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Manipulação nutricional do balanço energético pós-parto e o impacto sobre a fertilidade

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 27/05/2013

8 MIN DE LEITURA

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Este texto é parte da palestra apresentada por Phil Garnsworthy, University of Nottingham, no XVII Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, realizado em Uberlândia de 14 e 15 de março de 2013.

Introdução

As vacas leiteiras de alta produção geralmente estão em balanço energético negativo durante as primeiras semanas de lactação, quando o nível de energia no leite ultrapassa a ingestão de energia obtida da dieta. Como consequência, as reservas de gordura do organismo são mobilizadas para cobrir o déficit energético. Muitos estudos já demonstraram que a rápida mobilização das reservas de gordura está associada, em vacas leiteiras, a problemas de saúde e de fertilidade. Assim sendo, é desejável minimizar a amplitude e a duração do balanço energético negativo. Isto não é fácil de conseguir manipulando as dietas de lactação porque, como será discutido mais adiante, a vaca tem um impulso biológico para mobilizar a gordura corporal. A estratégia mais bem sucedida para minimizar o balanço energético negativo é a manipulação do escore de condição corporal (ECC) ao parto, que influencia o consumo de ração e a produção de leite durante o restante da lactação (Garnsworthy, 2006).

Escore de condição corporal, ingestão de matéria seca e balanço energético

As reservas de gordura do organismo desempenham importante papel biológico no início da lactação, quando ela direciona a energia principalmente para a produção de leite. Estudos realizados na década de 80 mostraram que a gordura corporal tem efeito de feedback negativo sobre o consumo de ração. Em dois experimentos, Garnsworthy & Topps (1982) estudaram vacas com ECC (escala de 1 a 4) ao parto de 1,7 (Magra), 2,7 (Média) ou 3,7 (Gorda). Depois do parto, todas as vacas receberam ad libitum uma ração total (TMR) com alto teor de energia. Não houve efeito do ECC ao parto sobre a produção de leite. Ao longo das primeiras 12 semanas de lactação, as vacas que estavam gordas ao parto perderam 0,9-1,0 unidades de ECC; vacas com ECC médio ao parto perderam 0,5-0,6 unidades de ECC; vacas que estavam magras ao parto ganharam 0,4-0,5 unidades de ECC. O ECC tendeu a convergir para 2,5 nas semanas 12-15 da lactação, sugerindo que as vacas têm um ECC alvo que procuram alcançar no início da lactação. Em todos os grupos de vacas, a produção de leite alcançou o pico na semana 6 da lactação. A ingestão máxima de matéria seca foi alcançada na semana 15 para as vacas gordas, na semana 11 para as vacas médias e na semana 9 para as vacas magras. Isto sugere que o consumo de ração foi controlado por mecanismos fisiológicos de feedback e que o nível de gordura corporal tem efeito direto sobre o consumo de ração.

Posteriormente foi estabelecido que a leptina é o mecanismo de feedback mais provável (Vernon et al., 2001), ainda que o sistema regulatório geral seja complexo. Além de seus efeitos sobre o consumo de ração, verificou-se que a leptina modula a transferência e a partição de nutrientes pela interação com outros hormônios, incluindo insulina, glucagon, glicocorticoides, hormônio de crescimento, fator de crescimento I semelhante à insulina, citocinas e hormônios da tireoide (Hill, 2004). Também foi demonstrado que outros fatores secretados pelo tecido adiposo (fator de necrose tumoral α e resistina) interagem com a leptina na regulação da adiposidade (Vernon et al., 2001).

Numerosos estudos (revisados por Garnsworthy, 1988; Broster &Broster, 1998; Stockdale, 2001; Garnsworthy, 2006) confirmam a forte relação negativa entre o ECC ao parto e as mudanças no ECC durante o início da lactação, ainda que a inclinação da relação seja menor em estudos recentes. Cada vaca leiteira individual tem um ECC alvo geneticamente programado, que ela procura alcançar cerca de 10 a 12 semanas depois do parto. Se o seu ECC estiver acima deste alvo, o consumo de ração é reduzido e ela perde condição corporal. Se o seu ECC estiver abaixo deste alvo, o consumo de ração é aumentado e ela ganha condição corporal. O impulso biológico para que uma vaca alcance o ECC alvo parece ser tão forte quanto o impulso geneticamente programado para alcançar o pico de produção de leite. A filosofia de fazer com que as vacas estejam em ‘boa condição’ ao parto é, portanto, contra produtivo. Ao invés de um alto ECC ao parto compensar o baixo consumo de ração no início da lactação, o ECC reduz ainda mais o consumo de ração e exacerba o balanço energético negativo.

