A expansão da fronteira do leite no nordeste semiárido: um voo de galinha?!
Espaço aberto: A insustentabilidade da cadeia produtiva do leite do Nordeste - concentrada na sua região semiárida - evidenciada na atual crise climática e exacerbada pela estratosférica elevação dos preços do farelo de soja e do milho, poderá evoluir para uma situação de colapso, se confirmada a repetição da seca com a intensidade ocorrida em 2011/12. Por Orlando Monteiro de Carvalho Filho
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Desnecessário e fastidioso lembrar os impactos já fartamente repercutidos na mídia, bem como discorrer sobre o fenômeno antigo e recorrente das secas nordestinas, sempre tratadas com medidas governamentais intempestivas e paliativas, com eventuais efeitos mitigadores, porém pouco estruturantes. Até porque estruturar, para o longo prazo, gera menos dividendos políticos e também porque, uma vez estruturados, os produtores sertanejos perdem direitos de reinvindicação das “esmolas governamentais”, contidas nas múltiplas bolsas disponibilizadas sem qualquer condicionalidade minimamente virtuosa. Afinal, por conta dessas benesses o sertanejo euclidiano, já não é mais o mesmo, pois “ dar esmola a um homem são, ou mata de vergonha ou vicia o cidadão”1
Tomando por base de referência o Alto Sertão Sergipano – território semiárido dos mais povoados do planeta, com alto risco de desertificação segundo o MMA, onde são (ou eram) produzidos 52% do leite em Sergipe, 5º lugar no ranking da região nordeste que, por sua vez, cresceu 83% no período 2000-2011 – observam-se, já há algum tempo, alguns sinais indicadores da insustentabilidade desse crescimento.
Nessa microrregião, a atividade leiteira está presente em 87% dos estabelecimentos rurais, 90% dos quais minifúndios produzindo, de forma pulverizada, pequenos volumes de leite de baixa qualidade, obtidos a custos elevados, por conta da demasiada dependência de compras externas para a alimentação dos rebanhos. Muito mais que uma atividade economicamente rentável, a pequena produção de leite cumpre papel basicamente social, constituindo-se em uma das poucas possibilidades de inserção no mercado e de geração de renda para centenas de milhares de pequenos produtores familiares.
A despeito da existência de estoque de tecnologias sustentáveis (Sistema Glória), desenvolvido pela Embrapa Semiárido, ao longo de décadas de pesquisa, para produtores familiares de leite, verifica-se, no semiárido sergipano, a destruição de pastagens perenes e a derrubada do remanescente arbóreo nos subsistemas cultivados – estorvo para a operacionalidade da mecanização pesada do monocultivo do milho, recentemente intensificado na região - , além do pouco que resta da vegetação nativa (caatinga).
Nesse contexto, a recente expansão do milho nessa região, tem sido considerada um salto de modernidade, sobretudo pelos altos ganhos de produtividade alcançados, comparáveis aos de regiões climaticamente mais favorecidas, que o transformaram na principal cultura anual do Estado. Essa “modernização tecnológica” vem ocorrendo em acelerado processo de simplificação dos sistemas produtivos, abandonando-se a diversidade dos cultivos consorciados e o uso da tração animal, que restringia a área cultivada a cada ano e que impunha certa rotação de terras, pela gradagem ladeira abaixo, aumentando excessivamente a movimentação do/e sobre o solo, com exacerbação dos processos erosivos. Incorporou-se o uso massivo e descontrolado de herbicidas que, ao final da safra, expõe o solo nu, sem estoque de carbono e biologicamente empobrecido, à insolação intensa nos longos períodos de estiagem que caracterizam a região.
Nesse processo de indução institucional de desertificação, os novos produtores de milho, inclusos os familiares, tornam-se meros contratantes de um pacote tecnológico terceirizado, com uso intensivo de agroquímicos e serviços mecanizados subsidiados; financiado e segurado por instituições oficiais de crédito, por sua vez chanceladas por um zoneamento agroclimático equivocado e politicamente pressionado.
