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Produção de leite, balanço energético negativo e fertilidade em vacas leiteiras - Parte 2

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 05/05/2008

6 MIN DE LEITURA

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Este texto é parte da palestra apresentada por Dr. Ron Butler, no XII Curso de Novos Enfoques na Reprodução e Produção de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2008.

Durante o pós-parto de vacas leiteiras, a extensão do balanço energético negativo (BEN) torna-se aparente a partir do grau de perda de escore de condição corporal (ECC). Vacas com BEN mais grave perdem mais condição corporal nos primeiros 30 dias de lactação e passam por longos intervalos até a primeira ovulação. A variação no grau de BEN entre vacas individuais é explicada, em grande parte, por diferenças na ingestão alimentar, muito mais do que pela produção de leite. Diferenças na ingestão de matéria seca (IMS) e sua regulação estão diretamente relacionadas ao BEN e ao momento da primeira ovulação. O BEN é minimizado nas vacas que mantêm alta IMS até o dia da parição e aumentam rapidamente sua ingestão, posteriormente, durante as várias primeiras semanas de lactação (Butler et al., 2006). Já não se discute que a IMS no dia 28 da lactação está diretamente relacionada à IMS da véspera da parição.

A importância da IMS é demonstrada com mais detalhes pelo agrupamento de vacas por dias até a primeira ovulação pós-parto e pelo cálculo da eficiência bruta da produção leiteira. As vacas com a menor relação de eficiência (produção de leite/IMS) apresentam o menor intervalo até a primeira ovulação. Por outro lado, as vacas mais eficientes (maior produção de leite em comparação à IMS) tiveram atrasos mais extensos até a primeira ovulação. A eficiência energética da produção de leite é semelhante em todas as vacas e, portanto, as vacas que produzem mais leite por unidade de IMS apresentaram pior BEN, já que as exigências energéticas para o leite vêm basicamente de reservas corporais, e não da ingestão alimentar. Trata-se de uma situação pouco comum, em que a alta eficiência não é benéfica porque afeta negativamente outro aspecto importante: a fertilidade. Moral da história: vacas com alta produção com melhor aumento de IMS para corresponder à produção de leite terão uma melhor condição energética e maior probabilidade de estarem mais férteis durante a cobertura.

A perda de ECC no início da lactação é acompanhada de redução na espessura de gordura e da massa muscular. A mobilização da proteína muscular, medida pelas concentrações plasmáticas de 3-metil-histidina, encontrou-se nos níveis mais elevados durante a primeira semana após a parição, mas não foi relacionada aos dias até a primeira ovulação. Apesar do atraso um tanto prolongado na primeira ovulação pós-parto em vacas primíparas magras , mudanças dinâmicas no BEN e no ECC são normalmente associadas à inibição da ovulação após o parto, e não à taxa de degradação de proteína muscular.

Efeitos residuais do BEN inicial na fertilidade

O monitoramento do BEN em rebanhos leiteiros é realizado pela observação de mudanças no ECC. Maiores perdas no BEN/ECC durante os primeiros 30 dias do pós-parto atrasam a primeira ovulação. Um número significativo de vacas (28-50%) permanecem anovulatórias além dos 50 dias de lactação. Obviamente, as vacas que não conseguem retomar os ciclos ovulatórios apresentam-se inférteis, mas mesmo aquelas com atraso na primeira ovulação não se beneficiarão de múltiplos ciclos ovulatórios e expressarão menor fertilidade frente à inseminação. Há um forte consenso entre muitos estudos no sentido de que a taxa de concepção cai à medida que as perdas no ECC aumentam. Por exemplo, a taxa de concepção cai aproximadamente 10% a cada 0,5 unidade de perda no ECC. Quando os resultados de 11 grandes estudos foram reanalisados , baixos ECC (< 2,5) na primeira IA aumentaram o número de dias vazios em 12 dias. As vacas que permanecem anovulatórias após 50 dias de lactação apresentarão maior risco de não emprenharem durante a lactação e, portanto, terão maiores chances de serem descartadas.

A progesterona é essencial à prenhez após a cobertura e deve estar presente no sangue em quantidades adequadas para garantir o desenvolvimento e a sobrevivência do embrião. Os níveis de progesterona aumentam ao longo dos primeiros três ciclos ovulatórios em vacas no pós-parto, com melhorias menos expressivas nas vacas com BEN maior. Os níveis inferiores de progesterona normalmente observados em vacas de alta produtividade também refletem provavelmente o metabolismo mais intenso pelo fígado. O período inicial crítico para a influência da progesterona parece ocorrer entre 5 e 7 dias após a inseminação, embora tentativas de pesquisa com a suplementação de progesterona após a inseminação tenham apresentado moderada taxa de sucesso.