Escore de condição corporal e interações com a dieta

A relação entre ECC ao parto e alteração no ECC durante a fase inicial da lactação é mantida em todos os sistemas de alimentação. Estudos revisados por Garnsworthy (1988) e Broster & Broster (1998) incluíram vacas arraçoadas com TMR, feno mais concentrados e silagem à vontade. Stockdale (2001) ampliou a revisão incluindo estudos de pastejo, confirmando que as vacas que pastejam apresentam a mesma relação forte. Contudo, a habilidade das vacas de alcançarem seu ECC alvo é afetada pela composição da dieta.

Com dietas de alto valor energético, as vacas magras podem estar em balanço energético positivo e aumentar ECC, mas as vacas gordas estarão em balanço energético negativo e diminuirão o ECC. Com dietas de baixo valor energético, o consumo de ração é limitado pela capacidade física do rúmen e as vacas magras não podem aumentar o consumo energético para se equiparar ao nível de energia gasto na produção do leite; as vacas gordas mobilizam a condição corporal mais rapidamente para dar suporte à produção de leite e estão em balanço energético negativo por mais tempo do que com dietas de alto teor de energia (Jones & Garnsworthy, 1989). Existe a possibilidade de reduzir a perda de ECC de vacas gordas aumentando a concentração de energia da dieta: Chilliard et al. (1991) verificou que vacas que recebiam 1,5 kg/d de suplemento extra de concentrado perderam 0,1 unidades de ECC a menos durante as primeiras 8 semanas de lactação; Mao (2004) relatou que vacas em um plano nutricional normal perderam 0,2 unidades de ECC a menos do que vacas em um plano nutricional baixo.

Dietas ricas em proteína resultaram em maior perda de condição corporal nas vacas gordas, mas aumentaram o ganho de ECC ou diminuíram a perda de ECC nas vacas magras que usam o excesso de proteína para a gliconeogênese (Garnsworthy & Jones, 1987; Jones & Garnsworthy, 1988). Dietas com baixo teor de fibra e ricas em amido aumentaram o ganho de ECC nas vacas magras e diminuíram a perda de ECC nas vacas gorda, provavelmente por aumentarem o status da insulina (Garnsworthy & Jones, 1993). Dietas ricas em gordura diminuem a perda de ECC nas vacas gordas, mas não afetam a alteração do ECC nas vacas magras (Garnsworthy & Huggett, 1992). Uma dieta com altas concentrações de gordura e de proteína, entretanto, pode resultar em perdas maiores de gordura corporal do que as dietas que têm alto teor de apenas um destes componentes (Beever et al., 2004).

Balanço energético, saúde e reprodução

Vacas excessivamente gordas ao parto têm maior probabilidade de desenvolver esteatose hepática (acumulo do gordura no fígado) e cetose, porque o ECC elevado diminui bastante o apetite e a gordura corporal é mobilizada rápido demais (Reid et al., 1986). Estas vacas apresentam grave balanço energético negativo, baixo desempenho reprodutivo e maior incidência de doenças (Treacher et al., 1986). O risco de esteatose hepática (fígado gorduroso) aumenta de forma considerável quando o ECC está acima de 3,5 ao parto (Treacher et al., 1986; Jorritsma et al., 2001). Gillund et al. (2001) verificou que as vacas que tinham um ECC de 3,5 ou maior ao parto, tinham um risco de 2,3 a 2,8 vezes maior de apresentar cetose do que as vacas com um ECC de 3,25 ou menor. Outros problemas de doenças também foram relacionados ao ECC. As relações são variáveis e inconsistentes, mas a perda excessiva de ECC durante o período seco ou no início da lactação, baixo ECC no período de secagem e alto ECC ao parto estiveram associados a maior risco de distocia, retenção de placenta, metrite, febre do leite, mastite e claudicação (Treacher et al., 1986; Gearhart et al., 1990; Markusfeld, 1997).

Mesmo os níveis moderados de mobilização de gordura estão associados a balanço energético negativo e redução da fertilidade. Diversos estudos mostraram que alto mérito genético, balanço energético negativo, mobilização da gordura corporal, altos níveis plasmáticos de ácidos graxos não esterificados (AGNE) e baixos níveis plasmáticos de insulina estão associados com retardo na primeira ovulação após o parto e redução das taxas de prenhez (Garnsworthy & Webb, 1999; Butler, 2003; Pryce et al., 2004; Butler, 2005).

Butler (2005) relatou que vacas perdendo menos de 0,5 ECC ao longo dos primeiros 30 dias após o parto levaram, em média, 30 dias do parto até a primeira ovulação; as vacas perdendo de 0,5 a 1,0 ECC levaram 36 dias; vacas perdendo mais de 1,0 ECC levaram 50 dias.

Bourchier et al. (1987) fizeram um levantamento com 2000 vacas de rebanhos de alta produção e verificaram um efeito significativo da alteração do ECC sobre a taxa de concepção na primeira cobertura: as vacas que ganharam condição durante as primeiros 12 semanas de lactação tiveram uma taxa de concepção de 67%; vacas perdendo de 0,5 a 1,0 ECC tiveram uma taxa de concepção de 55%; vacas perdendo mais de 1,0 ECC tiveram uma taxa de concepção de 47%. Uma relação similar foi encontrada por Butler (2005), que concluiu com base em diversos estudos que a taxa de concepção diminui 10% por 0,5 unidade de ECC perdida.

