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Impacto das importações de sêmen na melhoria genética da raça Holandesa no Brasil

Por Claudio Napolis Costa
postado em 18/08/2005

1 comentário
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A raça Holandesa é a mais difundida no Brasil, utilizada intensamente em cruzamentos e na formação da raça Girolando. Os criadores da raça Holandesa são tradicionais usuários de sêmen importado da América do Norte, da Europa e mais recentemente da Oceania (Figura 1). Ao longo da década de 90 observou-se um crescimento contínuo das importações, acompanhando a tendência de crescimento da comercialização de sêmen da raça, que atingiu o seu máximo em 1998, com aproximadamente dois milhões de unidades. Desde então, muito provavelmente devido às crises observadas na pecuária de leite, as vendas diminuíram, mas a participação de sêmen importado representou em 2003, algo em torno de 79% do total de 1,4 milhões de doses de sêmen da raça Holandesa comercializadas no Brasil.


Figura 1 - Comercialização de sêmen nacional, importado e total da raça Holandesa no Brasil, no período de 1989/2003. (Fonte: ASBIA, Embrapa Gado de Leite)

A disponibilidade de sêmen de outros países que executam programas de seleção é uma oportunidade para aumentar a produtividade das raças leiteiras especializadas no Brasil por meio da importação. Todavia, não há um programa de seleção delineado para o País ou qualquer recomendação de estratégia de seleção para o melhor uso dos investimentos aplicados em sêmen importado. O uso do sêmen é geralmente baseado nos índices das avaliações divulgados pelos países exportadores, por meio das ações de marketing de seus representantes comerciais e/ou filiais no Brasil. O aumento da produtividade animal, por meio dos ganhos genéticos ao longo das gerações é o objetivo geral dos programas se seleção. A estimativa destes ganhos possibilita uma análise dos programas de seleção e como diferentes estratégias podem ser utilizadas para a melhoria de sua eficiência. Os ganhos genéticos resultantes de um programa de seleção podem ser estimados a partir dos valores genéticos dos animais. A regressão dos valores genéticos dos animais ao longo dos respectivos anos de nascimento estima a taxa de progresso anual e a sua tendência ao longo do período considerado.

Nos últimos anos a Associação Brasileira de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa - ABCBRH e suas filiadas estaduais, com o apoio técnico da Embrapa Gado de Leite, iniciaram a estruturação de um programa de seleção para a raça no Brasil. No contexto deste programa passou-se a realizar anualmente as avaliações genéticas nacionais para as características produtivas. Em 2004, além das características produção de leite e de gordura, foram realizadas pela primeira vez no Brasil as avaliações genéticas para a produção de proteína e para as características de conformação ou tipo racial.

De posse dos valores genéticos de touros e vacas obtidos destas avaliações genéticas para as produções de leite, gordura e proteína (Tabela 1), foram estimados os ganhos genéticos para estas características, na raça Holandesa no Brasil.

Tabela 1 - Média e respectivo desvio padrão, heritabilidade e número de animais das bases de dados de características produtivas da raça Holandesa utilizadas nas avaliações genéticas em 2004. (Fonte: Embrapa Gado de Leite, 2004)


Os ganhos genéticos foram estimados pela regressão das médias anuais das PTAs dos touros e das vacas nos respectivos anos de nascimento. Adicionalmente, para os touros, aplicou-se o método de ponderação das PTAs dos touros pelo seu respectivo número de filhas. Esta ponderação pode ser entendida como a intensidade de uso de um touro em relação aos demais touros usados pelos criadores quando de suas decisões para o acasalamento das vacas do rebanho. É uma aproximação do que se denomina intensidade de seleção nos programas de melhoramento genético.

As taxas de progresso genético anual para as características produtivas - leite, gordura e proteína são mostradas na Tabela 2 e as tendências de cada uma no período avaliado, nas Figuras 2 a 4, respectivamente. Apesar de positivos, os valores obtidos são muito baixos e correspondem a menos de 0,2% da média da característica. Programas bem sucedidos têm taxas anuais de progresso genético superiores a 1%, o que indica que na ausência de um programa de seleção, as importações não têm contribuído para a melhoria genética das características produtivas da raça Holandesa no Brasil.

