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2005, um ano para esquecer?

POR MAURÍCIO PALMA NOGUEIRA

PANORAMA DE MERCADO

EM 04/01/2006

7 MIN DE LEITURA

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Engraçado como no final do ano não faltou gente dizendo que 2005 foi um dos piores anos de sua vida. O ano foi marcado pela perda da esperança de milhões de eleitores que acreditavam em mudanças com a eleição de um presidente que encarnava perspectivas de uma nova política, uma nova forma de administrar. Foi marcado por uma das piores crises que a agricultura já assistiu: adversidades climáticas, preços, custos, logística, doenças, enfim, que ano ruim! Até nas catástrofes naturais 2005 ficou marcado. E apenas por alguns dias, quase que a tragédia do Tsunami não entra em 2005; ficou preso em 2004, prenunciando o ano ruim que viria - coisa de profeta.

Às várias adversidades econômicas, as pessoas ainda unem as tragédias pessoais, atribulações de suas próprias vidas. Até o Rei Pelé, uma das personalidades mais conhecida do mundo, disse que 2005 foi o pior ano de sua vida por conta de um fato pessoal - a prisão de seu filho Edinho. Que ano!!!

Poder-se-ia listar diversos acontecimentos que justificaria lembrar que o ano foi ruim. Pessimismo? - Difícil lidar desta maneira com os fatos, afinal o que é pessimismo ou otimismo? - É abstrato discutir sobre otimismo. Segundo o dicionário Aurélio, a primeira definição de otimismo é "Doutrina filosófica segundo a qual tudo corre no mundo do melhor modo possível, tudo vai bem." O oposto é o pessimismo.

O mundo não é assim. As coisas nem sempre vão bem e quanto mais cedo se entende o que está errado, mais cedo se encontram soluções, criam-se alternativas e lentamente consegue-se driblar as crises. É uma questão de postura diante dos problemas. E nem é preciso lembrar que todos os problemas do setor leiteiro, e todas as discussões que os envolvem, evidenciam que existem soluções. Não se trata de fé, esperança, azar ou sorte, trata-se de planejamento, trabalho. Trata-se de ações concretas.

Deixando o papo filosófico para depois, finalmente o mercado de leite de 2005.

O mercado "spot" refere-se ao leite negociado entre as empresas, geralmente uma associação, uma cooperativa ou indústria de menor porte, com pouca penetração no mercado, vendendo à outra que necessita de leite para produzir seus produtos. Cerca de 30% do leite das cooperativas brasileiras são comercializados no mercado "spot". Acredita-se que tal proporção tenha aumentado em 2004 e 2005. É reflexo da dificuldade das cooperativas em encontrar colocação para seus produtos industrializados.

Portanto, parte do volume de leite captado pelo setor cooperativista é reunido, resfriado e vendido no mercado "spot". A partir dos preços de mercado, dos valores recebidos pelas cooperativas, é que é possível pagar o leite dos cooperados.

Em 2005, o mercado "spot", valor médio entre São Paulo, Minas Gerais e Goiás, começou o ano sendo negociado a R$0,53/litro e terminou em R$0,36/litro. Observe o comportamento dos preços nominais em 2005 na figura 1.

Figura 1. Preços nominais no mercado "spot" em São Paulo, Minas Gerais e Goiás ao longo de 2005
 


Em relação aos preços mais altos, em abril e maio, os preços de dezembro recuaram 44,8%, praticamente "quebrando as pernas" de quem depende deste mercado. O valor negociado em dezembro esteve 29,6% abaixo do preço médio do ano, em valores nominais.

Como o mercado "spot" influi nos preços aos produtores, o comportamento do mercado de leite foi semelhante ao "spot". Coincidentemente, os preços pagos aos produtores começaram o ano nos mesmos patamares que os valores médios do mercado "spot". Reagiram já no início de 2005 e recuaram a partir da produção de junho, fato que não havia ocorrido nos últimos 10 anos, considerando a média nacional.

Em dezembro, pagamento em janeiro de 2006, os preços estiveram cerca de 27,6% menores em relação aos preços mais altos, vigentes em maio, pagamento em junho. Em relação à média anual, os preços de dezembro foram 17,9% menores.

Uma queda brusca, o que tende comprometer a alimentação do rebanho leiteiro até meados de 2006. Na figura 2 está ilustrado o comportamento nominal dos preços do leite em 2005.

Figura 2. Preços nominais ao produtor, valor médio no Brasil ao longo de 2005

 


O preço médio nominal do leite em 2005 foi de R$0,506/litro, enquanto no mercado "spot" a média foi de R$0,513/litro. Vale lembrar que as cooperativas, mesmo recebendo um valor médio mais alto, ainda têm que arcar com os custos operacionais de captação do leite do produtor. É evidente a difícil situação de quem trabalha no mercado "spot". E também é evidente que o produtor de leite viveu um ano muito difícil, um ano que começou com boas perspectivas e terminou com uma sensação de urucubaca, parafraseando o presidente da República, numa de suas justificativas para seus tropeços políticos em 2005.

