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Incerteza do clima

POR BRUNO VARELLA MIRANDA

PANORAMA DE MERCADO

EM 06/05/2013

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Um prolongado período de seca é sinal de prejuízo para o agricultor, certo? Depende. Para aqueles diretamente afetados por um evento climático extremo, as consequências são conhecidas: menor produção, perdas consideráveis. Os que escapam do fenômeno, porém, geralmente se dão bem. Afinal, a menor produção total leva a melhores preços no curto prazo, recompensando os que por melhores técnicas de manejo, ou por sorte, foram capazes de driblar as más notícias vindas do céu. Na loterial do clima, todos perdem – e ganham – de vez em quando.

O que ocorre, então, quando os eventos extremos deixam de ser uma surpresa e se tornam rotina? Entre um ano de seca aqui, outro de forte frio acolá, os efeitos da mudança climática já são sentidos em todo o mundo. Produtores rurais ligados às mais variadas atividades têm histórias para contar, que vão desde uma leve percepção de que algo mudou até o testemunho de impactos específicos na lavoura. A comunidade científica, por sua vez, lança alertas constantes de que, se nada for feito nos próximos anos, teremos que nos acostumar a viver em um planeta diferente daquele que habitamos nos últimos séculos.

É aí que mora o problema. Identificada a ameaça, seria de esperar que a resposta política para tal problema estivesse a caminho. Interesses difusos, entretanto, tornam uma resposta da comunidade internacional algo pouco provável. O motivo: não está claro quem ganha e quem perde com as transformações, e qual a magnitude de tais custos – ou benefícios. Para exemplificar a complexidade do cálculo, há alguns anos, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou em um discurso que o aquecimento global poderia ser bom para o seu país, dado que ali gastariam menos com casacos!

Piadas de mau gosto à parte, é possível que os russos tenham motivos para querer alguns graus Celsius a mais. Por exemplo, o aumento da temperatura no mar Ártico tem gerado expectativas quanto à abertura de uma nova e lucrativa rota de navegação comercial. Outros países têm muito a perder. O Brasil é um exemplo: estudos recentes demonstram que a nossa agricultura será penalizada com o aprofundamento da mudança climática caso nada seja feito. Algumas lavouras perderão espaço considerável, outras migrarão para regiões onde hoje inexistem, transformando o mapa da agropecuária brasileira. Entretanto, é evidente que, em meio a tal movimento, nem todos perderão: ainda que seja uma minoria, alguém levará vantagem nisso tudo.

Em resumo, por estarmos diante de um problema cuja reversão exige o engajamento de atores com interesses diversos, é difícil imaginar uma estratégia global de contenção ao aquecimento global no curto prazo. Deverão ganhar espaço, assim, as políticas de adaptação aos seus piores efeitos: novas técnicas de manejo, uso de variedades genéticas adaptadas às novas condições climáticas, entre outras. Afinal, tais iniciativas não dependem da ação coordenada entre Estados, podendo ser adotadas por cada governo. Embora algo de cooperação possa existir, haverá também muita competição: cada país tentará tirar o máximo proveito de eventuais ganhos, e procurará conter aos máximo as perdas provocadas pela mudança climática.

Nosso cotidiano será diretamente influenciado por essa competição acirrada. Na agricultura, um padrão deverá se consolidar no médio prazo, qual seja: o aprofundamento de uma brecha entre os produtores capazes de lidar com as transformações trazidas pela mudança climática e o segundo grupo, daqueles que serão punidos com rigor crescente pelos eventos extremos. No primeiro caso, é até possível que o aquecimento global traga algum benefício no curto prazo, como melhores preços; já para os desprevenidos, será cada vez mais difícil garantir a sobrevivência econômica, devido ao aumento da incerteza relacionada à atividade. Dependerá do nível de conscientização dos produtores, e da existência de instrumentos adequados de financiamento das adaptações, o grau de aderência ao primeiro grupo.

Portanto, pensar na adaptação às novas condições constitui um desafio que, por acrescentar complexas variáveis à competição entre os agentes econômicos, deve ser encarado pelas diversas esferas da sociedade. Nos âmbitos federal e estadual, o apoio à pesquisa e a concessão de crédito para que os agricultores possam mitigar os efeitos da mudança climática é um imperativo. Os municípios devem trabalhar para assegurar uma organização dos espaços urbano e rural alinhada com as transformações em curso. Já os agentes econômicos, que não se enganem: caso não façam os investimentos necessários ao longo da próxima década, é bem provável que, na loteria do tempo, um ano seja de derrota e o outro também.
 

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 13/05/2013

Prezado Aristofanes,



Obrigado pelo comentário. Aproveito para convidá-lo a compartilhar com os outros leitores a sua experiência no semi-árido do Nordeste. Espaços como este são excelentes para a troca de percepções e ideias sobre os problemas e oportunidades que afetam a nossa atividade econômica cotidiana.



Atenciosamente



Bruno Miranda
ARISTOFANES CARNEIRO RIBEIRO

PARNAÍBA - PIAUÍ - PRODUÇÃO DE OVINOS DE CORTE

EM 10/05/2013

o que é seca mesmo?Vamos olhar o semi-arido ou o Nordeste e a seca com um olhar inovador,um olhar com olhos do seculo 21,o século do conhecimento,então é possivel que os senhores começem a ver com os meus olhos.O Nordeste o semi-arido e a seca é uma grande oportunidade de negócio estratégico para o Brasil de Hoje, com uma dimensão econômica e sistemica extraordinárias como projeto de Nação.
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 10/05/2013

Prezado André,



Obrigado pelo comentário. Uma frase do seu relato me chamou a atenção: "O problema é que tentamos lutar contra uma realidade incontestável ao invés de conviver com ela". Creio que essa é uma das chaves para entender o desafio que temos adiante: adaptação é fundamental. O ser humano tem dificuldade para projetar cenários diante da incerteza, o que talvez explique o enorme desafio que nos aguarda para os próximos anos.



Comentários, críticas, sugestões de pauta para esta coluna, fique à vontade: este espaço é de todos nós!



Atenciosamente



Bruno Miranda
ANDRÉ MEDEIROS

QUIXADÁ - CEARÁ - PRODUÇÃO DE CAPRINOS DE LEITE

EM 09/05/2013

Caro Bruno, muito interessante o seu artigo, ótimas colocações.

Estar atento às mudanças e mais que isso, saber conviver, superar e tirar proveito de situações adversas, esse é o desafio. Aqui no Nordeste, estamos vivenciando a maior seca dos últimos 100 anos, segundo especialistas. E mais uma vez fomos pegos de "surpresa". Centenas e centenas de anos e ainda não aprendemos que esta é nossa realidade, vivemos numa região semi-árida que, eventualmente, chove durante 3 ou 4 meses. O problema é que tentamos lutar contra uma realidade incontestável ao invés de conviver com ela. Criar estratégias de sobrevivência, armazenar o que é farto para usar na escassez, planejar ações e se profissionalizar. Isso é o que nos falta.