Variação de 7% no teor de MS da silagem de milho - Quais as implicações no desempenho animal?

 

O processo de conservação de forragens é caracterizado pela fermentação anaeróbia dos carboidratos solúveis da planta, os quais são convertidos a ácido lático, reduzindo o pH do meio e por conseqüente, preservando o volumoso. Para maximização desse processo, alguns pré-requisitos devem ser estabelecidos, como o teor de matéria seca (MS) no momento da ensilagem, o teor de carboidratos solúveis e o poder tampão da forrageira ensilada.

No campo, existe a possibilidade de manipularmos grandemente o teor de (MS) da planta. No caso do milho, as recomendações para a ensilagem da planta é quando esta apresenta teor médio de 30%, e assumindo-se janela de corte de 10 dias, no final da colheita da lavoura, o teor de MS da planta estaria por volta de 35%. Dessa forma, quando se sugere ensilar a planta com teores variando entre 30-35%, nada mais é que assumir que a planta de milho ganha 0,5% no teor de MS por dia, gerando "janela de corte" de 10 dias para a planta de milho.

A situação que gostaríamos de exemplificar neste artigo é: suponha que um dos silos de uma propriedade apresenta teor de MS de 28%. A dieta do rebanho foi formulada com este teor de MS para a silagem de milho. A silagem proveniente deste silo termina, havendo necessidade de abertura do silo subseqüente. Porém, o silo subsequente foi ensilado dias depois do primeiro, o que possibilitou que a forragem neste silo apresentasse teor de matéria seca 7% superior ao do primeiro silo (teor de MS ad silagem de 35%). A pergunta é: caso o produtor não considere esta variação no teor de MS da silagem na formulação da dieta, quais seriam as implicações no desempenho animal? Existiriam grandes impactos? Ou simplesmente não afetaria em nada, visto que a variação é muito pequena?

Considerou-se tanto vacas em lactação como bovinos de corte em confinamento como modelos para verificar os possíveis problemas. Os exemplos seguem abaixo:



Vacas em lactação

Para a formulação das dietas utilizou-se as equações do NRC (2001), considerando uma vaca pesando 620 kg com produção de 30 kg/dia, apresentando o leite, 3,5% de gordura e 3,1% de proteína. A dieta partiu do princípio que o teor de matéria seca da silagem era de 28% e a proporção de volumoso na dieta correspondeu a 51,4%. A exigência dos animais para tal nível de produção é de 16,7% de PB e 70% de NDT. A pergunta agora é: O que acontece quando o teor de MS seca da silagem sobe de 28 para 35%?

Imaginem que diariamente pesava-se 39,83 kg de silagem (com base na matéria natural) para cada animal. Quando se realiza o cálculo da quantidade de matéria natural fornecida pelo teor de MS da silagem verifica-se que 11,2 kg de MS de silagem era fornecida para cada animal. Com a mudança da silagem, o mesmo valor de 39,8-kg é pesado, porém neste momento o teor de MS da silagem é de 35%, ou seja, a quantidade de MS fornecida é maior, 14 kg. Dessa forma, a proporção de volumoso que antes era de 51,4% agora se tornou 56,7%, indicando que a dieta tornou-se menos concentrada, o que acarreta redução no teor de PB (15,6%) e no teor de NDT (68,6%) da dieta. Com este acontecimento duas respostas são bem evidentes por parte dos animais, aumento das sobras no cocho e redução na produção de leite.

Segundo as equações do NRC (2001), a partir desta nova dieta a vaca em lactação produziria 29,4 kg de leite/dia com base na exigências de NDT e 27,3 kg de leite com base no teor de proteína bruta da dieta. Ou seja, pelo menos 0,6 kg de leite seria reduzido na produção do animal por dia.

Bovinos de corte confinados
O raciocínio para bovinos de corte é o mesmo. Neste exemplo foi considerada dieta para ganho de 1,5 kg/dia, formulado segundo as equações do NRC (1996), utilizando 30% de silagem de milho na dieta. Quando se substitui o valor de 28% para 35% de MS, a proporção de volumoso na dieta sobe para 34,9% e o ganho predito cai para 1,46 kg/dia.

Com os exemplos acima mencionados, observa-se que apenas a falta de atenção em uma variável, implica em redução na produtividade do rebanho por volta de 2 - 3%, o que é representativo nos sistemas de produção de bovinos no Brasil.

