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Soro de Leite em Pó: Brasil caminha para autossuficiência

Por Otavio A. C. de Farias
postado em 13/04/2011

12 comentários
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Brasil foi nas últimas decadas e permanece um importador líquido de soros de leite em pó, atingindo 36,2 mil toneladas em 2008.

Essa tendência vem mudando nos útimos anos de forma desapercebida, mas é agora notável com recentes investimentos indústriais. O país caminha para autossuficiência e tem substituido importações com o aumento da produção doméstica.

Gráfico 1. Valor e volume importado de soro de leite desde 1996.


Fonte: MDIC / Alice, elaborado por Milkpoint.

Os volumes anuais de importação incluem:

- Soro de leite em pó "doce" que advém da produção de queijos; é o produto mais simples (ou, pode-se dizer, "integral");

- Soro de leite em pó desmineralizados, com 25% a 90% dos seus minerais extraídos;

- Soro delactosados, com até 30% de concentração de proteína;

- Concentrados protéicos de soro de leite conhecidos como WPC (sigla em inglês para Whey Protein Concentrate) com mais de 30% de concentração de proteínas;

- Isolados protéicos de soro de leite (sigla em inglês para WPI - Whey Protein Isolate) a partir de 80% de concentração de proteína de Soro.

Do processamento dos concentrados e isolados protéicos de soro de leite, ainda se obtém o soro de leite "desproteinizado" ou permeato de soro de leite, geralmente com 80% mínimo de lactose, além de uma porcentagem residual de protéina cujo perfil e qualidade é menos relevante nutricionalmente.

Gráfico 2. Soro de leite e suas frações


Fonte Rabobank, adaptado por Otavio A. C. De Farias

Suas aplicações indústriais são diversas como ingrediente na produção de alimentos ou indústria farma/nutracéutica (panificação, sorvetes, misturas lácteas ou leites modificados, chocolates, suplementos esportivos e nutricionais, fórmulas infantis e outros); é também aplicado na indústria de nutrição animal em premixes e núcleos para suínos, principalmente, e gado de leite.

O ingrediente é valorizado na substituição total ou parcial do leite in-natura ou leite em pó integral (e desnatado) em tais aplicações, suprindo parte do perfil nutricional e funcional do leite, sobretudo no que se refere à lactose (carbohidrato ou "açúcar" natural do leite) e a proteína de soro (basicamente alpha-lactalbumina and beta-lactoglobulina).

A proteína de soro de leite tem grande valor nutricional; é de fácil absorção durante a digestão (alta biodisponibilidade) se comparada às proteínas vegetais e animais, conforme quadro a seguir:

Quadro 1. Biodisponibilidade: Proteínas vegetais e animais

Clique na imagem para ampliá-la.
Fonte: USDEC - U.S.Dairy Export Council, adaptado por Otavio A. C. De Farias

Outro índice importante, quanto à digestibilidade da proteína do soro de leite, é o chamado PDCAAS (Protein Digestibility Corrected Amino Acid Score):

Quadro 2. Digestibilidade: Proteínas Vegetais e Animais

Clique na imagem para ampliá-la.
Fonte: USDEC - U.S.Dairy Export Council, adaptado por Otavio A. C. De Farias

No Brasil houve, principalmente nos últimos 15 anos, discussões e escândalos sobre adição ilegal do soro de leite para a extensão do leite longa vida (UHT) e do leite em pó. Tal prática foi então regulamentada, com maior rigor das autoridades, passando a exigir denominação dos produtos como "leite com adição de nutrientes do leite" e posteriormente "leite modificado" e também as "bebidas lácteas".

A prática de adição de soro de leite a formulações desse tipo é perfeitamente comum no resto do mundo, mas é devidamente regulamentada; tais mesclas lácteas são definidas como tal (milk powder blends e milk/dairy beverages), para aplicação industrial ou em produtos de varejo e consumo direto em reconstituição como o leite em pó.

O soro de leite "doce" advém da produção de queijos.

Gráfico 3. Leite e sub-produtos

Clique na imagem para ampliá-la.
Fonte Rabobank, adaptado por Otavio A. C. De Farias

A produção brasileira de queijo inspecionada (SIF, Serviço de Inspeção Federal do Ministério de Agricultura) é de aproximadamente 500 mil toneladas (ABIQ, Associação Brasileira das Indústrias de Queijo) e dá origem a um volume estimado de 4,5 bilhões de litros de soro de leite. Este volume corresponde a cerca de 281.250 toneladas equivalentes de Soro de Leite em Pó, sem retirada ou concentração de nenhum de seus nutrientes ou componentes. Deve se considerar a diferença entre o soro de leite em pó "doce" (em inglês sweet whey powder) que advém da produção do queijos (exceto cottage) e o soro de leite em pó "acido" (em inglês acid whey powder) que advém da produção de caseína ácida e também queijo cottage; Esses dois tipos de soro de leite têm perfil de minerais distintos, assim como acidez, além de propriedades organolépticas e, portanto, aplicações indústriais e funcionalidades distintas.