Além de não se levar em conta a fragilidade dos solos predominantes na região – em geral rasos, pedregosos e pobres em matéria orgânica – esqueceu-se que o próprio clima semiárido, tido pelo climatologista Thornthwaite como dos mais difíceis do planeta, não porque chova pouco, mas sobretudo por sua irregularidade pluviométrica no tempo e no espaço, ora comportando-se como clima subúmido, como nos últimos anos, ora comportando-se como clima árido e até desértico – como no caso presente – inconsistência que dificulta o planejamento das atividades agropecuárias, em que o componente errático não permite a elaboração de padrões e cronogramas confiáveis.
De outro lado, o cultivo da palma forrageira, que garante a segurança alimentar e a redução do dessedentamento dos rebanhos nos períodos secos, porém é mão-de-obra intensivo, não terceirizável e de retornos não imediatos – teve sua área marcantemente reduzida nos últimos anos, processo acelerado por problemas fitossanitários causados pela desastrada introdução da cochonilha do carmim, o que agravou particularmente a situação dos produtores pernambucanos.
Evidente, portanto, que a expansão da fronteira do leite no Nordeste semiárido, com seu alto risco climático, excessivamente baseada na cultura do milho para alimentação dos rebanhos e na total dependência de compras externas de concentrados proteicos, sem a segurança alimentar assegurada pela palma forrageira e, obviamente, sem infraestrutura hídrica permanente, não se configura como minimamente sustentável.
É duro admitir a possibilidade de que o notável crescimento de mais de duas décadas do complexo agroindustrial do leite estabelecido nessa região – que chegou a ser considerada a nova fronteira do leite no Brasil –, com instalação crescente de grandes plantas de laticínios, gerando centenas de milhares de postos de trabalho, em uma região historicamente carente e de baixa capacidade de reconversão econômica, possa colapsar, não por falta de soluções tecnológicas, mas por falta de vontade política de seus governantes, cujos horizontes não ultrapassam os quatro anos de seus mandatos eletivos.
Diante desse quadro, só resta aos pequenos produtores de leite do sertão nordestino rezar, rogando a Deus que se apiede de seus pobres animais, estes sim, indefesas vítimas da imprevidência, da irresponsabilidade e da incompetência humanas.
1: Parte da letra da música Vozes da Seca de Zé Dantas, cantada por Luiz Gonzaga
Material escrito por:
Orlando Monteiro de Carvalho Filho
Engenheiro Agrônomo, Pesquisador Aponsentado da Embrapa
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ARACAJU - SERGIPE
EM 19/02/2013
Quando escreví este texto, o fiz com o objetivo de compartilhar uma certa angústia quanto ao desinteresse político para os históricos ciclos plurinanuais de progresso e retrocesso do nosso semiárido nordestino. Penso que isso foi atingido.
Muto obrigado pelos comentários
Orlando Monteiro
SERRA TALHADA - PERNAMBUCO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 19/02/2013
Quero reeinterar os votos dedicados ao Dr.Orlando , que ainda assim é pouco pelo que êle tanto nos representa nesta caminhada e na luta incansável em busca dos bons frutos a alcançarmos . Talvez alguns de nós aqui presentes nesta comunicação não venhamos a alcançar o que almejamos . Contudo , é maravilhoso diante de DEUS a nossa atitude encorajadora neste objetivo . É como um homem de noventa anos de idade decidir plantar um pé de árvore que só vai frutificar após dez anos de vida, porém pensou ele: "EU TALVEZ NÃO VENHA A COMER OS FRUTOS DESTA ARVORE, MAS MEUS FILHOS E NETOS O COMERÃO POR MUITOS ANOS A FRENTE. "É com essa idéia que me sinto hoje e até entendo que os nossos sucessores irão precisar muito mais do que nós tivemos . É neles que devemos pensar e agirmos de acordo com o que disse JESUS: O segundo maior mandamento é - AMAI-VOS UNS AOS OUTROS COMO EU VOS AMEI ou ainda AMAI AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO! ESTA É A LEI DE DEUS. Avante povo Nordestino ; Avante povo brasileiro; avante gestores públicos ; e avante Dr. Orlando Monteiro e seus discípulos , não desfaleçam e nem se calem diante de tanta improbidade e necessidade de mudanças construtivas de bons lucros e frutos para o povo como nação carente ,porém potente. Abraços da parte de nosso Deus Criador e de Jesus nosso salvador.
José Carlos 19.02.2013

