60%
O número que intitula este artigo é o quanto a produção agrícola mundial deverá crescer nos próximos 40 anos a fim de dar conta da demanda crescente. A conclusão é apresentada em relatório recente divulgado pela FAO e pela OCDE, cujo conteúdo é de grande interesse para todos os que frequentam este espaço. O texto, apresentado no começo do mês passado, discute os desafios e as implicações de estarmos diante de número tão desafiador. Por Sylvia Saes (professora de administração USP) e Bruno Varella Miranda (mestre em administração)
Em primeiro lugar, é necessário explicarmos o motivo pelo qual consideramos que este número traz um enorme desafio. Para tanto, não é necessário ir além do relatório. Ali, encontramos um dado alarmante: cerca de 25% de todas as terras utilizadas na agricultura encontram-se em um estágio preocupante de degradação.
No mesmo texto, referências ao aumento do consumo de alimentos nos países em desenvolvimento - uma boa notícia, dado que reflete o aumento da renda em antigos bolsões de pobreza - e à mudança nos hábitos alimentares nessas sociedades - o que não é, necessariamente, algo positivo para o planeta ou mesmo para os seus habitantes. Em ambos os casos, um empurrão adicional para a manutenção dos preços dos produtos agrícolas em um nível alto nas próximas décadas.
Finalmente, uma questão que precisa ser encarada sem os preconceitos de um lado ou a busca pela anulação do debate que muitas vezes parte do outro. A possível explosão da demanda por biocombustíveis impõe, sim, um desafio no médio prazo que precisa ser equacionado. O planeta é limitado, no sentido de que suas terras não são infinitas, e a população cresce a um ritmo considerável. Somado ao aumento de renda no Terceiro Mundo, o que empurrará não apenas a demanda por alimentos, como também o apetite por energia, a falta de espaço nos pressiona ainda mais a responder: como chegaremos aos 60% que intitulam este texto?
A chave para uma resposta é o aumento da produtividade da agricultura praticada nos países em desenvolvimento. Tal solução, porém, não virá apenas porque os preços estimularão os produtores. Não raramente, estamos diante de agricultores desprovidos de qualquer condição de acompanhar os incentivos oferecidos pelo mercado. Por isso, investimentos são necessários, tanto em infraestrutura e em tecnologia, como em educação. É fundamental, em outras palavras, que milhões de agricultores baseados nos países em desenvolvimento sejam capacitados a fim de explorar as alternativas oferecidas pelo progresso tecnológico nas últimas décadas.
Chegar aos 60%, porém, implica uma lembrança constante dos 25% que citamos no segundo parágrafo. Ou seja, adotar técnicas verdes de produção constitui um imperativo. Uma vez mais, estamos diante de um desafio que exigirá investimento considerável, tanto da iniciativa pública quanto da privada. E aqui, embora muito se fale do papel da demanda dos consumidores para a introdução de novos padrões, cabe uma provocação: provavelmente, será a ameaça de queda da produtividade e os incentivos ocasionados pelos preços os principais estímulos para a sustentabilidade, ao menos na escala que necessitamos.
Antes de encerrar, é inevitável não nos questionarmos: seremos capazes de atingir tal objetivo? É provável que o próprio número 60% seja modificado pelo caminho, de modo que a meta nem é o mais importante nesse caso. Se formos capazes de diminuir o nosso impacto nocivo sobre as terras utilizadas na agricultura e reduzir mazelas como a corrupção na implementação de programas de desenvolvimento ao redor do mundo, já teremos feito bastante nas próximas décadas.
O restante, espera-se, os próprios indivíduos, acompanhando o aumento da renda per capita e os esperados avanços na infraestrutura e na educação em diversas porções do globo, buscarão oferecer. De qualquer maneira, chega a ser irônico que, embora o mundo dependa daqueles que não estão integrados adequadamente à sociedade na atualidade para aumentar a produção de alimentos, estes só o conseguirão se muitos dos protagonistas da atualidade, responsáveis por determinar os rumos das políticas, passarem a dar uma melhor contribuição.
Material escrito por:
Bruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
Acessar todos os materiaissylvia saes
Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)
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SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 14/08/2012
Obrigado pelo comentário. Estamos falando de um crescimento projetado para as próximas quatro décadas, tendo em vista o contexto atual e o desenvolvimento da agricultura nas últimas décadas. Por exemplo, uma das conclusões que podemos tirar do relatório é que, embora o Brasil tenha avançado no tema produtividade, ainda podemos ir além - tendo em vista nosso potencial e o crescimento maior da demanda.
Atenciosamente
Bruno Miranda
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 14/08/2012
Agradecemos o comentário e o convidamos a visitar este espaço mais vezes, deixando impressões, críticas e sugestões.
Atenciosamente
Bruno Miranda
SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 14/08/2012
Agradecemos a leitura do artigo e o comentário. Sempre que quiser deixar as suas impressões, fazer críticas, sugerir temas, o espaço é seu!
Atenciosamente
Bruno Miranda

CASTELO - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 13/08/2012
A demanda será grande. Ou se produz mais ou a fome será maior.
UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 13/08/2012

JANAÚBA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 13/08/2012