O soro de leite no Brasil tem sido usado historicamente em bebidas lácteas, produção de Ricota e também usado em combinação com leite para produção das misturas lácteas ou "leites modificados" e também bebidas lácteas, conforme já comentado. Outra aplicação comum tem sido banida por questões ambientais e sanitárias - o uso direto em nutrição de suínos.

No Brasil, parte destes 4,5 bilhões de litros de soro de leite têm sido processados em sistemas de torre de secagem (spray-dryer), sistemas utilizados nas principais áreas de processamento de leite e soros de leite ao redor do mundo.

Algumas indústrias de queijo como Italac e a pioneira no passado a Elegê (inicialmente CCGL - Cooperativa Central Gaucha de Laticínios e hoje parte da BRFoods) entre outras, investiram em suas próprias torres de secagem cujo investimento pode atingir US$ 15 a 30 milhões ou mais, dependendo da escala e tecnologia aplicada, assim como o produto final que se deseja obter.

Estima-se que a capacidade industrial instalada no Brasil para processamento (secagem) do soro de leite em pó esteja entre 120 e 150 mil toneladas. Porém, muitas indústrias alternam o processamento com o leite em pó em períodos de safra devido aos excedentes de matéria-prima (o leite), reduzindo a produção de queijos, conseqüentemente reduzindo a disponibilidade do soro do leite. Esta capacidade industrial supriria a demanda doméstica, portanto se conclui que o Brasil teria já, em tese, atingido autossuficiência nesta área. No entanto, esta produção nao supre a demanda de produtos mais sofisticados como os concentrados e isolados protéicos, ou frações das proteínas de soro. Investimentos para estes produtos são mais elevados, demandando escala de produção do soro líquido maiores para justificar a atividade.

A tecnologia de secagem permite não somente dar destino ao soro de leite, antes considerado um resíduo do processamento de queijos, mas também evita impacto ambiental, já que o soro de leite líquido é um poluente. Sem seu processamento (secagem ou processo de bebidas lácteas, liquidas ou em pó), o mesmo deve ser descartado de forma apropriada, ou passar por tratamento de efluentes nas queijarias.

Uma solução pioneira no Brasil foi desenvolvida pelo grupo gaúcho Renner-Herrmann S/A, mais conhecidos pela atuação em tintas e vernizes - a RELAT (Laticínios Renner S/A) coleta e processa soro de leite originado de um pool de indústrias de queijo no sul do país. A capacidade instalada de 1,2 milhão de litros diariamente equivale a mais de 25 mil toneladas de soro de leite em pó ao ano. Em parceria com a RELAT, queijeiros da região destinam de forma segura seus fluxos de soro de leite, evitando um possível passivo ambiental.

Assim como no Brasil, nos Estados Unidos, países Europeus, Mercosul e Oceania, a secagem do soro de leite em produtos mais simples ("doce" ou desmineralizado) foi o caminho mais econômico e mais rápido para se dar vazão do grande volume diário resultante da produção de queijos. Com o tempo, a indústria desenvolveu frações do soro de leite, desde minerais isolados até proteínas concentradas e também frações isoladas da proteína de soro do leite como lactoferrina, lactoperoxidase, globulinas, além da lactose, componente encontrado em maior porcentagem no leite e no soro líquido. Nos Estados Unidos, o consumo de concentrados e isolados protéicos foi também alavancado pelos body-builders (fisiculturistas) devido à qualidade nutricional da proteína de soro.

Uma vez atingida a autossuficiência no Brasil, o próximo passo neste setor será agregar valor ao soro de leite, evitando que todas as indústrias estejam presentes no mercado com produto "comoditizado"; sendo uma commodity, seus preços têm variações bruscas, devido às oscilações constantes no complexo leite e suas principais commodities negociadas mundialmente como leite em pó, gorduras (amf/butteroil e manteiga), queijos, soros de leite e proteínas (caseínas, caseinatos e proteínas de soro).

De qualquer forma, a conclusão a que se chega é que finalmente o Brasil passa a cuidar de um problema ambiental, agregando valor em grande escala ao setor de laticínios, com potencial de gerar faturamento anual de mais de R$ 500 milhões.

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Comentários

Shazan

Makka - Arábia Saudita
postado em 13/04/2011

Essas indústrias que processam soro de leite deveriam agora investirem nos produtos derivados : WPC ( 35% , 60% e 80 % de proteínas ) , WPI ( =>90% de proteínas ) e lactose ( grau alimentício e farmacêutico ). Há grande demanda no mercado, principalmente para produção de suplementos nutricionais. Sucesso para que procurar inovar !

