A cerveja artesanal, o leite e uma vontade besta de não sei o quê
Nessa segunda-feira pós-Natal e pré-Reveillon, entrei no mercado para comprar uma coisinha ou outra. Ao passar pela gôndola das cervejas meu olhar foi atraído pelo rótulo colorido de uma garrafa. Era uma cerveja preta, dessas novas e moderninhas, chamadas de artesanais. Por acaso, tinha provado a dita cuja no almoço de Natal, levado pela curiosidade em saber o que era uma cerveja "artesanal" [...]
Publicado em: - Atualizado em: - 2 minutos de leitura
Bom, digamos que ele, o preço, ficou na minha cabeça.
Cheguei em casa, o dia transcorreu à espera da chuva que até o momento que escrevo não veio, uma vaca pariu alguns dias antes do previsto e corremos para cuidar dela e da cria, mais um macho... – ô ano mais besta, sô! – e com mais uma coisa e outra o dia chegou ao fim. Enquanto tomava banho, prazer enorme em risco de desaparecer, eu me lembrei da cerveja e do seu preço. Peguei a calculadora e fiz umas continhas.
Hoje, por coincidência, o laticínio informou que o leite entregue nesse dezembro sofrerá novo corte no preço de compra, agora de apenas cinco centavos. Mais os dez centavos cortados no mês passado, novembro, já são quinze.
Passamos o ano inteiro, até outubro, recebendo o mesmo preço pelo leite que foi pago nas águas de 2013. Nem preciso dizer que nesses doze meses um monte de coisas subiu um monte de números, né? Pois é...
Agora, com o corte dos dez centavos e mais cinco, o preço que receberei pelo leite entregue nesse dezembro regrediu para o valor pago nas águas de 2012. Regredimos três anos, simplesmente.
Paciência, é o mercado, jogado para baixo por uma administração cujo único e exclusivo mérito parece ser a capacidade de não enxergar o que é, provavelmente, como já diz a imprensa em países do primeiro mundo, o maior crime financeiro da história. Voltemos, porém, à nossa vaca fria, digo, à nossa cerveja artesanal.
Fiz as contas, como disse. O preço da cerveja era de R$ 14,90. Para comprar uma garrafa com 0,6 litro de cerveja “artesanal”, preciso entregar 17,95 litros de leite para o laticínio do qual sou fornecedor.Arredondemos um tiquinho: 18 litros. Que pagos a R$ 0,83 por litro, trarão uma receita de R$ 14,94 para ser exato.
O problema, porém, é que cada um desses litros de leite tem um custo. Descontado esse pequeno “detalhe”, estimo, hoje, que com um pouco de sorte eu consiga um ganho de R$ 0,04 por litro de leite entregue. Não tenho certeza se consigo ganhar tudo isso, hoje, mas façamos de conta que sim.
Como cerveja é algo claramente supérfluo, apesar do que dizem em contrário muitos milhões de ávidos consumidores desse líquido amargo, o correto seria eu comprar uma garrafa da artesanal apenas com o dinheiro que eu ganho, efetivamente, em cada litro de leite. Nesse caso, e que é a conta que devemos fazer para muitas coisas e não só a cervejinha, eu precisaria entregar ao laticínio a bagatela de 372,5 litros de leite. 600 ml de cerveja = 372,5 l de leite Ou, para uniformizarmos tudo: 1 litro da “artesanal” equivale ao produto da venda de 620,83 litros de leite.
Paro por aqui. Perguntas, respostas, conclusões... Deixo a critério de cada um.
E fico com uma vontade besta de fazer sei lá o quê...
Ainda é tempo, pelo menos, de desejar a todos um feliz 2015 nos planos pessoal e familiar. Num plano maior, espero que o país consiga começar a se recuperar e que nosso setor consiga passar por mais esse ano de provação com o mínimo de perdas.
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Material escrito por:
Emerson Gonçalves
Produtor de leite em Santa Rita do Passa Quatro em tempo integral, principalmente nos finais de semana. Colunista do portal GloboEsporte, autor do Olhar Crônico Esportivo.
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BAMBUÍ - MINAS GERAIS
EM 16/01/2015
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 13/01/2015
Esses dias estive visitando umas propriedades no interior de SP e vi micro produtores que entregam menos de 50 litros por dia sem a mínima qualidade, sem higiene e sem resfriamento, e tem quem compra (laticínio grande)....