A dica que fica é o monitoramento do teor de MS da silagem, principal ingrediente das dietas que apresenta variação dentro da propriedade. Deve-se considerar que em um mesmo silo pode haver variações no teor de matéria seca. Assim, é recomendada a determinação da MS a cada semana ou 15 dias para um mesmo silo e sempre quando houver mudança de um silo para o outro.

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Comentários:

Antônio Elias Silva

Campo Alegre de Goiás - Goiás - Produção de leite (de vaca)
postado em 27/09/2011

Muito bom.! Poderiam dizer qual a % de PB para silagem sem espiga, resíduo de milho para conserva?





Grato,


A Elias

lindomar luiz sarti

Xinguara - Pará - zootecnista
postado em 29/09/2011

qual a forma mais simples para se determinar a materia seca do silo na propria prorpiedade, haja vista que nem todos tem acesso a um laboratório proximo?

Milton Luiz Moreira Lima

Goiânia - Goiás - Pesquisa/ensino
postado em 30/09/2011

Prezados Rafael e Thiago, bom dia.


Por favor, vcs podem me informar se consideraram que a composição bromatológica das silagens (28 x 35%) não é alterada quando realizaram as simulações no NRC? Eu acredito que a silagem de 28% de MS tem potencial de consumo voluntário menor do que a silagem com 35% de MS e, além disso, como existe maior acúmulo de MS na fração grãos, a silagem de 35% de MS tem teor de NDT mais elevado do que a silagem com 28%.


Obrigado


Att

Rafael Camargo do Amaral

Piracicaba - São Paulo - Pesquisa/ensino
postado em 05/10/2011

Prezado Antônio Elias Silva,


Quando a espiga é retirada da planta, dois componentes bastante importantes saem do processo. O carboidrato solúvel que auxilia na fermentação da massa e o amido que irá contribuir em grande parte no NDT da planta toda.


Com a retirada, a planta de milho se assemelha muito com um capim tropical e o seu teor de PB irá se bastante com esse tipo de planta.


Caso a planta de milho seja colhida para o ponto de milho verde, o teor de PB será por volta de 10-12%.


Atenciosamente





Rafael & Thiago

Rafael Camargo do Amaral

Piracicaba - São Paulo - Pesquisa/ensino
postado em 05/10/2011

Prezado Lindomar Luiz Sarti,


Na propriedade dois métodos podem ser utilizados:


Secagem da planta no microondas ou uso do Koster, aparelho que apresenta uma resistência e um ventilador abaixo da resistência.


O segundo aparelho na minha opinião é bastante oneroso.


Nos dois casos é necessário possuir uma balança de precisão, a qual é necessária para pesar o peso inicial e final da silagem.


Atenciosamente


Rafael & Thiago

Rafael Camargo do Amaral

Piracicaba - São Paulo - Pesquisa/ensino
postado em 05/10/2011

Prezado Milton Luiz Moreira Lima,


Apenas consideramos o teor de MS das silagens.


O que foi considerado foi a silagem tendo 28% x 35% de MS. Esse teor não foi relacionado com a planta no momento da ensilagem.


Por exemplo, quando ensilamos a planta, o seu teor de MS na maioria das vezes se reduz. Quando se ensila o milho com 30%, o valor de MS de sua silagem será por volta dos 30%.


Dessa forma, no nosso modo de pensar, o teor de MS mais elevado (35% - na silagem) causaria um desbalanço nutricional na dieta em função de maior proporção de silagem. Caso a dieta seja reformulada (reduzindo a proporção da nova silagem) não haveria problema em utilizar essa silagem com o teor de 35%.


Atenciosamente


Rafael & Thiago

Thiago Fernandes Bernardes

Lavras - Minas Gerais - Pesquisa/ensino
postado em 06/10/2011

Caro Milton,



Interessante e bem colocada a tua observação.

Contudo, no exemplo utilizado no artigo nós consideramos talhões distintos para provocar a diferença na concentração de MS, mas é importante ressaltar que essa variação ocorre dentro do painel (topo-base) e ao longo da massa (avanço do painel), onde o técnico estaria utilizando o mesmo valor energético dentro do NRC para balancear a dieta.

Isso tem provocado queda no desempenho de vacas de alta produção, as quais necessitam de um ajuste fino da dieta. A apresentação de Mertens & Berzaghi (Adjusting for forage variability via on-farm analysis) em 2010 na última International Silage Conference apontou este grande problema nas fazendas americanas, o qual imaginamos que também ocorra nas nossas propriedades.



Att,

Thiago & Rafael

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