Eremildo, o idiota, e a Portaria 56
É um personagem tolo e ingênuo e por isso é geralmente enganado com argumentos falsos ou fracos. Mas como é ingênuo, acredita em tudo que lê e escuta.
Publicado em: - 7 minutos de leitura
Pois bem, o Eremildo anda confiante no futuro da pecuária leiteira nacional. Ouviu falar muito de uma tal de portaria 56, leu vários artigos de analistas e formadores de opinião, conversou com várias pessoas e hoje está convicto que a tal portaria será a redenção da pecuária leiteira brasileira. Muitos foram os argumentos que convenceram o Eremildo. Primeiramente, vem aquele argumento clássico: "A pecuária leiteira nacional está muito atrasada e a legislação que regulamenta a qualidade do leite é muito antiga, da década de 50!". Esse é o argumento introdutório, já para neutralizar qualquer tentativa de contra-argumentação inicial do interlocutor, pois afinal de contas, "é mau" ser contra a modernidade. Qualquer tentativa de contra-argumentação é rebatida imediatamente com a taxação do desafiante de "retrogrado". Portanto, segundo uma lógica cartesiana nada mais adequado do que mudar uma lei e por decreto (ou portaria) banir o atraso da pecuária leiteira com uma pena.
O segundo argumento que vem logo de imediato como estratégia de sufocar qualquer reação propõe que o Brasil precisa fazer um esforço para equiparar os seus índices de qualidade do leite àqueles praticados no 1o mundo (EUA, Europa, Canadá, Nova Zelândia...). Este argumento fascina o Eremildo, pois ele sempre gosta de ser comparado com um cidadão de 1o mundo, acha extremamente "fashion" ou "chique no úrtimo" como ele diria na clara linguagem tupiniquim. Então, esse argumento de que com a portaria 56 estaremos nos equiparando com o primeiro mundo dentro de 8 anos fascina e inebria o Eremildo. Ele já está convencido de que esta portaria "é exatamente o que faltava".
Mas o pessoal ainda tem outros argumentos para convencer o Eremildo. A turma insiste em dizer que a Portaria 56 vai trazer muitas mudanças na qualidade do leite e que esta é uma exigência premente dos esclarecidos consumidores brasileiros de lácteos. Insistem que o "mercado" não tolera mais a pressão dos novos consumidores modernos. O Eremildo também gosta desse argumento, pois acha moderna essa conversa de "exigência de consumidores modernos". Além do mais, como ele é um cara conservador, teme pelo colapso do mercado de lácteos, com a queda abrupta do consumo de lácteos caso não vigore a Portaria 56 e dessa forma a qualidade não melhore e não satisfaça o nosso "moderno consumidor exigente". O Eremildo só não entende porque existe uma discussão paralela a respeito de outra portaria que autoriza a adição de soro no leite fluído. Embora o Eremildo seja ingênuo, ele acha uma tremenda sacanagem adicionar soro no leite de consumo e continuar chamando esse produto de leite. O Eremildo não entende, pois todo mundo fala pra ele sobre o "consumidor moderno, consciente e exigente". Ele sempre se pergunta como fica a situação deste "consumidor moderno" enganado com a adição de soro. Agora ele está confuso, não sabe se o consumidor é moderno ou trouxa. E para piorar a situação, muitos dos que defendem o "consumidor moderno" também defendem a portaria do "consumidor trouxa".
E como esse argumento de "exigência do consumidor moderno" ficou desgastado com o tempo até o ponto do Eremildo desconfiar, brotou recentemente outro argumento para subsidiar a Portaria 56. Fala-se agora de exigências para exportação. Esse argumento também é bom e fascina o Eremildo. Afinal se encaixa no brado retumbante "exportar ou morrer", pronunciado em alto som pelo nosso atual presidente, um estadista. Estadista tão distinto quanto o outro, do brado do Ipiranga, do famoso "independência ou morte". Eremildo está animado com os seus estadistas, afinal ele acredita piamente que Dom Pedro I era um dos bons nesse "metiê", afinal, nos tempos de escola, todos os livros de história ensinaram para o Eremildo que o nosso monarca era um grande estadista, e o Eremildo acreditou...
Mas ironias à parte, o Eremildo acredita que com a portaria 56, a qualidade do leite no Brasil vai melhorar e as portas do mercado externo vão estar escancaradas para o competitivo leite brasileiro. No entanto, pela primeira vez o Eremildo começou a pensar nas barreiras comercias a produtos brasileiros, como o aço, o suco de laranja, a soja e o açúcar. Como o Eremildo não conhece nada destas outras commodities de exportação ele estabeleceu um raciocínio lógico e cartesiano: "se os amigos do Eremildo falam que o Brasil sofre restrições para exportar leite em decorrência de sua baixa qualidade, isso deve significar que o aço, a laranja e o açúcar brasileiro também têm baixa qualidade. E o Eremildo já teve um brilhante idéia para alavancar as exportações dessas outras commodities nas quais o Brasil é competitivo - estabelecer uma nova portaria para cada uma dessas cadeias com o objetivo de melhorar a sua qualidade.