Tabela 2 - Estimativas de mudança genética anual e respectivos desvio padrão das características produtivas para touros e vacas da raça Holandesas no Brasil. (Fonte: Embrapa Gado de Leite, 2004)


Analisando-se ainda os resultados da Tabela 2, observa-se que, exceto para a produção de proteína, as taxas anuais de ganho genético das regressões ponderadas e não ponderadas foram praticamente iguais ao longo de todo o período. Esta comparação nos permite concluir que os touros com potencial genético inferior ou igual à média estão sendo utilizados mais intensivamente do que os touros superiores para as produções de leite e de gordura.

Estes resultados têm algumas possíveis explicações e outras importantes implicações. Inicialmente, tais resultados podem ser o reflexo do que se chama de interação genótipo x ambiente - fenômeno relacionado aos desempenhos diferentes de um animal ou grupo de animais em ambientes diferentes. Em termos práticos significa que os touros importados não promovem o ganho genético que seria esperado no Brasil, devido às condições dos sistemas de produção no País serem diferentes daquelas dos países onde os touros foram selecionados.

Outra explicação possível é que os produtores não estão escolhendo os melhores touros disponíveis para acasalamento. Esta escolha pode estar sendo determinada por vários fatores. Entre eles, ofertas de estoque de sêmen de touros antigos, por menor preço, ou decisão de uso de sêmen de menor valor, como opção de controle dos custos de produção, em situações de preço do leite desfavorável. Alternativamente, poderia ser a decisão de investir mais ou dar maior ênfase na melhoria das características de conformação ou tipo linear do que nas características produtivas.


a)



b)



c)

FIGURA 2 - Tendências genéticas para as produções de leite (a), gordura (b) e proteína (c) obtidas das regressões da média anual das PTAs de touros, ponderadas e não ponderadas pelo número de filhas, no ano de nascimento dos touros.

No contexto destas implicações, os criadores devem se lembrar que as decisões de acasalamento ou da escolha de sêmen dos touros têm seus resultados obtidos quando as suas filhas iniciam a produção. Os ganhos genéticos se realizam ao longo do tempo e são cumulativos à medida que as gerações de seleção se sucedem. Portanto o melhoramento genético é um investimento cujos resultados são obtidos de médio a longo prazo.

Maior produção e produtividade de leite com maiores teores de gordura e proteína são componentes da eficiência do sistema de produção e da rentabilidade da atividade leiteira. No atual cenário da pecuária leiteira, as indústrias e cooperativas estão estimulando, via preços, a produção de leite de melhor qualidade, em termos de componentes qualitativos e contagem de células somáticas. Há, portanto, uma oportunidade de se realizar efetivamente ganhos com os investimentos na melhoria genética dos rebanhos.

As decisões de acasalamento devem estar orientadas na possibilidade do potencial genético do touro se expressar no desempenho de suas filhas, no contexto das condições de manejo do rebanho. Deve-se estar atento às ofertas de sêmen, o que não significa decidir por sêmen de alto valor genético, que em geral é mais caro. O fenômeno da interação genótipo x ambiente recomenda cautela. Nem sempre o melhor touro em outras condições de ambiente se confirmará como o melhor touro nas condições do Brasil. Este aspecto per si indica as potencialidades, senão a necessidade de uma estratégia complementar às importações de sêmen. A estruturação do teste de progênie para a disponibilização de touros provados no Brasil é uma alternativa importante para otimizar os investimentos dos produtores na melhoria da produção e produtividade de seus rebanhos e o nível genético da raça Holandesa no Brasil.

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Comentários

Fernando Enrique Madalena

Belo Horizonte - Minas Gerais - Pesquisa/ensino
postado em 20/08/2005

Prezado Cláudio,

Parabéns pelo trabalho. Esse baixíssimo progresso genético pode decorrer, como você diz, ou de que não se fez seleção para produção de leite e componentes, ou da seleção não ter sido efetiva, devido a que os reprodutores utilizados não fossem tão bons nas condições brasileiras quanto nos países de origem. Sem descartar esta segunda causa, a primeira está bem documentada. Em estudo realizado anos atrás, chegamos à conclusão que o principal fator que influenciava os preços do sêmen de Holandês importado era o parentesco com touros famosos, enquanto que as informações dos valores genéticos para leite e tipo contidas nos catálogos tinham papel secundário (Madalena, F.E. Verneque, R.S., Teodoro, R.L. Fatores que influenciam os preços do sêmen importado. Revista Brasileira de Genética, v.8 p.377-384. 1985). É claro que os que ficaram famosos eram grandes reprodutores, mas quando se está num programa de seleção efetivo, aparecem filhos, netos, bisnetos, que os superam, e o uso continuado dos famosos atrasa o progresso genético. Moral da história: atentar para o valor genético e não para o nome.

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