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Distocia: cuidados com o parto em fazendas leiteiras

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 17/10/2019

7 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 12/11/2019

Na indústria leiteira, na qual a principal fonte de receita é a produção e venda de leite, o parto da vaca e os cuidados com a bezerra são áreas muitas vezes negligenciadas. Com isso, o problema com partos distócicos tem sido praticamente ignorado. Poucos produtores de leite incorporam estratégias de acasalamento para diminuir a ocorrência de distocia ou têm manejo de parto e de bezerros recém-nascidos que abordam especificamente o problema.

Talvez como resultado dessa desatenção da indústria leiteira às dificuldades de parto, a taxa de distocia em bovinos leiteiros é maior do que em bovinos de corte. Uma pesquisa americana relatou, em 1994, que 18% dos partos necessitaram de assistência, enquanto a taxa de parto com distocia nas vacas de primeira lactação foi de 32%. Em comparação, no ano de 1997, nas fazendas de corte foi relatado que 17% das novilhas e 3% das vacas apresentaram distocia.

Em um estudo realizado na Universidade Estadual do Colorado, pelo programa de gestão pecuária integrada, fazendas de leite foram avaliadas quanto à ocorrência de distocia e seus efeitos nos bezerros e nas vacas. As taxas de distocia nessas fazendas variaram de 30 a 40%, sendo superiores a 50% em vacas de primeira cria. Bezerros nascidos em parto distócico tiveram de 3 a 24 vezes mais chances de morrer ao nascer, probabilidade 1,5 vezes maior de adoecer antes do desmame e taxa de mortalidade quase duas vezes maior no momento do desmame.

Logo, os impactos da distocia em animais leiteiros incluem aumento da morte e doenças em bezerros, bem como redução da produtividade e aumento de doenças em vacas. Com isso, acumulam-se os impactos econômicos devido a custos com tratamento aumentados, redução do desempenho da bezerra e redução da eficiência reprodutiva.

O que é distocia?

Distocia é definida como dificuldade ou atraso no parto em qualquer um dos estágios da parição. Para reconhecer um parto distócico, é importante conhecer as etapas normais da parição.

Causas de distocia

A distocia pode ter relação com o manejo, desde a escolha do sêmen até a nutrição, bem como o manejo de vacas no parto.

Principais causas:

  • Cruzamento: a genética pode ser causa importante, devido à influência sobre características como peso ao nascer e desenvolvimento das novilhas;
  • Vacas gordas: muito gordura na pelve pode resultar em menor canal do parto;
  • Má formação do bezerro ou da vaca;
  • Duração da gestação;
  • Novilhas: muitas vezes o canal do parto (vagina e vulva) não dilata o suficiente para dar passagem ao bezerro;
  • Incompatibilidade materno-fetal (feto muito grande ou pelve da vaca muito pequena), sendo a causa mais comum em bovinos de corte;
  • Má posição: causa infrequente de distocia em bovinos de corte (menos que 4%), mas pode ser mais frequente em bovinos de leite;
  • Outras doenças: como, por exemplo, febre do leite (na qual há redução do tônus muscular e dificuldade de expulsão o feto) ou torção uterina.

Medidas preventivas para redução da incidência de distocia

Dentre as diversas causas de distocia, algumas podem ser prevenidas e outras não. Logo, mesmo que todas as medidas preventivas sejam tomadas em uma fazenda, a condição ainda ocorrerá em alguns animais. É possível ocorrer também causas múltiplas em um incidente individual de distocia. Ainda assim, o meio mais eficaz para prevenir perdas é o manejo adequado dos animais.

Abaixo estão elencadas algumas medidas preventivas:

  • Cruzamento/genética - o touro, assim como a fêmea, contribui para o tamanho do bezerro. Alguns distocias são causados por uma cria muito grande em uma vaca pequena ou, especialmente, em uma novilha. É interessante sempre cruzar novilhas com touros que são provados para não produzir bezerros com alto peso ao nascer. No entanto, não se deve ir para o outro extremo e selecionar para bezerros com peso muito baixo ao nascimento, pois bezerras pequenas tendem a resultar em novilhas pequenas.
  • Nutrição - as vacas/novilhas devem ser alimentadas com calorias suficientes para manter a condição corporal e o crescimento fetal. As vacas não devem ter nem baixa e nem alta condição corporal. Super condicionamento corporal pode conduzir a desordens de parto e problemas metabólicos, bem como baixo condicionamento pode resultar em produção diminuída e baixo desempenho reprodutivo. As vacas/novilhas super condicionadas podem acumular gordura ao redor da pelve, resultando em um canal de parto menor. Deve-se ter como meta um escore de condição corporal de 3,25 a 3,5 ao parto para os animais. Deve-se também manter o equilíbrio normal de cálcio nas vacas. Isto pode ser conseguido pelo fornecimento de sais aniônicos e cálcio extra antes do parto. Se os níveis de cálcio caírem, as vacas podem ter problemas de parto relacionados com a febre do leite. Se o rebanho está tendo taxas elevadas de distocia, é necessário reavaliar o manejo nutricional das novilhas e vacas secas.
  • Observação das vacas/novilhas próximas ao parto – a intervenção precoce pode ajudar a prevenir algumas das distocias mais graves e a morte de bezerras.
  • Treinar o seu pessoal - saber quando intervir e o que fazer é extremamente importante para diminuir a ocorrência de distocias e perdas por morte da cria.