Wilson Mendes Ruas

Belo Horizonte - Minas Gerais - Produção de ovinos
postado em 13/04/2011

Parabéns ao Sr. Otávio Farias pela divulgação deste artigo, em especial por abordar um assunto, técnicamente, complexo de forma clara e sucinta, permitindo que leitores leigos sobre o assunto como eu, abosorvam a informação com facilidade.

O seu conteudo é de suma importância tanto para toda a indúastria envolvida, como os consumidores em geral.

Wilson Mendes Ruas
Produtor de Leite

João Carlos Pribessan

São Paulo - São Paulo - Industria de Equipamentos (Evaporação e Secagem)
postado em 14/04/2011

Primeiramente, parabenizo ao Octavio pelo artigo e ao mesmo tempo concordo e endosso a sugestão do Geraldo de Rio Doce.
Atingindo a autosuficiência no soro em pó e soro parcialmente desmineralizado em pó é visivel o crescimento da produção de queijo no pais, aliás das comodites de lacteos a que ainda não decolou.
O caminho então será investir no fracionamento do soro partindo para o processamento das proteínas concentrada e isoladas, bem com no processamento da lactose excedente destes processos na forma de lactose em pó e/ou permeado em pó, buscando assim autosuficiência também dentes produtos.

Otavio A. C. de Farias

São Paulo - São Paulo - Trading & Consultoria
postado em 15/04/2011

Prezado Geraldo,

É passo nautral maior sofisticacao no processamento do Soro com passar do tempo e com aumento das escalas de producao.

Nos Estados Unidos, por exemplo, algumas plantas de Soro de Leite fecharam simplesmente ou passaram a produzir WPC/WPI. Este movimento sustenta os precos da commodity basica (soro doce simplesmente), ao mesmo tempo que agrega valor a este elo da cadeia de producao do leite, desenvolvendo produtos cuja demanda e aplicacao sao mais valorizadas.

Agradeco comentarios do Wilson e do amigo Joao Carlos.

Abracos, Otavio

Rodolfo Tramontina de Oliveira e Castro

Piracicaba - São Paulo - Mídia especializada
MilkPoint - postado em 18/04/2011

Excelente artigo Otávio.

sudenio

São Paulo - São Paulo - none
postado em 19/05/2011

Gerando Alexandre natal, entre em contato camarada, vc  sumiu. (turma do novissimo)

Elisa Esposito

Feira de Santana - Bahia - Pesquisador
postado em 09/09/2011

Ótimas informações! parábens pelo artigo!

Luiza

Marechal Cândido Rondon - Paraná - Estudante
postado em 02/12/2011

Boa noite Sr. Otavio,

Sou Tecnóloga em Alimentos, pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná, e recentemente comecei a trabalhar numa indústria de Concentrado de Soro de Leite.

Por isso gostaria de me aprofundar nesse conteúdo, principalmente na questão do WPC e do Permeado.



Parabéns pelo artigo, este assunto é muito interessante, e está crescendo cada vez mais a produção desses ingredientes.



Atenciosamente.

Luiza Siebeneichler.

Oralis

São Paulo - São Paulo - Pesquisa/ensino
postado em 19/10/2012

Boa tarde Otávio.

Estou precisando saber em cual industria se produze leite em pó de nata, outros conhecem como creme de leite em pó ,.

Atte

Oralis

Nicolas Machado Tebaldi

Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Pesquisa/ensino
postado em 05/12/2013

Muito bom artigo Otávio, não sabia que estamos aproveitando melhor a Proteína do soro do leite, achei q importássemos tudo. Me informaram que apenas 3 produtores mundiais forneciam a proteína do soro do leite para os fabricantes de Whey protein, tanto concentrado quanto isolado. Busco avidamente a fonte desses fornecedores mas nunca encontrei. Quem seriam esses fornecedores brasileiros de proteína isolada do soro do leite?

rayssa Souza

Jundiaí - São Paulo - Indústria de insumos para laticínios
postado em 20/12/2013

Boa tarde Otávio,

Estou a procura de fornecedores de soro de leite em pó parcialmente desmineralizado,

você possui alguns contatos??

Att,   

Fabiano Matter

Camboriú - Santa Catarina - Estudante
postado em 04/09/2015

boa tarde Otavio
tens dados da produção atual (2014/15) da produção de soro no Brasil e mundial, com a porcentagem de descarte desse produto e também do seu aproveitamento nas industrias brasileiras?
Ou se puderes me indicar site ou artigos onde eu possa obter essas informações?

obrigado

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