Ao revisar os mecanismos fisiológicos, Butler (2003) relatou que o balanço energético negativo está fortemente associado com a atenuação da frequência dos pulsos de LH e baixos níveis de glicemia, insulina e IGF-I no sangue que, coletivamente, limitam a produção de estrogênio pelos folículos dominantes; com diminuição da qualidade dos ovócitos e competência para o desenvolvimento embrionário; e com concentrações séricas de progesterona reduzidas.

Lopez-Gatius et al. (2003) realizaram uma meta-análise de 15 trabalhos, correspondendo a quase 8 mil vacas, para examinar as relações entre ECC e desempenho reprodutivo. Em comparação com as vacas que perdem de 0 a 0, 5 ECC, as vacas que perdem de 0,5 a 1,0 ECC levaram 3,5 dias a mais para conceber, e as vacas perdendo mais de 1,0 ECC levaram 10,6 dias a mais para conceber. As vacas que ganharam ECC levaram 3,7 dias a menos para conceber.
 

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

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RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 04/06/2013

Prezados Leitores,

Muito obrigada pelos comentários!! São eles que nos fazem continuar querendo disponibilizar assuntos interessantes nesse espaço de comunicação que é tão bom.

Um grande abraço a todos,

Ricarda.
LAUDELINO JOAQUIM DE CARVALHO

VARGEM GRANDE DO SUL - SÃO PAULO

EM 03/06/2013

Parabéns e obrigado pelo artigo.

Quanto mais tomo conhecimento do refinamento que deve existir em relação à nutrição das vacas leiteiras, mais me conscientizo da grande dificuldade que é para a grande maioria dos pecuaristas leiteiros de alcançar o padrão mínimo de conhecimento de tão profunda ciência. A assistência técnica anda longe de alcançar todos os produtores. Porém, a informatização, via internet,  vai aos poucos aumentando o número daqueles que não se contentam em apenas tirar leite, mas ao se depararem com "lições" como a que Vs.Ss. disponibilizam, despertam para a necessidade de aprenderem continuadamente. Grato e abraço a ambos. Netto Fernandes - Fazenda Recanto da Prainha - Vargem Grande do Sul SP
ARISTÓBULO ANTÔNIO DE CARVALHO

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 28/05/2013

A importância deste artigo é incontestável e tremenda. Parabéns.
LEONARDO GUIMARÃES SILVA

PONTES E LACERDA - MATO GROSSO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 28/05/2013

Muito bom o texto..Parabéns!!



Existem profissionais de Zootecnia altamente capacitados, e que dominam muito bem essa área de nutrição meus caros Sidney e Paulo Cesar..Afinal, o maior enfoque desta ciência, é a nutrição animal.
MICHEL KAZANOWSKI

QUEDAS DO IGUAÇU - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/05/2013

Caro José e Ricarda,



O uso de dieta com maior concentração proteica auxilia vacas magras a recuperar score corporal. Quanto mais proteína pode ser incluída a dieta sem que haja perda energética devido ao seu excesso?

A soja grão pode ser um bom ingrediente na fase de BEN por conciliar alto valor proteico e possibilitar uma elevação da energia da dieta? Esta quando triturada deteriora rapidamente devido ao alto nível de óleo. Ela deve ser triturada ou pode ser fornecida inteira?  
ERMES DELLA COSTA

PINHALZINHO - SANTA CATARINA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 28/05/2013

O DESAFIO AUMENTA JUNTO COM O AUMENTO DA PRODUTIVIDADE, POR ISSO  É IMPORTANTE ESTARMOS  SEMPRE LENDO SOBRE O TEMA.
PAULO CESAR MIRANDA MARQUES

CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/05/2013

Muito importante o tema. Nós PRODUTORES,precisamos compreender esta transição´. Com um artigo de tamanho significado,''concordo com o Sidney de Goiania'',ausencia de profissionais conhecedores do assunto.PARABENS.
SIDNEY

GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/05/2013

Achei fantástico o tema do artigo. Eu como produtor fico impressionado com a área de nutrição e o impacto dela na vida do animal. Estou com um animal que pariu hoje de manhã e vou acompanhar em detalhes o desenvolvimento dela. Pena que os profissionais que conhecem este assunto são raros. Parabens.
CAIO GOMES

IPERÓ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/05/2013

Parabéns pelo artigo Ricarda e José!



Interessante adicionar à sequência dessa leitura a matéria publicada pela Leite Integral de Maio, dos alunos e professores da pós graduação da UFMG, sobre Monitoramento de Vacas no Período de Transição, relatando formas de diagnóstico para doenças de periparto subclínicas, o que geralmente é ignorado nas propriedades leiteiras...
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