Mercado em ebulição

A produção de leite, que vinha em desaceleração desde meados do ano passado (forte queda de preços e aumento dos preços dos concentrados), seguiu na mesma "toada" neste início de ano. Segundo o IBGE, o volume captado pelas empresas (leite formal) cresceu 2,4% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2017 (para se ter ideia da desaceleração dos volumes, em junho/2017 o crescimento foi de 11,6% em relação ao mesmo mês de 2016).

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A produção de leite, que vinha em desaceleração desde meados do ano passado (forte queda de preços e aumento dos preços dos concentrados), seguiu na mesma “toada” neste início de ano. Segundo o IBGE, o volume captado pelas empresas (leite formal) cresceu 2,4% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2017 (para se ter ideia da desaceleração dos volumes, em junho/2017 o crescimento foi de 11,6% em relação ao mesmo mês de 2016).

No final de maio, em função da greve dos caminhoneiros, houve significativa redução dos volumes disponíveis para as empresas: além da perda dos volumes já coletados (caminhões presos nas barreiras), não foi realizada a coleta do leite produzido em parte significativa das principais bacias leiteiras. Adicionalmente, empobreceu-se a dieta das vacas em produção (efeito que ainda impacta a retomada da produção em algumas bacias leiteiras).

Para se ter uma ideia da ruptura ocorrida, avaliando os volumes comercializados pelos produtores participantes do MilkPoint Radar, entre os meses de abril e maio do ano passado houve crescimento da ordem de 8%; neste ano, entre os dois meses, a queda nos volumes foi de 16,7% (avaliando somente os volumes dos produtores que inseriram suas informações nos dois períodos); o mercado estima que a perda de volumes de leite fresco com a greve foi de 350 a 450 milhões de litros em maio, algo entre 19% e 22% da produção do mês (considerando, em abril, crescimento de volume de 1,5% em relação a abril/2017).

Agrega-se, neste cenário, a queda do volume de importações lácteas – entre janeiro e maio deste ano, foram cerca de 220 milhões de litros de leite equivalente a menos de “oferta” externa no nosso mercado. Como resultado deste cenário de oferta, a disponibilidade per capita que vinha razoavelmente equilibrada até abril (-0,6% em relação a 2017), teve uma forte queda em maio – o gráfico 1 mostra os dados mensais.

Gráfico 1. Brasil - Disponibilidade per capita mensal de leite e variação 2018 vs 2017. Fonte: elaborado pelo MilkPoint Mercado com dados do IBGE e do MDIC.

Figura 1

Observações:

  • Disponibilidade per capita = (Produção + Importações – Exportações)/População;
  • Estimado crescimento da produção de leite de 1,5% em abril e maio (em relação a abril e maio de 2017);
  • Perda estimada de leite em maio no mercado formal em função da greve: 400 milhões de litros.

Em função desta ruptura, no acumulado janeiro a maio, estima-se uma disponibilidade 4,4% menor que no mesmo período de 2017 e, em maio, quase 20% menor. Com uma demanda que, apesar da cambaleante situação econômica, vem em recuperação, este desequilíbrio bastou para “acender” o estopim e fazer “explodir” o mercado.

Assim, desde o final da greve e do retorno das negociações no mercado, o atacado do leite UHT subiu R$ 0,92/litro e a muçarela cerca de R$ 2,9/kg. Como consequência, o leite spot também foi às nuvens, acumulando alta de R$ 0,54/litro nas duas últimas quinzenas (média Brasil). E, em relação ao leite ao produtor, borbulham especulações, mensagens em redes sociais relatando promessas de preços recebidas e especulações de que a subida nos preços pagos deve ser grande pelo leite fornecido em junho.

Alguns fatores reforçam este cenário altista. O principal deles diz respeito à safra do sul do país, que já viria atrasada em função do atraso das chuvas e o plantio tardio das forrageiras de inverno. Como efeito da greve, o cenário mais provável é de que efetivamente atrasará e virá menor do que a projeção anterior. Outros fatores sugerem cautela no curto prazo. O principal deles vem da ponta consumidora, onde não se sabe exatamente qual será a reação do consumo e dos volumes comprados quando estes fortes aumentos chegarem às gôndolas dos supermercados.

Ao mesmo tempo e, apesar da desvalorização da taxa de câmbio, o aumento de preços internos “renova” a competitividade das importações lácteas – é melhor comprar um leite spot a R$ 2,25/litro ou um importado a, equivalente, R$ 1,40/litro?

