A produção de leite por lactação tem associação com a ocorrência de doenças? - Parte 1/2

Publicado em: - 4 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 1
Ícone para curtir artigo 0

A produção do leite é uma prioridade metabólica para as vacas leiteiras, mantida através de todo esforço possível, seja em detrimento de suas reservas corporais ou do desempenho reprodutivo.

O total de leite produzido por animal durante a lactação é um fator determinante para a situação econômica do rebanho. Sabe-se que, na maioria das vezes, o aumento da produtividade leva a um a acréscimo da lucratividade. Por isso, todos os esforços são direcionados para que, dentro de cada sistema de produção, os animais possam expressar todo o seu potencial produtivo. Entretanto, para que isso ocorra, as limitações inerentes ao animal e ao manejo, tais como potencial genético, ingestão de matéria seca, reações individuais ao estresse, dieta fornecida, qualidade do volumoso, sistema de ordenha e conforto, devem ser bem monitoradas. Além desses fatores, que são habitualmente estudados e discutidos, algumas pesquisas vêem tentando mensurar a associação entre o volume de leite produzido por animal e a ocorrência de algumas doenças.

Este artigo irá abordar os resultados obtidos em um levantamento epidemiológico que avaliou a associação entre 8 doenças e a produção de leite de 2197 lactações. Dentre as 8 doenças destacam-se: 1) Retenção de Placenta; 2) Metrite; 3) Cisto Ovariano; 4) Mastite; 5) Problemas de Casco; 6) Febre do Leite; 7) Cetose; 8) Deslocamento de Abomaso. O estudo foi realizado com vacas holandesas, com produção média de 7800 kg por lactação, durante 6 anos, em 10 fazendas na região da Lower Saxony, na Alemanha.

Para cada uma das 8 doenças estudas foi avaliado o índice chamado de Risco de Incidência na Lactação (RIL) ou seja, qual é a chance da ocorrência de cada doença nas lactações. É importante destacar que apenas o primeiro caso de cada doença ocorrido na lactação foi considerado no levantamento epidemiológico.

Foi observado que, com 23,6%, a metrite foi a doença com o maior Risco de Incidência na Lactação (RIL). A mastite foi a segunda, com 21,6%, e o deslocamento de abomaso apresentou o mais baixo RIL, com apenas 1,1% (observe os demais resultados na Tabela 1). As primíparas apresentaram RIL mais baixo que as vacas para todas as doenças, com exceção apenas para a metrite. Pôde ser observado também, com base nos dias médios em lactação, que as doenças em questão foram sempre diagnosticadas no primeiro terço da lactação.

Tabela 1- Risco de Incidência na Lactação (RIL) e Dias Médios em Lactação (DML) em que as doenças foram diagnosticadas durante o levantamento



A tabela 2, descrita abaixo, mostra a associação entre o RIL (Risco de Incidência do Distúrbio na Lactação) e a produção de leite na lactação em que o distúrbio ocorreu e na lactação anterior. Com base nos dados apresentados, pode ser observado que a ocorrência de Retenção de Placenta apresentou associação com a produção de leite da lactação antecedente. A associação entre a produção de leite na lactação anterior e o Risco da Ocorrência de Retenção de Placenta (RIL) é um dado que também já foi relatado em pesquisas feitas nos EUA. Os pesquisadores que citam esta associação sugerem que não é a atual produção de grandes quantidades de leite que irá contribuir para a ocorrência da Retenção de Placenta (enfermidade que ocorre nos primeiros dias da lactação, momento no qual a produção de leite ainda é pequena), mas, o que irá contribuir para a ocorrência da enfermidade é o potencial produtivo do animal, e daí a associação com a produção na lactação passada.

Tabela 2 - Associação entre o Risco de Incidência de doenças na lactação e o nível de produção de leite na lactação anterior à ocorrência da enfermidade e na lactação em que ocorreu a enfermidade



Não foi observada associação entre o Risco de Incidência de Metrite e a produção de leite da lactação atual ou da lactação anterior. No entanto, os dados do levantamento indicaram uma clara associação entre o Risco de Incidência do Cisto Ovariano (RIL) e a produção de leite na lactação atual. Utilizando os dados obtidos neste estudo, foi possível montar um interessante gráfico tridimensional que ilustra a associação entre a produção de leite, o número da lactação e a probabilidade de ocorrência das doenças, veja o exemplo da Retenção de Placenta no Gráfico 1.

Gráfico 1- Influência da produção de leite na lactação anterior, o número da lactação em que o distúrbio ocorreu e a probabilidade de ocorrência de Retenção de Placenta



A seguir, no segundo e último artigo desta série, serão abordados os resultados observados nas demais doenças e será apresentado um dos principais gráficos deste estudo, que evidencia a relação entre a ocorrência dos principais problemas sanitários e a produção total de leite por lactação. Até lá !

Fonte:
FLEISCHER, P.; METZNER, M.; BEYERBACH, M.; HOEDEMAKER, M.; KLEE, W. The relationship between milk yield and the incidence of some diseases in dairy cows. Journal Dairy Science. v. 84, p.2025-2035, 2001.
Ícone para ver comentários 1
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Renata de Oliveira Souza Dias

Renata de Oliveira Souza Dias

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Marcos Vinícios Bizinoto Prado
MARCOS VINÍCIOS BIZINOTO PRADO

UBERABA - MINAS GERAIS

EM 11/08/2007

Ótimo conteúdo .
Qual a sua dúvida hoje?