PORTO DA FOLHA - SERGIPE - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 18/02/2013
SERRA TALHADA - PERNAMBUCO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 16/02/2013
A Agricultura de Precisão, que o senhor se refere, é exatamente aquele ingrediente que tem faltado (esquecido) no nosso semiárido; é o intercambio que falta entre as regiões brasileiras para interagirem como um todo em um só País de berço esplendido. A aplicação desse sistema depende ,principalmente, das Secretarias de Agricultura dos Municípios, pelo poder que lhes foi concedido através da Constituição Federal Brasileira. Entretanto, infelizmente os governantes não se sentem compensados em obedece-la ; pois é mais vantajoso receber verbas para combater situações calamitosas em suas regiões do que torná-las produtivas. É pesaroso afirmar que: A INDÚSTRIA DA SECA NO NORDESTE VEM DESDE A ÉPOCA DE DOM PEDRO, mudam-se regimes, partidos, governantes e o problema é o mesmo "POLÍTICO" . Se um dia isto for mudado poucos empobrecerão ,porém muitos terão que verdadeiramente trabalhar para alcançar vitória.
Abraço,
José Carlos.

IRAQUARA - BAHIA - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 11/02/2013
Não basta se fazer a Agricultura Sustentável, tem de ser introduzida a AGRICULTURA DE PRECISÃO amplamente praticada no sul e esquecida na região semiárida que mais requer a ampliação dos resultados dos investimentos feitos.
SERRA TALHADA - PERNAMBUCO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 10/02/2013
Abraço à Todos e que Deus nos dê sempre força espiritual e moral em prol da física e do nosso bem estar extensivo aos nossos precedentes sucessores (filhos....).
SERRA TALHADA - PERNAMBUCO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 10/02/2013
São José do Belmonte-Pernambuco- Técnico em Zootecnia e Agroindústria-Formado pelo Centro Tecnológico do Pajeú-CTP. em Serra Talhada-Pernambuco.
Prezados colégas leitores e participantes desta conceituada rede informativa !
O parecer de cada um de vós é um grito de socorro em prol da vida agrícola e pecuária que pulsa lentamente através das veias deste grande coração que é o SERTÃO NORDESTINO ( SEMIÁRIDO BRASILEIRO) e porquê não relembrar ao Brasil brasileiro que ,apesar de tudo que nos tentam fazer sucumbir , SOMOS O BERÇO DA CIVILIZAÇÃO DO BRASIL. É uma pena que fomos descobertos - com a intenção de sermos fornecedores de produtos primários para as necessidades daqueles que nos descobriram - e não colonizados como nação produtora do seu sustento e exportadora da produção excedente; é também uma pena que além de nos descobrirem através de saques da riqueza de fauna , flóra e o ouro no passado, continuamos a ser descobertos até hoje pela voraz ganancia da satisfação pessoal de alguns que se passam por empresas do ramo da AGRONEGÓCIO da monocultura da cana de açucar, da pecuária, da soja e outros mais no ramo de extração legal da fauna e flóra brasileira ; e tudo com o aval do governo brasileiro em detrimento de riqueza economica de muito poucos que por sua vêz financiam não só o progresso político como a inibição do crescimento dos pequenos intitulados de AGRICULTORES FAMILIARES, brasileiros cujo em suas costas foi depositado a responsabilidade de produzir a alimentação vegetal e animal para o consumo do país com muito apoio escrito em leis e propagandas caras feitas pelos órgão governamentais (enganosas para dizer ao povo estrangeiro que investe no Brasil que faz o social) .Na verdade o que precisamos é tão somente que tenham CIVISMO -que nada mais é que ter dedicação ao interesse público , nacional é claro; isto sim é patriotismo e grande sinal de ÓRDEM E PROGRESSO SUSTENTÁVEL no Brasil como um todo e de acordo com a aptidão de cada região considerando suas diferenças peculiar e corrigindo suas deficiências. Quando isto for enxergado e aceito pelos governantes ai então cada região será próspera o suficiente para juntas abastecerem o resto do planeta com toda a sorte de riqueza de que nosso Brasil ainda dispõe,apesar de tanto que vem sendo ainda descoberto (roubado , desperdiçado , pouco utilizado em sua máxima capacidade )que a terra bem utilizada e preservada poderá suprir com a natureza sorrindo e o povo alegre e não chorando e nem mendigando por bolsas familia e nem seguro safra e outras esmolas mais. Estes benefícios só trarão aumento de pobreza para os pequenos e grandes desvios de verbas pelos políticos além de aumentar o capital nas mãos de poucos ricos que financiam o cíclo vicioso das campanhas dos políticos em algumas esféras. Precisamos sim é que órgãos como: Embrapa, IPA, Adagro e demais façam seu trabalho direcionado aos pequenos também. Glória DEUS.
PARNAÍBA - PIAUÍ
EM 06/02/2013

