que vão de encontro aos interesses de grupos econômicos com lobbies atuantes. Diante de tantas demandas, qualquer setor pode ser afetado. O resultado é o aumento da incerteza no relacionamento entre os políticos e tais grupos de pressão, dado que o financiamento da atividade política não garante o apoio às preferências dos lobbies em contextos de convulsão social. Nunca se sabe qual será a próxima demanda, e é provável que, em meio à diversidade de pedidos, a escolha do setor a ser afetado seja menos previsível que de costume.

Com isso, é necessário muito cuidado antes de conclusões como “já que está todo mundo protestando, a saída é sair à rua também”. No caso da agricultura, por exemplo, boa parte das agendas defendidas historicamente pelo setor se basearam em uma ação coletiva tradicional, em que a pressão sobre os legisladores se deu por meio da criação de lideranças políticas e o gasto de recursos na construção de uma agenda capaz de persuadir os legisladores. É provável que os atuais protestos, ao invés de reforçar o peso de tais práticas, estejam contribuindo para erodir parte de suas vantagens. Desconsiderar o cenário aqui exposto poderá levar a frustrações no futuro.
 

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BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 19/07/2013

Prezado Arthur,



Obrigado pelo comentário. Acho que você toca em um ponto interessante: as instituições atuais não estão preparadas para lidar com o tipo de protesto que está ocorrendo no Brasil. O padrão sempre foi o da pressão organizada, e o uso dos mecanismos de representação para a apresentação de demandas. Agora o povo sai na rua e todo mundo resolve falar o que quer mudar, sem muita organização...



É aí que deixo uma provocação. O que aconteceria caso tentássemos transformar as grandes manifestações do mês passado em um protesto "tradicional", com liderança e organização "à moda antiga"? Suspeito que perderia muito da força, porque nas avenidas do Brasil se juntaram pessoas com agendas muito diferentes. Em outras palavras, penso que houve mais de uma manifestação dentro da manifestação.



Atenciosamente



Bruno Miranda
ARTHUR R. JEROSCH FILHO

CHAPADA GAÚCHA - MINAS GERAIS

EM 15/07/2013

Muito bom Bruno.

Nos primeiros dias das manifestações, Dilma aparecia sempre bastante preocupada. Nos dias seguintes, já falava em coibir manifestações e autorizou a compra de caminhões de jato d'água. Por incrível que pareça, manifestações "pacíficas" não causam os mesmos efeitos na "camorra política", como quando existe vandalismo e balas de borracha, gaz lacrimogêneo e spray de pimenta. Em outras palavras, o que parece funcionar, é infelizmente o vandalismo.

Houve a princípio um objetivo das manifestações, que foi imediatamente atendido. Entretanto, seguiu-se a falta de objetivos maduros.

Acredito que se fosse feita uma pauta de exigências (são muitas) e apresentada ao governo com o prazo de pouco tempo para seu total cumprimento, a coisa ia funcionar.

Preciso é para isso, um líder, Quem sabe você BRUNO. Pense nisso.
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 09/07/2013

Prezado José,



Agradeço o comentário. O artigo busca justamente chamar a atenção para as consequências das manifestações para outras iniciativas buscando objetivos políticos específicos. É hora da agropecuária refletir sobre a melhor forma de fazer valer os seus interesses, escolhendo uma estratégia e um discurso adequados de acordo com o atual contexto.



Atenciosamente



Bruno Miranda
JOSE GILBERTO VIAL

ALEGRE - ESPÍRITO SANTO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 09/07/2013

Parabens pelo artigo! Até que enfim,o povo brasileiro acordou e como diz o ditado"nunca é tarde para reinvidicar, ou melhor antes tarde do que nunca",más uma questaõ me deixou curioso ou melhor; não me lembro de nehuma manifestação do setor agropecuário,será que estou enganado ou esta tudo maravilhosamente bem com a agricultura e a pecuária?

E os preços dos insumos?

E a remuneração do produtor?

E os encargos tributarios?

Ea segurança no campo?

         Atenciosamente: José Giberto Vial.
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/07/2013

Estimado Sergio Chavez,



Gracias por el comentario. Muy importante tu testimonio, de un país vecino con tantas similitudes y algunas importantes diferencias. Me parece que tu comentario trata de una cuestión fundamental, que son las distorciones en la representación en las democracias de los países de nuestro continente.



La alternativa, tanto en la Argentina como en Brasil, me parece, es seguir intentando mejorar nuestros sistemas de representación, haciendo hincapié en el rol de las reglas estables del juego.



Saludos



Bruno Miranda
SERGIO CHAVEZ

INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 01/07/2013

Hermanos, como latinoamericano, habitante de estas hermosas tierras, padecemos un mismo problema, y es la falta de cultura democratica (cultura proveniente de la educacion democratica, hay que formar, enseñar, trasmitir los valores de las democracias plenas)  para poder elegir y ser elegido, para poder participar (y en esto los partidos politicos o los politicos que dirigen los partidos, son demasiado cerrados a la participacion de nueva gente en su partido), y nominar candidatos o candidatearse para ocupar cargos electivos. Como se juntan estas dos cuestiones, nos falta educacion democratica, nos falta participacion y los politicos (o seudos caudillos/dirigentes) se aprovechan de estas situaciones, se apoltronan en cargos, (diputados, senadores, parlamentarios, etc) y se olvidan de quienes los eligieron y mantienen con el pago de los impuestos. Estos politicos que nos deberian representar (el pueblo delibera y gobierna a travez de sus representantes) se fijan renumeraciones  que multiplican por 10, por 20 o por 30 los sueldos de los empleados de su pais, olvidandose que ese dinero deberia ir a obras publicas (escuelas, hospitales, universidades, infraestructura / rutas, avenidas, gas, agua potable, cloacas, etc), bien administrado, que para eso los votamos, y no a sus bolsillos particulares. Los politicos que ocupan cargos publicos, electivos o no deben recordar, que lo que hacen es un Servicio al Pais, y para que el pais funcione bien, no deben Service del Pais. Un abrazo
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 28/06/2013