JAMBEIRO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 13/01/2015

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 12/01/2015

LAURO DE FREITAS - BAHIA - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 12/01/2015
LAJINHA - MINAS GERAIS
EM 12/01/2015
DESCALVADO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 08/01/2015

PATOS DE MINAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 08/01/2015
Sou um apreciador de cervejas artesanais mas para manter este gosto, preciso que o produto que vendo (leite) seja valorizado e não sofra as perdas inflacionárias ao longo dos anos como vem ocorrendo. Em que pese os argumentos de alguns colegas, não culpo exclusivamente o Governo pela situação, embora defendo mais políticas de incentivo para a pecuária leiteira, mas creio que parte da culpa por esta situação resida no fato de que em um século não conseguimos criar uma entidade de classe em nível nacional que nos represente e que lute por nossos interesses perante o Congresso Nacional e faça um contraponto aos grandes players do mercado (grandes indústrias de lácteos e grandes redes de Hipermercados). Não me canso de citar o seguinte cálculo: Se pegarmos o preço do leite pago em agosto de 2007, se não me falha memória R$ 1,00 e aplicarmos a correção pela inflação (IGPM) no período até hoje, o leite deveria custar R$ 1,58. Ressalto que este seria o preço para que o leite mantivesse o mesmo valor de 2007. Com relatos de produtores recebendo leite a menos de R$ 1,00 temos uma situação de perda inflacionária bem superior a 58%, se considerarmos os últimos 7 anos. Os analistas de mercado e representantes da indústria dirão que o preço do leite não é corrigido pela inflação e sim pela oferta e procura e pelo mercado internacional (preço do leite em pó) mas da porteira para dentro a realidade é outra pois todos nossos custos sofrem o impacto da inflação, desde o preço dos medicamentos veterinários, dos honorários veterinários e das assistências técnicas, dos combustíveis, dos insumos agrícolas e pecuários, dos encargos trabalhistas e previdenciários. Desconheço algum insumo que se manteve com preço congelado de 2007 para cá como está ocorrendo com o preço do leite. Que 2015 nos reserve dias melhores como diz a música do Jota Quest: "melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo". Grande Abraço
Eduardo Amorim
Fazenda Caatingueiro
W.Amorim Holstein
Patos de Minas

PALMEIRA - PARANÁ
EM 07/01/2015
Já tive o prazer de produzir leite e também cerveja artesal, acredite, 2 paixões. Sugiro que sua comparação foi um pouco equivocada, pois o cálculos primeiro precisam ser comparados com produto acabado com produto acabado, e, ambos na gôndola da mesma loja, pois sabemos que ambos os produtos podem apresentar valores de venda para o consumidor muito diferente quando colocados em diferentes segmentos do varejo, coisa de 300%, ou seja, a mesma cerveja sendo comparado com o leite pronto na mesma loja, onde provavelmente o leite estaria não nos R$0,83 e sim na cada dos R$3,80.
Deixo aqui meu comentário pois também já me indignei com algumas realidades um dia, quando comparei este mesmo produto com a Chanel, mesmo que os universos sejam muito distantes, talvez algo parecido com o liquido amargo da cerveja, mas que tem em sua composição e essencia algo fantástico, talvez comparado a maravilha da natureza da produção do leite nos mamíferos.
Grande abraço e saudações leiteiras e cerveiras para o colega.
Ferdinando Schmeider
Colônia Witmarsum - PR

LONDRINA - PARANÁ
EM 06/01/2015
Endossando vosso comentário, reproduzo abaixo um trecho de uma entrevista concedida pelo geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves:
"A demanda de matérias primas em países como a China faz com que o Brasil e outros países da América Latina passem por um processo de reprimarização de sua pauta de exportações. E as pessoas estão vendo isso como uma vantagem! Na verdade isso é uma nova fase de um processo que tem 500 anos. Sempre fomos exportadores de produtos primários ou manufaturas. Há um mito de que estamos vivendo um processo de modernização tecnológica, com o agronegócio e seus equipamentos modernos. É um mito porque o Brasil do século XVI já exportava manufaturados, como o açúcar. (...) Nós já éramos modernos tecnologicamente, mas uma tecnologia colocada aqui não para nos servir mas para nos explorar. A rigor, um trator e computador fazendo plantio direto hoje é o equivalente ao que fazíamos no século XVI, com tecnologia de ponta.(...) A modernidade sempre nos fez ser o que somos. A gente não consegue se desprender da ideologia eurocêntrica da modernidade e acabamos propondo como solução o que é parte do problema."

QUIXERAMOBIM - CEARÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 06/01/2015

PRESIDENTE GETÚLIO - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 06/01/2015

GUAÇUÍ - ESPÍRITO SANTO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 06/01/2015

GUAÇUÍ - ESPÍRITO SANTO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 06/01/2015
PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 06/01/2015

IPORÃ DO OESTE - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 06/01/2015

REDENÇÃO - PARÁ - PESQUISA/ENSINO
EM 06/01/2015
Mas, a cerveja é um produto industrializado, requer muita tecnologia aplicada, assim como o queijo, iogurte, etc, mais com grande desvantagem como carga tributária, e pensadores que levam a dizer que a cerveja mata e o principal a margem de lucro dos produtos industrializados lácteos são muito maiores.
Por isso estou com o comentário da Maria Rita.
MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 06/01/2015
TOCANTINS - MINAS GERAIS - ESTUDANTE
EM 06/01/2015

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO
EM 06/01/2015
Parece um tanto tendenciosa e imprecisa a comparação, pois deixa de avaliar também o custo de produção de uma cerveja artesanal e todos os impostos que nela incidem. Isso sem falarmos também da lei da oferta e da procura, da sazonalidade, da política, e outros fatores que influenciam nos preços de todos os produtos.