ARACAJU - SERGIPE
EM 04/02/2013
Obrigado mais uma vez pelos comentários.
Att.
Orlando Monteiro

SÃO SEBASTIÃO DO PARAÍSO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 01/02/2013
Na verdade o fardo do pequeno produtor situado em regiões historicamente afetadas pela seca,entre outras limitações já citadas é muito grande, posso comparar como um produtor do pampa gaúcho querendo produzir café em suas terras??
Só fazem porque precisam!!
Com irrigação tudo muda, sabemos! Sabemos também que não será para todos!
Aos outros o fardo é muito pesado!
Continue os ajudando!
Abç.
Adalton.
FORTALEZA - CEARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 01/02/2013

ARACAJU - SERGIPE
EM 31/01/2013
Nada a discordar do comentário complementar ao qual agrego outro.
Todas as ações governamentais propostas são pertinentes e relevantes só que talvez um tanto quanto utópicas, considerando-se a baixa capacidade de governança, no caso de Sergipe por exemplo.
De novo, tomando por base o caso sergipano em que a produção de leite desse Estado experimentou um crescimento de 242 % na última década, basicamente por conta de aumentos de produtividade obtidos com a especialização zootécnica dos rebanhos com absorção da raça holandesa (com perda de rusticidade), chegamos a ultrapassar o nosso vizinho estado de Alagoas, de onde inclusive importamos muita genética animal e o cultivo da palma forrageira que, como já me referi, reduz o impacto da atual grande seca.
Esse crescimento se deu de forma endógena, sem qualquer programa específico de apoio ao esforço de milhares de pequenos produtores e ao crescimento, em paralelo, de um setor queijeiro artesanal informal, que há cerca de 20 anos atrás chegou a processar 70% do leite produzido no sertão sergipano) e que hoje ainda coleta 40% da atual produção. Desde então duas grandes plantas industriais com capacidade de 150 mil litros instalaram-se nessa região, além de outras tantas de porte médio e, mais recentemente, uma outra com capacidade instalada de 250 mil, que gerou uma demanda adicional correspondente.
Temos hoje um mercado comprador de leite, diversificado, com pequenos e grandes processadores, cuja demanda elevou os preços a acima do patamar de R$1,00 e com a incorporação de sistema de pagamento por qualidade. Infelizmente falta-nos quadros qualificados para assistência técnica especializada e fiscalização sanitária em todos os níveis: federal, estadual e municipal.
Para o setor queijeiro - constituído ainda por uma centena de fabriquetas de queijo de coalho integrados à criação de suínos com aproveitamento do soro - está sendo proposto um programa de apoio, com modelos de plantas, compatíveis com o tamanho econômico dos pequenos queijeiros, e já devidamente aprovadas pelo SIE e SIF.
Quanto aos pequenos produtores está sendo proposta a recuperação dos rebanhos a partir da introdução de genética apropriada (girolando F1) e recuperação da base forrageira com a palma (NDT) e a gliricídia (PB e fibra), fundamentalmente buscando reduzir a vulnerabilidade dos sistemas produtivos. Mas há muito mais a ser feito.
Atenciosamente,
Orlando Monteiro

