MG e SP: Laticínios funcionam sem fiscalização agropecuária

Salas dos fiscais vazias, leite contaminado por antibiótico, laticínios interditados produzindo, profissionais sobrecarregados. Estes são alguns dos problemas encontrados depois de um mês investigando a precária situação da fiscalização nos laticínios de Minas Gerais e de São Paulo. A ausência do fiscal agropecuário em indústrias que recebem o registro do Serviço de Inspeção Federal (SIF), concedido pelo [...]

Publicado por: MilkPoint

Publicado em: - 3 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 9
Ícone para curtir artigo 0

Salas dos fiscais vazias, leite contaminado por antibiótico, laticínios interditados produzindo, profissionais sobrecarregados. Estes são alguns dos problemas que o Canal Rural encontrou depois de um mês investigando a precária situação da fiscalização nos laticínios de Minas Gerais e de São Paulo.

A ausência do fiscal agropecuário em indústrias que recebem o registro do Serviço de Inspeção Federal (SIF), concedido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), abre espaço para fraudes que comprometem a segurança alimentar.

A equipe esteve em seis laticínios no Estado de São Paulo, e em cinco deles não foi encontrado o fiscal agropecuário federal de plantão durante o período de produção de lácteos. No sexto, de acordo com o gerente de suprimentos que recebeu a equipe, o fiscal estava de plantão, mas não foi possível entrar e conversar com ele.

De acordo com o Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (Rispoa), a fiscalização deve ser permanente. Mas, segundo os proprietários das empresas visitadas, em nenhuma delas o fiscal comparece todos os dias.

De acordo com a Superintendência do Mapa, o Estado de São Paulo tem 373 fiscais federais agropecuários para 399 estabelecimentos industriais com produtos de origem animal – entre eles, 191 laticínios. Nem mesmo se todos os fiscais agropecuários do Estado trabalhassem na fiscalização todos os estabelecimentos certificados estariam cobertos.

A ausência da fiscalização no dia a dia abre espaço para fraudes que nos últimos anos vêm sendo denunciadas pelo Ministério Público Federal. Somente no Rio Grande do Sul, entre janeiro de 2010 e setembro deste ano, 39 empresas, cinco transportadores e quatro produtores foram autuados por adulteração no leite.

Em todo o Brasil existem 2.745 fiscais, mas somente 888 realizam a inspeção nos estabelecimentos com produtos de origem animal certificados com SIF no país. Os números foram fornecidos pelo presidente da Anffa, Wilson Roberto de Sá e não puderam ser conferidos com o Ministério da Agricultura, que informou apenas o número total de estabelecimentos que contam com o certificado de inspeção federal: 3.352 – número que inclui desde frigoríficos até indústrias apícolas.

Ainda de acordo com o Mapa, o número total de laticínios que precisam ser fiscalizados pela inspeção federal no país todo é 1.447 – 107 deles credenciados nos últimos dois anos.

Em Minas Gerais, Estado que concentra a maior bacia leiteira do país, o número de indústrias com o Selo de Inspeção Federal (SIF) é muito superior ao de fiscais federais. O resultado é assustador: em estabelecimentos que funcionam dia após dia sem a presença do fiscal, a ausência da inspeção permanente abre espaço para irregularidades e desrespeito ao consumidor.

Junto da equipe de fiscais, bastaram poucos minutos dentro de um laticínio na cidade de Muriaé, em Minas Gerais, para que as irregularidades aparecessem: aberturas no teto, ausência do controle de insetos, sujeira nos ralos e análise em laboratório feita com temperatura errada.

Durante a inspeção no laticínio, nossa equipe acompanhou a chegada de um caminhão com quase três mil litros de leite contaminado com antibiótico – o medicamento é utilizado para tratar doenças como mamite e, após o uso, requer um período de resguardo, ou seja, sem utilização do leite.

“Se este leite passa, o consumidor vai comprar um produto com resíduos de antibióticos que podem criar resistência às bactérias que já existem nele. O dia que este consumidor precisar do antibiótico para uma doença mais grave, ele não vai fazer efeito. É uma coisa bem grave”, aponta o fiscal Eduardo Xavier.

A ação que a equipe presenciou só aconteceu porque os médicos veterinários do Mapa viajaram quase 500 quilômetros para inspecionar uma região carente de fiscais. A região de Muriaé, a 314 quilômetros de Belo Horizonte, tem apenas um médico veterinário, que faz a inspeção em estabelecimentos com produtos de origem animal em 42 municípios.

A chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sipoa) de Minas Gerais, Nazareth Aguiar Magalhães, confirma que a situação é crítica e que, muitas vezes, um mesmo fiscal fica responsável por até 40 laticínios. “Isto não é só aqui, acontece em outros lugares também. E impacta na eficiência da fiscalização.”

Em todo o Estado de Minas Gerais, apenas 74 fiscais federais agropecuários são responsáveis pela inspeção em 779 estabelecimentos industriais de produtos de origem animal. Somente laticínios são 562. Não bastasse o acúmulo de serviço, 12 fiscais de Minas se aposentam no próximo ano, de acordo com o chefe da Divisão de Defesa Agropecuária no Estado, Demerval Silva Neto.