Diferença entre as causas de distocia em novilhas e vacas

As causas de distocia em vacas e novilhas muitas vezes são diferentes. Uma novilha ainda está crescendo, logo, será menor que uma vaca madura. Além disso, pelo fato de novilhas nunca terem parido, os tecidos do canal de parto (cérvix, vagina e vulva) nunca foram dilatados. Assim, a distocia nas novilhas é frequentemente associada à problemas no canal do parto, o qual não dilata o suficiente. Estas distocias podem frequentemente ser corrigidas dilatando a vagina e a vulva manualmente.

Por outro lado, quando a distocia ocorre em vacas, geralmente é resultado de um problema mais sério. O tamanho do canal do parto de uma vaca é menos restritivo do que o de uma novilha, assim, quando a distocia ocorre, normalmente tem relação com outro processo de doença concomitante ou com bezerros extremamente grandes, malformados ou mal posicionados. Por estas razões, mesmo uma distocia suave em vacas pode aumentar a probabilidade de natimortos e de bezerros comprometidos quando comparados aos nascidos de uma novilha com distocia.

Efeitos da distocia 

Qualquer distocia terá algum impacto sobre a bezerra e a mãe, mas o impacto normalmente torna-se pior de acordo com a gravidade do parto. Estes são alguns dos efeitos causados:

  • Perdas por morte da bezerra devido ao aumento de trauma, incidência de doença ou incapacidade de se adaptar à vida pós nascimento;
  • Perdas por morte da vaca e taxas de descarte maiores devido a trauma, diminuição da produção ou diminuição da eficiência reprodutiva. As vacas que têm distocia apresentam aumento do estresse e são mais propensas a ferimentos;
  • Aumento no intervalo parto-concepção (redução da fertilidade);
  • Redução da produção de leite (especialmente nos primeiros 30 dias da lactação);
  • Redução da produção de gordura no leite;
  • Aumento das chances de futuros problemas de parto;
  • Perdas econômicas devido a:
    • Redução da eficiência reprodutiva;
    • Aumento da incidência de doenças;
    • Gastos com tratamentos;
    • Perda da bezerra.

Alguns estudos mostraram perdas de U$380 dólares nos casos de partos com distocias graves. Devido a distribuição de partos durante todo o ano na maioria das fazendas leiteiras, é importante manter bons registros para monitorar a incidência de distocia, a fim de determinar se há problemas com isso na fazenda.

Fatos interessantes sobre distocia

  • Com o aumento da dificuldade do parto, a chance de morte da vaca aumenta;
  • Bezerros ficam geralmente mais comprometidos nos casos de distocia do que bezerras, provavelmente porque os bezerros são geralmente maiores;
  • Alguns estudos mostram incidência maior de distocia no inverno em comparação com o verão. Esse fato pode ser devido à redução da movimentação das vacas confinadas no inverno;
  • Distocia é a maior causa de natimortos;
  • Aproximadamente metade das mortes de bezerros do nascimento até o desmame acontecem no primeiro dia de vida.

Sistema de escore de distocia

A distocia geralmente é classificada de acordo com a dificuldade. Isso ajuda na padronização das anotações de ocorrências e na comunicação entre as pessoas da fazenda.

Um exemplo de classificação de distocia:

  • 0 – Não há necessidade de assistência ao parto;
  • – Assistência fácil (normalmente significa que foi necessária apenas uma pessoa para auxiliar);
  • 2 – Assistência difícil (foram necessárias duas pessoas para auxiliar);
  • 3 – Assistência mecânica;
  • 4 – Cesariana.

É importante desenvolver um sistema de pontuação que funcione para a fazenda. É possível incluir informações como: bezerro mal posicionado; bezerro vivo ou morto no momento da assistência; etc. Este sistema deve ser simples o suficiente para que todos entendam e se encaixem facilmente.

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Este texto é parte de uma publicação da Universidade Estadual do Colorado.

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

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