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Leite a pasto e confinamento de gado leiteiro: o que os técnicos nunca dizem

Por Guilherme Alves de Mello Franco
postado em 17/09/2009

1.668 comentários
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Muito temos ouvido e lido sobre os sistemas de produção mais adequados para o Brasil. Todavia, em que pese os suplementos culturais sempre elevados de cada um dos opinadores, tudo não passa, até então, de mero jogo de preferências, sem a certidão precisa da pesquisa séria e descomprometida com os ideais pessoais.

Se certo é que algumas experiências deram certo, em alguns cantos do extenso território nacional, o mesmo não se pode dizer como regra, eis que, tal como o que acontece na vida própria de cada indivíduo, "cada caso é um caso" e, assim, a soma das experiências alheias, por si só, não pode ser tida como verdade imbatível, eis que, diz o adágio popular, "a experiência e a roupa alheias nunca nos servem completamente".

Partindo desta premissa, lidamos com a pecuária de leite desde há muito tempo, vislumbrando, não como técnicos, que não o somos, mas como produtores de leite, que já presenciamos e vivemos quase todas as formas de manejo, variando do leite a pasto até ao confinamento total.

Como todo começo, o leite a pasto é sempre o mais procurado, posto que, por razões óbvias, uma propriedade rural é composta de terras e estas ou são pastos ou são matas. Assim, este é o sistema que consideramos primário, seja qual for o nível financeiro do adotante, o que movimentou, desde os tempos da colônia, o negócio leiteiro pátrio.

Se levássemos em conta, apenas e tão somente, esta facilidade estrutural, estaríamos com os seguidores de Artur Chinelato e adotaríamos esta modalidade de exploração de pecuária leiteira como a ideal. Mas, a verdade é que esta já desgastada prática não é a panacéia anunciada, aliás, entendemos que não ultrapassa à simplicidade de mero placebo, uma solução barata e sem nenhuma outra pretensão do que o nada fazer para evoluir, o manter-se estagnado, com medo de romper às fronteiras do óbvio.

Todavia, as coisas não se nos afiguram assim tão simplistas: o pasto, como um ser vivo, não é tão carecedor de investimentos ao ponto de só abrirmos nossas porteiras e despejarmos nossas reses em seu interior, seguros que o leite que elas produzirão se pagará, de forma automática, no final do mês. É preciso corrigir solos, plantar as cultivares certas, assistência técnica, cercas, roçagem, semeaduras de reposição, manejo adequado, entre tantas outras despesas.

Aí começam as incertezas do sistema, desde o preço das terras, cada vez mais elevado, em face da constante evolução social, que se aglomera nas zonas urbanas, fazendo com que estas migrem seus tentáculos rumo ao campo, com a consequente especulação imobiliária e a supervalorização dos terrenos, o que impede que as grandes extensões - ideais para a viabilidade do modelo - fiquem na posse do produtor, como outrora, no tempo de nossos avós, acontecia.

Em contrapartida, os diversos solos, a extensão continental e os climas variados que são encontrados em nosso País, não nos permitem trabalhar com a necessária segurança, eis que se, no Sul do território nacional, predomina o frio, no Nordeste é o calor acentuado, e, o pasto sofre em ambas as condições, perdendo em qualidade e não mais permitindo que o animal se alimente, exclusivamente, do material que nele se encontra enraizado.

Lado outro, os animais que são de forma mais comum criados, que podemos dividir, de forma simplória, apenas por questões meramente didáticas, em europeus e mestiços, padecem, sem exceções, em ambos os tipos de realidade, já que, se uma vaca holandesa se adapta bem ao frio, uma mestiça sofre com ele, e vice-versa.

Destarte, somente o pasto puro não vai permitir que o animal produza em escala que se torne viável, eis que, estudos recentes, nos conduzem à assertiva de que uma vaca tira de um pasto excelente, sem qualquer suplemento, apenas e tão somente, dez litros de leite/dia, se e, somente se, tiver genética para tanto.