Recentemente o governo federal aprovou em concurso o ingresso de 232 novos fiscais federais agropecuários. De acordo com superintendente do Mapa no Estado, Marcílio de Souza Magalhães, apenas seis foram designados para Minas Gerais, número que sequer repõe os nove fiscais que se aposentaram ou faleceram neste ano na unidade.

As informações são do Canal Rural, resumidas e adaptadas pela Equipe MilkPoint Brasil.
QUER ACESSAR O CONTEÚDO? É GRATUITO!

Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!

Ícone para ver comentários 9
Ícone para curtir artigo 0

Publicado por:

Foto MilkPoint

MilkPoint

O MilkPoint é maior portal sobre mercado lácteo do Brasil. Especialista em informações do agronegócio, cadeia leiteira, indústria de laticínios e outros.

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Rafael Diniz
RAFAEL DINIZ

SÃO FRANCISCO XAVIER - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/11/2014

Infelizmente se continuar assim o cenario da qualidade do leite brasileiro, sera dificil competir com a substituicao alimentar. Ou seja na mesa do brasileiro tera de tudo menos leite. O consumidor nao podera adquirir um produto caro de baixa qualidade.
Dalíriam Vieira Nogueira
DALÍRIAM VIEIRA NOGUEIRA

INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA LATICÍNIOS

EM 18/11/2014

Qual poderia ser a forma de melhorar a nossa realidade sem fiscalização.



Infelizmente pouquíssimos possuem consciência de seus atos e  no final quem paga são os consumidores.


Paulo Mauricio B Basto da Silva
PAULO MAURICIO B BASTO DA SILVA

CASTRO - PARANÁ - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 12/11/2014

A cadeia de laticínios no Brasil, do produtor ao cliente é amadora e atrasada. A fiscalização é importante, mas não da maneira que é feita que volto a enfatizar é ultrapassada. O problema da qualidade do leite no Brasil é histórica e vem de mais de 50 anos atrás antes mesmo do RIISPOA. Existe a necessidade de fiscalização, porém existem maneiras mais eficazes sem ter que inchar o quadro do MAPA que tem um orçamento limitado quando avaliamos o custo gasto com os inativos.
Priscila
PRISCILA

CURITIBA - PARANÁ

EM 11/11/2014

Há mais de 800 fiscais do último concurso prontos para serem contratados pelo MAPA, que ocupariam as vagas dos fiscais que se aposentaram nos últimos 6 anos. Só precisa de vontade política, porque existem vagas e recursos financeiros para a contratação.  Enquanto isso, a saúde dos consumidores brasileiros peemanece em risco! Lamentável. Convocação já!
Paulo Mauricio B Basto da Silva
PAULO MAURICIO B BASTO DA SILVA

CASTRO - PARANÁ - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 10/11/2014

Esse modelo de fiscalização é um modelo ultrapassado. Não há necessidade de fiscalização permanente, mas de outro modelo mais abrangente. Se esse tipo funcionasse não haveria tantos problemas. O MAPA tem um orçamento comprometido com pessoal inativo e é alto. O que se precisa é discutir maneiras mais eficazes de fiscalização. Sem falar nos critérios interpretativos que variam de um local para outro.
daniel de souza lenhardt
DANIEL DE SOUZA LENHARDT

XAXIM - SANTA CATARINA - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 10/11/2014

Bom ai esta, se isso fosse na região sul, provavelmente viraria noticia em todos os tele jornais, mais ai pergunto porque a midia televisionavel não trata de mostrar a noticia com proporção igual a todo,...
Lorian Bacci Jeronimo
LORIAN BACCI JERONIMO

POÇOS DE CALDAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 08/11/2014

Qual  a dificuldade de contratação de profissionais pelo Ministerio? Existem no mercado? Se existem começem a tomar atitude.
darlani  porcaro
DARLANI PORCARO

MURIAÉ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/11/2014

Precisamos urgentemente de fiscalizar muito bem o leite que nossos consumidores bebem, pois o que está acontecendo é o mesmo caso da corrupção no Brasil, pois vale a pena, não dá em nada, é lucrativo, e fica por isso mesmo, é vergonhoso.
João Marcos Guimarães
JOÃO MARCOS GUIMARÃES

CARRANCAS - MINAS GERAIS

EM 07/11/2014

Trabalhei em indústrias de laticínios durante 40 anos. Na fiscalização desta área existe  falta de critérios, em alguns laticínios a cobrança existe e não há orientação e em outros isto não acontece.

A fiscalização deveria ser diferenciada para a indústria que só produz queijos. Com leite fraudado com água, soro, conservantes, reconstituintes de densidade , redutores de acidez e resíduos de antibiótico não se faz um bom queijo e a própria indústria se preocupa com estas fraudes; isto pode leva-la à falência. E onde se envasa, produz queijos e  bebidas lácteas este critério de seleção pode ser tão rigorosa e pode até haver conivência,  assim o consumidor pode ser prejudicado.

A fiscalização deveria se preocupar com o que é oferecido ao consumidor, a qualidade deveria ser o diferencial procurado. Muitas vezes se preocupa com o tamanho dos caracteres alfanuméricos da embalagem que contém produto sem qualidade higiênica ou alimentar.
Qual a sua dúvida hoje?