ARACAJU - SERGIPE
EM 31/01/2013
Obrigado pelo comentário que enriquece o debate.
É obvio que a irrigação no semiarido produz milagres, ( ...em se irrigando tudo dá!), haja vista que recentemente o cacau, maçã, pera, caqui, etc, etc, além dos já tradicionais cultivos irrigados de exportação, estão sendo viabilizados pela pesquisa da Embrapa.
Penso que a grande questão quanto ao leite produzido intensivamente sob sistemas irrigados é ser competitivo com estas culturas, uma vez que os custos, principalmente de energia elétrica ainda estão caros.
Entretanto quando solicitei a publicação do texto comentado, quis me ater mais ao grande espaço semiárido dependente de chuvas, em que a água é direcionada essencialmente para uso humano e animal e que representa mais de 90% desse território, que abriga centenas de milhares de pequenos produtores que vivem com mínima dignidade com suas 10 vaquinhas. Em suas pequenas glebas de terra nehuma outra atividade lhes permite fazer a feira, apenas complementam a pouca renda.
Atenciosamente,
Orlando Monteiro

ARACAJU - SERGIPE
EM 30/01/2013
Obrigado pelo seu comentário que vem agregar informações relevantes ao texto. De fato, a caatinga é o patinho feio dos biomas brasileiros, só lembrada em secas catastróficas, quando mostra seu aspecto trágico e agressivo, dramatizado com carcaças decompostas. Ainda muito pouco estudada, como mencionado, possui entre outras potencialidades, uma capacidade forrageira expressiva, que permitiu o histórico processo de "pecuarização" do semiárido nordestino.
Embora esta "pecuarização" tenha determinado a ocupação dos espaços sertanejos, ela ainda é associada ao latifúndio e a seus males sociais. Pouco sabem, os que assim pensam, que a "leiterização" do rebanho bovino, verificado nas últimas décadas, resultou de um processo natural de intensificação zootécnica ajustado à estrutura agrária da região, no qual vaca leiteira passa a cumprir a função de reserva de valor, de fluxo de caixa semanal (dinheiro da feira), de bem posicional, com liquidez elevada, além de ser o principal motivador de fixação do jovem sertanejo no meio rural, sem levar em conta outras razões menos objetivas, em que a "Lavandeira", a "Formosa", a "Flor do Campo" adquirem identidades e outros significados no âmbito da família.
Acresço ainda que sou sertanejo por opção, tendo escolhido estudar - 25 anos como pesquisador da Embrapa Semiárido, que me permitiu desenvolver sistema de base agroecológica contido em /sistemasdeproducao.cnptia.embrapa.br/ - e conviver, como produtor de leite neste ambiente, onde reproduzo meu discurso técnico por 30 anos.
Atenciosamente,
Orlando Monteiro

SALVADOR - BAHIA - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 30/01/2013
Precisamos evoluir em: sanidade animal, vigilância sanitária, custo de produção, pesquisa, assistência técnica e extensão, políticas de crédito, infraestrutura e logística, tributação, legislação, fiscalização, proteção de mercado e estratégias para promoção comercial, como forma de implantar uma nova política para o crescimento do setor leiteiro no Brasil, que envolve 1,3 milhão de produtores, que gera 32 bilhões de litros de leite por ano. Emprega 4 milhões e movimenta R$ 50 bilhões por ano.
Ora meu caríssimo Orlando Carvalho é possível e é viável produzir leite a pasto no semi-árido desde que adotemos tecnologia apropriada para a caatinga. A atividade leiteira é a maior geradora de emprego no semi-árido. Para cada 25 litros de leite produzido na caatinga é gerado um salário mínimo, se a produção de leite a pasto na caatinga, como um todo, não pode concorrer com a produtividade de outras regiões do país, mas podemos produzir emprego e renda digna para o produtor do sertão.
Infelizmente 80% do investimento feito por nós especialistas na atividade só geram 20% de resultados no aumento da produção de leite Senador Girão, no entanto toda vez que o preço é atrativo para o produtor a atividade cresce, gera investimento na assistência técnica, no melhoramento e assim vai.
Precisamos de novas indústrias para aumentar a competitividade no setor láteo, precisamos de novas plantas de concentração e secagem de leite e soro, precisamos inserir no mercado fabricos artesanais, precisamos ser justos e remunerar adequadamente o leite.
A Bahia ocupa a sétima posição de produção de leite no Brasil, com produção 1.352 bilhão de litros/ano. Quanto ao número de vacas ordenhadas, a Bahia ocupa o 3º lugar no ranking nacional, perdendo apenas para Minas Gerais e Goiás. Com 1.796.204 vacas ordenhadas. Estamos crescendo através da inserção de novos laticínios com certificação no processo produtivo.
Precisamos fazer valer as ações da última conferência nacional do leite em Brasília.
AÇÕES PRIORITÁRIAS DA POLÍTICA NACIONAL DO LEITE
Garantir a defesa comercial do mercado lácteo brasileiro, por meio da renovação do acordo de cotas e preços do leite em pó argentino, incluindo os queijos e o soro de leite; estabelecimento do acordo de cotas e preços para o leite em pó, queijos e soro de leite provenientes do Uruguai; manutenção dos direitos antidumping sobre o leite em pó oriundo da União Européia e da Nova Zelândia e consolidação da TEC em 28%.
Garantir a implementação da IN 62/2011, priorizando questões de capacitação, pagamento por qualidade, fiscalização e eficiência dos laboratórios da RBQL.
Assegurar recursos financeiros aos municípios a fim de viabilizar as vias de escoamento da produção; melhorar o abastecimento e a distribuição de energia elétrica e internet banda larga, assegurando oferta constante e regular para produtores e indústrias.
Assegurar recursos financeiros para a execução dos Programas Sanitários e estruturação de serviços municipais

