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Importância de entender a fisiologia, os requisitos nutricionais e o comportamento para obter sucesso durante o período de transição - Parte 3

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 24/10/2013

6 MIN DE LEITURA

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Este texto é a 3ª e última parte da palestra apresentada por Barry Bradford, Kansas State University, no XVII Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, realizado em Uberlândia de 14 e 15 de março de 2013. 

Acesse a Parte 1 aqui e a Parte 2 aqui.

Causa e efeito?

Um aspecto frustrante envolvido na biologia da vaca em transição é a pergunta que permanece sem resposta, ou seja: “Quais observações são causas e quais são efeitos? Por exemplo, uma vaca com cetose quase sempre apresenta altas concentrações de AGNE e BHBA, baixa ingestão alimentar e certo grau de esteatose hepática (fígado gorduroso). Pode-se presumir que algo fez com que ela se alimentasse mal, levando a mobilização de AGNE do tecido adiposo, acúmulo de gordura no fígado e produção de cetona. No entanto, também há evidências de que AGNE e/ou BHBA podem suprimir diretamente a ingestão alimentar, ou de que talvez a ingestão alimentar foi suprimida por uma resposta inflamatória associada ao acúmulo de gordura no fígado. Esses cenários seriam indicativos de que o problema teria sido causado por lipólise excessiva. Em muitos casos, todas essas questões surgem quase ao mesmo tempo, praticamente impossibilitando o uso de períodos de tempo para identificar uma causa única.

Vários laboratórios estão investigando problemas de vacas em transição com o objetivo de identificar os primeiros fatores nocivos que levam à doença. Entretanto, vale a pena lembrar que os circuitos de feedback positivo são indicativos de muitos estados associados a doenças, inclusive as condições descritas aqui. Por exemplo, uma vaca que passa pelo período de transição sem dificuldades apresenta aumento na concentração plasmática de AGNE, porém esses AGNE são amplamente oxidados no fígado, levando à produção de glicose, que rapidamente fornece um feedback negativo sobre a lipólise, fazendo com que a concentração de AGNE comece a cair novamente. Nesse cenário, ocorre a recuperação de um estado de homeostase negativa. Entretanto, em uma vaca que sofre do complexo esteatose hepática/cetose, os AGNE se encontram bem mais elevados, os lipídios não estão completamente oxidados no fígado e começam a acumular, inibindo a produção de glicose. A hipoglicemia resultante estimula ainda mais a lipólise e a cetogênese e, em algum ponto dessa progressão, a ingestão alimentar começará a cair também. Isso exacerba o balanço energético negativo e reduz ainda mais a produção de glicose ao limitar o aporte de precursores de glicose, levando novamente a estimulação ainda maior da mobilização de tecido adiposo. É esse ciclo vicioso, ou circuito de feedback positivo, que impulsiona a vaca para um distúrbio clínico. Com esses tipos de circuito de feedback em operação, pode ser muito difícil identificar a verdadeira causa de um distúrbio; na maioria dos casos, talvez o problema decorra de vários problemas sub-ótimos e não apenas de um. A boa notícia é que tal realidade também significa que as intervenções nem sempre precisam ser perfeitamente direcionadas à origem do problema para solucioná-lo.

Implicações práticas

Estes achados sugerem uma série de áreas de foco para gerentes de fazendas leiteiras que buscam um esquema de manejo holístico para atender às complexas necessidades nutricionais, ambientais e comportamentais da vaca de leite em transição.

Alojamento. Achados recentes do grupo da Universidade da Colúmbia Britânica do Canadá mostram que é um erro submeter vacas secas a uma taxa de lotação excessiva. Durante a crise financeira dos últimos anos, várias histórias circularam sobre granjas que reduziram as taxas de lotação das vacas em lactação sem perder leite no tanque de expansão. Talvez isso nos lembre de como é importante fornecer espaço adequado (tanto em free stalls como na linha do cocho) e a literatura sugere que isso é ainda mais fundamental no período seco. O esperado é que as respostas comportamentais ao excesso de lotação levem a mais problemas de claudicação, maior balanço energético negativo e aumento em todos os distúrbios de transição associados a essas questões. Com base em dados recentes da Universidade da Flórida, efeitos negativos semelhantes podem ser esperados em vacas expostas ao estresse térmico no período seco. Fornecer espaço adequado e manter as vacas frescas devem ser altas prioridades em qualquer plano de manejo de vacas secas.

