Probióticos ruminais ganham atenção

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A discussão em torno do uso de produtos microbianos, incluindo culturas de leveduras, bactérias e complexos formados entre minerais e leveduras tem sido potencializada à medida que práticas tradicionais de produção são cada vez mais questionadas pelo consumidor, especialmente em países desenvolvidos. Esta tendência ocorre paralelamente ao aumento da preocupação com segurança alimentar e saúde, colocando pressão, por exemplo, sobre estratégias tradicionais de tratamento, como o uso de antibióticos e medicamentos afins.

O Food and Drug Administration (FDA), órgão que regulamenta a administração de medicamentos e aditivos nos Estados Unidos, reconhece que o uso de medicamentos anti-microbianos em animais em produção é importante para promover a saúde animal e um suprimento abundante de carne, leite e ovos. Porém, o objetivo principal do FDA, referente à saúde pública, é o de proteger a população através da preservação da efetividade de longo prazo dos medicamentos anti-microbianos para o tratamento de doenças humanas, de forma que cabe à indústria animal utilizá-los de forma adequada, como também buscar novas alternativas para a prevenção e tratamento de doenças nos animais, evitando possíveis relações com resistência microbiana, que podem vir a afetar o tratamento de doenças humanas.

Pode-se argumentar que tais exigências não se aplicam, ao menos na mesma intensidade, ao consumidor de países em desenvolvimento, como o Brasil, onde ainda há um déficit de proteína animal na dieta da população. Embora tal análise seja correta, é preciso lembrar que o Brasil, cada vez mais, se destaca como exportador, pronto a suprir as demandas de consumidores muito além de suas fronteiras. Isto já é uma realidade na carne bovina, suína e no frango, havendo expectativas de que, com o potencial que têm, o Brasil possa também ser exportador de lácteos em um futuro não muito distante.

Desta maneira, terapias ou estratégias de prevenção de doenças que utilizem os chamados "probióticos" devem ser cada vez mais discutidas, de forma a elucidar sua utilização nas cadeias do leite e da carne, atendendo às exigências do consumidor, porém com relação benefício/custo favorável ao produtor.

Com esse objetivo, a empresa canadense Lallemand, que se dedica à seleção e produção de bactérias e leveduras para diversas finalidades, reuniu cerca de 100 pessoas, entre consultores, produtores, jornalistas e cientistas, em sua Conferência sobre Nutrição de Ruminantes, realizada na cidade de Montreal, no Canadá, entre os dias 9 e 11 de julho. Nesta ocasião, foram apresentados dados relativos à utilização de culturas de leveduras, inoculantes de silagem e leveduras enriquecidas com selênio, a partir de experimentos realizados nos Estados Unidos, no Canadá, no Brasil, na Inglaterra e na França.

Em relação aos inoculantes de silagem, a empresa prioriza produtos que possam trazer um diferencial no mercado, especialmente em relação à estabilidade aeróbica de silagens. Atualmente, estão sendo desenvolvidas pesquisas com bactérias que venham a minimizar as perdas que ocorrem quando o silo é aberto. Estas perdas são decorrentes da atividade de fungos e leveduras e os resultados tem sido promissores. Há, inclusive, projetos de pesquisa sendo realizados no Brasil, com efeito positivo no desempenho animal.

A utilização de culturas de leveduras, por sua vez, apresenta alto potencial de utilização à medida que a produção intensiva se torna realidade. O manejo intensivo de animais normalmente não favorece o desenvolvimento ruminal bem balanceado, que ocorre naturalmente. Freqüentemente, quando os bezerros são desmamados, o rúmen ainda está imaturo, com uma pequena população de microorganismos, marcada pela baixa diversidade, além de ter reduzida capacidade ruminal. Isso ocorre porque, no manejo intensivo, os animais são separados das mães muito cedo: dados da França sugerem que mais de 90% são separados antes das 24 horas após o nascimento; além disso, o regime alimentar consiste de uma transição muito rápida do leite para uma dieta rica em carboidratos.

Na prática, demonstra-se alta freqüência de problemas digestivos ocorrendo em ruminantes jovens (cerca de 70% dos bezerros), resultando em alto custo dos tratamentos curativos.

Hoje, sabe-se que os desbalanços microbianos que podem causar diarréia podem ser originários não apenas do intestino, mas também do rúmen. Leveduras vivas são utilizadas extensivamente em dietas de vacas de leite e, em alguns casos, em dietas de bovinos de corte. Pesquisas recentes têm demonstrado também benefícios da utilização de cepas selecionadas de leveduras vivas para utilização em bezerros jovens, por volta do desmame.

Trabalhos realizados na França demonstram que o rúmen é rapidamente colonizado após o nascimento, antes mesmo do órgão se tornar funcional. O estabelecimento do ecossistema é ordenado e progressivo. Nem todas as espécies de bactéria, fungos e protozoários aparece simultaneamente, mas sim em um processo seqüencial (Figura 1), com cada espécie, de certa forma, criando o ambiente para as próximas espécies de micoorganismos que se sucedem. A população microbiana se desenvolve até que uma comunidade madura, relativamente estável, se desenvolve. O desenvolvimento do rúmen (peso, espessura da parede e tamanho das papilas ruminais) é altamente dependente do nível de complexidade da microflora (Tabela 1).

Tabela 1. Efeito da diversidade microbiana no desenvolvimento das papilas ruminais em carneiros de 100 dias e 13 kg de peso vivo (Fonty, 1984)


Uma série de experimentos envolvendo carneiros por volta do desmame mostrou que, na presença de células de levedura da cepa SCI1077 (Saccharomyces cerevisiae - Levucell SC T), a microflora celulolítica foi estabelecida em um nível mais elevado e de forma mais estável; os protozoários ciliados também colonizaram o rúmen mais rapidamente, demonstrando a maturação do ecossistema microbiano (tabela 2). Além disso, a degradação de fibra no rúmen foi melhorada de forma significativa e a atividade enzimática para degradação de celulose e hemicelulose foi, em grande parte, elevada. De forma geral, na presença de leveduras vivas, os ruminantes jovens conseguem lidar de forma mais eficiente com o stress.

