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Qual o custo da implantação de um projeto de manejo de esterco para sistemas intensivos de produção de leite?

Por COWTECH - CONSULTORIA E PLANEJAMENTO
postado em 02/03/2001

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João Paulo V. Alves dos Santos

Um problema comum em todo o mundo, para aqueles que trabalham com animais confinados, é o manejo do esterco. Em países como os EUA, a problemática envolvendo dejetos de bovinos vem sendo discutida cada vez mais, uma vez que a questão ambiental naquele país é tratada de forma muito séria, pois além da fiscalização das entidades governamentais responsáveis, há também um fator cultural muito importante. A preservação do meio é tema de inúmeras palestras em diversos estados americanos, além de campanhas educacionais no processo de formação escolar de jovens. Tudo isso se transforma numa grande "pressão" para o produtor, sendo que o não cumprimento das normas vigentes é extremamente negativo para o seu bolso e perante a sociedade.

Tal política de fiscalização e conscientização para a preservação do meio, em nosso país de maneira geral, pouco existe, tanto do ponto de vista do produtor como social. Obviamente existem exceções, insuficientes, porém, para estimular uma nova maneira de abordar um problema de manejo fundamental para o bem estar sanitário do rebanho e ambiental das diversas propriedades leiteiras espalhadas pelo Brasil.

É comum técnicos visitarem diversas propriedades com manejo de esterco deficiente ou ausente, sendo a conduta natural um proposta de realização de um projeto para resolução do problema. Naturalmente o produtor escuta e com a mesma paciência que ouviu a proposta, posteriormente arquiva a mesma. Motivo? Custos. Quanto custa reciclar o esterco de uma propriedade e quais seriam os benefícios para a mesma?

Baseado nas questões acima, um grupo de professores e técnicos especializados realizaram um trabalho no SIPL - Sistema Intensivo de Produção de Leite (Embrapa - Coronel Pacheco/MG), avaliando a viabilidade econômica de um sistema de tratamento biológico de esterco. Foram utilizados no experimento dois reatores de 300 m3 cada, construídos de concreto, utilizados para a composição das unidades de processo de lodo ativado por batelada (LAB), via sistemas de aeração intermitente. Segundo os pesquisadores, tais reatores foram dimensionados para um tempo de retenção hidráulica de 24 dias, com diluição dos dejetos (urina e fezes) com água, na proporção de 1:1. Para cada reator foi instalado um aerador-misturador submersível. A reciclagem do efluente tratado sobre os corredores dos galpões do confinamento tipo "free-stall" foi realizada com o uso de uma motobomba de 60 m3/hora, também promovendo a limpeza hidráulica dos dejetos, que por sua vez retornaram aos tanques de aeração sem dispêndio de energia (gravidade). O processo de drenagem dos reatores se deu através do uso de uma motobomba submersa, com vazão de 10 m3/hora, também conduzindo o efluente tratado até áreas de produção de forragem via escoamento superficial.

A análise de viabilidade econômica do sistema experimental foi feita utilizando-se todos os valores nominais, como custo, investimentos e receita, sendo os mesmos atualizados de acordo com as metodologias propostas por HOFFMANN et al. (1976). Os indicadores de rentabilidade do sistema foram baseados segundo AZEVEDO FILHO (1988), sendo analisados: valor atual (VA), taxa interna de retorno (TIR), relação benefício/custo (B/C), período de recuperação do capital (PRC) e custos totais atualizados (CTA). Tais dados foram obtidos considerando um horizonte de dez anos e uma taxa de juros equivalente ao custo de oportunidade do capital imobilizado de 12% ao ano (fator de desconto dos fluxos de benefícios e custos). Custos variáveis também foram abordados, sendo eles: energia elétrica e mão de obra e manutenção do sistema (para este último, foi utilizado o valor de 5% sobre o custo inicial, segundo BEDUSCHI, 1985). Também foram avaliados os benefícios diretos (BD), resultantes da produção de biofertilizante que foram utilizados através da fertirrigação. A produção anual de biofertilizante foi estimada com base na equivalência do mesmo, em corretivos e fertilizantes. A matéria orgânica foi estimada de acordo com KIEHL (1978). Além dos diretos, foram considerados também os benefícios indiretos (BI) como economia de mão de obra e horas de trator (+ lâmina e carreta) que entrariam como gastos na limpeza do "free-stall".