O Eremildo também fica um pouco confuso quando vê entidades e instituições que defendem a premência da Portaria 56 como instrumento de alavancar as exportações defenderem também, por exemplo, a liberação de soja transgênica, que em última análise representa uma restrição às exportações. Então ele se pergunta "Afinal, é para aumentar as exportações ou não?".
Além disso o Eremildo acha estranho tanta exigência de qualidade para exportações lácteas para alguns países periféricos da América Latina, Ásia e África. Ele sempre se pergunta: "será que o furo não está mais embaixo ?"
Mas enfim, apesar de todas as dúvidas, esse discurso de exportações, que virou agora um cavalo de Tróia, soa bem aos ouvidos ingênuos de Eremildo, embora quando a Portaria 56 tivesse sido elaborada, há alguns anos, a exportação de lácteos não estivesse na pauta de discussão do setor lácteo nacional.
A única questão que preocupa o Eremildo, é que várias críticas que são feitas em relação à implantação da Portaria 56 são sistematicamente banidas do foco da discussão. Fala-se muito da perfumaria, mas até hoje o Eremildo nunca viu um plano estratégico para monitoramento da qualidade de leite no país. Ele fica em dúvida sobre quem vai analisar as amostras de leite de todo território e como isso será feito. O Eremildo fica preocupado, pois outro dia ele mandou uma carta do Mato Grosso para São Paulo via Sedex e demorou 4 dias para chegar. Eremildo também está preocupado com alguns amigos que produzem leite mas não têm energia elétrica na propriedade. Além disso, o Eremildo outro dia foi visitar um amigo no interior de Goiás, na época das águas, e o carro atolou, pois as estradas estavam muito ruins. E além disso, muitos dos amigos leiteiros do Eremildo nunca ouviram falar da tal Portaria 56 e por isso não estão muito preocupados. Mas o Eremildo está preocupado com seus amigos, pois se a lei for aplicada à risca - o que o Eremildo tem dúvida - será que seus amigos serão excluídos do setor ? Mesmo sem terem recebido uma chance de serem treinados por algum órgão de extensão ou mesmo uma instituição privada ? O Eremildo acha que antes de qualquer coisa deveria haver uma verba para treinamento e educação dos produtores, mas ele nunca mais ouviu falar dessa conversa...
Mas apesar disso tudo, o Eremildo está confiante, pois tem escutado falar muito sobre pagamento por qualidade, o que ele logo associa com a Portaria 56, pois afinal tudo trata sobre qualidade do leite. Então ele desenvolve mais uma vez um raciocínio cartesiano: "se a portaria 56 propõe a melhoria de qualidade do leite" e vai haver "um pagamento diferenciado pelo leite de melhor qualidade", juntando-se as duas assertivas conclui-se que: "a Portaria 56 vai gerar aumento do preço de leite para os produtores que se enquadrarem!". Coitado do Eremildo, mal sabe ele que não existe associação direta entre os dois fenômenos. Exigência oficial de qualidade é uma obrigação a mais para os produtores, um ônus obrigatório. Pagamento por qualidade é um contrato de mercado, uma disposição voluntária das empresas pagarem mais para obterem uma matéria-prima de melhor qualidade e lucrarem mais com isso, situação presente e crescente no Brasil, independente de tal portaria.
Por fim tem uma coisa mais que fascina o Eremildo: são os números propostos na Portaria 56. Ele adorou os valores de 1.000.000 para CBT e para CCS. Acho um número bonito e fácil de guardar. Achou um "must" esse número, embora não saiba da onde ele surgiu. Falou que achou um número cabalístico e que vai até jogar no bicho. Mas quanto a esses números técnicos, o Eremildo ficou confuso num determinado momento, quando viu publicado uns números sobre resíduos de antibiótico com umas unidades super esquisitas. O Eremildo questionou o seu filho, um erudito da 8a série primária, sobre o significado de ppm/ml. Mas para sua surpresa o filho do Eremildo pensou muito e respondeu ao seu pai que tal unidade não existia. Eremildo ficou chateado com a audácia do moleque, que colocou em xeque um documento oficial da República Brasileira, elaborado por especialistas do setor. POBRE DO EREMILDO!
Material escrito por:
Luis Fernando Laranja da Fonseca
Acessar todos os materiaisDeixe sua opinião!