Ocorre que, no Brasil, seja em que região for, há dois períodos distintos: o das chuvas e o da estiagem. No primeiro, o pasto viceja, enverdece, torna-se proteico; no segundo, quase morre. Como não se pode parar de produzir leite, os níveis de produção caem drasticamente, no segundo estágio, inviabilizando o manejo.

Daí, passa-se à suplementação com aditivos (ração) no cocho, o que entendemos que descaracteriza o dito "leite a pasto", eis que passamos, na realidade, a ter um semi-confinamento. Deixa, portanto, de ser tão barato o método de exploração, já que envolve, a partir daí, outros tipos de gasto e de manejo.

Em contrapartida, temos o tão atacado sistema de confinamento, onde o clima e suas variações não têm importância direta, eis que os ambientes controlados, os deixam do lado de fora dos complexos e os animais não sofrem com seus rigores.

Instrumentos como ventiladores, aspersores de vapor e até mesmo, climatizadores de ambiente, fazem com que as temperaturas ideais de produção sejam constantes e o conforto térmico dos animais perene. Assim, aliado ao fato de que, neste sistema, o animal é alimentado de forma correta, com a qualidade e a quantidade de nutrientes necessárias para o fim a que se destina (produção de leite), os resultados são sempre superiores a todos os outros arquétipos de exploração.

Por óbvio, os investimentos iniciais são bem mais salgados que no caso do leite a pasto, mas, passada a fase inicial de implantação, a produção individual e coletiva do rebanho supera às despesas, eis que, no confinamento, as vacas atingem a médias de mais de quarenta litros de leite/dia, bem superiores às do gado em regime único de pastejo.

Impede afirmar, neste comenos, que é mito a anunciada apologia de que o animal a pasto é mais saudável que o confinado, de que o tempo de produção neste é menor que naquele, eis que, como o confinamento é um método de criação controlada, as enfermidades - que, diga-se de passagem, ocorrem em todos os sistemas, indiscriminadamente - são detectadas de imediato e sua erradicação mais segura, porque prematuro o diagnóstico e a longevidade do animal depende de sua composição genética e não da forma de criação.

Um outro ponto, que não pode ser olvidado, é que, apesar dos laticínios sempre adotarem o pagamento melhor pela qualidade do produto, com teores de gordura e proteína sendo considerados, nenhum deles descarta um produtor de mais de mil litros de leite/dia, ainda que seu produto atinja a níveis comuns destes desideratos. Em palavras outras, tem muito maior poder de barganha e de imposição de preço um produtor de mil litros de leite/dia, com teor baixo de gordura e proteína, que um produtor de duzentos litros/dia que possua elevadas taxas destes elementos.

Finalmente, como a produção é elevada, o confinamento permite que o número de animais seja menor, o que reduz os problemas sanitários, pela existência de menos cascos, menos úberes, menos sistemas reprodutivos a serem vitimados por distúrbios, de sorte que é muito melhor lidar com dez animais de quarenta litros cada do que com quarenta de dez litros.

Entretanto, cada proprietário tem que ter a consciência de suas limitações físicas e financeiras, antes de adotar qualquer metodologia de exploração, já que as realidades são individuais, neste caso, e cada um sabe aonde e como pode colocar as suas pernas.

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Comentários

Clemente da Silva

Campinas - São Paulo - Aposentado
postado em 17/09/2009

Gostei muito mais do bom português e da didática aplicada ao texto pelo Sr, Guilherme Alves de Mello Franco, do que pela maneira com a qual ele coloca a situação. Eu só não concordo que algum técnio que se preze hoje em dia, cometa a idiotice de dizer que gado de leite mantido a pasto seja mais rentável, ou, que sequer seja viável de alguma maneira. É de conhecimento público e desde muito tempo que uma vaca, para produzir um litro de leite, necessita de o equivqlente a 480 litros de sangue circulando em seu sistema mamário. Esta mesma vaca, para conseguir em pastagem nativa ou artificial de boa qualidade, ingerir 35 quilos de volumoso, necessita de tres a quatro horas de caminhada dispendendo quase toda a energia acumulada anteriormente, para na melhor das hipóteses, produzir 30% de seu real potencial, independente de raça, ou força genética.

