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Menor crescimento da oferta não abre espaço para grandes variações de preços

POR MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

E ALINE BARROZO FERRO

PANORAMA DE MERCADO

EM 16/11/2006

4 MIN DE LEITURA

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Os preços de leite pagos aos produtores permanecem estáveis já por cerca de cinco meses, um comportamento normalmente tido como atípico, considerando-se que, de outubro de diante, a oferta aumenta em função das chuvas em importantes regiões produtoras. O momento de "turbulência" esperado no mercado em função do aumento da captação de leite acabou não ocorrendo, e mesmo o aumento das importações nos últimos meses, responsável pela balança de lácteos deficitária, não pressionou uma queda de preços internos.

É interessante notar, porém, que talvez a expectativa de queda de preços na "safra" seja mais em função de um efeito memória do que pela maior disponibilidade de leite. Se analisarmos o gráfico 1, que traz os preços nos últimos 7anos, veremos que em 3 deles - 2002, 2003 e 2006, não houve praticamente variação nos preços de junho até outubro (e, no caso de 2002 e 2003, até novembro/dezembro). Em 2004, a variação negativa foi pequena. Apenas em 2000, 2001 e 2005 de fato o preço do leite caiu nesse período. No ano passado, por exemplo, de acordo com os dados do Cepea, observa-se que de junho a outubro, houve uma redução de cerca de 21%, em virtude do aumento da oferta.

Esse comportamento não usual dos preços indica que, embora de fato haja a tendência de aumento da oferta nos meses de verão, esse aumento não é da mesma magnitude verificada no passado e que, portanto, seu efeito na definição dos preços de verão não é mais tão pronunciado (embora exista).

Gráfico 1. Evolução dos preços pagos aos produtores pelo litro de leite, segundo o Cepea.


Analisemos 2006. Nesse ano, tal comportamento se deve provavelmente a dois fatores: oferta mais estreita à medida que o ano avançou e o câmbio desfavorável, que impede valorização maior do leite no mercado interno, sob o risco da entrada de produtos importados em maior quantidade.

Na questão da oferta interna, observa-se que neste ano, houve uma desaceleração do crescimento da captação de leite em relação ao ano anterior. Os aumentos foram perdendo força, mas há que se considerar que no ano anterior a captação das indústrias aumentou 11,8% frente a 2004, segundo dados do IBGE.

Gráfico 2. Variação da captação de leite em 2006 frente ao mesmo período de 2005, segundo dados do Cepea.


Outro fator é o dólar, que se desvalorizou gradativamente no período em questão frente à moeda nacional, jogando os preços do leite interno em dólar a valores mais elevados do que antes. É importante notar que se o preço do leite no mercado interno cotado em dólar estiver em média acima de US$ 0,24/litro (considerando os preços atuais no mercado externo), há o risco da maior entrada de produtos importados no país, o que pressionaria uma queda dos preços do produto brasileiro. Isso porque a este preço, torna-se viável aos outros países vender seu produto no mercado brasileiro.

Com o real valorizado em relação ao dólar, os preços do leite cotados em dólar ficaram em média a US$ 0,22/l neste ano até outubro, o mesmo valor obtido no mesmo período de 2005.

Em relação ao consumo, não temos disponíveis informações quantitativas que nos permitam fazer uma análise mais concreta. De qualquer forma, o consumo aparentemente continua estável, sem grandes variações, de forma que os baixos estoques da indústria nesse período se devem mais à redução na oferta do que ao maior consumo.

Tabela 1. Consumo aparente de lácteos no Brasil de janeiro a setembro de 2006, considerando a produção inspecionada.


A tendência para os próximos meses é de recuperação da produção no Centro-Sudeste, como normalmente ocorre nessa época do ano. Nesse cenário, com algum aumento da oferta, o equilíbrio atual pode se romper, resultando em alguma redução nos preços do leite ao produtor. Alguns agentes que atuam com o leite "spot" esperam, para a segunda quinzena de novembro, valores um pouco mais baixos, talvez na casa de 1 a 2 centavos. Se esse movimento se confirmar, a tendência �� que o leite ao produtor sofra esses efeitos em dezembro.

Não há, porém, motivos para quedas substanciais nos próximos meses. Mesmo para dezembro, o cenário ainda é incerto. Isso porque normalmente a partir de fevereiro a oferta se retrai, revertendo possíveis quedas de preço. Assim, teríamos no máximo dois meses de possíveis reduções de preços, o que naturalmente limitaria quedas significativas, além do que não há volume de leite suficiente para induzir quedas significativas. Não seria surpresa se chegássemos até fevereiro com preços pouco distintos dos verificados até agora.

A outra razão que segura a oferta é que os preços dos insumos de alimentação estão aumentando. Como já foi abordado em outro artigo desta seção (Clique aqui para ver o artigo) - há uma expectativa de aumento dos preços do milho, impulsionados por uma safra reduzida em 2007.

Durante quase todo o ano a relação de troca entre o leite, o farelo de soja e o milho esteve favorável ao produtor, já que o índice de valorização dos preços do leite ficou acima dos índices dos outros produtos.

No entanto, os valores do milho no atacado se elevaram em outubro 11,4% em relação a setembro, segundo dados da Seab/PR, mas ainda estão numa base inferior à base do índice de preços do leite. Porém, a expectativa é de alta para o próximo ano, o que pode comprometer a margem de lucro do produtor.

Em outubro, o valor do farelo da soja no atacado aumentou 11,5% em relação a setembro, segundo dados da Seab/PR, elevando o índice de preços desse produto, que se igualou ao índice de preços de leite em outubro.

Gráfico 3. Variação dos preços de leite, milho e farelo de soja. Abril de 2005=100.


Vale lembrar também que alguns laticínios já estão fechando contratos de exportação para o início do ano, de forma que eventuais excedentes de leite podem ser destinados ao mercado externo. Por tudo isso, é provável que tenhamos uma "safra" relativamente tranqüila (lembrando ainda que, com as pastagens do centro-oeste e sudeste, o custo de alimentação volumosa tende a cair nessa época), especialmente se compararmos com 2004 e 2005.

MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP), Mestre em Ciência Animal (ESALQ/USP), MBA Executivo Internacional (FIA/USP), diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.

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JOSÉ HAMILTON BARCELOS

MATO GROSSO DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/12/2006

Sem dúvida nenhuma estes senhores estão corretos ao analisarem dessa forma o mercado do leite, frente a uma grande produtividade na época das águas.
HILDEBRANDO DE CAMPOS BICUDO

MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 25/11/2006

Também acredito que tem uma certa lógica a colocação do Sr. Roberto Antonio. Eu também programo as parições para o início da seca, e muitos produtores de maior porte devem fazer o mesmo. A minha produção na seca também é maior que nas águas.
JOSÉ PEREIRA NETO

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 23/11/2006

Penso que a observação do Sr. Roberto Antonio Pinto de Melo Carvalho é procedente e merece ser considerada nas próximas publicações sobre o assunto.
ROBERTO ANTONIO PINTO DE MELO CARVALHO

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/11/2006

Marcelo,

Sugiro pesquisar mais um fator: há uns três anos tenho programado poucas parições para o período novembro a janeiro. O objetivo é ter menos produção nesse período, aumentando a partir de março. Neste ano, por exemplo, minha média diária deve cair de 2.500 litros em outubro para cerca de 1.700 litros em janeiro.

Se outros produtores estiverem fazendo a mesma coisa, o aumento "natural" da oferta nas águas pode estar sendo contrabalançado com a redução programada de quem evita produzir mais quando o preço é baixo.
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