OUTRO - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 10/06/2002

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 14/05/2002

OUTRO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 14/05/2002

MATINHOS - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO
EM 13/05/2002

OUTRO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 13/05/2002
SÃO PAULO - SÃO PAULO
EM 07/05/2002
A Portaria 56 é apenas parte do Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite. Tal portaria é o melhor resultado alcançado por um grupo de instituições e profissionais que infelizmente não puderam contar com a sábia, competente e valiosa contribuição do Dr. Laranja.
Embora durante sua elaboração, eu tenha solicitado, em alguns encontros pessoais, sua participação e/ou contribuição, não tive nenhum sucesso nessa missão; o Dr. Laranja não nos ajudou.
Sabendo que os regulamentos que propusemos seriam levados à Consulta Pública e conhecendo prévia e parcialmente a opinião do Dr. Laranja, acreditei que naquela fase a sociedade brasileira receberia formalmente sua contribuição.
Tal também não aconteceu.
Em nenhuma oportunidade o Dr. Laranja ofereceu formalmente e junto aos fóruns próprios sua tão valiosa e sábia contribuição.
Contribuiu sim, por omissão, para confundir o Eremildo.
Resposta Prof. Laranja: <i><font color="#006666">Infelizmente desta vez preciso discordar das suas colocações, o que me causa um certo desconforto, pois considero você um profissional gabaritado e bem intencionado. Tenho certeza que sua contribuição para elaboração da portaria 56 foi valiosa e com a melhor das boas intenções. Não quero entrar aqui no mérito deste documento que subsidia a portaria 56, o que podemos fazer noutra oportunidade.
Apenas gostaria de esclarecer que JAMAIS fui convidado a participar de qualquer discussão relativa à portaria 56, em NENHUMA instância. Admito ter trocado algumas idéias pessoalmente com você, de maneira absolutamente INFORMAL, até pelo relacionamento que nos aproximou em alguns momentos. Mas julgo importante que fique claro que jamais recebi qualquer convite formal para manifestar minha opinião sobre o assunto, seja convidado por você ou por qualquer outra pessoa. E como um cidadão bem educado, eu não costumo entrar em festa para a qual não fui convidado. Mas mesmo sem ter sido convidado para a festa, manifestei sim a minha opinião repetidas vezes e há bastante tempo (http://www.milkpoint.com.br/mn/conjunturalactea/default.asp?area=3&dir=conjunturalactea/default.asp - seção conjuntura) no lado de fora do salão. Portanto, amigo Xavier, não me atribua uma culpa que não tenho, a da omissão!</i></font>
Resposta de Antônio J. Xavier: <i>Caro Professor Laranja</i>,
Durante a fase de preparação da proposta não poderia convidá-lo formalmente por não ter essa prerrogativa.
Entendendo que poderia contribuir pedi sim, verbalmente, em reuniões da Câmara e do Comitê de Qualidade do Leite, que o fizesse.
Diversos profissionais com os quais procedi da mesma forma assim o fizeram.
A Consulta Pública é um convite formal a toda a sociedade.
Agradeço gentileza de sua resposta.
(<i>Antonio J. Xavier</i>)

OUTRO - GOIÁS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 07/05/2002
Pelo amor de Deus, continue a bater na "cangalha" dos pseudos técnicos dessa terra, para ver se eles acordem e deixem de ser envolvidos pelas vontades dos "poderosos".
Doutor, a situação da maioria esmagadora de produtores de leite é deplorável, só não sabe disso quem está dentro de escritórios principalmente das repartições públicas, fazendo e dizendo bobagens!!!
Salve, ainda temos alguém lúcido analisando e falando sobre nossa paupérrima pecuária leiteira.

OUTRO - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO
EM 03/05/2002
O seu artigo simplesmente foi o "must", há muito tempo que nós técnicos e produtores aqui do Sul estamos batendo contra esta portaria que também, em alguns momentos, foi confundida com um "Programa de Melhoria da Qualidade do Leite". Mas que governo é este que acha que um simples instrumento normativo irá alterar a qualidade do leite produzido em um País continental como o nosso, onde uma grande parte das propriedades não possui infra-estrutura mínima para produzir leite, resfriador a granel então, isto é uma piada.
Quanto aos índices, se o governo, através do seu serviço de inspeção, pelo menos nos apresentasse a estatística dos resultados dos testes realizados na plataforma, na chegada dos caminhões, para nós sabermos como anda a contagem de células somáticas e as bactérias totais, pelo menos neste momento, já que em nível de produtor isto é inviável com os laboratórios que existem. Aqui no Rio Grande do Sul somente a Universidade de Passo Fundo realiza CCS, mas nenhum laboratório realiza contagem total de bactérias, então como vamos estipular que 1.000 000 é muito ou é pouco.
Enfim, eu não irei repetir tudo o que o Prof. já disse em seu formidável artigo, mas eu gostaria de dizer que nós aqui do Sul não vamos nos acomodar e deixar as coisas acontecerem sem aprofundar muito esta discussão e visualizarmos realmente um "Programa de Melhoria da Qualidade de Leite" no Brasil.
Por isso estaremos na Audiência Pública lutando e defendendo uma coerência entre o discurso e a prática deste governo.

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO
EM 30/04/2002

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 30/04/2002

OUTRO - SANTA CATARINA - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 30/04/2002
Acretido que implantar um programa nacional para melhoria na qualidade do leite é fundamental para o desenvolvimento do setor, porém a pergunta que me faço é : como poderemos colocar exigências aos produtores, sendo que a grande maioria destes não foi capacitada/treinada para isso? Que condições existem para a realização de análises do leite em todo o País? Com estas e outras, realmente estamos vendo que existe muito ainda para ser feito.

OUTRO - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 30/04/2002
Receba meu abraço e votos de que continue comentando estes assuntos para, assim, fazer os brasileiros, especialmente os políticos, pensarem naquilo que realmente soluciona problemas e contribua para o crescimento e desenvolvimento do país.