FORTALEZA - CEARÁ - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 30/01/2013
Nos perimetros irrigados do Ceará , Existe muitos hectares parados ; Usados especulativamente . Então temos a terra, a agua , a Energia , homens querendo trabalhar , animais famintos, região precisando de renda e A CULPA É DO CLIMA , É DA SECA ????????- P O R Q U E ? .

ARACAJU - SERGIPE
EM 30/01/2013
Agradecendo o comentário, gostaria de dizer que com ele concordo, acrescentando apenas que, a meu ver, as compensações sociais aos produtores familiares poderiam ser concedidas de forma minimamente virtuosa e condicionadas a algum tipo de retorno para a sociedade, como a prestação de serviços ambientais, por exemplo. Na comunidade econômica europeia, são concedidos pagamentos diretos pela implementação das Medidas Agro Ambientais, propostas na Política Agrícola Comum. como compensação de eventuais perdas de renda na redução dos impactos de longo prazo provocados pelo sobre uso dos recursos naturais que possam levar à degradação dos solos, contaminação de aquíferos, etc., da qual se beneficia toda a sociedade.
A prestação serviços ambientais deverá ser, ao lado da produção de alimentos, de fibras e energia limpa, mais um dos relevantes papeis prestados pelos agricultores e, para tanto, deve ser devidamente remunerada pela sociedade urbana que, infelizmente, tem do mundo rural e do setor "primário" uma percepção que poderia ser considerada diminutiva. A propósito, em minha propriedade no sertão sergipano, regenerei a caatinga em 30% da área total, pelo que recebi somente elogios em pagamento do custo de oportunidade pelo uso da terra.
Atenciosamente,
Orlando Monteiro

MATELÂNDIA - PARANÁ - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 30/01/2013
As bolsas têm ajudado os que realmente necessitam, e sem elas, talvez o êxodo rural seja imenso, e aí, não sei qual seria o futuro REAL da produção agropecuária naquela região.