Prezado Walfredo



Obrigado pela participação. Observações interessantes; sobre a questão do bem comum, há estudos interessantes mostrando que os políticos buscam equilibrar ambas as demandas: i) manutenção no cargo; ii) busca por políticas que limitem as distorções econômicas na sociedade. Claro, tudo depende do "preço" da manutenção no cargo; alguma distorção sempre haverá, dada a relação entre política e grupos de pressão que cito em meu artigo.



Atenciosamente



Bruno Miranda
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 28/06/2013

Prezado Joel



Agradeço o comentário. Um aspecto interessante das manifestações é que elas confrontam uma nova forma de protesto, em que muitos protestos se unem nas ruas, com estruturas políticas acostumadas a lidar com interesses organizadas.



No que essa convivência vai dar? É difícil saber... As evidências, porém, mostram que a política ainda não sabe muito bem como lidar com a nova realidade. Levará algum tempo até que tenhamos melhor ideia sobre o novo equilíbrio entre tais forças.



Aproveito para convidar outros leitores a participarem do debate e deixarem impressões sobre as manifestações e suas consequências.



Atenciosamente



Bruno Miranda
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 28/06/2013

Prezado Jesus,



Obrigado pelo comentário. Em um país com tantos desafios a serem enfrentados, será importante observar o papel das manifestações no estabelecimento de prioridades no futuro. Espera-se que o "clamor popular" não leve a medidas despreocupadas com o médio prazo.



Atenciosamente



Bruno Miranda
WALFREDO GENEHR

IBAITI - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 28/06/2013

É muito interessante o tema. Mas a meu ver ser deputado não pode ser uma condição de carreira "profissional", mas, sim, a condição de representar os interesses da sociedade brasileira e isto de forma holística, ou seja, saber identificar o grau de importância que cada parcela de interesse reflete no resultado para o crescimento real de uma nação. Pelo visto a coisa não é vista deste jeito (Utópico) e isto aponta a ponta do principal iceberg brasileiro, que é o iceberg da corrupção. Já que o iceberg da "educação", sem lobbies, está pra lá de derretido e o "cultural" nem se fala, e isto bem sabemos que foi o resultado da gestão brasileira nos últimos dez anos.

Em suma, acho que o texto é uma bela reflexão e a principal é que temos que ter um olhar de forma crítica e madura com relação aos quais estamos elegendo, mas o problema está no tempo que vamos levar para modificar, socialmente, estes valores, em geral são doze anos que uma população alvo leva para absorver certos valores comportamentais de forma estável.

Quanto aos protestos, isto é uma "bola de neve" que está levando todo mundo de roldão e o problema está que ela saiu do controle, pois não tem lideranças definidas, visto que a internet é "acéfala" (já que não tem condição de assumir a função de um líder) e as redes sociais são a "população" (coletivo burro e manobrável), como esta "bola de neve" já está em movimento tudo pode acontecer, pois como ela é "acéfala", sem liderança definida, a direção desta é difícil de ser controlada e o que estiver no seu caminho que se cuide (sabemos o que e quem, pois já foram apontados pela insatisfação popular). O grande problema do momento, este está bem claro no texto, é que a "bola de neve" deverá ter uma liderança e/ou só virá a parar se for destruída. A história mostra que, nestes casos, isto só seria possível através de uma "guerra civil" onde a "força" de um grupo consegue tomar a liderança e/ou quando seus objetivos deixam de existir.
JOEL NAEGELE

CANTAGALO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/06/2013

Qualquer que seja o resultado das manifestações, algumas coisas já conseguiram, incluindo aí o cancelamento do preço das passagens nos ônibus, o arquivamento da PEC 37, a determinação da prisão de um deputado canalha que já é considerado um fugitivo, a movimentação do STF para finalizar o processo dos "mensaleiros", a determinação pela agilização da decisão de todos os processos que dormitam nos Tribunais Regionais e ainda está a precipitar muita lavagem de roupa suja.

Embora o articulista demonstre preocupação com relação a falta de lideranças, e eu concordo com isso, nós sabemos que se nomearem ou escolherem alguém para líder, imediatamente vai ser cooptado pelos governantes, como Lula fez com a UNE, Sindicatos e partidos políticos, corrompendo-os. Penso que o Movimento está certo ao não confiar em ninguém, e continuar ameaçando os detentores do Poder. Acho até que deveriam colocar na pauta essa excrecência que é um ministério com 39 ministros que não demonstram competência alguma.
JESUS CAMARGO DA SILVA

SÃO LUÍS DE MONTES BELOS - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/06/2013

Faz todo sentido o artigo.

Alem do que se observa que não existe um planejamento uma pauta de reenvidicações,

existe os grupos aproveitadores tanto pelo lado bom para o País quanto também para

o ruim.

As mazelas do Brasil são tantas e tão grandes que sabemos que suas correções a priore

depende de formação EDUCACIONAL de seu povo.

Claro que isso não deve impedir manifestaçoes ordeiras mas só seremos uma NAÇÃO

o dia que formos BRASILEIROS acima de tudo.