Outro possível efeito residual do BEN inicial podem ser oócitos com imprint resultante de condições prejudiciais no interior do folículo, durante o desenvolvimento por período de 60-80 dias. Níveis maiores de BEN comprometeram a capacidade de desenvolvimento dos oócitos no período de 80-120 dias de lactação, indicando os efeitos tóxicos de altas concentrações de ácidos graxos não esterificados (AGNEs) no periparto. Outro estudo revelou alta incidência de qualidade e viabilidade embrionária inferior em vacas saudáveis, de alta produtividade e no início da lactação em comparação a vacas não-lactantes. Embora esses resultados ajudem a justificar as preocupações quanto ao efeito do BEN inicial nos oócitos, os resultados de outro estudo revelaram que o desenvolvimento embrionário inicial é comprometido até mesmo posteriormente, na fase intermediária da lactação, através de efeitos metabólicos correntes associados a baixo ECC. Portanto, estes resultados indicam um impacto prejudicial do BEN na competência dos oócitos em termos de desenvolvimento embrionário, embora os efeitos metabólicos não se restrinjam aos folículos na fase inicial da lactação e possam ser exercidos de forma contínua nos casos de alto rendimento leiteiro.

Estratégias nutricionais relacionadas aos efeitos do BEN na fertilidade

O período de transição das vacas leiteiras, de 3 semanas pré-parição a 3 semanas pós-parição, é a fase mais crítica do ciclo de lactação e afeta tanto a produção de leite quanto o desempenho reprodutivo. Durante a fase de transição, há queda na IMS no período próximo à parição, além de mobilização da gordura e proteína corporais, e alterações hormonais voltadas ao parto e ao início da lactação. Conforme detalhado anteriormente, os aumentos nos AGNEs a partir do armazenamento de gordura podem desencadear problemas hepáticos e metabólicos. O fornecimento de dietas pré-parto com maior densidade energética pode contrabalançar os efeitos negativos de menores IMS através da redução das concentrações plasmáticas de AGNEs e do acúmulo de triglicérides no fígado. Esta idéia foi testada em estudo recente. A dieta com maior densidade energética continha adição de gordura e 32% de carboidrato não fibroso (CNF). Os resultados demonstram que o aumento da ingestão alimentar no pré-parto produziu benefícios residuais após a parição, como melhor balanço energético, menores teores de AGNEs e menor acúmulo de triglicérides no fígado, indicativos de boa saúde da vaca.

Outro estudo recente também considerou os efeitos da adição de gordura à dieta pré-parto. A inclusão de ácidos graxos saturados protegidos exerceu pouco efeito mensurável na IMS ou nos parâmetros metabólicos e hormonais ao longo do período de transição. O efeito residual mais marcante da gordura no pós-parto foi a redução no número de dias vazios das vacas prenhes e taxa geral de prenhez mais elevada, diminuindo o descarte ao final da lactação.

Embora mais estudos sejam necessários para avaliar os efeitos da suplementação de gordura na dieta de vacas no pré-parto, os resultados de dois estudos recentes parecem bastante promissores. Mais pesquisas precisam ser desenvolvidas para entendermos se os benefícios devem-se simplesmente à maior densidade energética ou a um tipo específico ou composição dos suplementos de gordura.

Resumo

O BEN que ocorre logo no início da lactação atrasa o momento da primeira ovulação e exerce outras conseqüências residuais na fertilidade durante o período reprodutivo. Esses efeitos incluem níveis sub-ótimos de progesterona no sangue, que influenciam a fertilidade ao alterarem a função uterina, e taxa inadequada de desenvolvimento embrionário inicial. Além disso, o BEN pode prejudicar o ovócito liberado após a ovulação. Embora a redução do BEN seja benéfica, é muito difícil de ocorrer em vacas com alta produção leiteira. A manutenção da ingestão alimentar no período de transição é o fator mais importante para melhorar os níveis de energia nas primeiras semanas de lactação. A inclusão de gordura na dieta pré-parto parece ser útil na formulação de dietas com maior densidade energética e exercer um efeito benéfico na taxa de prenhez durante a lactação.

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

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CINTHIA RIBEIRO ALMEIDA LEÃO

GOVERNADOR VALADARES - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 06/12/2013

Este artigo realmente foi bastante enriquecedor. Porém, gostaria de ter acesso aos artigos científicos utilizados para elaboração do mesmo. Poderiam, por favor, colocar as referências?
KLEBER SOARES DE OLIVEIRA

CAPIM GROSSO - BAHIA

EM 29/05/2008

Ótimo artigo. fico apenas com algumas dúvidas.