Os valores obtidos são descritos nos quadros a seguir:

Quadro

*taxa de juros de longo prazo de 6% a.a.
**[(2 horas de trator x R$15,00/hora x 365 dias) + (2 horas-homem x R$1,75/hora x 365 dias)]

Quadro


De acordo com os idealizadores da pesquisa, o VA de R$75.995,37 obtidos com um custo de oportunidade do capital para o sistema, de 12% a.a., é maior do que o valor do investimento inicial (R$36.178,00). Somando estes dois valores iremos obter R$112.173,37, correspondendo ao valor máximo que o proprietário poderia pagar pelo projeto. Em outras palavras, seria o ponto de indiferença entre investir ou não no sistema de tratamento, evitando prejuízo ou perda com a sua implantação. A renda líquida proporcionada pelo sistema de tratamento foi de R$75.995,37/ano, equivalente a R$663,30/UA/ano. Quanto a relação B/C, o valor de 1,91 foi considerado alto pelos pesquisadores, pois implica que cada R$1,00 investido no projeto, obtém-se um retorno líquido de R$0,91. O inverso de tal relação, segundo proposto por BEDUSCHI (1985), é o custo de produção (CP), que foi de 1/1,91, ou seja, R$0,52 por unidade produzida.

O valor da TIR foi significativo, o que implica que o sistema não apresentaria lucro ou perda, contanto que o custo de oportunidade do capital (taxa de atratividade) equivalesse a uma taxa de juros de 54,15% a.a., número extremamente acima do valor de 12% a.a. aplicada. Caso o custo de oportunidade do capital fosse igual a 54,15%, o VA dos lucros do sistema seria igual a zero. O PRC seria o período de tempo cujo custo do investimento seria coberto pelas entradas líquidas de caixa, sendo o lucro líquido do exercício de 2,43 anos. Considerando uma taxa relevante de desconto de 12% a.a., com um período inferior a 2,5 anos de operação, o valor acumulado atualizado dos benefícios (receitas) igualaria ao valor acumulado atualizado dos custos + investimentos do sistema, conforme informaram os envolvidos na pesquisa. De acordo com os mesmos, os resultados do VA do sistema de tratamento, variando o custo de oportunidade do capital de 0 a 80% a.a., para um horizonte de 10 anos são demonstrados na figura abaixo:

Gráfico


Com uma possível redução das taxas de juros de mercado (equivalente ao custo de oportunidade do capital), em torno de 6% a.a., os lucros do sistema atingiriam valores anuais de R$109.941,15, gerando uma renda mensal de R$9.162,00 ou R$916,18/UA/ano.

Comentário MilkPoint: obviamente que os valores obtidos na pesquisa feita no Sistema Intensivo de Produção de Leite da EMBRAPA são atraentes. Isto não implica que o produtor que realizar um investimento seguindo o modelo proposto terá sucesso, pois os valores relacionados aos custos variáveis certamente não são iguais em todo o país. Sendo assim, devemos destacar a importância de tal pesquisa, uma vez que detalha as etapas de um investimento, servindo então como referência, e modelo a ser adaptado de acordo com a realidade de cada produtor. Manejo de esterco é algo pouco estudado nas nossas fazendas e, como pode ser visto por este trabalho, um fator que pode ser importante na lucratividade da fazenda. O mérito do trabalho está justamente na quantificação destes dados.

********


fonte: Aloísio Torres de Campos, Widsney Alves Ferreira, Roberto Maciel Cardoso. Anais da XXXVI Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, julho 1999

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