Valter Galan, analista do MilkPoint Mercado e sócio do MilkPoint Inteligência, será um dos palestrantes do Interleite Brasil 2018 no painel "Mercado de Leite e Organização da Cadeia Produtiva". A sua palestra abordará o seguinte tema: "Uma visão sobre 2017 e 2018: o que esperar pela frente". Confira a programação completa do evento aqui e participe conosco do melhor evento sobre leite do Brasil!

Figura 2

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Material escrito por:

Valter Galan

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Marcello de Moura Campos Filho
MARCELLO DE MOURA CAMPOS FILHO

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/07/2018

Valter

Leite importado a R$ 1,40/litro é FOB ou já internalizado no Brasil? Qual a cotação do dólar para essa importação? Quanto está recebendo o produtor em US$/litro no país de origem desse leite importado?

Abraço

Marcello de Moura campos Filho
VALDIR FERREIRA CAMPOS
VALDIR FERREIRA CAMPOS

BELÉM - PARÁ - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 03/07/2018

So no começo deste mes(julho) que os novos preços estão chegando às gôndolas aqui na região norte do país, a perspectiva é de uma grande queda de consumo .para os preços de maio se sustentarem só uma grande queda da produção. Mas não voltará em curto prazo para os preços março e abril
André L.C.Cabral
ANDRÉ L.C.CABRAL

ITAPERUNA - RIO DE JANEIRO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 29/06/2018

Na verdade o produtor só fica no prejuizo, quando os preços começam a subir recuperar a defasagem vem o tal do leite importado. Temos que parar mesmo e deixar a indústria compra leite adulterado ai sim vai ficar bom. E apoiar os veganos para de consumir produtos de origem animal.
Valter Bertini Galan
VALTER BERTINI GALAN

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 02/07/2018

Olá André,

Obrigado pelo comentário! Não tenho certeza de que o caminho é exatamente esse, principalmente aí no Rio de Janeiro, estado que tem muita demanda de leite e uma produção insuficiente para atendê-la.

Um abraço!

Valter
Nelson Jesus Saboia Ribas
NELSON JESUS SABOIA RIBAS

GUARACI - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/06/2018

Olá, favor explicar o último paragrafo da sua analise. Esse leite spot, é o mesmo que os laticinios compram , in natura para completar suas necessidade?
Jhonatan Orsolin
JHONATAN ORSOLIN

PALMITOS - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/07/2018

Achei esse parágrafo um absurdo. O mesmo leite in natura que sai do produtor e não passa por beneficiamento já vale 60% ( R$ 2,25/1,40 que foi o valor que recebi do leite em maio) a mais só por estar nas mãos das indústrias?
Creio que isso venha a ser o cúmulo!
Essa cadeia láctea brasileira é uma vergonha!
Valter Bertini Galan
VALTER BERTINI GALAN

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 02/07/2018

Olá Nelson,

Obrigado pela participação! Sim, o leite spot é o leite comprador/vendido entre empresas e negociado quinzenalmente.

Um abraço!

Valter
Valter Bertini Galan
EM RESPOSTA A JHONATAN ORSOLIN VALTER BERTINI GALAN

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 02/07/2018

Olá Jhonatan,

Obrigado pelo comentário.

É este sim o funcionamento do mercado. O leite spot é negociado quinzenalmente, a oscilação de preços é quinzenal e bastante forte entre quinzenas. Neste momento do ano (entressafra) o leite spot tem uma forte variação para cima mas, na safra do leite, o spot normalmente tem preços menores do que os valores médios pagos a produtores.

Um abraço,

Valter
Sergio Hagemann
SERGIO HAGEMANN

ESTRELA - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 29/06/2018

Bom dia

Na cadeia da produção, ate o momento o produtor foi o menos favorecido. Só há promessas com aumentos tímidos, alias as promessas de preço não acenam para o mercado pouco ofertado como o citado na reportagem. Se fizermos a correção do nível de preço atual em 11%, como anunciado por um conseleite ainda estaremos em um patamar inferior aos preços praticados em 2009. Corrigindo pelo menor índice de tantos que temos, o preço minimo para o produtor deveria ser superior a 1,73 a 1,93 na media. E com o custo de produção em alta em todos os componentes
Valter Bertini Galan
VALTER BERTINI GALAN

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 02/07/2018

Olá Sérgio,

Obrigado pelo comentário! Realmente as variações de preços chegam mais lentamente ao produtor (há 1 mês de defasagem entre fornecimento e pagamento). No entanto, temos vistos comunicações de diferentes empresas com bonificações aos produtores para volumes extras, o que pode aumentar bastante o valor final pago.

Um abraço,

Valter
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