Tabela 2. Estabelecimento de protozoários em carneiros que receberam levedura, comparados com o grupo controle (% de carneiros com presença de protozoários) - Chaucheyras & Fonty, 2002


Resultados de pesquisa realizados no Veterinary Medicine Teaching and Research Center da Universidade da Califórnia, em Davis, apresentaram dados práticos com o fornecimento de um produto à base de leveduras secas (Levucell SCtm, Lallemand) para bezerros machos cujo fornecimento de colostro foi deficiente. O produto foi fornecido do nascimento até os 90 dias de vida, sendo avaliados os efeitos no desempenho animal. O aditivo foi fornecido à ração inicial, na quantidade de 500 mg, totalizando 10 bilhões de Unidades Formadoras de Colônia (UFC) por dia.

Os resultados demonstram que o consumo de concentrado em gramas por dia, no período que antecede ao desmame, foi maior para bezerros tratados e tenderam a ser maiores também após o desmame (Figura 2). O ganho de peso antes do desmame foi elevado significativamente, de 298 gramas/dia para 464,7 gramas/dia (P<0,05), mas não houve efeito após o desmame (907 vs 1037 gramas/dia). Avaliando o total do período experimental, os bezerros que receberam a levedura ganharam mais peso (Figura 3). Os níveis de glucose plasmática foram mais altos para bezerros que receberam a levedura, em comparação aos bezerros do grupo controle (74,3 vs 81,4 mg/dl; P < 0,05). O número de dias com diarréia antes do desmame foi menor para bezerros que receberam a levedura viva em comparação ao grupo controle (4,0 vs 5,8 dias; P<0,05). Em resumo, a adição da levedura ao concentrado de bezerros que não receberam a transferência adequada de imunidade passiva via colostro tem o potencial de elevar o desemenho animal.

Essa situação é bastante freqüente nas fazendas brasileiras, onde nem sempre o parto é assistido e, conseqüentemente, não se sabe com precisão o horário do nascimento e nem se fornece o colostro por vias artificiais, que garantiriam o suprimento adequado de imonuglobinas. O resultado é que, em geral, grande proporção de bezerros não recebe a imunidade passiva de forma plena, resultando em alta morbidade, incidência de diarréia, baixas taxas de crescimento, altos custos de tratamento e elevada mortalidade. Desta forma, os dados de pesquisa aqui reportados sugerem que culturas de levedura cujas cepas foram selecionadas para esta finalidade podem contribuir para minimizar estes problemas e melhorar o desempenho nestas condições.

A utilização de probióticos ruminais, com destaque para cepas selecionadas de Saccharomyces cerevisiae, apresenta potencial de uso em diversas situações, como a reportada neste artigo, envolvendo bezerros sob stress. Vacas de alta produção, animais em pré e pós-parto e sob elevadas temperaturas ambientais também sugerem condições nas quais há desarranjo na população microbiana ruminal, abrindo espaço para a utilização de culturas de levedura que sejam embasadas em pesquisas científicas, cujos resultados refletem as condições práticas de uso.

Figura 1. Desenho esquemático da colonização do rúmen de bezerros (Bax, 2003)


Figura 2. Consumo de concentrados (gramas/dia), Santos (2003)


Figura 3. Peso vivo dos bezerros (kg/dia), Santos (2003)



Empresas participam de centro de pesquisa em biotecnologia

O Biotechnology Research Institute, localizado em Montreal, Canadá, mostra como pode ser bem sucedida a parceria entre entidades públicas e privadas no que se refere à produção de pesquisa aplicada. O Instituto é governamental, mas diversas empresas alugam seus laboratórios, de forma a contar com ampla infra-estrutura para pesquisa, além de um corpo técnico que, de outra maneira, dificilmente estaria disponível às empresas. No BRI, a Lallemand, uma das empresas presentes, realiza desde 1987 suas pesquisas básicas em genética e tecnologia de fermentação, cujos resultados são posteriormente aplicados em suas plantas industriais. No BRI, a empresa guarda cerca de 900 cepas de leveduras, sendo que 250 são exploradas comercialmente para diversas finalidades: panificação, nutrição animal, fermentação de vinhos, cervejas, outras bebidas e alimentos. Estas 250 cepas são identificadas geneticamente, através de técnicas de análise de DNA.

A Lallemand é especializada no desenvolvimento, produção e comercialização de leveduras e bactérias, tendo duas grandes divisões: North American Bakers Yeast and Bacteria, baseada em Chicago, nos EUA, tendo como área de negócios principalmente as leveduras de panificação, e a Specialty Yeast and Bacteria, baseada em Toulouse, na França, especializada em produtos para aplicações específicas, incluindo nutrição animal.




José Eduardo Portela Santos: levedura viva melhorou ganho de peso em bezerros estressados antes do desmame
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Material escrito por:

Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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Robson dos Remédios e souza
ROBSON DOS REMÉDIOS E SOUZA

EM 12/06/2014

quero compra,como conseguir
josé eduardo pereira netto
JOSÉ EDUARDO PEREIRA NETTO

MOCOCA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 20/11/2011

estou pensando a criar cabrito na minha propriedade para lazer e consumo.gostaria de saber qual a raça propricia para esta finalidade.o sistema que sera utilizado sera rustico.pastagens e cocho.sem mas, obrigado
Qual a sua dúvida hoje?