ARACAJU - SERGIPE
EM 29/01/2013
Agradecendo pelos comentários de todos, gostaria de mencionar que, de fato, a irrigação, para a produção intensiva de forragens, poderá e irá contribuir para a recuperação da produção de leite que deverá se expandir às margens do São Francisco, aí incluída o perímetro irrigado em Canindé como comentado. Além disso, outras bacias leiteiras deverão se expandir para fora do território semiárido, notadamente na região citrícola sergipana, como opção econômica para a crise da citricultura, já que hoje há uma demanda adicional de 300 mil litros diários (sem considerar as perdas com a seca, que deverá estimular a entrada de novos produtores na cadeia produtiva).
Não só a palma, que minimiza os impactos da seca no vizinho estado da Alagoas, tradicional detentor da maior área plantada e que ainda socorreu produtores pernambucanos, mas outras culturas forrageiras como as leguminosas arbóreas leucena e a gliricidia - com que trabalhamos por décadas como pesquisador da Embrapa, procurando soluções tecnológicas para a sustentabilidade da pequena produção de leite no semiárido, em condições de sequeiro - que permitem no mínimo reduzir à metade o uso de concentrados proteicos, além de corrigir com fibra de boa qualidade a deficiência da palma neste componente, sem esquecer de outros de seus múltiplos usos como fontes de nitrogênio para o solo.
Quanto à infraestrutura hídrica, ao invés de obras monumentais, de alto custo de manutenção, como os canais de transposição, que se aumente da capilaridade das adutoras, disponibilizando água bruta, mais barata e com menor gasto quando associada ao fornecimento de palma aos animais, já que o consumo de água de uma vaca em lactação chega a triplicar quando se troca a palma como volumoso de base pelo rolão de milho, por exemplo.
Pois é meus caros amigos Danilo e Marcelo, por quantas gerações nós nordestinos aguentaremos secas como essas. Os gaúchos por muito menos mobilizam muito mais. Será que somos tão desimportantes assim.
Cordialmente,
Orlando Monteiro

SALVADOR - BAHIA - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 29/01/2013
O Semi-Árido nordestino é o semi-árido mais populoso do planeta. Cerca de 27 milhões de pessoas vivem atualmente na área original da caatinga, sendo que 80% de seus ecossistemas originais já foram alterados, principalmente por meio de desmatamentos e queimadas, em um processo de ocupação que começou nos tempos da colonização. Grande parte da população que vive em área de caatinga é carente e precisa dos recursos da sua biodiversidade para sobreviver.
Fitjofre Kapra, físico inglês, defende a existência dois tipos de ecologia. A primeira denominada de Ecologia Natural é a ciência que estuda as relações entre os seres vivos e o meio em que habitam. Por este prisma a presença do ser humano não interfere no equilíbrio dinâmico das áreas naturais. A segunda é a Ecologia Humana ou Antropocêntrica. É aquela voltada para estudar as relações do homem com o meio em que habita.
Sob esses pontos de vista foram disseminados os conceitos de Sustentabilidade Ambiental, gerando a busca por tecnologias mais limpas e ações menos impactantes no processo produtivo, bem como o de responsabilidade social, que impunha ao empreendedor o compromisso com a inclusão social daquelas populações onde estavam implantadas suas organizações.
Assim, estabeleceu-se o conceito de Desenvolvimento Sustentável, baseado em três premissas básicas: Viabilidade Econômica, Responsabilidade Social e Equilíbrio Ambiental.
Não podemos esquecer que a matriz energética da região é fortemente dependente da vegetação nativa da Caatinga, fator este que, aliado ao desmatamento ilegal e à escassez de iniciativas de manejo sustentável, tem intensificado a degradação do bioma.
A caatinga é o bioma menos conhecido do país.
O Bioma Caatinga, o único exclusivamente brasileiro, segundo o IBGE, ocupa cerca de 11% do país, possui uma área aproximada de 826.411 km² e se estende por todo o Estado do Ceará (100%) por mais da metade da Bahia (54%), da Paraíba ocupa (92%), de Pernambuco (83%), do Piauí (63%) e do Rio Grande do Norte (95%), de Alagoas (48%) e Sergipe (49%), além de pequenas porções de Minas Gerais (2%) e do Maranhão (1%).
A pecuária tem sido a mais importante atividade econômica no processo de ocupação do bioma caatinga, além de ser a única que apresenta eficiência, ocupando quase a totalidade do bioma, a abertura desses pólos de desenvolvimento propiciaram as condições favoráveis para a ocupação humana nesta região. As pastagens cultivadas representam o principal suporte alimentar para os rebanhos, as quais, após a exploração da madeira e a queima da vegetação, apresentam maior produtividade nos primeiros anos, como conseqüência da incorporação ao solo de grandes quantidades de nutrientes contidos na biomassa incinerada. No entanto, com o decorrer do tempo, da utilização das pastagens, observa-se uma gradativa redução em sua produtividade, com reflexos altamente significativos e negativos no desempenho zootécnico dos rebanhos.