Nutrição. O principal objetivo da nutrição de uma vaca em transição foi cristalizado na última década: controlar a condição corporal. Nenhum outro fator é capaz de medir com tanta precisão um período de transição desastroso como um escore de condição corporal ≥ 4. Na realidade, a maioria dos acadêmicos que se concentra em distúrbios metabólicos durante esse período defenderia um escore de condição corporal alvo ≤ 3 durante a parição, já que as consequências de um escore de condição alto já foram comprovadas como mais graves do que as consequências de um escore de condição corporal baixo. Embora as vacas que sofrem da “síndrome da vaca gorda” tenham mais energia armazenada para ajudar a compensar o balanço energético negativo, apresentam maiores quedas na IMS em comparação às vacas saudáveis, maiores aumentos de AGNE plasmático e maior probabilidade de desenvolverem casos clínicos de cetose e até mesmo distúrbios infecciosos. O objetivo é atingido com maior sucesso pelo fornecimento de dietas com níveis relativamente baixos de energia ao longo de todo o período seco, embora uma série de formulações possa potencialmente ser utilizada para atingir essa finalidade. O resultado, claro, está nos detalhes: prevenir separação excessiva da ração, promover IMS suficiente para atingir as exigências de energia e balancear a DCAD.

Assim como no caso do estresse social, as necessidades nutricionais das novilhas próximas da parição podem ser atingidas com mais sucesso ao mantê-las em alojamento separado. Essas novilhas ainda estão crescendo e, por serem menos susceptíveis à síndrome da vaca gorda, faz sentido oferecer-lhes uma dieta com níveis de energia um pouco mais elevados do que a oferecida a vacas multíparas. Da mesma forma, já se observou que as dietas aniônicas que beneficiam vacas multíparas em transição diminuem drasticamente a IMS das novilhas. É muito raro as novilhas terem hipocalcemia grave, portanto o melhor é oferecer-lhes dietas sem adição de fontes de ânions.

Prevenção de doenças. A imunossupressão das vacas durante o período de transição sugere várias estratégias de manejo que podem ajudar a limitar a pressão de doenças e o estresse associado durante esse período. Não há dúvida de que as fazendas querem reduzir as cargas de patógenos em todas as vacas. Entretanto, caso seja possível melhorar a limpeza de determinadas baias, seria sensato investir tal esforço nas baias de vacas recém-paridas, uma vez que é nelas que se concentra a maioria dos casos de mastite e metrite. Além disso, devem-se elaborar protocolos de vacinação para evitar vacinar as vacas nas últimas 3 semanas de gestação, uma vez que a queda na função do sistema imune adaptativo durante esse período limitaria a eficácia das vacinas e produziria inflamação potencialmente prejudicial em um momento tão importante.

Conclusões

Mesmo em fazendas com incidência relativamente baixa de distúrbios em vacas em transição, fatores como ambiente social sub-ótimo, condições ambientais, ingestão alimentar, status metabólico ou função imune podem comprometer a capacidade das vacas em transição de atingirem o potencial genético para a produção de leite no pico da lactação, acarretando prejuízos econômicos significativos ao longo da lactação. Embora os mecanismos que estão por trás de algumas dessas interações permaneçam vagos, já há mensagens claras que se destacam em pesquisas recentes:

• As vacas em transição requerem espaço adequado no cocho e na baia, e o estresse térmico nessa fase traz efeitos negativos a longo prazo.

• Separar as novilhas das vacas secas durante o período de transição permite melhorar o manejo nutricional e reduzir o estresse social.

• Devido às várias interações entre diferentes sistemas fisiológicos, melhorar a ingestão alimentar após a parição, promover a função metabólica ou reduzir a incidência de infecções beneficiarão outros fatores e, em última instância, promoverão a saúde e a produtividade.
 

ARTIGO EXCLUSIVO | Este artigo é de uso exclusivo do MilkPoint, não sendo permitida sua cópia e/ou réplica sem prévia autorização do portal e do(s) autor(es) do artigo.

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

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RÉGIS OLIVEIRA OTTONI

CALDAS - MINAS GERAIS

EM 26/10/2013

Artigo de extrema importância!
GUSTAVO SALVATI

PIRACICABA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 26/10/2013

Parabenizo os autores pelo artigo.



Gostaria de pedir um melhor esclarecimento com relação a este trecho do artigo:



"Por exemplo, uma vaca que passa pelo período de transição sem dificuldades apresenta aumento na concentração plasmática de AGNE, porém esses AGNE são amplamente oxidados no fígado, levando à produção de glicose, que rapidamente fornece um feedback negativo sobre a lipólise"



Até então para mim os AGNE teriam três vias:



1) Oxidados completamente até CO2 e água

2) Oxidação incompleta com formação de corpos cetônicos

3) Armazenamento na forma de triglicérides no fígado devido a deficiência de exporta VLDL



Como AGNE podem levar a aumento da glicemia?



Att,

BENEDITO RUDI

SANTA RITA DO SAPUCAÍ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 25/10/2013

Bom dia srta Ricarda e sr. José Luiz!



Ótimo artigo, parabens.
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