O assunto levantado por Sr. Guilherme me tirou de meu descanso de quase um ano e meio e me ferveu o sangue nas veias novamente, já que nos meus mais de trinta anos passados a serviço da genética de gado leiteiro, sempre debati a questão da produtividade. Infelizmente, em pleno século 21 e com tantos testemunhos, o nosso produtor de leite em grande parte do Brasil, ainda é um extrativista contumas e irreverente. Mesmo nos melhores centros de produção e com os melhores dos climas, eu encontrei produtores tirando leite como a 50 anos atrás. Alguns eu consegui convencer a modernizar seus métodos e até a diversificar as propriedades com a racionalização do rebanho e espaço; outros, entretanto, continuam capengando no barro ou na poeira até hoje. Vou definir em poucas palavras o que eu sempre preconizei em termos de produção leiteira: Vaca é uma máquina de transformação, portando, ela devolve tudo que se coloca a sua disposição, em leite no balde. Agora, se ela tiver que ir buscar seu próprio alimento... Bem; aí meu amigo... contente-se com o que sobrar.

O Sr Guilherme define bem a situação quando diz que é melhor cuidar de dez vacas de 40 litros do que de quarenta de dez litros. Isso é incontestável mas há regiões onde não se pode ter vacas de 40 litros em função de clima, já que raças puras sofrem muito estresse em regiões tropicais próximas ao equador,ou litorâneas por isso, há que se buscar o meio termo mas sempre pensando em explorar o máximo do potencial genético de que dispomos e só se consegue, com trabalho, boa assistência técnica e alimentos de boa qualidade no cocho e não lá no meio da invernada. Para isso, não são necessários montanhas de dinheiro, como muitos pensam; há que se usar de criatividade e ir melhorando a propriedade a medida que seus ganhos apareçam.

Parabéns pelo texto, Sr. Guilherme Alves de Mello Franco.

Abraços,
Clemente.

Guilherme Alves de Mello Franco

Juiz de Fora - Minas Gerais - Produção de leite (de vaca)
postado em 17/09/2009

Prezado Clemente: Quando iniciei a ler sua intervenção, pensei que você não tinha assimilado o meu entendimento. Mas, após enveredar pelo seu texto, senti que, ao contrário, você concordava com meu ponto de vista. Existe uma corrente bastante aceita, infelizmente, que faz apologia do "leite a pasto" como solução para a pecuária leiteira pátria, liderada por Artur Chinelato, que é a ideologia do "Programa Balde Cheio". Sempre discordei das colocações daqueles técnicos, pelos motivos que me conduziram a escrever este artigo.

Somente divirjo de você quando diz que "há regiões onde não se pode ter vacas de 40 litros em função de clima", eis que, conforme defendi no artigo em comento, o fator climático não interfere mais no sistema de confinamento, já que suas variações, por força da tecnologia empregada (ventiladores, aspersores de vapor de água e, até mesmo, climatizadores de ambiente) são deixadas do lado de fora. Destarte, pouco importa se lá fora o tempo é chuvoso, cai neve, o sol está escaldante: no interior do complexo, a temperatura é constante, dentro dos ideais estabelecidos cientificamente para a produção elevada de leite, de conforto térmico e físico dos animais. Aliás, se o clima fosse decisivo, Israel não teria Gado Holandês de altíssimo nível, criado no deserto, não é mesmo?

Obrigado pela sua intervenção e sinto-me realizado por ter tirado você "de seu descanso de quase um ano e meio" para ouvir o que tem a dizer, tão importante para o cenário de debate em que suas palavras se inseriram.

Um abraço,

GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG

DURVAL MIRANDA JUNIOR

Gurupi - Tocantins - Produção de leite (de vaca)
postado em 17/09/2009

Acredito que nenhum dos dois, nem o autor do texto nem seu primeiro comentarista, estão corretos. Quanto ao comentário, seria bastante prudente que seu autor revisse os números alí colocados, principalmente quantos aos 480 litros de sangue circulando no sistema mamário e as 3 ou 4 horas de caminhada para ingerir os 35 kg. de volumoso. São números absurdos.

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