O fornecimento de soja grão e caroço de algodão, aonde podemos ter grande quantidade de óleos, seria uma opção? "As vacas com a menor relação de eficiência (produção de leite/IMS) apresentam o menor intervalo até a primeira ovulação. Por outro lado, as vacas mais eficientes (maior produção de leite em comparação à IMS) tiveram atrasos mais extensos até a primeira ovulação". Quais são estes intervalos (em dias)? Qual produção média das vacas (na lactação e no período do pós parto?

Obrigado.
Kleber Soares
RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 16/05/2008

Prezado Marcos Tadeu Cosmo,
Muito obrigada! O senhor não imaguina como esse comentário é estimulador. Espero poder continuar contribuindo e peço que mandem sugestões de assuntos para serem discutidos aqui.

1 e 2. A gordura usada nesses expeirmento são gorduras protegidas, uma exemplo é o Megalac.

3. É difícil sugerir uma dieta basica que sirva para todos os casos, o recomendado é o senhor procurar um técnico da sua região que possa auxiliá-lo na formulação de uma dieta pré e pós-parto que atenda as necessidades das vacas da sua fazenda.

Mais uma vez muito obrigada,
Ricarda.

RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 16/05/2008

Prezado Márcio Barbosa Lima de Oliveira Macêdo,
A gordura usada nessas dietas tem que ser protegida, uma exemplo disponível é o Megalac.
Os protocolos que usam progesterona são muito utéis para as vacas que estão em anestro, mas devemos lembrar que só resolvem o problema para as vacas que estão no mínimo com 2,5 de ECC.
Nos radares sobre sincronização você encontra a descrição desses portocolos que usam progesterona.
Obrigada, pela participação,
Ricarda.
RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 16/05/2008

Prezado Valdir Chiogna Junior,
As vacas gordas tem mais problemas no pós-parto porque a ingestão de materia seca delas é menor do que das vacas em boa condição corporal. Como conseguem comer menos perdem mais peso, portanto demoram ainda mais para voltar a ciclar e emprenhar pós-parto.
No radar publicado no dia 02/05/2007 (Escore de Condição Corporal x Balanço Energético Negativo) tem uns gráfico sobre o assunto.
Obrigada pela participação.
Ricarda.
MARCOS TADEU COSMO

SALES - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/05/2008

Ricarda e José Luiz,

Com relação ao texto acima, gostaria que clarecessem se possível:

1- A gordura da dieta mencionada pode ser encontrada em que ingredientes? Qual o percentual em relação a MS ou ao total de concentrado?

2- O fornecimento de Soja grão e caroço de algodão, onde podemos ter grande quantidade de óleos, seria uma opção?

3- Já que o BEN é inevitável, seria possível a vocês sugerir uma dieta básica para a fase de transição com maior densidade energética.

Tenho enriquecido meu conhecimento e modificado bastante minhas ações no manejo diário com minhas colaboradoras e produtoras de leite. Tudo isso de forma constante graças aos inúmeros textos, artigos e pesquisas que vocês tem trazido aqui no MilkPoint. Portanto, aproveito a oportunidade para agradece-los e pedir que continuem com seu trabalho cujos pesos para valor e utilidade talvez escapem da sua percepção, dado o enorme universo que atingem.

Obrigado

Marcos Tadeu Cosmo

MÁRCIO BARBOSA LIMA DE OLIVEIRA MACÊDO

ITABUNA - BAHIA - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/05/2008

Parabéns aos professores pelo artigo! Diante dessa brilhante explanação, faço aqui algumas indagações:

1º)Qual o tipo de gordura a ser usada na dieta pré-parto?
2º)Não teria um protocolo hormonal a ser usado logo após a parição?
3º)A progesterona não diminuiria esse período de anestro do animal?

Obrigado pela atenção.
VALDIR CHIOGNA JUNIOR

RIO VERDE - GOIÁS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 09/05/2008

Parabéns pelo artigo! Esta informação de diminuição de 10% na concepção a cada 0,5 unidade de perda de ECC, é interessante, mas vacas com ECC alto (4,5 e 5) tem sua fertilidade diminuída também não é mesmo... portanto gostaria de saber se pelo trabalho conseguiu estabelecer-se um gráfico? Obrigado!
GILDO CRUZ

XINGUARA - PARÁ

EM 08/05/2008

Caros professores, além dos manejos citados no artigo,vocês preconizam outros?
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