Por que os preços recuaram tanto? Essa foi uma das perguntas mais freqüentes realizadas por produtores, em palestras, cartas e e-mail à equipe da Scot Consultoria.

A variável que mais atuou neste resultado negativo foi a oferta. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a captação de leite, de janeiro a setembro de 2005 foi 13,77% superior ao mesmo período de 2004. Sendo assim, até setembro, a captação do mercado formal em 2005 superou em 1,439 bilhão a captação do mesmo período de 2004.

Formaram-se estoques e os preços caíram.

A saída para esse fenômeno seria o escoamento do excedente da produção para o mercado externo. Mas, o Brasil ainda não é um país com tradição no mercado internacional, embora venha conquistando espaço ano a ano.

Outra alternativa seria trabalhar o mercado interno, através de marketing institucional, por exemplo. A Láctea Brasil vem tentando reunir as empresas brasileiras há mais de cinco anos em torno deste objetivo.

O fato é que com o aumento da produção e demanda restrita, os preços caem. Principalmente quando se considera a vocação potencial do Brasil para a produção leiteira. Sob qualquer ótica que se analise o aumento gradual do volume de leite produzido pelo Brasil é uma tendência inexorável. O país terá enorme importância mundial em produção leiteira. Acreditando nisso, ou se amplia mercado ou... nem é preciso ser especialista para saber o que acontecerá.

Na figura 3 está ilustrado o comportamento dos preços do leite longa vida, em valores nominais, no atacado e no varejo.

Figura 3. Preços nominais do leite longa vida no atacado (preços de venda das indústrias) e no varejo (preços ao consumidor) ao longo de 2005

 


Em relação aos valores médios nominais de 2005, os preços do longa vida em dezembro foram 11,8% e 9,97% menores no atacado e no varejo, respectivamente. Em relação aos preços mais altos, o longa vida no atacado em dezembro foi 22,8% mais baixo enquanto que no varejo, os preços recuaram 20,3%.

Argumenta-se que os preços não são mais altos em função da baixa renda da população brasileira. No entanto, quando atualizado pelo IGP-DI, o preço médio do longa vida no varejo, desde 2001, é de R$1,67/litro, valor 19% maior que a média vigente em 2005. O que falta é marketing para que o brasileiro consuma ou valorize mais o leite. Lembrando que marketing envolve tudo, desde a garantia da qualidade e apresentação do produto, até a propaganda.

Para finalizar, voltando ao papo filosófico do início, não dá para encarar com otimismo a situação atual do mercado leiteiro. O cenário é péssimo; e otimismo, no sentido próprio da palavra, conota fuga da realidade, uma negação dos problemas crônicos do setor. Porém, é possível analisar a realidade e lutar para mudá-la. É possível enxergar que depois do túnel existe luz e que existem condições de superar todos os obstáculos que atrapalham a rentabilidade do setor.

Analisar e encarar de maneira positiva a realidade, mesmo que dura, é uma atitude de entusiasmo e não de otimismo. Entusiasmo vem do grego antigo e significa exaltação ou encantamento daqueles que estavam sob inspiração divina. Em outras palavras, o otimista espera por algo bom, o entusiasmado busca algo bom; faz acontecer. É uma questão de atitude.

Tudo de positivo que aconteceu em 2005, e houve vários pontos positivos, foi o resultado de respostas de empresas ou entidades na busca da solução de problemas de um passado recente; atitudes ou iniciativas para superar crises.

Finalmente, 2005 é um ano para esquecer? - Não, em hipótese alguma. É um ano para ser analisado e lembrado para que não se repita. Hoje é mais fácil entender as dificuldades do setor leiteiro e, portanto, é ainda mais viável planejar o crescimento sustentável que permita rentabilidade a todos os elos que atuam no agronegócio lácteo.

De toda crise, é possível extrair algo de bom. De 2005, fica o aprendizado e o exemplo de quem deu alguns passos para superar as dificuldades que vinham de anos anteriores.

No final de 2004 e início de 2005, neste mesmo espaço, a Scot Consultoria desejava que o otimismo daquele período se transformasse em entusiasmo e ações. Algo foi feito, mesmo em condições adversas.

Hoje, um ano depois, numa situação extremamente diferente, a equipe Scot Consultoria continua desejando que o setor busque, desta vez em 2006, o tão necessário entusiasmo para prosseguir de maneira planejada e sustentada e, assim, ocupar um espaço cada vez maior no cenário internacional do mercado lácteo.

MAURÍCIO PALMA NOGUEIRA

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